revista bula
POR EM 06/09/2009 ÀS 10:43 AM

Cora, mulher eterna

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Comemorações pelos 120 anos do nascimento da poeta Cora Coralina demonstram a força de seu legado literário

Cora Coralina

Os versos de Aninha — a das pedras — continuam ultrapassando as fronteiras da antiga Vila Boa. Em breve, ecoarão pela Estação da Luz, em São Paulo. A voz mais conhecida e festejada da poesia goiana (e um dos principais nomes da produção nacional) será tema de uma exposição no Museu da Língua Portuguesa, instalado na lendária estação metro-ferroviária da capital paulista. Cora Coralina é a quinta personalidade da literatura brasileira a receber a homenagem (antes, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Gilberto Freyre e Machado de Assis). Um espaço especial no segundo andar do museu estará reservado à obra da escritora.

A mesma Estação da Luz que recebeu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas no distante 1924 será palco para a consagrada obra da mais ilustre doceira e poeta de Goiás. O diretor do Museu da Língua Portuguesa, Antonio Carlos Sartini, afirma que comemorar os 120 anos de nascimento da poeta (20 de agosto de 1889) é uma forma de reconhecer sua trajetória heroica, por ser uma artista que surgiu fora dos grandes centros e alcançou grande destaque ainda em vida.

A exposição, patrocinada pelo governo de Goiás por meio da Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel), em parceria com a Associação Casa de Cora Coralina, será aberta no dia 28 de setembro e permanecerá no museu até o dia 13 de dezembro. O grande objetivo das exposições temáticas do Museu da Língua Portuguesa é criar o hábito de leitura, principalmente entre os estudantes. O museu recebe, diariamente, uma média de mil estudantes. Sartini reconhece que o número de leitores de poesia no Brasil ainda é pequeno, mas acredita que ações como as exposições promovidas no museu podem despertar o interesse do público.

Natural da antiga capital goiana, Cora Coralina viveu em cidades do interior paulista após o casamento com o advogado Cantídio Bretas, chegando à metrópole paulistana em meio a um período conturbado de conflitos de poder. Por quase cinquenta anos, ela permaneceu no estado de São Paulo, até retornar a Goiás aos 67 anos de idade, duas décadas após a morte do marido. O primeiro livro, intitulado “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, foi publicado quando a poeta já alcançava os 76 anos.

O poeta Carlos Drummond de Andrade é apontado como um dos responsáveis pelo reconhecimento literário de Cora Coralina. Foi o mineiro que avaliou a produção da goiana como “poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado”. A partir daí, a figura simultaneamente frágil e forte de Cora, exprimindo sabedoria e carinho por meio da voz firme e das palavras cuidadosamente escolhidas, tornou-se ícone da histórica cidade de Goiás. Seu lirismo singular e bem-vivido, pungente e nada comedido, transformou-se no hino da poesia goiana.

Assistir a entrevistas gravadas com a poeta na década de 1980 é um exercício de delicado prazer, por suas opiniões convictas e até mesmo polêmicas, ao tratar de sentimentos, do papel social do homem e da mulher ou de política. A Associação Casa de Cora Coralina mantém um bom acervo da poeta na internet. No site da associação (www.casadecoracoralina.com.br) é possível acessar biografia, curiosidades, vídeos, poemas e uma relação dos livros produzidos pela escritora. Além disso, o Museu Casa de Cora Coralina, mantido pela associação na casa da ponte onde viveu a escritora, às margens do Rio Vermelho, é uma das paradas obrigatórias dos turistas que visitam Vila Boa.

A presidente da associação, Marlene Gomes Vellasco, explica que um dos desafios é expandir o legado de Cora para além das fronteiras goianas. Por isso mesmo, a exposição que começa no fim do mês em São Paulo será levada, em 2010, para Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A associação também se volta para a realização de ações que aliam educação, cultura e turismo, como forma de conquistar e cultivar novos leitores para a poeta. A entidade não deixou o marco dos 120 anos do nascimento de Cora Coralina passar em branco. O Festival Cora Viva Coralina, realizado no final de agosto, foi pontuado pelo lançamento de estudos literários sobre a obra da escritora, pela declamação de seus poemas, por um espetáculo baseado em um conto de sua autoria e até mesmo por um circuito gastronômico com pratos inspirados em versos de Cora.

Fascinar todas as esferas da arte é um dos poderes da poeta vilaboense. Imortalizada por seus versos surgidos de uma aptidão natural para a poesia e marcada pela experiência de viver “nas asas impossíveis do sonho”, Cora Coralina foi festejada em outros setores da cultura. Na música, o maranhense Zeca Baleiro citou a goiana na canção “Meu Amor, Minha Flor, Minha Menina”: “Minha Cora, minha Coralina / Mais que um Goiás de amor carrego / destino de violeiro cego”. O cantor foi um dos destaques do Festival Cora Viva Coralina.

O impacto de Cora Coralina na cultura goiana perdura até hoje. A simplicidade de um poeta engrandece sua poesia, e nesse sentido, a poeta é a “abelha operária, mestra e silvina”, conforme versa o conterrâneo Marcos Caiado no poema “Sempreviva”. Para quem ainda não está convencido da importância de Aninha — a das pedras — na literatura brasileira, Antonio Carlos Sartini, o diretor do Museu da Língua Portuguesa, garante: “Penso que só uma coisa seria melhor que ler seus versos: ler seus versos comendo seus doces! Os versos eu devoro; os doces, infelizmente, não tive o prazer de provar”. Sorte a poesia — e não os doces — ser o melhor alimento para a alma.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Don´t call me nigger, whitey

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Marcinho VP não teve caixão metálico do brother Michael Jackson, teve latão de lixo do Complexo Penitenciário de Bangu. A estrela desceu

 Michael Jackson e  Marcinho VP (abaixo)

— E aí, negão, subindo agora?
— Não deu mais, brother...
— Senta aqui do lado. Olha só a baía de Botafogo.
— A gente vai demorar aqui? Podia passar logo.


Representação

Carlo Ginzburg escreveu um ensaio para investigar a noção de representação, um tema muito caro às ciências humanas em geral. Segundo ele, o termo era usado na época em que os corpos de soberanos mortos na França e na Inglaterra precisavam enfrentar longos funerais. Enterrava-se o cadáver, e um boneco de cera ou madeira, com a reprodução dos traços do monarca, era colocado para visitação nas cerimônias. O que se sepultava, por último e com todas as honras, era a representação do rei. Representar é ter um objeto no lugar de outro.

O velório de Michael Jackson teve muito de representação. No lugar do corpo à vista de todos e das câmeras de televisão, havia um caixão metálico, ao que parece, e encoberto de flores. Será que o corpo do cantor já havia sido enterrado? Ninguém viu nada, não tinha cadáver para ver e comprovar que ele realmente morreu. O palco, além do caixão, abrigou artistas, parentes, atores famosos, esportistas, todos ali ocupando seus papéis de celebridades, de pessoas públicas – essa a outra definição para o ato de representar, estar no lugar dos outros.

— Te lembra, negão, quando nos encontramos, aqui mesmo, no Dona Marta?
— Mais ou menos, brother.
— Pô, fevereiro de 1996... Gravação do clipe, teve o rolo para gravar aqui.
— Ah, eles ainda se importavam comigo.
 

Encontro inesperado

O cineasta Spike Lee bolou um clipe de Michael Jackson com filmagem no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Coisa de 13 anos atrás. Teve uma história de negociar com Marcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, que seria o representante do tráfico local e poderia liberar aquele trampo. Bandido pé-de-chinelo virou manchete de jornal e de televisão. Esse é o cara, o mais perigoso da cidade e que deixou a estrela mundial baixar na favela. Michael desceu e subiu de helicóptero, parecendo sequência de “Apocalipse Now”, com norte-americano invadindo país bárbaro.

Após a filmagem de “They don´t care about us”, Marcinho deu entrevista para o “Jornal do Brasil”, “O Dia” e “O Globo”. Lascou tudo. Como é que um mané daqueles, que nem peixe grande era, sai dando uma de bonitão? Sem noção demais. O jornalista Caco Barcellos sacou que era a “hora da estrela” e propôs o romance “Abusado, o dono do Morro Dona Marta”, lançado mais tarde em 2003. O livro diz esconder as identidades de pessoas, mas conta as histórias do tráfico carioca. Deu a maior bandeira. Vacilão, Marcinho parecia querer ser o dono de tudo.

— Você gosta de holofote, brother.
— Negão, que papo é esse? Gosto de pensar. Estratégia.
— Tu canta funk, conta a verdade aí.
— Nada rapaz. Negócio meu é ler.

O banqueiro e o traficante

Em 1998, o documentarista João Moreira Salles enfiou na cabeça que deveria subir um morro carioca e fazer “Notícias de Uma Guerra Particular”. Foi ,junto, Kátia Lund. Deu de cara com Marcinho VP. Perguntou se a vida dele era traficar. Que nada, disse o cara, negócio meu é estratégia, pensar a logística da coisa, imaginar outra vida para a comunidade. Foi tanto palavrório que o cineasta tirou do filme as duas horas de depoimento. Trechos vieram a público em 2003, quando o abusado morreu.  

Marcinho VP para João Moreira Salles: "Minha luta será sempre pelo povo (...) Eu queria fazer filosofia, ser professor. Aqui, para não ser morto, você tem de tomar uma atitude. (...). Não existe possibilidade do morro sem tráfico. Ou você é traficante ou escravo do capitalismo. O povo brasileiro é totalmente omisso, escravo. (...). Eu quero conscientizar o meu povo de que não pode continuar assim. Eles têm que brigar".

Filho de banqueiro e irmão de dono de uma grande editora, João jogou a isca. Marcinho poderia escrever um livro. Para isso, teria um adiantamento. Topou e fugiu da polícia. Foram mil dólares mensais, durante três meses.

A casa caiu no dia em que a polícia descobriu a mesada, lá pelo ano de 2000, e decidiu vazar a história para a imprensa. Joãozinho dava dinheiro pra traficante escrever livro? Conta outra. O jornal “O Globo” nem quis saber e chutou o balde. Deu um rolo danado. O coordenador de segurança pública caiu, o documentarista apareceu mal na foto. E o cara que negociou com Spike Lee a filmagem do clipe de Michael Jackson virou estrela de vez. Aqui, seguimos de perto o ensaio “Marcinho VP (um estudo sobre a construção do personagem)”, de João Camillo Penna, publicado no livro “Estéticas da Crueldade” (2004). 

— Conta aí, dá vontade de ser negão de novo?
— Brother, é tudo representação. Eu não sou mais eu, sou um outro.
— Também senti isso. Achavam que eu era o monstro, o fodão, e até me colocaram numa Comissão Parlamentar de Inquérito. Virei personagem
— Precisa de muito culhão para agüentar.

Crueldade

João Camillo Penna faz um inventário de como Marcinho VP vai da história do clipe de Michael Jackson à imagem de mega-traficante. Sobe na vida, fala muito, porém é destituído de voz, é editado. Vira objeto e nunca sujeito. O pior foi na época quando alguns acreditaram nas viagens do personagem Abusado. O traficante preso em 2003 ligou para o autor e pediu para ler a obra porque saíram umas coisas na imprensa e tinha neguinho puto da vida.

De tanto acharem que se tratava de bandidão, Marcinho foi em cana. A galera do presídio detestou a coisa do livro . Mario Amaro de Oliveira voltou a ser de carne e osso, pois os colegas presos decidiram matá-lo e colocá-lo na lixeira. Morreu como despojo do biopoder à brasileira. Não teve caixão metálico do brother Michael Jackson, teve latão de lixo do Complexo Penitenciário de Bangu. A estrela desceu. 

Vida nua

O poder penetra os corpos vistos apenas em seu aspecto biológico. Perdem o nexo político. O corpo de Marcinho VP precisava, na ótica da mídia e do governo, ser extirpado da sociedade para assim fazer a purificação. Eliminação é faxina social. Dito e feito: acabou na lata de lixo porque falou demais e não soube qual era o seu lugar. Onde se viu falar uma coisa dessas em CPI no Congresso Nacional: “Ele [João Moreira Salles] teve a oportunidade de ver que estava lidando com uma pessoa que é povo que nem ele. Porque o senhor [o deputado Robson Tuma] está dividindo as classes, a ideia dele não foi dividir classes, foi lidar com problema de ser humano pra ser humano. Por isso houve essa necessidade no coração dele”. 

A biopolítica invadiu o corpo de Michael Jackson por meio de próteses. O nariz afinou, a pele ficou branca. A mídia foi implacável: era a degeneração, pois não poderia ser coisa de gente normal. Porém, a mesma mídia estimula a insatisfação com o corpo e produz a montanha de programas com médicos que sugerem como ter um corpo melhor e bonito. É ela que espalha a onda do bodyfitness, para em seguida tratar como auto-mutilação. Michael Jackson virou representação do monstro. The star is dead.

Francisco Ortega: “A mídia se apropria com frequência do discurso médico da auto-mutilação e o dissemina na sociedade, apresentando-o como um problema social emocionalmente provocativo que faz surgir um sentimento que mistura medo, repugnância e horror nos leitores diante das descrições sensacionalistas de práticas de modificação corporal. Constitui-se um discurso moralista que compreende as práticas unicamente como regressões inumanas ou comportamentos de desvio”. 

— Agora, negão, é vida eterna.
— Nua e crua, brother.

 


 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 06:59 PM

Dançando no escuro

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A invencível ironia é que todos conhecem o pôster de Michael Jackson e ninguém o conheceu na intimidade mais escondida

Michael Jackson morreu na esteira da ressurreição. O menino pobre seguiu o ABC da cartilha americana, enriqueceu e enlouqueceu. Não conciliou – como tantos outros – o prazer doado às multidões com a realização pessoal. Debitou o caro preço da fama na conta da infâmia. Submeteu-se à dissecação de seu cadáver ainda respirando. Consagrou-se como um débil rufião abilolado.

A genialidade artística não foi suficiente para um ego monstruoso. Ele sentiu a necessidade de contribuir com o anedotário do grotesco. Suas atitudes, valorizadas por moralistas de todos os quilates, merecem análise acurada de um psicólogo dos bons. Agora, é muito fácil prantear o mito. Difícil é aceitar as inconsistências do homem encolhido atrás da cortina espessa.

A encarquilhada figura paterna virá à tona para assombrar, de novo, a infância do Michael serelepe e castrado da irmandade Jackson Five. Talvez, alguns se incomodem com a figura do astro maquiado como pai que reserva um legado preocupante aos filhos, numa espiral com noção de continuidade. As mães são, curiosamente, reflexos pálidos e distantes de uma saga repleta de confusões traumáticas.

A teoria mais leviana diz que Michael Jackson não desejava crescer. Seu destino anunciado era ser Peter Pan. Ele morou, durante muito tempo, na Terra do Nunca. Não chegou a imaginar que o autêntico Peter Pan sempre foi Steven Spielberg, até quando ele brinca de adulto sério e compenetrado? O problema, ou a chave do problema, é que Steven Spielberg dá vazão ao seu lado infantil no cinema.

Por que Michael Jackson não conseguiu fazer o mesmo através da música ou dos clipes que ajudou a transformar, não em uma picotada forma de arte, mas numa imensa possibilidade de comunicação imediata com fãs do mundo inteiro? Será que alguém não sabe quem foi Michael Jackson no cantão da Malásia ou nos confins do Azerbaijão?

Será que a máquina insidiosa de propagação de imagens forjadas para o sonho multifacetado foi responsável, de alguma forma, pela tritura do arcabouço que mantinha de pé uma personalidade fragilizada? A invencível ironia é que todos conhecem o pôster de Michael Jackson e, provavelmente, ninguém o conheceu na intimidade mais escondida.

E estamos a falar de Michael Jackson com nenhuma autoridade, exceto a de preencher espaço no papel e na tela do computador sobre um fantasma que ainda rodopia e faz rodopiar na TV, cujas músicas estão, mais do que nunca, circulando o planeta como doidas. Estamos a falar sobre o que ele representa.

O negro que empalideceu. O adulto atormentado por uma fixação púbere. O artista que pariu um híbrido original de soul, funk, rock, hip hop e baladas entorpecentes, que não ultrapassou a marca de seu maior troféu, Thriller, e se reinventou como terrível matéria-prima das piores badalações da imprensa faminta por escândalos sexuais.

Ávidos momentos que soube suprir com um vasto repertório de calamidades. Negar que Michael Jackson tenha capitalizado os elementos que o perseguiam com deslumbre e nefasto rancor seria, simplesmente, incorreto. Embalado desde cedo com o vigor dos holofotes, como poderia prosseguir na ausência deles? Sua morte iluminará sua vida?

Não tenho nenhuma dúvida sobre o lançamento precoce de biografias inúteis. A máquina da popularidade não admite estancar a produção de artefatos de culto messiânico. Mas a grandeza da existência é que ela não comporta respostas definitivas. Estamos, todos, fadados a ruminar nossas pérfidas, inocentes conjecturas, com ares doutos de fajuto sabe-tudo. Melhor comentar a excelência dos discos.

Thriller é um espanto! Uma insuperável coleção de hits. Porém, Off the Wall é seu embrião subestimado. Tivesse gravado apenas essa dobradinha brilhante, Michael Jackson teria material para ser festejado como ídolo pelos séculos afora. Don´t Stop ´Til You Get Enough, enorme sucesso de Off the Wall, do tempo em que Michael Jackson ainda posava de negão, anunciava o caminho que seria desbravado a seguir.

Mas nada, na produção do artista, supera Thriller, ordenado pelo maestro Quincy Jones. Este disco é uma fábrica de impossibilidades. A começar pela faixa título, com a narração improvável do ator classe B Vincent Price. E, sobre isso, estamos conversados. Não há o que acrescentar ao tema clipe dirigido por John Landis, referência até para comercial de refrigerante.

Wanna Be Startin´ Somethin´, que expande as dicas encontradas em Don´t Stop ´Til You Get Enough, abre o disco em altíssimo astral. The Girl is Mine (improvável dueto com Paul McCartney), Beat It (com a improvável participação do guitarrista Ed Van Halen), a indefectível Billie Jean (balanço contagiante e interpretação comovente, porque livre de arroubos), Human Nature e a plácida The Lady in My Life deixam claro que não se gravam mais discos como antigamente (1982).

Digamos que apenas Baby Be Mine e P.Y.T (Pretty Young Thing) não ganharam o mundo com a intensidade das demais. Isto é o que se chama um disco cheio, que transborda. Nenhuma faixa passa batido. Feito raro! Tanto que, sim, nem Michael Jackson conseguiu superá-lo.

Com Bad, Dangerous, Invincible, os clipes ficaram cada vez mais cheios de efeitos e megalomaníacos. As canções, aparatosas, não tinham mais a célebre febre que as deixavam inesquecíveis. Salvo uma ou outra, aqui e acolá. Black or White? Unbreakable? Man in the Mirror? Os fãs de carteirinha têm preferências idiossincráticas.

Acostumamo-nos, porém, a esperar de Michael Jackson gestos meramente tresloucados, como o casamento (com pinta de armação irredutível) com Lisa Presley. A filha do rei do rock casada com o rei do pop? O delírio e a fantasia ganhavam contornos perigosamente fortes e contrastantes.

E com o imenso poder de sua imagem em ponto de mutação, não seria insensato afirmar que Michael Jackson refugiou-se num planeta insólito, de onde era chamado a comparecer a Terra pelo martelo da justiça ou pela ação dos credores. Sempre fantasiado como um príncipe de contos fantásticos e permitindo a transparência de boatos.

A ressurreição de que fala o começo deste texto refere-se aos 50 shows (um por cada ano de vida) que faria na Inglaterra, este ano, a título de uma despedida que abonasse a suposta aposentadoria. Tudo devidamente registrado em alta definição para futuros lançamentos. O que livraria a cara do astro de uma falência ultrajante.

A morte imprevista afundou o barco de muitos investidores no cais da bolsa de valores. A lotação do retorno, afinal, estava esgotada com fulminante antecedência. O Michael Jackson resgatado da apatia melancólica voltaria a luzir. Na tempestade, o lucro vem do que sobrou. Poucos discos fulgurantes, inclusive da imberbe fase black power, serão explorados à exaustão. A escalada de malogros estupendos será colocada à sombra.

O falecimento de Michael Jackson não representa o encerramento de uma era. Depois de Madonna, outra ativa perfeccionista do improvável, quem sabe a internet pulverize, de uma vez por todas, o sistema de castas amparado no vácuo das estrelas. Não será sem tempo.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 06:16 PM

Tatu Do Bem Participações

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Em minhas pesquisas descobri que o tatupeba,  esse tatu-porcaria  que prolifera nos cerrados e  tem o hábito de comer os  defuntos nos cemitérios rurais,  apresenta um potencial econômico superior ao dos softwares do Bill Gates. Será o meu tatupebaware

 

Cada época tem seus gênios. A genialidade varia de natureza, conforme a época. Abraão e  Moisés são gênios primordiais  da civilização, com poderes extraordinários para ouvir  a orientação de Deus e  credibilidade para  retransmiti-la a seus seguidores. Davi e seu filho Salomão foram gênios da administração pública, com requintadas  soluções de  conflitos. Cristo foi o gênio da simplicidade prática:  Acabou o  vinho no casamento? Transforma-se água em vinho. Morreu a sogra de Pedro?  Ressuscita-se  a velha. Uri Geller é o gênio da inutilidade: entorta talheres ao friccioná-los. Com seu mau-olhar, minha avó secava pimenteira e zangava sabão no tacho. Aristóteles e Platão foram gênios da  Filosofia, Homero da Literatura, Heródoto da História.
 
Leonardo  Da Vinci foi um gênio multidisciplinar que transitou com a mesma destreza  da Pintura à   Cosmologia, passando pela  Astronáutica, Arquitetura, Engenharia,   Matemática, Esoterismo,  Literatura, Anatomia e o que mais você quiser .
 
Newton  ingressou na História  como um gênio do estalo. Ao cair-lhe  uma  maçã  na cabeça, ocorreu-lhe a complexa teoria da gravitação universal.  Sem estalo, ele desenvolveu também uma teoria sobre o efeito da circulação da moeda, tão importante para a Economia quanto a teoria da gravidade o é para a Física.  Einstein é o gênio da relatividade.  Freud  sondou  a alma humana  como ninguém. Thomaz Edson  inventou tanta tranqueira que  era impossível se lembrar de tudo.   Joyce foi  um gênio  literário que chega a fazer sombra sobre todos os escritores que vieram depois. Um gênio nativo da invenção foi Santos Dumont, com seu 14 BIS  decolante.
 
Ultimamente, a genialidade só é  percebida pelos feitos que tragam imediatamente lucros financeiros  extraordinários.  Os gênios da pós-modernidade  têm de ser  neo-Midas. Transformam  ar em ouro. São vários ao redor do mundo. Bill Gates é o ícone. Criou uma linguagem amigável para os computadores falarem entre si e com seus usuários. O que lhe deu o  título nobiliárquico de  “o mais rico do mundo”.
 
Nessa categoria de gênio pós-moderno, nós também temos os nossos. O bispo Macedo é o mais notável. Ele pegou pessoas que nenhuma religião queria, enjeitadas por Deus e diabo, inoculou-lhes  um contraste fervoroso e conseguiu  retirar  delas o sangue que nem elas  sabiam que tinham.  Montou em pouco tempo um império econômico com repercussões  sacro-políticas  de arrepiar os cabelos do Papa.
 
Descobri, um pouco tarde, que definitivamente não tenho talento para a Literatura. Pior, ainda que tivesse, de quase nada valeria. Por isso resolvi focar meus talentos, se é que os tenho, no ramo de atividade que agora  prestigia os seus ativistas com relevo. Resolvi utilizar em meu favor os conhecimentos de professor de Marketing e  montar um negócio com criatividade. 

Estou montando a Tatu Do Bem Participações. 
 
Em minhas pesquisas descobri que o tatupeba,  esse tatu-porcaria  que prolifera nos cerrados e  tem o hábito de comer os  defuntos nos cemitérios rurais,  apresenta um potencial econômico superior ao dos softwares do Bill Gates. Será o meu tatupebaware.  Veja só as vantagens. No espaço  de um boi,  cria-se quinhentos tatus, gastando metade da ração diária. Sem vacina, sem vermífugo, sem chip de rastreabilidade.  O boi, ainda que precoce,  leva 18  meses  para ficar em ponto de abate. O  tatu  está pronto com menos de  três meses.  Uma vaca gasta  nove meses de gestação para parir um bezerro, um  tatu fêmeo somente um mês e meio, e ainda pare até quatro, todos gêmeos univitelinos. A carne do boi  está a   20 dólares  a arroba, enquanto a do tatu está  a 290. Costuma-se  dizer que do boi não se perde nem o berro.  Mas do tatu  também  se aproveita até o fungado.  Da  madrepérola da carapaça de faz jóia. Da glândula fedentina se faz fixador de perfume. Dos ossos,  ração para  cães de rinha.  Das tripas, linha cirúrgica de alta eficiência. Da genitália se faz um prato afrodisíaco com resultados superiores aos do Viagra e sem efeito lateral. O couro do abdômen é o mais apropriado para o revestimento de vibradores do tipo rabbit, com massageador de clitóris.  Das unhas se faz amuletos para espantar urucubaca e a córnea é a única indicada para transplante em mineiros de carvão betuminoso de alta profundidade.  Para não  lhe aporrinhar com números,  posso lhe resumir  que o tatupeba é  setecentos e setenta e sete vezes mais rentável do que o boi de corte.
 
Você deve estar se perguntando: qual o mercado consumidor? A China, claro. O maior mercado e o que mais cresce no mundo. Lá , o tatu é uma das iguarias mais apreciadas.  Mais até do que baby-taturana. Só perde para o morcego do Vale da Morte. Tenho, inclusive, cartas de intenção de compra  para  um milhão de toneladas/ano, mais subprodutos.
 
A Tatu Do Bem Participações  já está  colocando à venda cédulas de produtor  com o nome comercial de quitemotive. A rentabilidade é mais vantajosa do que pegar dinheiro para contar à meia.  Durante sete anos, juntamente com nossos parceiros criadores e investidores, formaremos um sólido plantel. Neste meio prazo construiremos o abatedouro para 20 mil tatus/dia, quando o empreendimento atingirá a plena maturidade.
 
Você, investidor, não corre nenhum risco. Se por algum deslize a Tatu Do Bem  se enterrar financeiramente, você terá a opção garantida de levar seus  tatupebas para casa. 
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 08:22 PM

Herói Cubrado & Retumbante

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E o escudeiro Retumbante, quem será? Obviamente que outro não é, senão Fernando Collor, que em outras eras foi o algoz de Lula. O senador alagoano acaba de ser ressuscitado das trevas, do fundo de seu impeachment histórico, que representou a sua ré-tumbância. Fernando Collor acaba de se tornar o mais importante parceiro do Herói Cubrado Lula na condução do PAC

Engana-se quem pensa que o horroroso cacófato, encontrado logo no segundo verso do Hino Nacional Brasileiro,  seja apenas fruto da incúria de nossos  antigos compositores. A coisa é muito mais misteriosa do que inicialmente se parece. Na ausência de profetas bíblicos ou mesmo de um Nostradamus de plantão para abrir frestas  no futuro indevassável,  a peça cívico-musical  serviu de meio para a veiculação de secretos recados.   Algum presságio profético, perpetrado por providências enigmáticas, está inserido ali naquela abrupta trombada de letras. Não tenha dúvida.

Nosso hino é propositalmente escrito numa linguagem arrevesada, hermética, quase impossível de entender. Dá a impressão inicial de que se trata de uma peça de exaltação patriótica. Do tipo nóis é o bão. Nóis capota mais num breca. Nóis é nóis e o resto é nóis traveis.  Mas nas entrelinhas o hino dá notícias sinistras de um gigante pela própria natureza, ou seja, um mondrongo que não se adapta à vida prática e que tal mondrongo está deitado eternamente em berço esplêndido. Ou seja, sofre de algum tipo de preguiça de nascença ou distrofia congênita. Faz ainda relatos apocalípticos de armas  (clava), miséria(penhor), de lutas, cruzes  (cruzeiro) e morte.  E aquele salve! salve! do estribilho não deve ser tomado como viva! viva!, como até poderia parecer num primeiro instante. Talvez expresse mais um grito de desespero: help! help! Ou: Ô, cara! Acuda a gente, pô!

Agora o mais terrível mesmo é o tal do cacófato do segundo verso. Esse é de lascar o cano. Lança uma advertência fatal de que num momento tenebroso do futuro, pois o futuro é o cenário próprio das profecias, aparecerá uma dupla arrasa-quarteirão, tipo final dos tempos, para nos atribular de forma irremediável: Herói Cubrado & Retumbante.

E aqui não se trata de personagens satíricos que, numa técnica romanesca, nos alertam pelo contrário senso, que nos mostram como não devemos ser. Assim como Dom Quixote e Sancho Pança, de Cervantes. A profecia do Hino, como de resto toda profecia, é cabalística, fatal, manobrada por forças ocultas, que não retrocedem nunca. Você recebe aviso de que uma desgraça vai acontecer e qualquer esforço para evitá-la significa apenas mais um passo rumo ao buraco.

Sem a pretensão de retirar significados ultraprofundos, nem de realizar leituras acrósticas e transversais, como costumam fazer os exegetas da Bíblia e das Centúrias de Nostradamus, fiquemos com algumas considerações liminares dos dizeres apenas um pouco além dos sentidos textuais.

O binômio Herói Cubrado traz dois termos paradoxais entre si, mas que no fundo são complementares. Herói é o sujeito notabilizado pelos seus feitos grandiosos. Já cubrado requer um pouco mais de imaginação. Trata-se do particípio do verbo cubrar, que neste caso vira um adjetivo, um qualificativo do herói.  Mas que verbo é esse? Vamos devagar que profecia é coisa embaraçada.  Mas quem tiver ouvidos de ouvir, que ouça. Cubrar é uma variação espúria do verbo cobrir, derivada talvez do presente do seu subjuntivo: que eu cubra, que tu cubras,  que ele cubra etc. Daí, o verbo cubrar. Essa derivação não logrou alcançar os dicionários de hoje em dia. Uma desinência que ficou perdida, qual gene recessivo que de vez em quando emerge do fundo atávico  do idioma. Como o verbo ponhar, muito usado na região rural do Mato-Grosso, que pelo mesmo processo, veio do subjuntivo do verbo pôr.

Mas, com os devidos ajustes, herói cubrado seria então herói coberto, ou cobrido. 
Pelo sentido das entrelinhas, boa coisa não é. Coberto na linguagem de fazendeiros e peões significa que a rês fêmea já foi fecundada pelo macho. Em português claro, e obviamente chulo,  Herói Cubrado, quer dizer herói  coberto, ou fodido.  Ou seja, alguém que foi muito bem até certo ponto, mas depois desembestou-se.

E o escudeiro de tal herói, o Retumbante, o que significa? Numa linguagem de dicionário é aquele que reflete com estrondo, que estrondeia, que ecoa, que ribomba, que se vangloria ou se apresenta com arrogância.

Mas numa linguagem de profecia, o significado vai mais além.  É alguém que tendo alcançado posição de destaque, entra num processo de derrocada, de marcha à ré até capotar. Ré-tumbante é exatamente isso. O sujeito não só anda para trás (ré), como ainda tomba(ou tumba, num jeito nordestino de dizer).

O leitor medianamente perspicaz  já terá percebido que a profecia do Hino está em plena operação.

O presidente Lula se constitui no primeiro momento um herói. Retirante nordestino que consegue mobilizar trabalhadores, fundar um partido e chegar à Presidência da República, conduzindo os sonhos de uma nova ordem. Mas daí vem a fase do Cubrado: Aerolula, mensalão, Zé Dirceu, Marcos Valério,  dinheiro na cueca  do assessor e na conta do filho, os aloprados,  apagão aéreo, apóio a Renan, diplomacia pífia, fome zero, parceria com Chavez, o inchaço do estado, a marolinha, o PAC de Dilma, a apologia da ignorância, os impostos escalpelantes, um horror.

E o escudeiro Retumbante, quem será? Obviamente que outro não é, senão Fernando Collor, que em outras eras foi o algoz de Lula. O senador alagoano acaba de ser ressuscitado das trevas, do fundo de seu impeachment histórico, que representou a sua ré-tumbância. Fernando Collor acaba de se tornar o mais importante parceiro do Herói Cubrado Lula na condução do PAC, a maior tramóia de todos os tempos para um projeto de conquista e/ou manutenção de poder. Leia-se: a eleição de Dilma Rousseff!

Portanto, os enviados de mundos sinistros Herói Cubrado & Retumbante, premonizados pela face profética do Hino, já estão revelados e operando as mazelas de que foram incumbidos. Estão aí para aviar as mais terríveis profecias da pós-modernidade brasileira. E aonde isso vai dar? Quem sobreviver verá.  Salve! Salve!
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:33 PM

Llosa diz que Onetti inventou a literatura moderna espanhola

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O mundo literário de Onetti "nos entristece, nos desmoraliza. Porém, ao mesmo tempo, há tanto talento que é possível pensar que o mundo não deve ser tão mal nem a negatividade tão profunda, quando se dedica a escrever e o faz com tanta excelência"
 

 
Espécie de John Udpike do Peru, pelo menos em termos de quantidade de livros publicados, Mario Vargas Llosa lança novo livro, “El Viaje a la Ficción”, um estudo da literatura do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994).
 
Em entrevista à revista “Ñ”, do jornal argentino “Clarín”, no sábado, 7, Llosa, um crítico literário de primeira — tão bom quanto o prosador (que, estranha e desonestamente, tem sido criticado por conta de suas posições políticas) —, diz que Onetti “foi um contista extraordinário. Pelo menos meia dúzia de contos de Onetti são verdadeiras obras-primas”.
 
Onetti, segundo Llosa, “é um dos primeiros, senão o primeiro escritor de língua espanhola, a fazer uma literatura absolutamente moderna, uma narrativa moderna (...). Onetti inventa uma prosa a partir de uma linguagem oral, uma prosa que simula a oralidade. E isso desde seu primeiro romance”. Depois de Onetti, cita o crítico, está Borges, “um escritor absolutamente universal”.
 
Joyce, Céline e Faulkner influenciaram Onetti, rastreia Llosa, que realça, porém, sua autonomia. “Me impressiona muito o mundo tão pessoal de Onetti; ele cria um mundo de uma grande autenticidade.” O autor uruguaio era pessimista em relação à condição humana.
 
Na versão de Llosa, “Onetti era um desses escritores em que a imaginação nasce da autobiografia. Eu acredito que ele inventava, fantasiava, a partir de sua experiência de vida. (...) Era um homem muito inteligente, muito culto. Por outro lado, era um homem muito desvalido. Onetti era uma pessoa, digamos, muito mal preparada para isso que chamam de luta pela sobrevivência. Era um homem que não fazia concessões”.
 
A obra de Onetti, explica Llosa, “tem uma autenticidade que é bastante infrequente. Nele não havia nada empostado”.
 
Entre seus melhores contos, Llosa cita “Um sonho realizado”, “As feras” e “O inferno tão temido”. “Las Fieras” e “El Infierno tan Temido” contêm “extremos de crueldade e de maldade que”, se apresentadas “com menos talento literário, seriam simplesmente inverossímeis”.
 
O entrevistador diz, com acerto, que na literatura de Onetti há uma galeria de derrotados e Llosa responde muito bem: “O interessante, no caso de Onetti, é que esses derrotados ao final escapam por intermédio da ficção. Todos vivem experiências de derrota efetivamente radical no mundo tal como é. A alguns isso leva ao suicídio — há uma grande quantidade de personagens suicidas em Onetti —, mas os que não se suicidam escapam pela fantasia. Inventam mundos puramente imaginários nos quais se refugiam e podem sobreviver. Acredito que essa é a origem da ficção; creio que nós começamos a inventar porque o mundo não nos resultava suficiente (...). Ao final encontramos essa fórmula, que era inventar outros mundos para viver a ilusão do relato, do relato oral a princípio, e depois, o relato escrito, ou filmado. Me parece que uma das originalidades de Onetti consiste em que praticamente toda a obra dele mostra este processo, em distintos indivíduos, homens, mulheres, que depois de viver experiências atrozes de frustração, de derrota, escapam por meio da fantasia”.
 
O mundo literário de Onetti "nos entristece, nos desmoraliza. Porém, ao mesmo tempo, há tanto talento que é possível pensar que o mundo não deve ser tão mal nem a negatividade tão profunda, quando se dedica a escrever e o faz com tanta excelência".
 
O entrevistador diz que as influências do francês Céline e do americano Faulkner "são facilmente identificáveis" na prosa de Onetti e quer saber sobre as conexões com James Joyce. Llosa, que parece ter resposta para tudo, anota: "O mundo de Joyce é de uma conexão total entre conteúdo e forma; uma forma criada absolutamente para expressar esse mundo complexo, diverso, fragmentado, totalizante, donde o exterior, o interior, as condutas, as motivações, os atos e os sonhos se mesclam em uma grande totalidade. Pois eu acredito que é o que faz Onetti dentro de sua própria, digamos, realidade. Há textos de Onetti no quais é muito difícil saber se o que está narrando ou o que estamos lendo está ocorrendo, ou está simplesmente sendo fantasiado pelos personagens. Em muitos casos, as fronteiras se eclipsaram. Essa lição vem claramente de Joyce. Joyce é o primeiro que fez isso".
 
Depois de ler Onetti, qual o consolo que nos resta, quer saber o entrevistador de o "Clárin". A resposta esperta de Llosa: "Nos resta o consolo da ficção. A obra de Onetti parece destinada a ilustrar como, por intermédio da ficção, nós seres humanos não somente nos recompensamos de tudo aquilo que nos faz sofrer ou nos desmoraliza na vida, mas também, ao mesmo tempo, vivemos mais, enriquecemos nossa experiência, amamos, vivemos aventuras extraordinárias. A função da ficção não é somente compensatória, é também enriquecedora da experiência".
 
O entrevistador observa que há um certo desencontro entre Onetti e os leitores, ou seja, não se trata de um autor popular. "Mas estou seguro que a obra de Onetti vai permanecer." Entre os escritores contemporâneos, Llosa diz que Onetti é um dos poucos que "vai sobreviver à terrível prova do tempo".
 
Llosa diz que tem vontade de escrever sobre Faulkner e Conrad.

 

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POR EM 02/02/2009 ÀS 05:35 PM

Vaidade e imortalidade matam. Leituras também

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Tratando-se de ficção, em todas as temáticas as solucionáticas não chegam nem aos pés das que o Dadá Maravilha apresentou no futebol. Ignoramos tudo a respeito de determinados assuntos — tempo, medo, solidão, vida, morte —, contudo não hesitamos em continuar poluindo as mentes e a Terra com montanhas e mais montanhas de volumes sobre eles

Vem aí um livro, bom até dizer chega, de arrebentar mesmo, posto que destinado a desfazer mitos e pulverizar ilusões. E com tiragens enormes e traduções simultâneas para mais de três dezenas de países, incluindo o Brasil — desde, claro, que tudo transcorra conforme o combinado, aliás de modo mais ou menos sigiloso, entre os maiores editores do mundo, na última Feira de Frankfurt. Pelo que o autor, o franco-haitiano Pierre Bélier, adiantou acerca desta obra em conclusão, em recente entrevista a uma revista francesa, talvez até pudesse ser o único livro digno de leitura — e, principalmente, de reflexão — não apenas durante o período de férias, seu Zé, mas no decurso de todo o 2009, já festivamente caluniado de Ano-Novo. Após exibir no alto da página uma linha solta dizendo “Quand l´homme trahit son véritable Être” (Quando o homem trai seu verdadeiro Ser), a entrevista do grande Bélier se abre como uma linda flor, cor rosa-choque, letras enormes, sesquipedais, com as corolas tomando a forma do seguinte título, igualmente chocante: VANITÉ ET “IMMORTALITÉ” TUENT. Tradução óbvia: VAIDADE E “IMORTALIDADE” MATAM. A seguir, aparece um “olho” (olho, em jornalismo, eu acredito que madame sabe o que seja) terrível, sinistro, esbugalhado, a dardejar esta advertência ao leitor: “La souffrance inexprimable de cette maladie est responsable d´un nombre de décès supérieur à celui que provoque le SIDA”. Calma, amigo monoglota, que já vou traduzir, e de forma bem simples: “O sofrimento inexprimível desta doença é responsável por um número de óbitos superior ao da Aids”.

Pierre Bélier, com efeito, parece coberto de razão quando, ao abordar sumariamente a etiologia da perversa enfermidade, afirma tratar-se de uma doença mental — como de resto todas as existentes ou por existir —, com um porém: ela se somatiza, isto é, atinge as funções orgânicas (o boneco do corpo) de forma espantosamente avassaladora e rápida, às vezes instantânea. Nenhuma partícula da anatomia humana permanece imune à sua infiltração, suspeitando-se que o seu poder de destruição e metástase tenha dado origem às mais variadas formas de câncer — e não somente de câncer — já diagnosticadas ou por diagnosticar no mundo. Conquanto se acredite que a causa da qual deriva seja única, no campo da sintomatologia, e em outros campos e cidades também, o diabo desta enfermidade abrange tudo de ruim que grassa na humanidade: dor, medo, angústia, revolta, ansiedade, cólera, orgulho, frustração, delírio, mania de grandeza, desejos insatisfeitos, inveja, crueldade, cupidez, ciúme, culpa, sofrimento, etc. etc. etc., tudo isso redundando numa palavra da qual não compreendemos bulhufas mas que, impotentes, desolados, rejeitamos de bate-pronto — morte. Segundo Monsieur Pierre Bélier, não passamos de mortos-vivos e nossas invenções — incluindo as aparentemente boas, como, p.ex., a imprensa, a automação, as artes, a literatura, as religiões etc. e tal — de há muito se encontram pervertidas, deformadas, devido à promiscuidade e ao mau uso que fizemos delas, transformando-as em drogas, variantes de fuga e outros malefícios que ajudam a intensificar e disseminar a grande doença humana supracitada, cujo grupo de risco principal seriam os intelectuais, os enfermos mais perigosos ou de difícil recuperação na Terra. Entre eles, os escritores, que, dotados das mentes mais barulhentas e confusas do orbe convertido em hospício, tudo confundem e a todos buscam confundir, trocando as bolas, as belas e as balas. Escritores não se conhecem, ignoram até mesmo o mínimo de suas próprias pessoas, mas querem desvendar os outros, repetindo, sem tirar nem pôr, a mesma velha história ou “estória” que escreveram e vivem reescrevendo desde o início dos tempos. Das mais chinfrins, tal “estória”, conforme gostava de grafar o Sr. Guimarães Flor, autor do “Grande Sansão do Campo: Varedas” (o nome do autor inclui Rosa e o título do livro é outro, porém tive que despistar, de medo que alguma parenta dele queira me pegar num processo e me pinchar na cadeia, conforme me disseram que estão fazendo com o meu amigo Alaor Barbosa. Deus me livre e guarde!).

Bélier e Bovary: ler o quê? — De acordo com Bélier, intelectuais (literatos, cineastas, pensadores e os mais tipos da mesma laia) desconhecem completamente, p. ex., o significado da palavra amor — que em geral confundem com prazer (sexual ou não), acasalamento, orgasmo, “paixão”, relações de troca, jogo de poder, controle, bajulação, posse, culpa, ciúme, adultério, “ménage à trois”, suruba e cornelaria medelin, coisas que freqüentemente desandam em impropérios, brigas medonhas, tiros ou facadas no peito, quando não em suicídio. Não sabem nada a respeito mas compõem e nos impingem histórias de “amor” (de amor que não é amor, e nem sequer o oposto de si mesmo, já que amor não comporta oposição). E à parte mudancinhas bobas no jeito de contar, envolvendo a técnica, o “estilo”, o ornamental, a forma (forma entra no que, com perdão da palavra, se chama de “criação”, mas não representa pissirica alguma de essencial), o que sobra? Um conteúdo de ovo podre, repetido à exaustão. Sobram “estórias” que desde sempre se resumem, todas, na mesma “estória”, sempre contrária ao Amor. Engraçado é que nelas o corno nunca é o autor, mas sempre o outro, tal qual o inferno de Sartre. Bélier pergunta: “Bovary é um romance de amor? Não”. E como que reproduzindo uma brincadeira de internet, resume o calhamaço de Flaubert: “Uma dona de casa mete o chifre no marido. Transa adoidado. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Fim.” Repetindo: o que isso tem a ver com amor? Nada. O homem usa a mesma galhofa da net com “Romeu e Julieta”, de Shakespeare: “Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proibem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga feia, muita gente se machuca. Então, um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de ingerir veneno, que era sonífero. Fim.” Neca de amor. “Romeu e Julieta” não contém um pingo de amor — é puro ódio.

E assim por diante. Tratando-se de ficção, em todas as temáticas as solucionáticas não chegam nem aos pés das que o Dadá Maravilha apresentou no futebol. Ignoramos tudo a respeito de determinados assuntos — tempo, medo, solidão, vida, morte —, contudo não hesitamos em continuar poluindo as mentes e a Terra com montanhas e mais montanhas de volumes sobre eles.

Com o espaço no fim, vejam agora um “pot-pourri” de coisas incômodas que o franco-haitiano (mora em Paris) destaca com clareza:

1. Literatura é retórica. Tudo no mundo virou retórica. Até mesmo o corpo. Pela própria definição, sendo a “arte” de persuadir, a retórica só tem um objetivo, uma única função: manipular, dominar, escravizar, submeter as outras pessoas. E, vergonha das vergonhas: ainda há gente no mundo pretendendo ser “formador de opinião”.

2. A palavra designa a coisa, mas não é a coisa designada. É preciso dessacralizar a palavra, hoje a serviço do embuste, do infortúnio, do medo e da morte. Nem se pode dizer que ela é uma faca de dois legumes, visto que ceifa mais vidas que todas as bombas que Bush atirou no Iraque.

3. “Apesar de tudo, é possível introduzir conteúdos novos na literatura?” — pergunta Monsieur Pierre. "Sim. Numa pequeníssima mas ainda assim significativa escala, sim", ele responde. E promete provar o que afirma na prática, com dois ou três romances. Mas, antes deles, teremos o VAIDADE E “IMORTALIDADE” MATAM. A “imortalidade” a que Bélier se refere naturalmente se prende à papagaiada de se querer transformar o transitório, o impermanente, em eterno. O restante fica fácil de matar.

Eu acredito no grande escritor franco-haitiano. Daí por que vou deixar para completar a lista de leituras de férias depois — quem sabe, nos idos de março. Até lá.

 


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POR EM 26/01/2009 ÀS 07:36 PM

A história é uma espiral

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As crianças assassinadas em Gaza, as crianças carbonizadas em Gaza não incomodarão mais ninguém. O mundo está a salvo delas. Que bom, o mundo, agora, está mais seguro, porque se livrou das crianças de Gaza

 

Que mundo é este que assiste impassível ao massacre de crianças na Faixa de Gaza? O que foi feito do ser humano, esse animal pensante que se delicia com o voyerismo imbecil da TV, empanturra-se de cerveja e churrasco como um primitivo homem das cavernas? O que podemos esperar da geração internet, esse bando de jovens perdidos nas ondas da navegação online, presos a um mundo virtual e sem sentido, sem riscos, sem vida? Onde foi parar nossa porção de humanidade, nossa mais delicada solidariedade, a mão estendida, o pedido de desculpas, restos de um mundo que já inexiste porque tem pressa, muita pressa, apesar de não ter rumo. Perdemos a capacidade de nos indignar, os noticiários transmitem números, números de mortos, números sem face, sem nome, numa macabra contabilidade que invade sem pudor nossa sala, mas não nos tira o sono. As crianças assassinadas em Gaza entrarão para os livros de História como estatísticas de uma guerra covarde. Quem vai se lembrar das crianças assassinadas em Gaza? Não farão falta a ninguém, a não ser a seus pais e amigos, não eram consumidoras num shopping luxuoso, estavam na escola, estavam em suas casas, estavam na rua, não estavam consumindo: esse o seu crime. E nós, do fundo de nosso macio e confortável sofá, mudamos de canal, muito indigestas as cenas de crianças com pernas e braços amputados, rostos cheios de estilhaços, lágrimas nos olhos. O que faziam elas que não passeavam com segurança num luxuoso shopping center? As crianças assassinadas em Gaza, as crianças carbonizadas em Gaza não incomodarão mais ninguém. O mundo está a salvo delas. Que bom, o mundo, agora, está mais seguro, porque se livrou das crianças de Gaza. Os jovens internautas consumidores podem passear tranqüilos pelos shoppings, seus respeitáveis pais podem continuar a assar a carne e servir os amigos nos finais de semana, a bolsa de valores não mais sofrerá as terríveis e temíveis perdas, o dólar continuará sendo, graças a deus, a moeda forte que move e embala os sonhos do planeta, o mercado mundial de automóveis enfim vai se recuperar e esvaziar os pátios das montadoras, não há mais perigo porque a maldita raça humana assassinou as crianças de Gaza.

 


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POR EM 21/11/2008 ÀS 11:02 PM

Encontros com Daniel Dennett e Woody Allen

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Daniel Den­nett nem pa­re­ce que é mun­di­al­men­te fa­mo­so nas áre­as da Fi­lo­so­fia da Men­te, da Ci­ên­cia e das Neu­ro­ci­ên­cias. É sim­ples, cor­dial e edu­ca­do. Já com Wo­ody Al­len só con­se­gui di­zer: “Es­tou es­cre­ven­do um li­vro so­bre vo­cê”, ao que ele re­tru­cou, qua­se sem me olhar: “Que se­ja ver­da­dei­ro” 
 

 Da­ni­el Den­nett

Nem pa­re­ce que é mun­di­al­men­te fa­mo­so nas áre­as da Fi­lo­so­fia da Men­te, da Ci­ên­cia e das Neu­ro­ci­ên­cias. É sim­ples, cor­dial, edu­ca­dís­si­mo e sem­pre pre­o­cu­pa­do com seus "sa­té­li­tes" (eu, en­tre os mui­tos que or­bi­tam em sua vol­ta). Con­vi­da­va-me pa­ra al­mo­çar na ca­fe­te­ria da uni­ver­si­da­de (úni­ca oca­si­ão em que eu co­mia sa­la­da) com fre­qüên­cia, sem­pre que­ren­do se in­tei­rar de meu pro­gres­so. Saí da­li com óti­ma im­pres­são.

É um ma­te­ri­a­lis­ta-ateu-evo­lu­cio­nis­ta con­vic­to. De dar gos­to. Sua te­o­ria da con­sci­ên­cia, que se va­le o tem­po to­do de ex­pe­ri­men­tos em neu­ro­fi­si­o­lo­gia vi­su­al (daí mi­nha es­co­lha), aca­ba se en­tre­la­çan­do com sua te­o­ria evo­lu­cio­nis­ta das re­li­gi­ões e seu darwi­nis­mo xi­i­ta (quan­do xi­i­ta era si­nô­ni­mo de ra­di­cal). Opor­tu­na­men­te fa­la­rei aqui a res­pei­to, mais apro­fun­da­da­men­te.

Bos­ton

Sou um apai­xo­na­do pe­la ci­da­de. Mo­rei ali quan­do fiz meu dou­to­ra­do-san­du­í­che (não é dou­to­ro­da­do "em" san­du­í­che, an­tes que al­guém fa­ça a pia­di­nha, mas, sim, um ti­po de bol­sa do CNPq) em 1994—95 e de­ci­di que, se vol­tas­se, sem­pre que o fi­zes­se, se­ria du­ran­te o ou­to­no, quan­do to­da a re­gi­ão da No­va In­gla­ter­ra fi­ca lin­da com ár­vo­res in­do do ama­re­lo ao ver­me­lho, pas­san­do por di­fe­ren­tes tons de la­ran­ja. Além do tem­po que é agra­dá­vel ("agra­dá­vel" em Bos­ton é al­go en­tre 15 e 20°C). O in­ver­no é ge­la­do de­mais, a pri­ma­ve­ra ain­da é fria e o ve­rão, por in­crí­vel que pa­re­ça, é quen­te de­mais.

Pe­lo vis­to, não sou o úni­co apai­xo­na­do pe­la ci­da­de. Há 14 anos ha­via uma co­lô­nia de bra­si­lei­ros se for­man­do em Mas­sa­chu­setts. Ho­je tem bra­si­lei­ro que não aca­ba mais. Co­mo bra­si­lei­ro é meio co­mo ame­ri­ca­no, ou se­ja, nem sem­pre tem "ca­ra de bra­si­lei­ro", po­de acon­te­cer de vo­cê con­ver­sar bem uns 5 ou 10 mi­nu­tos an­tes de per­ce­ber que es­ta­vam, vo­cê e seu in­ter­lo­cu­tor, va­len­do-se de sua se­gun­da lín­gua. Bi­zar­ro. (Ou­tra ca­rac­te­rís­ti­ca de bra­si­lei­ro é o so­ta­que in­de­fi­ni­do. Um ori­en­tal ou his­pâ­ni­co fa­lan­do in­glês vo­cê re­co­nhe­ce ime­di­a­ta­men­te, de olhos fe­cha­dos, mas, bra­si­lei­ros, nem sem­pre).

Bos­ton Symphony Or­ches­tra

Alu­guei um apar­ta­men­to na Mass Ave., ao la­do do Bos­ton Symphony. Mas não deu pra fi­car in­do em tan­ta coi­sa as­sim. Fui à Sex­ta do Mahler (que nun­ca ti­nha ou­vi­do), con­du­zi­da por nin­guém me­nos que Ja­mes Le­vi­ne (ex-Me­tro­po­li­tan de No­va York) e a uma apre­sen­ta­ção do trio do Keith Jar­ret (ele, Gary Pe­a­cock e Jack De­Johnet­te). Em­bo­ra eu se­ja um ado­ra­dor de am­bos (Mahler e Jar­ret), o se­gun­do su­pe­rou o pri­mei­ro em mui­to. Não sei se é por­que to­da vez que ou­ço uma sin­fo­nia do Mahler eu ten­do a com­pa­rar com a ter­cei­ra, que é di­vi­na, e a ou­tra aca­ba per­den­do for­ça, ou se é por­que o Jar­ret é mes­mo sen­sa­ci­o­nal. Con­ce­deu vá­rios bi­ses (é as­sim mes­mo?), pra de­ses­pe­ro de mi­nhas fi­lhas (uma de 9 e ou­tra de 5, co­mo não ti­nha com quem dei­xá-las, acom­pa­nha­vam-nos, a mim e a mi­nha es­po­sa, em tu­do. En­gra­ça­do, que de mi­nhas es­qui­si­ti­ces, elas só não gos­tam de jazz. Até ópe­ra elas su­por­tam).

Bro­adway

Em com­pen­sa­ção, lá fo­mos nós ver “Pe­que­na Se­reia” e “Rei Le­ão” na Bro­adway de No­va York (di­go "de No­va York" por que há os shows que vi­a­jam — vi­mos “Cho­rus Li­ne” em Bos­ton, por exem­plo). Em­bo­ra se­jam in­fan­tis, são mui­to ri­cos e dá pra um adul­to gos­tar. Par­ti­cu­lar­men­te o “Rei le­ão”. Es­se é im­pres­sio­nan­te, ri­quís­si­mo. Re­co­men­do, se al­guém es­ti­ver com pla­nos de vi­si­tar a ci­da­de.

Wo­ody Al­len no Carlyle

De to­da a ban­da, Wo­ody é o que to­ca pi­or. O ca­ra do ban­jo é fe­no­me­nal. Mas... quem se im­por­ta? Es­tá to­do mun­do ali pra ver Wo­ody (se em vez de to­car ele plan­tas­se ba­na­nei­ra da­ria na mes­ma). Jazz de New Or­le­ans (Di­xi­e­land Jazz) é meio que nem o nos­so cho­ri­nho. Bo­ni­to, de gran­de va­lor his­tó­ri­co, mas se exau­riu. Wo­ody pas­sa o tem­po olhan­do pro chão, quan­do não es­tá to­can­do, ou de olhos fe­cha­dos, quan­do to­ca. De vez em quan­do olha pro ca­ra do ban­jo pa­ra con­ver­sar. Só olhou pra pla­téia du­as ve­zes, as du­as na di­re­ção de mi­nhas fi­lhas, que eram bi­chos es­tra­nhos por ali (es­tá­va­mos sen­ta­dos na tur­ma do gar­ga­re­jo, a me­nos de 1 me­tro de dis­tân­cia de­le). O lu­gar é bem pe­que­no, en­ten­di por­que as re­ser­vas são res­tri­tas. A me­lhor coi­sa do mun­do foi che­gar lá e pas­sar na fren­te de uma fi­la de ar­gen­ti­nos que não ti­nha fei­to re­ser­va e pe­dia pe­la­mor­de­deus pro mai­tre dei­xá-los en­trar. Fiz a mi­nha com mes­es de an­te­ce­dên­cia. No dia do show, pas­sei nu­ma li­vra­ria de pe­ças de te­a­tro, com­prei umas pe­ças de­le pra au­to­gra­far. Com­prei tam­bém “No­vem­ber”, do Da­vid Ma­met, mas não le­vei. Pois quem es­ta­va lá na­que­la noi­te? Ele mes­mo, o Da­vid Ma­met, que deu uma can­ja no pi­a­no.

Con­tei pro mai­tre que es­ta­va es­cre­ven­do um li­vro so­bre Wo­ody, e pe­di sua aju­da pa­ra ver se ele au­to­gra­fa­va o li­vro (não meu, mas o de­le). O mai­tre pro­me­teu me aju­dar. E aju­dou mes­mo. Só que aju­dou mais um bo­ca­do de gen­te. Aca­ba­do o show, pos­tei-me on­de o mai­tre me in­di­cou, mas, as­sim co­mo eu, mais uma dú­zia de pes­soa. Quan­do Wo­ody des­ceu deu de ca­ra co­mi­go e já sa­cou a ca­ne­ta pa­ra au­to­gra­far os li­vros (to­do mun­do te­ve a mes­ma idéia bri­lhan­te que eu). En­quan­to ele au­to­gra­fa­va e mi­nha es­po­sa se es­for­ça­va por ba­ter uma fo­to de­cen­te (ne­nhu­ma!), só con­se­gui di­zer: "Es­tou es­cre­ven­do um li­vro so­bre vo­cê", ao que ele re­tru­cou, qua­se sem me olhar: "Que se­ja ver­da­dei­ro". Quan­do eu ia ex­pli­car que não era bi­o­gra­fia, que era so­bre a fi­lo­so­fia de­le, um ban­do de mu­lhe­res co­me­çou a bei­já-lo na bo­che­cha e gri­tar "We lo­ve you Wo­ody", e... Pron­to. Em me­nos de 30 se­gun­dos ela já ia em­bo­ra.

En­fim, é uma ex­pe­ri­ên­cia da qual so­men­te fãs bo­bo­cas de Wo­ody (co­mo eu con­ti­nuo sen­do) são ca­pa­zes de gos­tar. Se qui­ser ou­vir jazz de New Or­le­ans vá a ou­tro lu­gar mai­or e mais ba­ra­to. Se qui­ser jan­tar bem, lá não é o lu­gar (foi o pei­xe mais in­sos­so de to­da mi­nha vi­da). Ar­re­pen­di­do? De jei­to ne­nhum. Sou fã bo­bo­ca, se es­que­ce­ram?

Bos­ton Bal­let

Fo­mos ver “Cin­de­rel­la”, do Proko­fi­ev. Con­fes­so que te­nho um cer­to blo­queio com Proko­fi­ev des­de que as­sis­ti “Lo­ve and De­ath”, do Wo­ody (que usa Proko­fi­ev o tem­po to­do). Nun­ca mais con­se­gui le­vá-lo a sé­rio (mes­mo não ten­do “Cin­de­rel­la” for­ne­ci­do qual­quer mú­si­ca ao “Lo­ve and De­ath”). Ain­da as­sim, bo­ni­to, ri­co. Na fal­ta de ópe­ra, vai bal­let mes­mo (não con­se­gui fla­grar ne­nhu­ma ópe­ra en­quan­to es­ti­ve lá).

Me­tro­po­li­tan ou Fi­ne Arts

Sou sus­pei­to, mas pre­fi­ro o Fi­ne Arts de Bos­ton do que o Me­tro­po­li­tan de No­va York. A ga­le­ria com os im­pres­sio­nis­tas do Fi­ne Arts é de fa­zer per­der a res­pi­ra­ção. Mas sou sus­pei­to.

Li­vros

A li­vra­ria da Har­vard Co­op, na Cam­brid­ge Squa­re, em Cam­brid­ge, é um ver­da­dei­ro pra­zer se­xu­al. Com­prei um mon­te, mas a mai­o­ria a res­pei­to do te­ma de mi­nha pes­qui­sa, não ca­be dis­cu­tir aqui. Mas com­prei al­gu­mas pe­ças que pre­ten­do dis­cu­tir aqui sim, opor­tu­na­men­te (“Equ­us”, “The Tri­al of God”, “No­vem­ber”, etc, ain­da con­ver­sa­re­mos a res­pei­to opor­tu­na­men­te). Tam­bém uns fil­mes da BBC Films, de pe­ças do Ib­sen, Tchekhov e Becket, que eu na­mo­ra­va há mui­to tem­po na Ama­zon e que ago­ra to­mei co­ra­gem pra com­prar (quan­do se im­por­ta DVDs é uma apor­ri­nha­ção, pois vo­cê tem de bus­car no cor­reio pra pa­gar o im­pos­to, e a Re­cei­ta Fe­de­ral, es­per­ta­men­te, con­si­de­ra o to­tal do re­ci­bo, e não o va­lor do bem. Por exem­plo: se vo­cê com­pra uma cai­xa de DVDs por 50 dó­la­res e pa­ga 20 dó­la­res de cor­reio, a Re­cei­ta te co­bra o im­pos­to dos 70, e não dos 50).


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POR EM 10/11/2008 ÀS 10:23 PM

Se não mata aleija

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Deve ser insuportável pra eles que a revista cresça e apareça e eu os entendo perfeitamente, coitados. É sempre mais fácil passar a mão na cabeça de fracassados do que cumprimentar e solidarizar-se com vencedores. Dói menos nos invejosos


A natureza humana parece que não muda nunca, é absolutamente previsível e observá-la é sempre um grande exercício. Sabe-se que, infelizmente, nem tudo no bicho homem são sentimentos de grandeza, convivemos com os pequenos homens e os muitos conteúdos mesquinhos que vão armazenando nos corações vida afora.

De todos eles o pior é a inveja, um dos sete pecados capitais para os católicos e o mais maléfico para quem o carrega na cabeça e no coração, ensina a psicologia.

Surgiu no mundo através de Caim, enfurecido de inveja de seu irmão Abel.

Foi o primeiro invejoso, mas há outros famosos como o músico e maestro Salieri que se roeu e definhou a cada nova partitura de seu desafeto genial chamado Mozart que ele considerava um cretino.

Como é que um menino levado e produtivo podia, com as mesmas sete notas musicais, criar obras celestiais enquanto que ele, Salieri, vivido e experimentado, produzia apenas convencionalismos musicais mediocres?

Invejosos sempre existiram e eles é que criaram os preconceitos agredindo seus alvos com palavras que foram se modificando no decorrer da história como: boêmio, cachaceiro, drogado, esquizofrênico, maconheiro, preto, bicha, etc... —  é preciso desqualificar seu objeto de inveja para sentir-se alguém.

Como críticos criticam obras geniais e põem em dúvida sua qualidade pra parecerem melhores que a obra criticada.

Uns tolinhos infantis enquadrados no beabá do caráter humano.

Os tratados de psicologia sabem que o invejoso deseja mesmo é ser seu objeto de inveja, mas como isso é impossível ele quer que o outro não produza nada que possa ser comparado consigo para não ampliar ainda mais o fosso que os separa.

Invejosos querem estancar a fonte criadora do objeto que invejam e produzem bílis corrosiva em quantidade suficiente pra se autodestruir e acabam se tornando cada vez mais secos e áridos de vida. Invejoso transa mal, é obeso mental, é covarde, cínico, mal amado, nada criativo, tem a pele macerada e são os maiores consumidores de antiácidos.

Invejoso não vive, gravita em torno de si mesmo e seus minúsculos sentimentos, mas, principalmente gravita em torno de quem inveja.

Amam o que invejam.

O maestro Tom Jobim, quando foi reconhecido pelo mundo convidado a tocar e cantar com Frank Sinatra conheceu bem a inveja dos músicos brasileiros que o atacavam e cunhou uma frase famosa: “Sucesso no Brasil é considerado ofensa pessoal”. Mais sintético e preciso impossível.

Carmen Miranda, no auge do sucesso nos EEUU chegou a ser considerada traidora da pátria pelos invejosos de plantão permanente.

Ambos causaram muito mal involuntário aos sempre alertas invejosos.

Carmen e Tom ficaram na história, mas cadê os invejosos? Que nomes tinham?

Os árabes também inventaram uma sentença para este tipo de gente:  “Os cães ladram e a caravana passa”.

Pois nesta última semana muitos cães ladraram entupindo a caixa de comentários da revista Bula com mensagens furiosas e agressivas contra alguns dos articulistas.

Um bom sintoma de que a revista melhorou mais ainda e é de fato um êxito na sua categoria.

Se despertou a ira dos invejosos — e isso pode ser comprovado pelos comentários de alguns homúnculos que usam pseudônimo, tempo e palavras pra agredir pessoas que escrevem aqui — é porque é sucesso de fato.

Apesar de ser lugar comum a frase é batata: “Não se atira pedras em árvore que não dá fruto”.

Deve ser insuportável pra eles que a revista cresça e apareça e eu os entendo perfeitamente, coitados. É sempre mais fácil passar a mão na cabeça de fracassados do que cumprimentar e solidarizar-se com vencedores. Dói menos nos invejosos.

Qualquer artista goiano sabe do que falo, muitos são objetos da inveja paralisante dos néscios. Mas isso acontece em quase todos os campos de atividades humanas, não é privilégio dos artistas — só que com eles repercute mais, têm mais tambores.

Há uma lógica doentinha usada pelos invejosos, uma lógica invertida e aleijada: “Se eu não consigo ninguém mais pode conseguir”.

O mundo ideal pra eles seria a paralisação absoluta onde só o mal teria importância e vez. Uso esse espaço pra informar a eles que esta é uma doença sem cura: nem a psicologia, nem as novenas, nem a água benta, nem o pó de hóstia, nem o dente de alho são capazes de reverter a inveja, seu portador acaba sempre pálido, amarelado, sem viço, bilioso, amargo, limitado a xingamentos vazios, envolvido pela teia venenosa secretada por sua própria bílis.

Enfim, se antropofagizam. (Corram ao dicionário!)

Minha sugestão aos invejosos escrevinhadores agressivos é que recorram ao amargor de nossa jurubeba tida como de grande valia para os males do fígado, porque vão ficar ainda mais biliáticos quando se derem conta de que os objetos de suas invejas não se abalaram e continuam seguindo em frente.

Haja jurubeba!

Pessoalmente gosto que eles existam e me invejem e me detestem porque são como combustível e impulso e me causam muita graça quando expressam seus baixos sentimentos por mim. Gosto de provocá-los como se provocam perus pra ouvir o glu-glu inútil, rio deles, os ignoro e vou adiante.

Sugiro a todos da Bula que os ignorem também — eles existem pra isso e nada os destrói mais que serem ignorados e reduzidos à sua verdadeira dimensão.

Afinal, que problema há em ser agredido por reles pseudônimos?

Que não esperem de mim nenhuma resposta às suas ironias ou agressões — escolho meus interlocutores a dedo e sou exigente como todo objeto de inveja.

Mas, pra compensá-los de sua doença digo que invejosos também são úteis: dão ânimo e incentivo para criadores criarem e, indiretamente, deflagram o prazer de produzir artigos como este.

Sim, são migalhas, mas eles sabem que ser coadjuvantes é o máximo que podem almejar na vida.

O resto é silêncio. 


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