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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:36 PM

Entrevista Carlos Trigueiro

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Verdade que dificuldades para publicar ocorrem mundo afora, pois a realidade dos escritores está no idealismo escatológico, enquanto a dos editores exige pragmatismo aritmético
 

Quando li pela primeira vez “O Clube dos Feios”, do amazonense Carlos Trigueiro, fiquei, além de muito bem impressionado, surpreso. Não parecia coisa de brasileiro. Tinha uma certa elegância, uma certa aristocracia, parecia coisa de estrangeiro. Não que brasileiros não saibam ser elegantes. Há vários prosadores em atividade que merecem o adjetivo. Mas Trigueiro é diferente. Há um cosmopolitismo genuíno, não forçado, em sua prosa. O que será fácil entender, se dermos uma olhada em sua
biografia : graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, Trigueiro morou em cantos diferentes do mundo (Espanha, Itália, China, EUA). Agora, morando no Rio de Janeiro (parece que quietou), acaba de lançar “Confissões de um Anjo da Guarda”, pela Bertrand Brasil, e concedeu essa entrevista à Bula e ao Rascunho por e-mail.  
 
Conte pra gente um pouco de sua história, digamos, editorial. Você teve dificuldade pra publicar algum de seus livros?
 
Tive dificuldades de todo tipo, de impublicáveis a novelescas. Já no meu primeiro livro, “Memórias da Liberdade” (1985), financiei a edição, mas a editora quebrou sem cumprir o contrato. Na época, eu trabalhava na China, e tive de acionar o editor no Brasil. À vista da morosidade da nossa Justiça, resolvi o assunto mediante acordo: utilizei o selo da editora e o que já havia sido produzido do livro, e tornei a financiar o restante da produção por meio de outra editora. Com o “O Clube dos Feios” (1994), sucedeu algo tão surrealista quanto o conteúdo da obra. Estando o livro bem-figurado, bem-lançado, e bem-aceito pela crítica, a editora foi desativada. Reassumi tudo em Cartório: direitos autorais, estoque, divulgação, distribuição e comercialização. Depois que a Record, editora de porte internacional, adquiriu os direitos de “O Livro dos Ciúmes” (1999) e rapidamente o publicou, os caminhos estavam aparentemente facilitados, mas surgiu outro tipo de dificuldade: performance de vendas abaixo da expectativa. Então, fiquei cinco anos provando recusas de padrão olímpico até chegar à Bertrand Brasil e publicar “O Livro dos Desmandamentos” (2004) e “Confissões de um Anjo da Guarda” (2008).
 
Essas dificuldades trouxeram alguma lição?
 
Se pudesse voltar ao passado e primeiro livro não assinaria Carlos Trigueiro, e sim algo como Karlowz Tryghwro, pois a preferência brasileira, submetida às forças do mercado e marketing dos best-sellers internacionais, prima por autores com Y, K e W no nome. Basta acompanhar a lista dos mais vendidos. Verdade que dificuldades para publicar ocorrem mundo afora, pois a realidade dos escritores está no idealismo escatológico, enquanto a dos editores exige pragmatismo aritmético. A propósito, o crítico literário italiano, Mário Baudino, revelou num livro curioso “Il Gran Rifiuto” (1991), algo mais freqüente do que se imagina: obras recusadas por editores se tornarem notáveis, dentre tantas, “Cem anos de solidão (Gabriel García Márquez); “O Gattopardo” (Tomasi di Lampedusa); “Em Busca do Tempo Perdido” (Marcel Proust); “Moby Dick” (Herman Melville); “Ulisses” (James Joyce); “Lolita” (Vladimir Nabokov); “Poesias” (Thomas Eliot); “Torrentes da Primavera” (Ernst Hemingway); “O Amante de Lady Chatterley” (D.H.Lawrence); “O Senhor dos Anéis” (John Tolkien). Se Baudino aguardasse mais cinco anos acrescentaria entre os recusados, o fenômeno universal “Harry Potter” (J.K.Rowling). Daí o paradoxo: um livro recusado por mais de oito editores, deve ser bom mesmo! Então, perseverar é a lição.   
 
Se tivesse de classificar sua ficção, como o faria? A que estante de livraria ela pertence? (Não vale dizer só “literatura nacional”)
 
Tento fazer Literatura de ficção afinada com o que percebo da condição humana (universal em inclinações, esperanças, fraquezas, distúrbios, limitações) fustigada pela consciência da temporalidade - da impermanência. Talvez uma biografia repleta de mudanças geográficas e o contato com diversos ambientes socioculturais tenham acelerado minha percepção da temporalidade que, acho, mais nítida que a consciência da morte, é a nossa fonte de inquietação de todas as horas. Embora essa consciência esteja presente em outras artes, na Literatura é transcendental. Há inúmeros exemplos dessa fixação humana na temporalidade, a começar pela infinidade de “Memórias” publicadas em todos os quadrantes. Às vezes, essa fixação já aparece no título dos livros. A obra-prima de Proust é “Em Busca do Tempo Perdido”, enquanto “Cem Anos de Solidão” a de Gabriel García Márquez. Nas elocubrações de Ítalo Svevo (em “A Consciência de Zeno”) o tempo é tanto memória quanto profecia. E Faulkner é pungente: “... cada homem vem a ser a soma das suas desgraças. Se ocorre a alguém pensar que um dia essa desgraça termina, bem, nesse caso, a desgraça é o tempo”. Então, minha ficção, com a devida condescendência, não iria para uma estante com identificação geográfica (de nacionalidade), preferiria que ficasse no âmbito do pensamento de Sábato: “... o escritor é testemunha e mártir do seu tempo”.
 
 
Quando eu vi “O Clube dos Feios” num sebo o título e a capa me chamaram imediatamente a atenção. Decidi dar uma chance a um autor e uma editora dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Não me arrependi. Quem bolou a capa? O que é feito da editora Artes & Contos? De onde surgiu a idéia pro conto-título?
 
A editora Artes & Contos funcionou pouco tempo (olha o tempo aí de novo!). Quanto ao título “O Clube dos Feios” houve divergência entre autor e editora, pois outro conto da mesma coletânea, “O homem que perdeu o dia a dia” (olha o tempo de novo aí!”), explorando o desconforto psicológico das pessoas que se aposentam, era o preferido da editora, tinha mais apelo. No entanto, além de considerar “O Clube dos Feios” mais do que um conto (quase uma novela), eu já vislumbrava a idéia da “feiúra” humana não só no plano estético, mas também no emocional e no social. Enfim, o embrião da “Trilogia da feiúra” fervilhava. Prevaleceu a minha idéia e o título ficou “O Clube dos Feios’ -  e outras histórias extraordinárias”. Quanto à capa impactante, foi realmente um achado. Tendo “O Clube dos Feios” conteúdo estritamente surrealista, fui buscar num dos pilares do Surrealismo, no belga René Magritte, uma reprodução fotográfica da sua “La lampe philosophique”, um óleo de 1936, e que encontrara nas minhas andanças por livrarias, bibliotecas e sebos de Chicago.      
 
Seus contos saem completamente da linha urbano-violento-escatológica, de certa forma predominante no Brasil. São eruditos, filosóficos, bem-comportados, mágicos, enfim, parecem ter sido escritos por um estrangeiro (não que não haja brasileiros eruditos e bem-comportados, ou que a linha urbano-violenta-escatológica seja ruim). Embora nascido em Manaus, morou em várias partes do Brasil e do mundo. Será essa a causa? Você se desenraizou?
 
“Fiz o que pude, o destino o que quis” é uma frase de Lope de Vega bem a calhar. Imagine um jovem curioso - de raízes amazonenses, alma cearense, coração carioca, sonhos de brasileiro - tendo oportunidade de ler, estudar, trabalhar, observar, comparar, viver na Itália, Espanha, China e nos Estados Unidos, além de viajar alhures... Acho que tudo que fizesse com pretensão literária agregaria alguma dose de cosmopolitismo. Quanto ao lado mágico e (quem dera) filosófico da minha literatura, talvez seja influência dos autores que li, dos ambientes fascinantes que vi e em que vivi, e, claro, da índole observadora. E sobre o lado bem-comportado em toda a minha ficção, isso é verdade, não há nem mesmo um único palavrão explícito. Nada de falso puritanismo, mas porque, penso, a emoção artística talvez seja a única preciosidade da condição humana. Acho que, no gênero literário maiúsculo, quando a palavra vaza pornografia ou ejacula obscenidade torna aquilo que descreve muito real. Roland Barthes dizia que as pessoas não querem a paixão, mas a imagem da paixão. Na minha percepção, recorrer à verbalização grotesca para desnudar tanto o instinto quanto o passional borra a essência mágica da Literatura. Essa, num plano superior, deveria apenas sugerir e insinuar imagens ao leitor. Se isso não acontece o papel sagrado do livro vira papel de embrulho, papel sanitário. Quanto ao meu desenraizamento, bem, foi provisório. Não perdi minhas raízes. Tanto assim que “O Livro dos Desmandamentos - Profecias de um Excluído” (Bertrand, 2004) procura eviscerar com o gume da alegoria as misérias sociais e políticas do Brasil nos últimos cinqüenta anos, e “...serve de instrumento relevante para entender os excessos políticos impostos aos analfabetos e miseráveis do país”, segundo resenha do livro na Biblioteca do Congresso, dos Estados Unidos, claro, sabemos que “santo de casa não faz milagre”.
 
Alguns de seus contos parecem impregnados de filosofia fenomenológica (Heidegger, Husserl). (Por exemplo: Terminais”) É consciente?
 
Talvez seja mais intuitivo do que consciente. Só fui saber um pouco da filosofia alemã nos bancos universitários, enquanto bem cedo, e ao vivo, impactos existenciais pesavam na minha formação psicológica. Em “Memórias da Liberdade”, isso já aparece no menino de sete ou oito anos, no interior do Amazonas, numa canoa, seminu, inculto, sem nenhuma fobia freudiana, nenhum desejo de reconhecimento lacaniano, admirando a grandiosidade das águas e da floresta, o vôo da passarada, a necessidade de perceber a essência das coisas para viver e sobreviver. Depois, outro impacto: ainda adolescente, trabalhei num sanatório psiquiátrico, onde pude encarar as mil faces da angústia, perceber a precariedade da existência, os absurdos do comportamento humano, ter consciência do caminho indesviável para a morte. O conto “Terminais” reflete o aprendizado desta fase, digamos, hospitalar. Mas o esbocei quando vivia na China, que também foi uma experiência tremenda: tentar compreender a existência sob a interpretação de uma cultura que há 5.000 anos observa, naturalmente, a essência das coisas.
 
 
Também será consciente a recorrência de certos temas e idéias? Por exemplo, é comum que seus personagens façam parte de (ou sejam apresentados a) algum clube secreto, sociedade esotérica. Ainda: o casal Peterson-Anita (de “Obsessão”, em “Confissões de um Anjo da Guarda”) é o casal A e B (de “Ciúme, tronco e membros”, em “O Livro dos Ciúmes”)? E mais ainda: a utilização de um fio condutor amarrando os contos ( a musa e o anjo da guarda).
 
A recorrência é consciente. Concebi “O Clube dos Feios” e a “Associação dos indivíduos de apelido Cheong” num mesmo tempo psicológico vivido entre Roma e Londres, embora a centelha inspiradora de ambos ocorrera antes, na China, onde eram comuns associações de pessoas com pré-nomes iguais com o intuito de defenderem interesses pessoais ou familiares.
 
Quanto aos casais Peterson e Anita de “Obsessão” (em “Confissões de um Anjo da Guarda”) e A e B de “Ciúme, tronco e membros” (em “O Livro dos Ciúmes) são personagens diferentes apesar de viverem tragédias parecidas. O texto que descreve sexualmente A e B tem um artifício que demonstra isso. O resto é com o leitor.

Também são estruturais e conscientes tanto a musa dos ciúmes em “O Livro dos Ciúmes” quanto o anjo Mahlaliel em “Confissões de um Anjo da Guarda”. A rigor em “O Clube dos Feios” a idéia de um fio condutor chegou a me perpassar e, no caso, seria o espelho egípcio mágico que encerra o conto, mas, na época, o artifício não amadurecera por completo.
 
O saboroso conto “A Quarta concubina” (em “O Livro dos Ciúmes”) daria um romance, certamente também saboroso. Você já pensou nisso?
 
Sim, quando escrevia a história. Considero “A Quarta concubina” (em torno de quarenta páginas) mais próxima da novela que do conto. A propósito, o cineasta Zhang Yimou fez um filme belíssimo (“Lanternas Vermelhas”) baseado em romance do escritor chinês contemporâneo, Su Tong, explorando o mesmo tema: a permissão social para o múltiplo concubinato na China, desde que o “dono” das concubinas pudesse sustentá-las “com dignidade”. Na minha temporada por lá, antes de Hong Kong e Macau retornarem ao domínio da China continental, essa conotação sociocultural depreciativa da mulher me causou forte impressão. 
 
Em seu último livro, “Confissões de um Anjo da Guarda”, noto uma certa tendência até então inexistente em seus contos. “Uma questão de cor”, “O jornalista” e “Clínica para normais” são um tanto doutrinários, o que, penso eu, os empobrece um pouco. É mesmo uma tendência? E (de novo) é consciente?
 
 É consciente, porém menos tendência e mais coerência com o propósito da obra, já que o anjo Mahlaliel enfatiza no conto que dá nome ao livro: “Tudo começou porque pensei além do permitido nas cortes celestes... Tornei-me um anjo da guarda dissidente... Quero abalar crenças e descrenças... Então, melhor confessar de uma vez que os anjos varrem a imundície dos céus para debaixo das nuvens. E como todas as porcarias costumam vir de cima, está mais do que explicado por que os humanos pegam, pensando que é de Graça, tudo que não presta.”

Hoje, mais maduro, estou convencido de que cada leitor percebe aquilo que lhe interessa. Se existe algum tipo de doutrinação deliberada no livro talvez esteja mais visível nesta confissão de Mahlaliel: “Ressalvo que o ato de contar histórias é invenção do homem. Somente o gênero humano é capaz de falsear e subverter o uso da língua de tudo quanto é maneira, desde promessas de políticos em campanha, ao tropismo boca a boca nas imagens de telenovelas - delito que uma parcela das elites comete, outra propaga, outra custeia, outra acoberta. Delito em cadeia, como se vê. Mas é só trocadilho, ninguém vai preso.”

Enfim, me permitindo parodiar o pensamento de Sábato, diria que o escritor é testemunha, verdugo e mártir do seu tempo. 

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:45 PM

Coelho Neto é entrevistado por João do Rio

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A palavra escrita vive do adjetivo, que é a sua inflexão. Daí a grande necessidade de disciplinar o vocabulário. Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra, — o homem que joga com maior número de vocábulos. Alguém já lhe calculou o léxico em 20.000 palavras

 

João do Rio
Entrevista feita em dia incerto de junho de 1907
 
Dez horas da manhã. O grande artista escreve. A sala forrada de cinza está atravancada de altas estantes de canela, de largos divãs indianos, de vastas rocking-chairs de couro lavrado. Na secretária, um frasco de neurosina, um volume de Dumas, um pote de faiança com fumo rio-novo. Ao fundo, uma coleção de retratos de amigos. Muitos estão mortos. Os amigos que morrem levam para a sepultura um pedaço da nossa própria vida... A atmosfera morna é de inteira quietação. Na rua, o mormaço do céu, afogado em nuvens, parece abater as árvores; na sala ouve-se apenas o imperceptível cicio da pena no papel de linho, enquanto um gato, muito gordo, muito branco, muito peludo, lambe devagar uma das patas. Coelho Neto levanta-se normalmente às cinco da manhã, senta-se a escrever às seis, trabalha até às doze, vai para o duche frio, almoça e às três da tarde recomeça para só terminar quando se acendem na cidade as primeiras luzes. Há quatro horas já, impalpável e divina, a fantasia impele a sua pena de aço.
 
— Pode-se falar? O artista levanta a cabeça.
 
— Oh! tu? entra...
 
Aproveito e descanso um pouco. Estou a escrever agora uma peça para a companhia Lucinda e Christiano. A princípio foi um prazer. Mas eu tenho um juiz, o meu primeiro público, minha mulher. Outro dia sentei-a naquela cadeira e fi-la ouvir um ato. Sabes a sua opinião? É uma peça perversa, que me vai criar uma porção de inimizades! Verdade é que não há nada de mais atual. Estudo aspectos da nossa sociedade ainda por estudar no teatro, e entre os quais o mundo dos decaídos e a célebre questão dos casamentos... Minha mulher obrigou-me a rasgar uma cena inteira, entre um velho, que é o elemento honesto, representativo do nosso antigo fundo moral, e o grupo moderno.
 
Senta-te. Tomas café?
 
Coelho Neto está de pijama branco, meias de seda, escarpins de pelica. Senta-se um instante.
 
— Vamos ver o questionário. Deve estar numa destas gavetas.
 
Procura-o. O papel branco em breve aparece dobrado em dois, e eu prevejo que daquelas simples perguntas a imaginação de Coelho Neto fará surgir a maravilha e o encanto. Se é de pasmar o brilho, a cintilação de estilo no escritor, a faculdade da imagem, o poder evocador, o comentário agudo e a torrencial fantasia do seu claro espírito como que se acentuam na conversa. Neto conversa irresistivelmente, caleidoscopicamente. A palavra vive no seu lábio com um poder formidável e consciente. Há momentos em que se tem, pela harmonia dos períodos, a rápida impressão dos malabaristas jogando bolas de metal de pesos diferentes, e cada fase sua em torno do assunto traz, numa palpitação de encantos, a constante visão dos cultos mortos e dos deuses. Coelho Neto é, de resto, de uma rude franqueza meridional. 
 
Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram?
 
— Para a minha formação literária, começa ele, não contribuíram autores, contribuíram pessoas. Até hoje sofro a influência do primeiro período da minha vida no sertão. Foram as histórias, as lendas, os contos ouvidos em criança, histórias de negros cheias de pavores, lendas de caboclos palpitando encantamentos, contos de homens brancos, a fantasia do sol, o perfume das florestas, o sonho dos civilizados... Nunca mais essa mistura de ideais e de raças deixou de predominar, e até hoje se faz sentir no meu ecletismo. A minha fantasia é o resultado da alma dos negros, dos caboclos e dos brancos. É do choque permanente entre esse fundo complexo e a cultura literária que decorre toda a minha obra, e daí Baladilhas, Rapsódias, livros de uma fatura absolutamente especial.
 
— Há, entretanto, uma parte da sua obra...
 
— Sim, a parte fescenina. É aí, no Fruto Proibido, que começo a ter a responsabilidade do meu trabalho. O amor pelas lendas, pelo fantástico ficou porém. O livro que mais me impressionou foi As Mil e Uma Noites. Depois toda a obra de Shakespeare, o Dom Quixote, os poetas gregos, Plutarco, que releio constantemente... 
 
— E dos modernos?
 
— Flaubert, o admirável Maupassant, Taine, que é a base da minha visão crítica, e os ingleses contemporâneos, com especialidade os dramaturgos.
 
— Quanto a Portugal?
 
— Todos os clássicos, Eça de Queirós... Eu estudo com grande amor a língua portuguesa, mas sou pela liberdade, fujo aos estudos propriamente chamados clásssico-gramaticais. As línguas evoluem, e eu admito, como necessidade de representação de idéias, o estrangeirismo. Tenho a respeito da palavra uma teoria: a palavra falada é a palavra viva, livre, solta de todas as cadeias, capaz de por si só definir, pintar, colorir; a palavra escrita é a palavra agrilhoada, morta, sem a expressão imediata. A primeira tem a intenção que é tudo e a inflexão que é a realidade da intenção. Toma por exemplo a
 
palavra Deus. Deus tem uma cor no juramento solene, outra no auge do pavor, outra na ironia, tem todas as cambiantes do sentimento, graças à inflexão e, às vezes, apesar de sagrada, falta-lhe moralidade, como quando uma rapariga, comida de beijos pelo amante, murmura trêmula: — Meu Deus! 
 
A palavra escrita vive do adjetivo, que é a sua inflexão. Daí a grande necessidade de disciplinar o vocabulário. Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra, — o homem que joga com maior número de vocábulos. Alguém já lhe calculou o léxico em 20.000 palavras.
 
— A questão não é de vocabulário; é de disciplina. Os russos têm uma porção de dicionários de soldados e para nada lhes serve o possuí-los. Eu consegui disciplinar o vocabulário. Dada um certa impressão, concluída uma idéia, posso sentarme e escrever. A idéia sai vestida e os termos exatos juntam-se no perfeito reflexo da impressão. Estou a tomar uns ares dogmáticos... Perdoa. É quase uma confissão. Vem desse esforço, que foi a pouco e pouco desbastando do meu estilo os guizos de muitos adjetivos para substituí-los por um só, exato, o emprego de certos termos populares como sarrilho e de
 
palavras desejosas de dar a idéia mais onomatopaica do fato, como buchorno com a significação de mormaço — dois substantivos vítimas em tempo da crítica... Acusam-me de preciosismo, meu caro amigo. Não sabem eles que o artista é o resultado de mil influências desencontradas...
 
— Qual dos seus volumes prefere?
 
— O Pelo Amor! Não se admire. Prefiro o Pelo Amor! por uma questão de momento. Ainda naquele tempo julgava-me capaz de alguma coisa no Brasil. Foi uma batalha perdida, mas de que me lembro com saudades, como certos generais velhos recordam nostálgicos as derrotas. Em todo o caso foi uma perda que acentuou a cisão e determinou uma corrente literária. 
 
— Mas só o Pelo Amor?
 
— E no romance Inverno em Flor. A verdade é que, enquanto escrevo, sinto um grande prazer e depois fico assustado com os defeitos. Tenho um processo de trabalho constante. Só as novelas foram acabadas e retocadas antes de serem entregues aos editores. O resto da minha obra tem sido escrito dia a dia para os jornais. Assim fiz A Capital Federal, O Rei Fantasma, o Turbilhão.
 
— Mas é impossível!
 
— É a verdade. Devo muito à Gazeta e a O País, que receberam os meus primeiros ensaios. A crítica, quando foram dados à luz alguns volumes meus com intervalos apenas de dias, gritou contra o que ela chamava mercenarismo. Não sou infelizmente conhecido nem do público nem da crítica. O público não sabe a capacidade do meu trabalho, a crítica ignora por que trabalho tanto. A publicação de O Rajá de Pendjab levantou então uma celeuma. Não sabem eles que, subordinado o estilo à concepção, a pena trabalha quase mecanicamente, não querem recordar que muitas obras-primas foram escritas em dias como o Hamlet de Shakespeare e principalmente recusam compreender a necessidade de um escritor que resolve viver apenas da própria pena.
 
Não conheces a história do Rajá? Eu entrava na Gazeta precisando de dinheiro e encontrei o Araújo zangado. Por quê? Tinham perdido um novo e sensacional folhetim. Não se incomode, doutor, faço-o eu. Qual! Tens muitas psicologias... Faço sem psicologias! Fomos dali tomar um sorvete. Então fazes? O príncipe encantado serve? Também é um título velho. O rajá seja, o Rajá de Pendjab. Para depois de amanhã? Para depois. E a reclame foi feita para um romancista francês, de que a Gazeta deu o retrato reproduzindo a cara do Humfreys...
 
Rimos os dois alguns instantes. Coelho Neto continua:
 
— A crítica não fala só da abundância de atavios, do mercenarismo com que confunde a realização imediata de uma idéia acabada, fala também do número dos meus volumes.
 
Neste país, onde se tem, não a preguiça mental, mas a preguiça física que inibe de escrever, o Sr. Coelho Neto tem cerca de trinta volumes. Pois, não senhor. Coelho Neto tem acabados 50 volumes.
 
 — Cinqüenta?
 
— Sim, e a todos prezo, sim, cinqüenta! Bastava que em cada um houvesse uma página digna para que os publicasse. Levanta-se maquinalmente para mostrar-me a lista dos volumes a aparecer. Nesse momento febril, com o olhar brilhante, o lábio grosso, cheio de juventude e de esforço, é impossível deixar de admirá-lo.
 
— Sou um trapista do trabalho, a bête de somme dos franceses — quero, e mourejo como um servo da gleba... Ah! meu amigo, o artista não é o zoilo das confeitarias à cata de jantar. Preciso de um relativo conforto, preciso rodear os meus filhos de bem- estar. Trabalho! Creio que só a tenacidade e o querer têm obstado a minha morte. Hei de ir até o fim com o prazer de ter pago sempre as minhas dívidas...
 
Ficamos um tempo calados. Neto mostra-me as provas dos seus livros, agora editados em Portugal — A Treva, Água de Juventa, o Mistério do Natal, a Pastoral. Que extraordinária atividade! Que prodigioso cérebro! 
 
— E quanto a escolas, a lutas?
 
— Não há nada. Vejo no Brasil uma coisa curiosa: dois grupos, um muito pequeno, dos que podem; outro, enorme, dos que não podem. Lembram-me a história da princesa Parizat nas Mil e uma noites. No alto da montanha havia três talismãs: a árvore que canta, o pássaro que fala e a água amarela. Quem subisse até lá seria possuidor de todos três, mas o caminho era aspérrimo e as pedras faziam um estranho clamar. Quem atendesse ao chamado das pedras em pedras se transformava. Só a princesa chegou ao pico da montanha. O clamar das pedras é aqui o nefelibatismo, o ocultismo, o criticismo, o torcido, o escabujamento, o histerismo... Acho, entretanto, que chegaremos a ter uma Escola Brasileira, não o indianismo mas idéia brasileira, o costume brasileiro, numa língua que terá a clareza do Eça, e a maneira francesa na mais plástica de todas as línguas — a língua portuguesa. Para isso, é preciso antes de tudo o prestigio oficial. A transformação farse-á violentamente, porque nós somos um povo de explosões. No dia em que a proteção oficial for uma realidade, o público admirará a arte no teatro e no romance, como se encaminhou para a Avenida, e o artista, tendo-se deitado num grabato, acordará num leito de púrpura.
 
— Falei-lhe da literatura dos Estados.
 
— O Euclides da Cunha já dividiu magistralmente o norte e o sul. É incontestável. Daqui para alguns anos teremos duas literaturas distintas: a dos trovadores ao norte, a dos troveiros ao sul. O norte não é belicoso. Um profundo lirismo vive na sua alma, e tanto as alegrias como as dores são sempre postas em canto. Daquele pedaço de terra o sol nunca de todo se arreda, porque, se a luz foge, fica o calor acalentando o solo, as árvores e os céus. Os homens vivem com os elementos, são dispersivos e crêem nas divindades. No sul, ao contrário, a terra fria faz a concentração, a luta, e os elementos estrangeiros vão se acentuando. O norte é virgem e bravio; ao sul, os homens de músculos brancos e cabelos de metal vão escorraçando a raça primitiva. O norte, para onde emigram os pretos, os caboclos e os descendentes deles, será o reservatório fatal da grande poesia natural do Brasil. Prevejo no futuro o Rio como um grande celeiro e a divisão da literatura em duas literaturas distintas — a do sertão e a da campina...
 
Eu interrompi sincero: 
 
— Como é difícil ser céptico ao lado do corifeu da esperança!... Havia na sala confortável o encanto das nobres emoções. Neto parou.
 
— Falemos então do jornalismo, já que é preciso. O jornalismo foi sempre, no Brasil, político. Cansado o público, a mania politiqueira foi atenuada pelos processos industriais. O jornal deixou de ser a urna para ser...
 
— Para ser?
 
— ... uma oficina. Tem sido para a nossa literatura um grande bem relativamente. Como nunca teve audácia para educar, aceita um trabalho, não pelo gênio do autor, mas sempre de acordo com o agrado do público. Às vezes é perverso.
 
A decadência do teatro é devida exclusivamente ao jornal e aos próprios escritores dramáticos jornalistas. O público é um animal que se educa. A princípio ia aos teatros bons. Veio o anúncio, o balcão dominou, começaram os incentivos para o trololó. Hoje o público está acostumado e não quer outra coisa. Quanto à literatura que publicamos nos jornais, lembra os livros impressos no tempo do Santo-Ofício. Não tem o visto da Inquisição, mas tem o visto do redator-chefe. 
 
— Uma última pergunta: é religioso?
 
Muito. Não sei se creio em Deus Cristo , se em Deus-natureza, mas creio no princípio imanente da divindade. E por isto, talvez seja neste país um dos raros homens que esperam... Tornou a sentar-se, pôs-se a escrever. Pela janela aberta entrava o dia abafado e só o gato impassível, muito gordo, muito branco, muito peludo, olhava os céus com um perturbado olhar da sua verde pupila cor de topázio verde... 
 
*Mantida a grafia original.

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:34 PM

Entrevista José Alexandre Felizola

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"Na realidade Darwin não sabia muita coisa, inclusive nada de genética ou desenvolvimento embrionário. Ele teve muitas idéias originais e a biologia se consolida depois dele, e a admiração pelo Darwin é de fato pelo seu pioneirismo e por curiosidade em termos de história da ciência. Mas no fundo a gente não fica mais lendo o Darwin como fonte de pesquisa original"


O professor José Alexandre Felizola Diniz-Filho, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Goiás, está entre os mais produtivos (em quantidade e qualidade) cientistas em Ecologia do Brasil. Pesquisador 1A do CNPq (o nível mais alto), Diniz é também um Fellow, isto é, um dos poucos brasileiros membros da prestigiosa Sociedade Linneana de Londres, grupo de naturalistas, que em 1º de julho de 1858, ouviu a leitura dos textos de autoria do britânico Charles Darwin, o homem que assombrou o mundo ao defender que todas as espécies derivam de um mesmo ancestral e que nem mesmo o homem escaparia do processo da evolução. O Professor José Alexandre, falou ao professor Ronaldo Angelini, da UEG de Anápolis, sobre darwinismo, evolução, e ciência. O lado humano e as curiosidades da vida e da obra do cientista inglês também poderão ser vistos na exposição Darwin: Descubra o Homem e a Teoria Revolucionária que Mudou o Mundo a partir de domingo, 17, no centro cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia.
 
Comecemos do princípio: afinal o que é Darwinismo? Uma hipótese científica, uma teoria ou uma área de investigação?
Darwinismo é na realidade uma tradição de pesquisa. Ernst Mayr, considerado um dos maiores biólogos do século XX, diz que o darwinismo tem cinco componentes principais: a confirmação da existência da evolução, a especiação, a ancestralidade comum entre as espécies, o gradualismo e a seleção natural como processo da evolução. É difícil caracterizar tudo isto como uma teoria na acepção da palavra, mas de qualquer forma o cerne do darwinismo é a seleção natural.
Tenho a impressão que dentro do ramo de pesquisa dito darwiniano, cabem teorias aparentemente antagônicas como, por exemplo, o gradualismo proposto por Darwin e o pontualismo do Stephen Jay Gould, ou ainda a radiação evolutiva e a deriva genética. Não é muita contradição dentro de um mesmo arcabouço teórico?
Vamos com calma. Gradualismo é a evolução dentro da população ou espécie ao longo do tempo e de modo contínuo, já a teoria do equilíbrio pontuado do Gould é alternativa à isto, pois propõe que as mudanças das espécies estariam concentradas em certos momentos de especiação, quando por alguma razão externa, haveria um isolamento de populações que evoluiriam diferenciadamente e dariam origens à outras espécies. Na verdade são modelos alternativos e complementares de evolução. Já a deriva genética é a fixação aleatória de características que não possuem valor adaptativo e é um fenômeno aceito dentro da teoria genética de populações neodarwiniana clássica, iniciada com Ronald Fisher no início do século XX. Perceba que ela é não-darwiniana, no sentido definido antes de seleção natural do mais ajustado, mas ela não é antidarwiniana. A questão é saber quais as características são fruto do processo adaptativo e quais não, isto é, que características evoluem de forma neutra.
Evolução neutra é um termo meio esquisito pra quem não é do ramo...Mas acho que podemos brincar com a frase de Einstein e dizer que no processo evolutivo, Deus joga dados viciados, isto é, tudo pode acontecer, mas alguns eventos acontecerão mais que outros, pois guiados pela seleção natural. É isto mesmo?
Sim, se você pensar que a maior parte da estrutura dos organismos não existe por acaso, isto é, ela foi ajustada a condições locais que se sucedem no tempo pela seleção natural. Isto implica duas coisas: primeiro, que os processos adaptativos atuais dependem da variabilidade mantida na espécie e segundo, que uma parte da variação atual pode ter tido função adaptativa no passado, mas não é útil hoje. Além disso, precisamos pensar que a variabilidade da espécie pode ser produto do acaso, do resultado do dado não-viciado naquele momento, e se esta variabilidade se fixa na população, dizemos que houve uma variação neutra. No nível molecular isto é muito freqüente.
Assim, nem toda modificação ocorrida numa espécie foi devida à seleção natural. O que aconteceu então?
Bom, pensando no lançamento de dados nós sabemos que pela organização que já existe nos organismos a maior parte das mutações aleatórias é maléfica, então não se mantém. Por outro lado, algumas delas são vantajosas e podem ser capitalizadas pela seleção natural. A parte da variabilidade que não tem função específica e, mesmo assim se fixa, constitui a evolução neutra. Como ela acontece com velocidade aproximadamente constante, a diferença entre as espécies para estas características é meramente função do tempo a partir do qual elas se isolaram. Assim, se conseguimos separar quais as características neutras, podemos medir as diferenças nestas características e reconstruir as relações de parentesco com mais facilidade. 
Isto me parece paradoxal...
Mas é paradoxal. Pois é, exatamente a evolução neutra que nos permite construir a história evolutiva de um grupo de organismos, como os tentilhões das Galápagos, por exemplo. Como sabemos que eles são aparentados? Pelas características comuns entre eles, por exemplo, o tamanho. Já os diferentes bicos que estas espécies possuem e que são resultados dos processos adaptativos que ajustaram os organismos e originaram as diferentes espécies, “mascaram” ou mesmo “apagam” a história de ancestralidade.
A evolução é uma “história” biológica ou uma teoria científica?
As teorias evolutivas se referem à mecanismos ou processos, como a seleção natural e a deriva genética, que mostram como se desencadeia a variação de características biológicas no tempo e no espaço.  Mas acho que podemos pensar a evolução como parte da história de eventos biológicos. Na verdade, é difícil pensar darwinismo como teoria cientifica exatamente por causa da multiplicidade de possibilidades de cada espécie ou linhagem, cujas características evoluíram por diferentes razões.
Então se é história, não é ciência (risos...) e apenas explica fatos que aconteceram e que não se repetirão jamais. Não posso olhar pra um lobo-guará e dizer: “este bicho será assim no futuro”. Desta forma, do ponto de vista científico, pra que serve a evolução se ela não pode prever nada?
Esta é uma definição de ciência mais instrumentalista que precisa prever alguma coisa. Mas a ciência não é só isto. Compreender processos que atuaram ao longo da história também é ciência. Nós não sabemos se o lobo-guará vai evoluir e gerar duas espécies diferentes, mas sabemos que se houver uma mudança rápida no ambiente ele pode vir a ser extinto, pois o seu nicho ecológico não acompanhará sua mudança. De modo geral, o nicho das espécies demora a evoluir, o que nos permite entender os gradientes de diversidade do mundo (mais espécies nos trópicos que nos temperados).
Recentemente a Nature publicou um trabalho, no qual os autores mostram que não são poucos os exemplos de espécies que surgiram a partir do cruzamento de outras duas espécies, um tipo de “híbrido promissor”. Darwin desconhecia totalmente este fato pois os híbridos são, na grande maioria, inférteis. Dentro da ciência da evolução como este dado, recentemente comprovado, se encaixa?
Na realidade Darwin não sabia muita coisa (risos...), inclusive nada de genética ou desenvolvimento embrionário. Ele teve muitas idéias originais e a biologia se consolida depois dele, e a admiração pelo Darwin é de fato pelo seu pioneirismo e por curiosidade em termos de história da ciência. Mas no fundo a gente não fica mais lendo o Darwin como fonte de pesquisa original, acho que isto é diferente dos sociólogos que lêem Marx ou Weber, por exemplo. Porém, o conhecimento biológico avançou muito. Em relação aos híbridos não existe nada na teoria que mostre que isto não possa acontecer, mas por uma questão que já falamos de organização, não é muito provável que dois organismos que se diferenciaram, ajustando-se ao ambiente, voltem a se cruzar e deixar descendentes férteis, mais ajustados que eles próprios, isto se chama reticulação, mais difícil de ocorrer que a diversificação.
Tem uma espécie de ave nas ilhas Galápagos que a fêmea coloca dois ovos, mas só criará um dos filhotes, pois o primogênito expulsará o menor do ninho e a mãe aceitará impassível este fato. Alexandre, como que um gasto energético inútil, da ordem de 50%, pode ser vantajoso do ponto de vista evolutivo? Isto é, como a seleção natural não atuou nesta espécie para escolher fêmeas que colocassem apenas um ovo, já que ela criará mesmo apenas um filhote?
Dentro do paradigma evolucionista clássico, eu responderia que é muito mais dispendioso esta fêmea por um ovo apenas e correr o risco dele não se desenvolver. Mas também há uma outra possibilidade que quase ninguém leva em consideração, pois temos o costume de achar que as espécies estão todas prontas e acabadas, quando na verdade a evolução é um processo contínuo: assim, se os ancestrais desta espécie colocavam três ovos e só criavam um filhote, então esta ave ainda está no meio do caminho...
Ela não atingiu o ótimo...
Pois é, e quem sabe dentro de uns milhares de anos, vai economizar um ovo, colocando apenas um. Mas o importante aqui é entender que assim como a história não chegou ao fim, apesar do Fukuyama (risos...) [Francis Fukuyama escreveu o “Fim da História” ] , a evolução também não chegou.
Nos últimos 30 anos, quais as principais colaborações da genética para o entendimento da evolução?
A colaboração principal foi instrumental, tanto na Genética, como na Biologia Molecular que trouxeram algumas ferramentas formidáveis, que nos fornecem dados precisos nos permitindo estudar as variações das populações, que antigamente só eram feitas morfologicamente (através de medidas do corpo) e comportamentalmente (através do estudo do comportamento).
A seleção natural diz que o indivíduo mais ajustado ao ambiente sobrevive e deixa descendentes. E quem é o mais ajustado? Aquele que sobreviveu e deixou descendentes. Como esta tautologia, citada por Karl Popper, pode ser resolvida?
Esta tautologia é uma questão de semântica que não esta na concepção da seleção natural. Ela só existe dentro do programa plangossiano: a visão que todas as características estão associadas a seleção natural e isto, como já discutimos, não é verdade. Acredito também que esta tautologia só seria válida se eu pensasse a seleção natural como um processo teleológico, isto é, que você regula a distancia, com uma meta clara e isto você não tem na seleção natural.
Parece certo que Darwin foi influenciado pela “escada aristotélica”, idéia na qual Aristóteles diz que há uma hierarquia linear de complexidade com o Homem no topo. Isto colaborou para a interpretação também linear do processo de evolução proposto pelo inglês, como na famosa figura da evolução humana. Você não acha que este é maior e grave problema da compreensão da evolução como um todo?
Darwin foi o primeiro a dizer que não existe um organismo mais evoluído que o outro. Ele também foi o primeiro a usar a analogia da árvore evolutiva e nunca gostou da palavra evolução que se confundia, e se confunde ainda hoje, com progresso, preferindo usar “descendência com modificações”. Lamarck, sim, usou a escada aristotélica e Spencer era lamarckiano ferrenho. A árvore evolutiva foi posteriormente chamada por Mayr de evolução horizontal. Assim, nós não evoluímos do macaco, como na figura que você se refere. Na verdade, nós somos uns macacos (risos...), claro, diferentes dos outros como eles mesmos são diferentes entre si.
No livro Os ovários de Madame Bovary”, os autores tentam explicar os atos de personagens da literatura universal, baseados em hipóteses evolucionistas. Desta forma, madame Bovary trai o marido por que assim, ela tem mais chance de arrumar um “macho melhor, mais ajustado...” O que acha deste tipo de interpretação?
Esta é mais uma das distorções da sociobiologia proposta pelo Edward Wilson nos anos 70, que nada mais dizia que os comportamentos das espécies evoluíram como qualquer outra característica. Obviamente nosso comportamento evoluiu sobre pressões, mas não podemos esquecer que qualquer característica é sempre regulada pelo componente genético (intrínseco) e ambiental extrínseco. O que Wilson tentou mostrar, corretamente, é que aspectos culturais das sociedades humanas seriam subprodutos de vantagens adaptativas, mas isto não significa que comportamentos individuais têm base de determinantes genéticos. Claro que existem diferenças nos padrões sexuais de homens e mulheres que podem ser compreendidos pelo fato do homem ser um mamífero como outro qualquer, e estas estratégias ótimas para reprodução do mamífero macho sob o ponto de vista darwiniano seria acasalar com o maior número de fêmeas possível, enquanto que a da fêmea seria acasalar com poucos e com machos que lhe dêem maior condições de cuidar da prole, isto por que o investimento de uma fêmea é muitíssimo maior que o do macho. Isto gera conflito de interesses que é “resolvido” de diferentes maneiras pelas espécies e que é determinado por condições ambientais. Poderíamos entender que a freqüência de adultérios seria maior entre homens do que mulheres, mas isto é um fenômeno populacional e não poderíamos usar esta teoria, como desculpa, para que alguém, traia ou não o marido e vice-versa.
Uma teoria científica completa tem que mostrar porque as objeções à ela levantadas estão erradas. Você não acha que os Evolucionista-darwinistas formaram uma grande unanimidade burra, com Dawkins na vanguarda, que quase nunca aceita uma crítica, por mínima que seja?
Talvez sim, se você assumir que o Dawkins é uma adaptacionista extremo, ou seja, pra ele até o lóbulo da nossa orelha é adaptativo. Não sei se é bem o caso, mas particularmente vejo a necessidade de adotar uma visão mais pluralista dos processos evolutivos e considero que isto não vai contra a linha darwinista. O problema é que as criticas ao darwinismo são muitas vezes metafísicas de cunho religioso, a evolução teria um objetivo, e com isto é difícil discutir. Como em qualquer campo da ciência, o estudo dos processos evolutivos é difícil e, às vezes circunstancial com evidências indiretas e históricas, e aquilo que não sabemos é por causa da nossa ignorância, e não dá pra apelar para as respostas metafísicas.
Já mais de uma vez li, que o evolucionismo social, isto é, aquele que leva a ferro e fogo a tal da “sobrevivência do mais forte” e então sustenta cínica e cientificamente aberrações como o nazismo, por exemplo,  é uma forma degenerada e ideológica da teoria da seleção natural. Porém quem começou com esta conversa mole foi Hebert Spencer, antes de Darwin lançar seu “Origem das Espécies”. Não seria então ao contrário? Isto é, o darwinismo ser apoiado numa teoria francamente racista? E isto não teria implicações políticas claras quando retro-alimentada por ele?
Ronaldo, Darwin pode ter lido Spencer, eram contemporâneos e Spencer era amigo de Huxley, um dos mais ferrenhos defensores de Darwin, mas certamente não usou nenhuma de suas idéias. 

 

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POR EM 28/09/2008 ÀS 02:02 PM

João do Rio entrevista Sílvio Romero

publicado em

É no jornal que têm todos estreado os seus talentos; nele é que têm todos polido a linguagem, aprendido a arte da palavra escrita; dele é que muitos têm vivido ou vivem ainda; por ele, o que mais vale, é que todos se têm feito conhecer



 

João do Rio
Entrevista feita em dia incerto de 1907

Dez dias depois de mandar o meu questionário para a Campanha, onde o mestre refundia toda a sua obra, recebi uma carta telegráfica que se pode resumir em duas frases: "É difícil. Vou ver se faço." Passaram-se mais duas semanas e outra carta surgiu: "Tanto trabalho fez-me neurastênico. Não posso responder nestes trinta dias."
 
Fiquei descorçoado. Entretanto, não esperei muito. Ainda não decorrera metade do tempo marcado para o repouso do incansável espírito, recebi com a resposta este simples bilhete: "Não pude esperar. Lá vai a coisa. Se não servir, rasgue." A coisa era esta extraordinária carta, cheia de mocidade e de fulgor: "Meu amigo. — O seu questionário pôs-me em sérios embaraços. Logo que o recebi, supus ser coisa facílima o dar-lhe imediata resposta.
 
Quando me afundei em mim mesmo, para sondar como se me tinha operado o que se poderia chamar a minha origem e formação espiritual, conheci que essa espécie de exame de consciência não era nada fácil. Achei, em minh'alma, meio velada, num semicrepúsculo subjetivo, tantas antropologias, etnografias, lingüísticas, sociologias, críticas religiosas, folclóricas, jurídicas, políticas e literárias, que tive medo de bulir com elas e me meter nesse matagal...
 
Conheci, sem esforço e para meu mal, que, se não sou ao pé da letra um cientista, não me cabe também a denominação de literato, no sentido restritíssimo que este qualificativo tem entre nós e parece ser a intuição por v. abraçada, quando diz no auto de perguntas: De seus trabalhos, quais as cenas ou capítulos, quais os contos, quais as poesias que prefere?
 
Escrevi, é certo, algumas poesias, entre os dezoito e vinte e cinco anos, que andam aí em dois volumes. Mas foi só. Não tenho romances, contos, novelas, dramas, comédias, tragédias, folhetins, crônicas, fantasias...
 
Não, nada disso. Conheci, mais e de súbito, que essas confissões de autores são coisa perigosa: se se diz pouco, parece simplicidade afetada e insincera; se se diz um tanto mais, parece fatuidade e pedanteria. Quis fugir à resposta; mas estava preso pela promessa. Palavra de tabaréu não torna atrás... Aí vai, pois.

Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram?

Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar, nem mesmo agora para lhe responder. Não tive nenhumas precocidades literárias, científicas ou outras quaisquer.
 
Quando escrevi a primeira poesia e o primeiro artigo de crítica, tinha dezoito anos e meio bem puxados e já andava matriculado na faculdade do Recife. Para lhe dizer tudo, devo partir do princípio. Faço-o com acanhamento, mas é indispensável.
 
Nestes assuntos ou tudo ou nada. Não se assuste, serei breve. Como caráter e temperamento, sou hoje o que era aos cinco anos de idade. Não se admire; é que sou, se assim posso dizer, uma vítima das duas primeiras, mais famosas e mais terríveis epidemias que devastaram o Brasil no século XIX.
 
Em 1851, ano em que nasci, foi nossa terra invadida por uma violenta epidemia de febres más, que se estendeu por várias províncias. A vila sertaneja em que nasci, em Sergipe, o Lagarto, não ficou imune.
 
Minha mãe teve a febre (supõe-se que já era a hoje nossa patrícia mui conhecida — a amarela); esteve às portas da morte, não me podia amamentar. Eu tinha seis semanas. Fui transportado para o engenho de meus avós maternos a quatro léguas de distância, na região chamada o Piauí, de um rio deste nome que ali corre águas turvas e cortadas no tempo das secas.
 
O sítio era delicioso, com trechos de mata virgem, belos outeiros fronteiriços, riachos correntes e o engenho. Este era dos de animais. São os mais poéticos nas cenas de sua movimentação especifica. Basta a almanjarra (manjarra — chama-se lá), para pôr em tudo uma nota festiva.
 
Fiquei no engenho Moreira, tal é sua denominação, até aos cinco anos. Dos três em diante a moagem era para mim um encanto. Quando os bois ou cavalos eram bem mansos, eu trepava também na almanjarra e ajudava a cantar a algum dos tangedores:
 
"Pomba voou, meu camarada,
 
Avoou, que hei de fazer?
 
Quem de noite leva a boca,
 
De dia que há de comer? "
 
Ainda agora sinto no ouvido a melodia simples e monótona desses e de outros versinhos do gênero; e invade a saudade, doce companheira a quem devo nos dias tristes de hoje as raras horas de prazer de minha vida. Tudo que sinto do povo brasileiro, todo meu brasileirismo, todo meu nativismo vem principalmente daí.
 
Nunca mais o pude arrancar d'alma, por mais que depois viesse a conhecer os defeitos de nossa gente, que são também os meus defeitos. Outra coisa me ficou incrustada no espírito, e com tanta tenacidade que nunca mais houve crítica ou ciência que dali ma extirpasse: a religião.
 
Devo isso à mucama de estimação, a quem foram, em casa de meus avós, encarregados os desvelos de minha meninice. Ainda hoje existe, nonagenária, no Lagarto, ao lado de minha mãe, essa adorada Antônia, a quem me costumei a chamar também de mãe. É um dos meus ídolos, dos mais recatados e mais queridos.
 
Nunca vi criatura tão meiga e nunca vi rezar tanto. Dormia comigo no mesmo quarto, e, quando, por alta noite, eu acordava, lá estava ela de joelhos...rezando...Bem cedo aprendi as orações e habituei-me tão intensamente a considerar a religião como coisa séria, que ainda agora a tenho na conta duma criação fundamental e irredutível da humanidade.
 
Desgraçadamente, ai de mim! não rezo mais: mas sinto que a religiosidade jaz dentro de meu sentir inteiriça e irredutível. Muito diáfana, idealizada, mas é sempre ela. Uma epidemia — a febre amarela — pôs-me fora do Lagarto, no engenho; outra, a do cólera morbus, em 1856, fez-me voltar definitivamente para a vila, para a casa de meus pais. Havia mais recursos na povoação do que no engenho, quase despovoado na escravatura pela peste.
 
As cenas do cólera de 1856 foram dolorosíssimas por quase todo Brasil. Lembra-me bem a chegada à casa paterna em meio da epidemia. Numa vasta sala (era a sala de jantar), junto a uma das paredes laterais, em colchão posto no chão, agonizava minha irmã Lídia, a primeira deste nome. Minha mãe, chorosa, sentada perto da doentinha, punha-lhe botijas de água quente, fervendo, aos pés.
 
Meu pai, ainda muito vigoroso, e um senhor que eu não conhecia (era o médico) preparavam numa mesa, ao meio da sala, um emplastro de não sei que substâncias. A menina, muito formosa, nos seus quatro anos, muito esperta, muito inteligente, muito pegada com minha mãe, só tinha, então, vida nos seus enormes olhos negros.
 
Que estranho olhar! Alumiou-me tristemente a entrada na casa de meus pais — e tem-me brilhado através da existência por cinqüenta anos seguidos sem se apagar. A volta a casa era assim feita em meio da tristeza. A peste continuou a lavrar com intensidade. Lídia morreu; minha mãe, atacada depois, esteve a se partir também. Muitos escravos de estima faleceram. Eu nada tive, mas acendeu-se-me n'alma uma tão intensa saudade do engenho, que me torturou por anos inteiros.
 
Quando, aos domingos, meus avós vinham à missa na vila, a minha alegria era sem par. Os encontros com Antônia eram festejados com lágrimas de contentamento. Mas as separações, quando tinha de regressar ao engenho! Eram o inferno.
 
Eu, criado fora até aos cinco anos, era, no princípio, como estranho aos meus irmãos mais velhos, que me faziam troças e me maltratavam muitas vezes, com essa malignidade própria dos meninos. Daí, um estado d'alma que se me produziu e ainda hoje perdura, digo-o à puridade, quer me acredite, quer não.
 
Habituei-me cedo a ser paciente, sofredor, ao mesmo tempo desconfiado, suspicaz, talvez, e, ainda por cima, resistente, belicoso. Algumas dessas qualidades são boas, parece, outras inconvenientes.

Existem em mim, encerram os germes de minhas tendências de analista e crítico. Aliadas às que tinham origem no engenho Moreira, explicam, em grande parte, toda a minha vida e toda a minha obra.
 
E eis aí porque disse, em princípio, que era vítima das duas maiores epidemias que assolaram o Brasil no século XIX. Não seria, talvez, sem razão afirmar, por outro lado, a existência de certas predisposições hereditárias:
 
a propensão analista e crítica, como devida, em grande porção, a meu pai, André Ramos Romero, português do norte, muito inteligente e muito satírico; a bonomia para não dizer de mim — a bondade, à minha mãe, Maria Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, cujo coração é uma herança de meu avô Luís Antônio de Vasconcelos, outro português do norte, de quem até hoje só descobri um igual na bondade nativa, inesgotável, espontânea, — no velho Barão de Tautfoeus.
 
Peço-lhe que me perdoe o ter aqui incluído os nomes de meus pais e avós.
 
Há disso uma razão: é que meus desafetos, por me eu assinar, a princípio, Sílvio da Silveira Ramos, para abreviar o nome, e, depois, só Sílvio Romero, por o encurtar ainda mais, andaram aí a tecer uns libelos sem graça e sem verdade. No Rio há muita gente que conheceu e conhece toda a minha família. Os senadores Olímpio de Campos e Martinho Garcez são do número.
 
A nova residência na vila, onde meu pai era negociante abastado, dos cinco aos doze anos, fortificou em mim as disposições inatas e as adquiridas. O Lagarto, naquele período, era uma terra onde os festejos populares, reisados, cheganças, bailes pastoris, taieiras, bumbas-meu-boi... imperavam ao lado das magníficas festividades da igreja.
 
Saturei-me desse brasileirismo, desse folclorismo nortista. Não devo ocultar certa ação de dois livros que foram, nos últimos tempos de escola primária, a base do ensino do meu derradeiro mestre de primeiras letras.
 
Um — o Epítome da História do Brasil, de J.P. Xavier Pinheiro, por causa da descrição de nossa terra — de Rocha Pita, que ocorre logo nas primeiras páginas: "O Brasil, vastíssima região, felicíssimo terreno, em cuja superfície tudo são frutos..." Outro, Os Lusíadas, por muitos trechos que me encantavam.
 
O Brasil da descrição de Pita ficou sendo o meu Brasil de fantasia e sentimento; a poesia de Camões ainda hoje é uma das mais elevadas manifestações da arte no meu ver e sentir, e, com seu ardente amor da pátria, fortaleceu o meu nativismo.
 
Apesar das inúmeras palmatoadas que apanhei na leitura e análise dos dois livros, nunca perdi a simpatia por Luís de Camões e pelo, mais tarde, tradutor do Dante. Da minha aprendizagem de preparatórios no Rio de Janeiro, de 1863 a 67, guardo saudosas reminiscências de cinco homens que influíram assaz no meu pensamento.
 
Padre Gustavo Gomes dos Santos, professor de latim, pelas muitas coisas que profusamente, com muito gosto e muito saber, comunicava, em aula, não só das letras antigas como das portuguesas e brasileiras. Foi quem me despertou o prazer literário. Joaquim Veríssimo da Silva, lente de filosofia, pelas exposições da metafísica alemã, principalmente de Kant, de que se mostrava grande sabedor.
 
Padre Patrício Muniz, mestre de retórica e poética, pelas excursões que, em conversa, fazia também pelos domínios germânicos, de cuja filosofia era muito admirador, combinando-a, já se vê, com a escolástica. Estes dois fizeram-me divisar ao longe os sistemas filosóficos.
 
Francisco Primo de Sousa Aguiar, a cujo cargo estavam as cátedras de história e geografia, no antigo Ateneu Fluminense, onde eu estudava, por suas admiráveis lições em que salientava o papel e o valor histórico das gentes germânicas, e pelas muitas cenas da terra alemã que, com intenso prazer e num acento muito comunicativo, punha diante dos olhos de seus ouvintes.
 
Finalmente, o barão de Tautfoeus, o ídolo da mocidade do tempo, verdadeiro tipo lendário, que a todos enchia de respeito, admiração e amor. Não foi meu lente; mas, por ser a bondade em pessoa, deu-me a honra de inúmeras palestras nos tempos dos exames, em que o procurava.
 
A filosofia da história deste sábio tinha uma raiz etnográfica poderosa, que me fez logo impressão e ficou até o presente. Aos dois últimos, é claro, devo o meu germanismo histórico, político, social, diverso do alemanismo literário, pregado em Pernambuco, por Tobias Barreto, de 1870 em diante.
 
No Recife, onde aportei em janeiro de 1868, e onde permaneci até 1876, levei os dois primeiros anos calado, no estudo das disciplinas que, até aos dias atuais, me têm preocupado mais. As influências ali recebidas não fizeram senão desenvolver o que em mim já existia, desde os tempos do engenho, da vila, da aula primária e dos preparatórios. As três primeiras leituras que fiz no Recife, por um feliz acaso, me serviram para abrir definitivamente o caminho por onde já tinha enveredado, fortalecendo as velhas tendências.
 
Foram um estudo de Emílio de Laveleye acerca dos Niebelungen e da antiga poesia popular germânica, um ensaio de Pedro Leroux sobre a Gothe e um livro de Eugênio Poitou sob o título — Filósofos Franceses Contemporâneos. O primeiro meteu-me nessas encantadas regiões de folclore, crítica religiosa, mitologia, etnografia, tradições populares, que me têm sempre preocupado. O segundo nas acidentadas paragens da crítica literária moderna, que tanto me tem dado que fazer.
 
O terceiro no mundo áspero e movediço da filosofia, em que me acho nas mesmas condições. Mas tudo isso já vinha de trás. Aí ficam as várias cenas do 1º ato — As Origens — de minha vida espiritual.
 
Como, depois, me orientei de tudo isso, por entre as leituras e estudos que tenho feito por quarenta anos ininterruptos, o que aprendi dos mestres, o que tirei de mim próprio, isto é, o 2º ato do drama — A Formação — deixo de indicar, porque já me vou tornando secante. A crítica indígena que o procure por si mesma descobrir e refazer, se achar nisso algum interesse.
 
Deixei para o fim a influência em mim exercida por Tobias Barreto, para ter o prazer de destacá-la com mais força. Não recebi dele propriamente idéias; aprendíamos, por assim dizer, em comum.
 
Dele aproveitou-me intensamente, e nunca fiz disso mistério, o entusiasmo de combater, o calor da refrega, o ardor da luta, o espírito de reação, a paixão das letras, o amor pela vida do pensamento, pelo espetáculo das idéias. E assim, penso, meu caro João do Rio, tenho respondido ao seu primeiro quesito. 

Das suas obras, qual a que prefere?

Ao segundo, pondo de parte uma fingida modéstia que nunca tive, e sem perder a cabeça em julgá-los mui grande coisa, declaro que se se pode assim falar, de meus trabalhos prefiro todos, porque cada um deles visou um fim e teve função especial. Me gustan todos... Desculpe a rude franqueza de nortista. 
 
Lembrando separadamente a prosa e a poesia contemporâneas, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário, há novas escolas (romance social, poesia de ação, etc.) ou há a luta entre antigas e modernas? Neste último caso, quais são elas? Quais os escritores contemporâneos que as representam? Qual a que julga destinada a predominar?

O terceiro ponto do questionário se me antolha coisa para ser discutida em estudo aprofundado. O momento atual parece-me um momento de simples parada, não de decadência. O mesmo se deu em começos do século XVIII depois de Gregório de Matos e Antônio Vieira, que se pode considerar brasileiro pela ação; o mesmo nos princípios do século XIX, após o surto da escola mineira. É o que se nota na própria Europa.
 
Fazendo mais de perto a distinção da poesia e da prosa, não me parece que esteja esta pujante no momento de agora e a outra decadente. Apurando bem os prós e os contras, eu me decidiria antes pela poesia. Estão ainda vivos e na força da mocidade e vigor do talento seis, pelo menos, dos melhores poetas que o Brasil tem produzido. Fazem ainda verdadeira a sentença de ser o lirismo a mais fulgurante manifestação da estesia pátria.
 
O desenvolvimento dos centros-literários dos Estados tenderá a criar literaturas à parte?

À quarta pergunta respondo sem hesitar: a função literária e intelectual de nossas antigas províncias não é a de criarem literaturas à parte, como, com alguma ironia, se alvitra no Rio de Janeiro, depois que o saudoso Franklin Távora falou em literatura do Norte.
 
Não foi no sentido incriminado o seu pensamento, com o chamar a atenção para as tradições, os costumes, as cenas nortistas e com o aludir aos bons talentos daquela zona. A sátira é escusada, ainda que parta principalmente de provincianos acariocados. A função das províncias, prefiro lhes chamar assim, do norte, sul, centro e oeste, é a de produzirem a variedade na unidade e fornecerem à Capital os seus melhores talentos.
 
Sempre foi isto desde os tempos de Silva Alvarenga, dos Andrada, Cairu, Odorico Mendes, até Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Coelho Neto, Raimundo Correia, Artur e Aluísio Azevedo, Luís Murat, José do Patrocínio, Graça Aranha, Araripe Júnior, Afonso Celso, Arinos, João Ribeiro, José Veríssimo, Capistrano de Abreu, Fausto Cardoso, Melo Morais, Teixeira Mendes... e duzentos mais, passando por Gonçalves Dias, Alencar, Porto Alegre, Macedo e as mais vivas figuras do romantismo.
 
Inútil é lembrar os políticos cujo número é legião. Pelo que se refere ao quinto e último quesito, afirmo convicto, posto nunca tivesse sido um homem do ofício, que o jornalismo tem sido o animador, o protetor, e, ainda mais, o criador da literatura brasileira há cerca de um século a esta parte.
 
É no jornal que têm todos estreado os seus talentos; nele é que têm todos polido a linguagem, aprendido a arte da palavra escrita; dele é que muitos têm vivido ou vivem ainda; por ele, o que mais vale, é que todos se têm feito conhecer, e, o que é tudo, poderia ser mais se houvesse um acordo e junção de forças; é por onde os homens de letras chegam a influir nos destinos deste desgraçado país entregue, imbele, quase sempre à fúria de politiqueiros sem saber, sem talento, sem tino, sem critério, e, não raro, sem moralidade... E aqui faz ponto seu admirador."
 
Não é preciso fazer o elogio desta carta cheia daquele espírito que o filósofo chamava de eterno... 

 

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