revista bula
POR EM 27/06/2009 ÀS 09:12 AM

O homem é maior do que toda a técnica

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Carlos Nejar


Poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário, Carlos Nejar é um dos grandes nomes de sua geração. Também chamado de "o poeta do pampa brasileiro", é autor de obras importantes como “Casa Dos Arreios”, “O Poço do Calabouço”, Um País o Coração”, “Memórias do Porão”, “Carta Aos Loucos”. Nejar traduziu obras de Jorge Luis Borges e Pablo Neruda. É membro da Academia Brasileira de Letras desde 1988. No mês de abril foi uma das atrações da 2ª Bienal do Livro de Goiás, na qual lançou “O Derradeiro Jó”, editado pela RF Editora, de Goiânia. Em entrevista ao Jornal Opção, republicada nesta edição da Bula, Carlos Nejar falou sobre o novo livro e sobre o fato de ter escolhido uma editora goiana para lançá-lo: “À medida que eu valorizo o Estado de Goiás, estou valorizando o Brasil”. Também falou sobre ficção: “O problema da ficção brasileira contemporânea é a falta de pensamento. São mágicos, mas não pensam”. Tradução: “Traduzir é hospedar”. E poesia: “A poesia está acima de contingências sociais. A verdadeira poesia é aquela que sabe voar”. Ao final, sintetizou em uma frase: "Eu estou com 70 anos e essa foi a melhor entrevista que dei. Vocês me bateram e me forçaram a dar a minha melhor entrevista”. Participaram os escritores Edival Lourenço, Valdivino Braz, Delermando Vieira, Brasigóis Felício e Gabriel Nascente. 

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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

Estilhaços do bagaço — Entrevista com Nicolas Behr

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A poesia reunida de Nicolas Behr rendeu um ótimo refresco de laranja (com toques de vodka e outros ingredientes mais excitantes…), que poderá ser desfrutado pelos leitores goianos a partir do dia 1º de julho, quando será lançada a coletânea "Laranja Seleta", finalista do Prêmio Portugal Telecom de 2008. O livro, publicado pela editora Língua Geral, é um apanhado da vigorosa obra de uma das lendas da poesia brasileira. Trata-se do primeiro lançamento de Behr, que vive em Brasília, por uma editora – seus mais de 20 livros anteriores foram inteiramente produzidos e comercializados pelo próprio poeta. O lançamento ocorrerá na quarta-feira (1º/7), a partir das 19h, no Café Cultura do Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro (Rua 3, Centro). Na ocasião, o poeta goiano Carlos Willian Leite lança o livro "Noves Fora: Nada". Poesia em dose dupla que requer apreciação atenta por parte dos leitores daqui. Leia a seguir uma descontraída entrevista feita com Nicolas Behr (detalhe: no meio do encontro, o poeta arrancou o microfone das mãos do repórter e passou a fazer, ele mesmo, as perguntas).

 

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POR EM 15/05/2009 ÀS 09:27 PM

Questionário Proust: Nelson Moraes

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Nelson MoraesNelson Moraes, 45 anos, é uma lenda entre os blogueiros brasileiros. Foi um dos pioneiros no Brasil. Bacharel em direito, ex-bancário, ex-professor, criou em 2002 o blog “Praia do Nelson”, que mais tarde se tornaria Ao Mirante, Nelson, em uma época em que os blogs eram apenas espaços confessionais, onde pessoas mantinham informações sobre suas vidas pessoais. Nelson Moraes fez o caminho contrário: escrevia (e continua) sátiras, paródias e ficção. Ganhou fãs, adeptos seguidores, e, sobretudo, um capítulo definitivo na história dos blogs brasileiros. Embora seu blog esteja hospedado em um grande portal — InterNey Blogs — ele é editado a partir de Goiânia, cidade em que mora desde 1968.



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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:59 PM

Entrevista Castro Alves

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Sou um homem que escreve e declama seus poemas. Por amor, por compulsão e por herança. Um poeta brasileiro nascido em 14 de março de 1847 lá na fazenda Cabaceiras, sete léguas distante de Curralinho. Um baiano do sertão. Meus pais foram o doutor Antônio José Alves e dona Clélia Brasília da Silva Castro, que também nasceu em um 14 de março. A família mudou para Salvador quando eu tinha sete anos de idade. Aqui completei o curso primário e fiz o ginasial. Aos 15, em 1862, eu e meu irmão José Antônio fomos morar no Recife para fazer o Curso Anexo, um ano de aulas preparatórias que habilitavam às provas da Faculdade de Direito, onde fiz o 1º e o 2º ano. Lá, ainda em 62, pela primeira vez tive um poema publicado pela imprensa, “A destruição de Jerusalém”, no Jornal do Recife. No ano seguinte saiu no nº 1 de um jornal acadêmico, chamado A Primavera, o meu primeiro poema contra a escravidão: “A canção do africano”. Em 68, fui para São Paulo continuar meus estudos jurídicos. Completei apenas o 3º ano, sem bacharelar-me por conta de problemas relacionados à saúde.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:46 PM

Entrevista Mia Couto

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Mia Couto, fala sobre o novo romance, sobre a comunidade dos países de língua portuguesa, e sobre o sim ou não ao acordo ortográfico
 


Gil Felipe
Maputo - Moçambique
Jornal
Notícias

Pelo que percebi percorrendo de as páginas de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, este livro é uma viagem à uma outra vertente da cultura, como os encontros e as divergências de perspectivas de ver o mundo, de procuras e encontros de identidade... É isso?

 Eu acho que desde o meu primeiro livro há um tema que nunca me abandonou que é o tema da procura de identidades. Estas identidades que nós pensamos como sendo puras, isoladas e estáticas, não são nada disso e pelo contrário são dinâmicas. Este livro fala um bocadinho sobre isso, sobre uma mestiçagem que não é apenas racial mas uma mestiçagem de culturas. Evidentemente que a história é uma outra coisa, mas de uma forma indirecta falo também sobre isso.

Falando essencialmente deste livro, exactamente o que são, na perspectiva de quem escreveu, estes remédios e estes venenos?

É uma história de encontros e desencontros, de alguém que pensa que vai encontrar alguém, e que não encontra, e que pensa que vai encontrar numa determinada terra, que lhe aparece na aparência, é uma outra coisa. Quer dizer, esta terra é uma espécie de cenários, de imagens e de representações que são sempre falsas. Portanto, há aqui uma fabricação de mentiras, pois para existir esse lugar é preciso mentir sobre si próprio. Aqui há uma família que vem de fora e que tem que construir uma encenação para conseguir o tipo de relação com essa pessoa que vem de fora. Este livro nasceu quase acidentalmente. Estava eu a escrever outro livro, que acabei adiando, quando me surge a ideia desta história. Foi por acidente que saltei para esta história, pequena e que foi crescendo, que começou a chamar-me, a prender-me e de repente fiquei nela e abandonei o romance logo que tenho e que vai sair posteriormente.

Naquilo que é a obra, deparo-me com dois factos: o primeiro é que sempre que escreve é atrás de um tema. E segundo é que esse tema tem a ver com um espaço específico, Moçambique. Mas nota-se agora a ausência disso. Estará o novo romance a marcar uma viragem na sua escrita?

Como tu podes imaginar, quando se chega a determinado estágio daquilo que é o nosso percurso – este é o meu 23º livro -, há uma tentação enorme em escrever mais um livro. O risco é esse, sentir-se sempre tentado e a fazer mais um livro e encarar isso de uma maneira quase banalizada, pois perdemos aquela atitude e aquela paixão intensa que marca o primeiro livro, o que é grave.

Substituímos esse pensamento e sentimento pela procura do tal livro que nem sequer sabemos o que é e como é que o devemos escrever. Portanto, eu quis que este livro trabalhasse dentro de mim como uma surpresa, rompendo com algumas coisas e com algumas linhas que eram linhas minhas habituais. Este é um livro mais ou menos universal, portanto esta história podia ocorrer em qualquer lado do mundo e também menos crível a factos históricos, embora aqui, curiosamente, apesar de estar a navegar um pouco pelo mundo faço uma coisa que nunca fiz, como pôr referência de lugares precisos, como, por exemplo, Murébuè, Pemba, o que nunca tinha feito anteriormente, embora me referisse a Moçambique pelo contexto mas pondo lugares fictícios...

Perguntava se é uma viragem, essa, na sua escrita? É assim que passará a escrever?...

Sim, há um bocado de viragem, mas não sei se é exactamente assim que passarei a escrever. Não sei, não sei. Apenas quis soltar-me de algumas coisas e no domínio da construção da linguagem eu faço uma coisa que eu penso que é nova, como, por exemplo sou mais comedido na invenção de palavras, fazendo-o só quando era preciso e não como um factor de busca literária ou marca. Por outro lado, o lugar do narrador é um lugar que aparece pela primeira vez num livro meu como personagem também; ele entra na história, tem opiniões, dialoga com as outras personagens, o que faz com que a fronteira entre o narrador e os outros intervenientes da história é sacudida.

Quando fazemos algo durante um longo fio de tempo corremos o risco de ser monótonos e não causar impressão aos receptores do nosso trabalho. Por isso procuramos desafios. Quais são os seus, depois de mais de 20 livros?

Olha, eu fico sempre com o sentimento, com a impressão de que ainda não escrevi o tal livro que eu quero escrever. Esse é um fenómeno existente e penso normal junto de quem abraça a escrita. De qualquer maneira não me sinto satisfeito, há em mim uma intranquilidade e uma inquietação que nos faz correr para além do que já fizemos. Acho que isso é que nos move não como escritor mas como pessoa, pois todos nós estamos sempre à procura de uma coisa que está sempre mais além e mais além...

 ... mas tem algumas ambições na carreira...

Não, não! Não tenho ambição do ponto de vista de carreira. Mas gostava de manter comigo próprio uma relação em que possa inventar mais. Eu penso que há mais coisas que eu posso inventar, mais personagens, mais vidas que eu posso criar dentro de mim. A felicidade que a escrita me dá vem sobretudo do facto de eu poder ser outro, ser determinado personagem que eu próprio criei, e, como podes imaginar, isso não tem fim, eu quero ser infinito e quero ser eterno. Encontrei uma maneira de mentir a mim próprio me multiplicando em pessoas e em personagens que eu vou criando.

O facto de ser o escritor moçambicano mais lido aqui e no estrangeiro, lá por via das várias traduções aos seus livros, cria-lhe alguma pressão, satisfação ou algum outro sentimento?

É uma mistura de sentimentos. É assim: há alguma coisa que me dá prazer nisso, eu tenho algum orgulho e alguma vaidade pelo facto de que esse reconhecimento me foi dado. Às vezes fico muito comovido, na rua por exemplo, quando muita gente, que provavelmente nunca leu os meus livros mas que me dizem coisas como “você é uma espécie de bandeira nossa, continue...” Encaro isso como mensagens de grande gratidão da parte das pessoas que assim se pronunciam e fazem de mim uma pessoa grata por tudo o que tenho vindo a fazer. Às vezes pergunto-me a mim próprio se eu mereço isso. Mas por outro lado sinto isso como uma responsabilidade que eu acho que não quero ter, eu não posso definir-me a mim próprio como sendo representante de alguma coisa. Tenho todo o prazer em que o meu nome esteja associado ao nome do país, de uma terra que ainda tem que se afirmar, e me orgulho por isso. Mas não estou em lugar cimeiro de nada, olho para mim como um aprendiz que se sente no princípio da sua própria carreira. Estou disponível para aprender e para rever a mim próprio, porque o que fiz já não conta, conta o que tenho ainda a fazer, estando aí a beleza de ser escritor.

Em 2007 dismistificou a ideia de lusofonia, um conceito por vezes polémico ou mesmo ignorável pela forma como tem sido definido. Qual é a sua percepção sobre a tal comunidade de países de língua portuguesa?

Bom, há uma organização que se chama CPLP, que está fazendo coisas, reúne-se, tem comissões de trabalho, etc., e eu acho que por aqui essa organização existe e ninguém pode negar. E depois existe outra coisa que se pode questionar que é se isso tem correspondência de uma comunidade de afectos, de uma comunidade de interacção. E eu acho que esta existe também, não da maneira como os políticos a querem apresentar mas existe. A língua portuguesa deu-nos uma certa afinidade histórica. Aqui na língua temos que ter algum cuidado, porque se queremos construir uma família, uma comunidade... Temos que pensar que alguns moçambicanos, alguns angolanos e alguns guineenses, não falam português. Há outros casos, também, como o de Timor Leste, em que dizemos falsamente que é um país de língua portuguesa. É uma coisa falsa e desorientada politicamente e culturalmente dizer que aquele país é de língua portuguesa. Timor não é um país de língua portuguesa nem a maioria dos timorenses fala português.

Por esse andar é correcto definir Moçambique como um país de língua portuguesa?

Moçambique é um país que é de língua portuguesa! E não é ao mesmo tempo. Alguns moçambicanos é que pertencem à esse universo, o de terem a língua portuguesa como o seu veículo de identidade, de afirmação cultural, etc. São poucos os moçambicanos que falam, escrevem, sonham, amam na língua portuguesa. E não são menos moçambicanos por isso nem os outros mais moçambicanos pelas outras línguas que usam. Eu acho que há aqui uma tentativa de procurar a identidade moçambicana sempre lá, nas raízes, há séculos, quando provavelmente tiveram a mesma mobilidade, como o changana que existe hoje não é o mesmo de há 50 anos ou antes da chegada dos ngunis. Portanto, eu acho que essa comunidade, a de língua portuguesa, existe de facto. Penso que a questão a colocar por volta dela é se ela é mesmo aquilo que nós queremos que seja. Eu acho que o grave é haver manipulações...

 ... da parte de quem?

Da parte dos que querem ser mais que os outros, dos que disputam os outros! Eu acho que a disputa é entre Portugal e Brasil, que querem usar esta bandeira como instrumento de busca de privilégio na relação com os outros países de língua portuguesa. E às vezes há aqui uns lapsos de língua quando eles se referem aos outros como os lusófonos, quando os portugueses falam em “países lusófonos” excluindo-se eles próprios e querendo referir-se apenas a nós, países africanos de língua portuguesa. Às vezes estabelecem um eixo triangular da lusofonia, composto por Portugal, Brasil e depois África, como se nós não tivéssemos direitos a nomes próprios como países. A lusofonia de que se fala tem sete ou oito países, contando com Timor Leste. Mas também não vou ficar a aceitar a alguns pronunciamentos que se fazem entre nós. Eu sou adepto da crítica, desde que devidamente fundamentada.

A comunidade de língua portuguesa é então utópica, existindo muito pouco na prática, por essa ausência de entendimento e por esse contínuo digladiar de gigantes que nos querem definir em função dos seus interesses...

Penso que fazer uma recusa total da lusofonia, de uma comunidade de falantes de língua portuguesa no mundo, de que nós fazemos, parte, não é correcto. Porque essa comunidade pode nos servir em muitos momentos, como o que mais ou menos se verifica agora, em que o processo de globalização é muito forte e nos pode sufocar. Talvez essa afirmação de um espaço próprio, onde nós temos alguma coisa a dizer, é bem mais útil que as perdas de tempo que temos tido ao rejeitarmos aquilo que por razões óbvias não se pode rejeitar. Não nos esqueçamos que com o Brasil temos afinidades históricas importantíssimas que muitas vezes esquecemo-nos que elas existem e que são intrínsecas à existência de todos nós. Há coisas que nós devíamos recuperar e valorizar historicamente e se calhar isso nos criaria um espaço de afirmação e de negação dessa globalização e de homogeneização do mundo que me parece se está a tentar construir por algumas correntes de pensamento e de atitude.

O que está a dizer é que é importante haver uma organização como esta mas operando de um modo que não é o que caracteriza o agora andamento da CPLP...

Não sei se é isso, mas penso que isso é outra coisa. Não vou avaliar a qualidade do funcionamento da organização, mas sinto que ela é pouco visível, é pouco participativa e apela muito pouco para que nós participemos nela, por exemplo para aquilo que possam ser as nossas sugestões. Eu acho que também aqui ao invés de ficarmos no café ou no sofá a dizer mal, se calhar devemos levantar as nossas vozes para dar a sugestão de como é que gostaríamos que fosse esta organização que pretendemos seja mesmo uma comunidade de países.

Outro ponto que suscita debates no seio dos países que usam o português como língua oficial é o acordo ortográfico. Temos nós e Portugal um código de escrita, o Brasil o seu... A harmonização trás um braço-de-ferro entre Portugal e Brasil, que tentam arrastar os outros para a sua filosofia. De que lado é que está?

De nenhum! Estou do lado de Moçambique. A minha opinião é uma opinião de escritor e de cidadão. Eu nunca tive problemas em ler livros brasileiros. A grafia ligeiramente diferente não me faz confusão. O Brasil lê os meus livros e lê os livros da Paulina Chiziane sem problema nenhum. Pelo contrário acho que há da parte dos brasileiros um certo encanto ao se aperceberem que se trata de uma realização linguística diferente. Portanto, não penso que seja de grande importância a questão do acordo ortográfico. Mas respondendo à sua pergunta, não faço guerra contra o acordo mas não sou a favor dele. Eu acho que o importante era discutir outras coisas que nos afastam e mantêm o enorme desconhecimento que há entre nós. O Brasil não sabe muito de Moçambique. Portugal idem. Eu acho até que os moçambicanos sabem muito mais sobre os outros do que os outros sabem sobre nós. Os moçambicanos são mais atentos em relação ao mundo e têm a capacidade de olhar para o mundo de uma maneira muito mais crítica, no sentido de conhecê-lo e por isso estarem dotados de opinião credível, o mesmo não acontecendo com muitos daqueles com quem nos relacionamos.

Dizia que o mais importante não é o acordo. É...

... é e são muito mais coisas como estas que eu estava a enunciar. No domínio da cultura há muito mais a unir-nos e a afastar-nos. Há acções culturais que temos que fazer para que os livros circulem melhor entre nós, o que francamente não está a acontecer agora. Com uma ortografia ou outra se não mudarmos essas coisas não estaremos a caminhar juntos. A importação do livro deve ser repensada, porque não é fácil sobretudo para nós, os mais pobres. Deve-se pensar nas edições conjuntas, divulgação do que é que estamos a fazer, o que é que é a história comum destes povos, os seus patrimónios de identidade comum desses povos, tudo isso é mais importante que tentar buscar um acordo para a ortografia da língua.  

 

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POR EM 05/12/2008 ÀS 09:46 PM

Os diamantes de Levi e Roth

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"Em Auschwitz, observei muitas vezes um fenômeno curioso. A necessidade do lavoro ben fatto — o “trabalho feito corretamente” — é tão forte que induz as pessoas a se desincumbir “corretamente” até mesmo de um trabalho escravo. O pedreiro italiano que me salvou a vida, levando-me comida às escondidas durante seis meses, odiava os alemães, a comida deles, a língua deles, sua guerra; mas, quando o puseram para erguer paredes, ele as construiu firmes e sólidas, não por obediência, mas por dignidade profissinal"



A entrevista de Primo Levi a Philip Roth, feita há 21 anos, mostra primeiro um grande entrevistador (o resultado, pois, é tanto uma entrevista quanto um diálogo entre “iguais”), cônscio da obra e da vida do autor italiano, e, depois, um também grande entrevistado. Como aparentemente o texto nunca foi lançado em livro no Brasil, nem republicado pelo Estadão — estando fora, digamos, de “catálogo”, inacessível ao público —, e sobretudo por que se trata de uma entrevista valiosa, a Revista Bula a republica no Brasil.
 
Infelizmente, não há registro, no caderno Cultura , do jornal paulista, de quem a traduziu. Ao digitar o texto, mantive a grafia original de alguns palavras (fiz algumas poucas correções) e os títulos das obras de Primo Levi, felizmente, 21 anos depois, bem editado no Brasil, tanto como memorialista quanto como prosador.
 
A Rocco publicou as memórias É Isto um Homem? , em 1988, um ano depois da entrevista de Levi a Roth. É um dos mais poderosos relatos de um judeu que sobreviveu em Auschwitz. A Companhia das Letras editou o romance A Trégua , em 1997, Se não Agora, Quando? , em 1999, e 71 Contos de Primo Levi , em 2005. A Paz e Terra lançou Os Afogados e os Sobreviventes , em 2004. O Último Natal de Guerra saiu pela Berlendis & Vertecchia, em 2002. A Relume-Dumará publicou A Tabela Periódica , em 2001. Primo Levi nasceu em 1919 e morreu em 1987, no ano da entrevista a Roth.
 
 
Primo Levi
Um homem de múltiplas habilidades
Entrevista a Philip Roth, do New York Times Book Review  
 
Naquela sexta-feira de setembro, quando cheguei a Turim — para reatar com Primo Levi uma conversa que havíamos começado certa tarde, em Londres, na primavera anterior — pedi-lhe que me mostrasse a fábrica de tintas onde ele havia trabalhado primeiro, como químico pesquisador e, depois, como gerente, até aposentar-se. Ao todo, a empresa tem cinqüenta funcionários, principalmente químicos que trabalham nos laboratórios e operários qualificados. A fileira de tanques de armazenamento, o prédio do laboratório, o produto final em containers da altura de homens, prontos para embarque, a unidade de reprocessamento que recicla as sobras — tudo isso está compreendido em quatro ou cinco acres, a uma distância de uns dez quilômetros de Turim. As máquinas para secagem de resina e mistura de verniz e as que bombeiam poluentes não fazem um barulho excessivo; e o cheiro acre do pátio — o cheiro, disse-me Levi, que ficou impregnado em suas roupas por dois anos depois que ele saiu — não é absolutamente desagradável; e o tanque cheio de resíduo preto limboso que resulta do processo antipoluente não é particularmente agressivo à vista.
 
Não se poderia dizer que esta seja a paisagem industrial mais feia do mundo, mas está muito longe, porém, daquelas frases de tintas carregadas que constituem a marca registrada das narrativas autobiográficas de Levi. Por outro lado, embora nada tenha de literário, é um lugar que nitidamente lhe diz muito. Partindo do que poderia ser o barulho, o fedor, o mosaico de bombas, tonéis, tanques e diais, lembrei-me de Faussone , o habilidoso aparelhador que aparece em The Monkey 's Wrench, quando ele diz a Levi — que chama Faussone de “meu alter ego”: “Vou lhe dizer uma coisa, estar por perto de um lugar de trabalho é algo que me agrada”.
 
Enquanto nos dirigíamos à seção de laboratório onde as matérias-primas são selecionadas antes de entrar em produção, perguntei a Levi se ele conseguia identificar aquele tênue aroma químico que se insinuava pelo corredor. Para mim, tinha um pouco o cheio de um corredor de hospital. Ele levantou só um pouco a cabeça e expôs as narinas ao ar. Com um sorriso, disse-me: “Entendo esse cheiro e posso analisá-lo como um cão”.
 
Ele me parecia interiormente animado mais à maneira de um azouguezinho selvagem dotado da mais astuta inteligência da floresta. Levi é baixinho e vivo, embora não tenha uma compleição muito delicada, e parece ser ainda tão ágil quanto deve ter sido aos dez anos. Em seu corpo, em seu rosto, vê-se — como não se vê na maioria dos homens — o rosto e o corpo do menino que ele foi. Sua vivacidade é quase palpável, e dentro dele pulsa um entusiasmo que é como uma chama piloto.
 
Talvez não seja tão surpreendente descobrir-se que os escritores, como o resto da humanidade, dividem-se em duas categorias: os que ouvem a gente e os que não ouvem. Levi ouve, e com o rosto todo, um rosto precisamente moldado que termina num cavanhaque branco que, aos 67 anos, lhe dá ao mesmo tempo um ar de jovialidade do deu Pã e um ar professoral, a cara da curiosidade irreprimível e do respeitado dottore .
 
Acredito em Faussone, quando ele diz a Primo Levi, no começo de The Monkey's Wrench : “Você é mesmo um moleque, me fazendo contar essas histórias que nunca contei a ninguém, exceto a você”. Não seria de admirar que as pessoas estivessem sempre contando coisas a ele, e que tudo seja fielmente registrado antes mesmo de ser escrito: enquanto ouve, ele fica tão quieto e concentrado como um esquilo listrado espionando algo desconhecido do ato de um paredão.
 
Num grande prédio de apartamentos, construído alguns anos antes de ele nascer — e ele próprio nasceu aí, pois essa era, antigamente, a casa de seus pais — Levi mora com a mulher, Lucia. Exceto pelos anos que passou em Auschwitz e pelos meses de aventuras imediatas após sua libertação, ele morou aí a vida inteira.
 
A mãe dele ainda mora com o casal, aliás desde que Primo e Lucia se conheceram e casaram, depois da guerra. Tem 91 anos. E a sogra dele, de 95 anos, mora perto, no apartamento pegado ao de seu filho de 28 anos, que é físico. E a apenas algumas ruas dali mora a filha de 38 anos, que é botânica. Não conheço, pessoalmente, nenhum outro escritor contemporâneo que tenha continuado, durante tantas décadas, tão intimamente ligado, e num contato tão direto e ininterrupto, à família, ao lugar onde nasceu, à sua região, ao mundo de seus ancestrais, e, principalmente, ao universo de trabalho local — o qual, em Turim, pátria da Fiat, é amplamente dominado pela indústria.
 
De todos os artistas intelectualmente dotados deste século — e a unicidade de Levi reside no fato de ele ser ainda mais um artista-químico do que um químico-escritor — talvez seja ele o mais bem adaptado à totalidade da vida que o cerca. Talvez, no caso de Primo Levi, uma vida de inter-relacionamento comunal, juntamente com sua obra-prima Suvirval in Auschwitz , constitua sua resposta profundamente civilizada e cheia de verve àqueles que fizeram tudo o que podiam para interromper sua ligação persistente e apagá-la, juntamente com os de sua espécie, da face da História.
 
Em The Periodic Table , num parágrafo que começa pela mais simples das frases para descrever um dos processos mais gratificantes da química, Levi escreve: “A destilação é bela”. O que se segue é também uma destilação, uma redução dos pontos essenciais da conversa viva e abrangente que mantivemos, em inglês, durante um longo fim de semana, em sua maior parte no escritório calmo do apartamento dos Levi, a portas fechadas. O escritório é uma peça ampla, simplesmente mobiliada, com um velho sofá florido e uma poltrona confortável. Na escrivaninha, um processador de palavras, coberto, e atrás dela, dispostos em perfeita ordem em prateleiras, os cadernos de notas de Levi, em cores bem variadas. Em prateleiras dispostas por toda a peça, há livros em italiano, alemão e inglês. Mas o objeto mais evocativo é um esboço, modestamente pendurado na parede, mostrando uma cerca de arame farpado meio destruída em Auschwitz. Já em lugares de maior destaque, nas paredes, há composições cujas formas foram habilmente modificadas pelo próprio Levi, e que ele fez a partir do fio de cobre isolado e revestido com o verniz desenvolvido por ele, pare esse fim, em seu próprio laboratório. Uma dessas composições é uma grande borboleta de arame, e há ainda uma coruja de arame, um escaravelhozinho de arame, e, bem no alto da parede, por trás da escrivaninha, estão duas de suas maiores peças de arame: uma é um pássaro guerreiro armado com uma agulha de tricô; a outra, conforme Levi me explicou quando consegui distinguir o que ela representava, é “um homem limpando o nariz”.
 
— Um judeu, sugeri.
 
— É sim, um judeu, claro — disse ele, rindo.
 
 
A ENTREVISTA 

 
Roth - Em The Periodic Table , seu livro que fala do “gosto forte e amargo” de sua experiência como químico, você fala de uma colega sua, a Giulia, que explica a sua “mania pelo trabalho” atribuindo-a ao fato de você, na casa dos vinte e poucos anos, ter sido um homem tímido ante as mulheres e não ter tido namorada. Mas ela estava enganada, creio eu. A sua verdadeira mania pelo trabalho vem de algo mais profundo. O trabalho parece ser seu tema obsessivo, até no seu livro sobre sua prisão em Auschwitz.
 
Arbeit Macht Frei ( O Trabalho Liberta ) — eram as palavras inscritas pelos nazistas sobre o portão de Auschwitz. Mas trabalhar em Auschwitz é uma horrorosa paródia do trabalho, inútil e sem sentido — o trabalho como castigo, conduzindo à morte em agonia. É possível visualizar todo o seu labor literário como algo dedicado a restituir ao trabalho o seu sentido humano, resgatar a palavra Arbeit do cinismo enganador com o qual os seus empregadores de Auschwitz a desfiguraram. Faussone diz a você: “Cada emprego que assumo é com um primeiro amor”. Agrada-lhe falar sobre seu quase tanto quanto lhe agrada trabalhar. Faussone é o Homem Operário que se torna verdadeiramente livre através de seu trabalho. 
 
Levi - Não acho que Giulia estivesse errada ao atribuir minha paixão pelo trabalho ao fato de eu, naquela época, ser muito tímido em relação às moças. Essa timidez, ou inibição, era verdadeira, penosa e carregada, muito mais importante para mim do que a devoção ao trabalho. O trabalho na fábrica de Milão, que descrevi em The Periodic Table , era uma paródia em que eu não confiava. A catástrofe do armistício italiano de 8 de setembro de 1843 já estava no ar, e teria sido uma besteira ignorá-la, mergulhando-se numa atividade cientificamente insignificante.
 
Nunca tentei analisar seriamente essa minha timidez, mas não há dúvida que as leis raciais de Mussolini desempenharam aí um papel importante. Outros amigos judeus também sofreram com isso, alguns colegas “arianos”, na escola, divertiam-se conosco, diziam que a circuncisão não passava de castração, e nós, pelo menos em nível inconsciente, tendíamos a acreditar nisso, com a ajuda de nossas famílias puritanas. Acho que, naquela época, o trabalho foi, para mim, realmente uma compensação sexual, mais do que uma verdadeira paixão.
 
Apesar disso, tenho plena consciência de que, depois do campo, o meu trabalho, ou antes, os meus dois tipos de trabalho (a química e a literatura) desempenharam e ainda desempenham um papel essencial em minha vida. Estou convencido de que os seres humanos normais são biologicamente construídos para uma atividade que visa um objetivo, e que o trabalho estéril ou sem sentido (como o Arbeit de Auschwitz) causa o sofrimento e a atrofia. No meu caso, e no caso do meu alter ego Faussone, o trabalho se identifica com a “solução do problema”.
 
Em Auschwitz, observei muitas vezes um fenômeno curioso. A necessidade do lavoro ben fatto — o “trabalho feito corretamente” — é tão forte que induz as pessoas a se desincumbir “corretamente” até mesmo de um trabalho escravo. O pedreiro italiano que me salvou a vida, levando-me comida às escondidas durante seis meses, odiava os alemães, a comida deles, a língua deles, sua guerra; mas, quando o puseram para erguer paredes, ele as construiu firmes e sólidas, não por obediência, mas por dignidade profissinal.
  
Roth - Survival in Auschwitz termina com um capítulo intitulado “A História de Dez Dias”, onde você descreve, na forma de diário, a maneira como agüentou de 18 a 27 de janeiro de 1945, no meio de um pequeno contingente de pacientes doentes e moribundos, na enfermaria provisória do campo, depois de os nazistas terem fugido para o Oeste, levando uns 20.000 prisioneiros “saudáveis”. O que se conta, ali, soa-me como a história de Robinson Crusoé no inferno, como você, Primo Levi, no papel do Crusoé, arrastando aquilo de que precisava para viver, arrancando-o ao que sobrou de uma ilha cruelmente má. O que me impressionou aí, assim como em todo o livro, foi a extensão em que o pensar contribuiu para a sua sobrevivência, o pensamento de um espírito prático, humano e científico. A sua não me parece uma sobrevivência que tenha sido determinada nem pela força biológica bruta nem por uma sorte incrível, mas sim que se alicerçava, ao contrário, no seu caráter profissional: o homem de precisão, o controlador de experiências que busca o princípio da ordem, e que se defronta com a perversa inversão de tudo aquilo a que ele dá valor. Não há a mínima dúvida de que você era uma parte numerada de uma máquina infernal, mas uma parte numerada com uma mente sistemática que sempre tem de entender. Em Auschwitz, você diz a si mesmo, “eu penso demais” para resistir, “eu sou civilizado demais”. Para mim, porém, o homem civilizado que pensa demais é inseparável do sobrevivente. O cientista e o sobrevivente são o mesmo.
  
Levi - Exatamente. Você acertou na mosca. Naqueles memoráveis dez dias, eu realmente me senti como Robinson Crusoé, mas com uma diferença importante. Crusoé se pôs a trabalhar para sua sobrevivência individual, enquanto eu e meus dois companheiros franceses queríamos consciente e jubilosamente trabalhar, afinal, por uma causa humana e justa, para salvar as vidas de nossos camaradas doentes.
 
Quanto à sobrevivência, é uma questão que me tenho colocado muitas vezes, e que muitos me têm colocado. Insisto em que não havia regra geral, exceto entrar no campo com boa saúde e saber alemão. Isso posto, a sorte predominava. Sobrevivi a gente muito esperta e a gente boba, a bravos e a covardes, a gente que “pensava” e a loucos. No meu caso, a sorte desempenhou um papel essencial em pelo menos duas ocasiões: fazendo-me conhecer o pedreiro italiano e fazendo-me ficar doente só uma vez, mas no momento exato.
 
Mas aquilo que você diz, de eu pensar e observar, eram fatores de sobrevivência, é verdade, embora na minha opinião o que prevalecesse fosse uma grande sorte. Lembro-me de ter passado aquele ano em Auschwitz num estado de espírito excepcional. Não sei se isso dependia de minha formação profissional, ou de uma insuspeitada dose de estamina, ou de um instinto sadio. Jamais deixei de me lembrar do mundo e das pessoas à minha volta, lembrava-me tanto que ainda tenho deles uma imagem incrivelmente detalhada. Eu tinha um desejo intenso de entender, era constantemente invadido por uma curiosidade que, na verdade, pode ser considerada como cínica, mas é a curiosidade do naturalista que se descobre transplantado para um ambiente monstruoso, sim, mas novo, monstruosamente novo. 
 
Roth - Survival in Auschwtiz foi originalmente publicado em inglês como título de If This Is a Man ( Se Isto É um Homem ), tradução literal de seu título em italiano, Se Questo E um Uomo (e que era o título que os seus primeiros editores americanos deviam ter tido o bom senso de conservar). A descrição e a análise de suas memórias atrozes da “gigantesca experiência biológica e social” dos alemães é regida, de maneira muito precisa, por uma preocupação quantitativa quanto às maneiras pelas quais pode-se transformar ou decompor um homem, como uma substância que se decompõe numa reação química, levando-o a perder suas propriedades características, If This Is a Man soa como as memórias de um teórico da bioquímica moral que tenha ele mesmo sido convincentemente relacionado como o espécime destinado a passar por uma experiência de laboratório do tipo mais sinistro. A criatura aprisionada no laboratório do cientista maluco é, ela própria, a própria epítome do cientista racional.
 
Em The Monkey 's Wrench — que devia precisamente ter recebido o título de This Is a Man — você diz que a Faussone, sua Scheherazade de macacão, que, “sendo um químico aos olhos do mundo, e sentindo... o sangue do escritor nas veias”, você consequentemente tem “no corpo duas almas, e isso é demais”. Eu diria que há uma alma, vasta e inconsútil; eu diria que não só o sobrevivente e o cientista são inseparáveis, mas que também o são o cientista e o escritor. 
 
Levi - Mas do que uma pergunta, isso é um diagnóstico, que aceito e agradeço. Vivi minha vida no campo o mais racionalmente que pude, e escrevi Is This Is a Man numa luta para explicar aos outros e a mim mesmo os acontecimentos em que estive envolvido, mas sem nenhuma intenção literária definida. Meu modelo (ou, se você preferir, meu estilo) foi o do “relatório semanal” comumente usado em fábricas: tem de ser conciso, preciso e escrito numa linguagem que todo mundo entenda na hierarquia industrial. E, certamente, não escrito no jargão científico. Eu queria me tornar uma coisa, mas a guerra e o campo impediram-me. Tive de limitar-me a ser um técnico.
 
Concordo com você quanto a existir apenas “uma alma... e inconsútil”, e uma vez mais sinto-me grato a você. A minha afirmação de que “duas almas... é demais” é em parte uma piada, mas metade das insinuações são sérias. Trabalhei numa fábrica por quase trinta anos, e tenho de admitir que não existe incompatibilidade entre ser químico e ser escritor: na verdade, é um reforço mútuo. Mas a vida de fábrica, e em particular a vida de gerente de fábrica, envolve muitas outras questões, fora da química: contratar e despedir operários, discutir com o chefe, clientes e fornecedores; lidar com acidentes; ser chamado ao telefone, mesmo à noite ou numa festa; lidar com a burocracia; e muitas outras tarefas que destroem a alma. Todo esse negócio é brutalmente incompatível com o escrever. Em conseqüência, eu me senti enormemente aliviado quando cheguei à idade de me aposentar, e pude assim renunciar à minha alma número um. 
 
Roth - A sua continuação de If This Is a Man ( The Reawakening , que infelizmente também recebeu outro título dos editores americanos) chamava-se, em italiano, La Tregua , a trégua. O livro trata de sua viagem de volta de Auschwitz para a Itália . Há, nessa jornada tortuosa, uma dimensão realmente legendária, principalmente quanto à história do seu longo período de gestação na União Soviética, enquanto você esperava ser repatriado. O que surpreende, em La Tregua , é que o relato, que poderia ter, compreensivelmente, se caracterizado por um estado de espírito de lamentação e desespero inconsolável, caracteriza-se ao contrário pela exuberância. A sua reconciliação com sua mulher ocorre num mundo que às vezes se afigurava a você como o Caos primordial. Mas você está tremendamente engajado com todos, tão profundamente divertido e instruído que eu me perguntava se, apesar da fome, do frio e dos medos, apesar ate das recordações, você teria realmente algum dia vivido uma época melhor do que aqueles meses que você chama de “um parêntesis de disponibilidade ilimitada, uma dádiva providencial mais irrepetível do destino”.
 
Você parece ser alguém cujas necessidades mais vitais exigem, acima de tudo, arraigamento — na profissão, na ancestralidade, na região, na língua — e no entanto, ao se descobrir tão sozinho e desenraizado quanto um homem pode estar, você considerou isso uma dádiva. 
 
Levi - Um amigo meu, que é um excelente médico, me disse há muitos anos: “Suas recordações de antes e depois são em branco e preto; já as de Auschwitz e as de sua viagem de volta são em technicolor”. E ele tinha razão. A família, o lar, a fábrica são coisas boas em si mesmas, mas elas me privaram de algo que ainda sinto falta: aventura. O destino resolveu que eu devia encontrar a aventura na terrível desordem de uma Europa varrida pela guerra.
 
Você está no ramo, logo você sabe como essas coisas acontecem. A Trégua foi escrito quatorze anos depois de If This is a Man : é, portanto, um livro mais “autoconsciente”, mais metódico, mais literário. A linguagem é muito mais profundamente elaborada. Ele fala a verdade, mas uma verdade filtrada. Antes, eu contei cada aventura muitas vezes, a pessoas de níveis culturais muito diferentes (a amigos principalmente, e a alunos do colegial, de ambos os sexos), e, pelo caminho, fui retocando a narrativa de forma a despertar nos meus ouvintes as reações mais favoráveis. Quando If This Is a Man começou a alcançar certo sucesso, e eu comecei a antever algum futuro para a minha obra, pus-me em campo para botar essas aventuras no papel. Meu objetivo era divertir-me ao escrever e divertir meus leitores em perspectiva. Em conseqüência, enfatizei o exótico, o excêntrico, os episódios animados — principalmente quanto aos russos visto em close — e deixei para as primeiras e últimas páginas aquele estado de espírito de “lamentação e desespero inconsolável”, conforme você diz.
 
Quanto ao arraigamento , é verdade que eu tenho raízes profundas, que tive a sorte de não perdê-las. Minha família foi quase totalmente poupada ao extermínio nazistas, e hoje continuo a viver no mesmíssimo apartamento onde nasci. Essa escrivaninha aqui, onde escrevo, segundo a lenda da família ocupa exatamente o mesmo lugar onde um dia eu vim ao mundo. Quando me descobri “tão desarraizado quanto um homem poderia estar”, é claro, sofri, mas isso foi, depois, largamente compensado pelo meu fascínio pela aventura, pelos encontros humanos, pela doçura da “convalescença” da praga de Auschwitz. Em sua realidade histórica, minha “trégua” russa se transformou numa “dádiva” só muitos anos depois, quando a purifiquei, repensando-a e escrevendo a respeito. 
 
Roth - If Not Now, When? não se parece com qualquer outra coisa sua que eu tenha lido em inglês. Embora nitidamente inspirado em fatos históricos reais, o livro parece um aventura sincera e picaresca de um pequeno bando de partisans judeus de extração russa e polonesa, dando uma canseira nos alemães para mantê-los atrás de suas frentes orientais. Talvez os seus outros livros sejam menos “imaginários” quanto ao tema, mas me calam mais fundo, me parecem mais criativos quanto à técnica. O motivo por trás de If Not Now, When? parece mais estreitamente tendicioso — e, conseqüentemente, menos liberador para o escritor — do que os impulsos que dão origem às obras autobiográficas.
 
Fico me perguntando se você concorda com isso — se, ao escrever sobre a bravura dos judeus que combateram, você sentia-se fazendo algo que devia fazer, isto é, você se sentia responsável por reivindicações políticas e sociais que necessariamente não intervém quando o tema é o seu próprio destino marcadamente judeu. 
 
Levi - If Not Now, When? seguiu um rumo imprevisto. As motivações que me levaram a escrevê-lo foram múltiplas. Ei-las, por ordem de importância:
 
Eu fizera uma espécie de aposta comigo mesmo: vamos ver se, depois de escrever tanta autobiografia explícita ou disfarçada, você é mesmo um escritor capaz de voar, capaz de construir um romance, de dar forma aos personagens, de descrever paisagens que você nunca viu? Tente!
 
Eu pretendia divertir-me, escrevendo uma trama de Western , ambientada numa paisagem incomum na Itália. Pretendia divertir meus leitores, contando-lhes uma história substancialmente otimista, uma história de esperança, até mesmo ocasionalmente animada, embora projetada num pano de fundo de massacre.
 
Eu desejava atacar um lugar comum que ainda prevalecia na Itália: o de que o judeu é uma pessoa branda, um estudioso (religioso ou profano), não belicoso, humilhado, que tolerou séculos de perseguição sem jamais lutar contra isso. Parecia-me que eu tinha o dever de prestar homenagem aos judeus que, em condições desesperadas, descobriram-se com coragem e capacidade de resistir.
 
Acalentei a ambição de ser o primeiro (e talvez o único) italiano, na condição de escritor, a descrever o mundo ídish. Eu pretendia “explorar” minha popularidade em meu país, para impor aos meus leitores um livro centrado na civilização Ashkenazi, em sua história, em sua língua e em sua disposição de espírito, coisas essas virtualmente desconhecidas na Itália, exceto para alguns leitores mais sofisticados de Joseph Roth (o romancista austríaco falecido em 1939), Bellow, Singer, Malamud, Potok e, claro, você.
 
Pessoalmente, esse livro me satisfaz, principalmente porque me divertiu bastante planejá-lo e escrevê-lo. Pela primeira e única vez na minha vida de escritor, tive a impressão(quase uma alucinação) de que meus personagens estavam vivos, à minha volta, às minhas costas, sugerindo espontaneamente suas próprias ações e diálogos. O ano que passei escrevendo-o foi um ano feliz, e assim sendo, seja qual tenha sido o resultado, para mim, esse foi um livro libertador. 
 
Roth - Afinal, vamos falar da fábrica de tintas. Na sua época, muitos escritores trabalharam como professores, alguns como jornalistas, e a maioria dos escritores com mais de cinqüenta anos arranjaram emprego como soldado deste ou daquele, pelo menos temporariamente. É significativa a lista de escritores que se dedicaram simultaneamente à medicina e à literatura, e de outros que foram ministros ou padres. T. S. Eliot era editor, e todo mundo sabe que Wallace Stevens e Franz Kafka trabalhavam para grandes companhias de seguros. Ao que eu saiba, só dois escritores importantes foram um dia gerentes de fábricas de tinta, você em Turim, na Itália, e Sherwood Anderson em Elvria, no Ohio. Anderson teve de fugir da fábrica, e da família, para se tornar escritor; ao passo que você parece ter-se tornado o escritor que é justamente por ter ficado na fábrica e seguido sua carreira ali. Fico imaginando se você se considera realmente afortunado — e até melhor equipado para escrever — do que aqueles de nós que não passamos pela experiência de uma fábrica de tintas e tudo o que isso implica. 
 
Levi - Conforme já disse, entrei na indústria de tintas por acaso, mas nunca tive muito a ver com a rotina geral da produção de tintas, vernizes e lacas. Nossa firma, logo depois de iniciar suas atividades, especializou-se na produção de esmaltes metálicos, revestimentos isolantes para condutores elétricos de cobre. No auge da minha carreira, eu me incluía entre os 30 ou 40 especialistas do mundo nesse ramo. Os bichos aí da parede são feitos de sucata de arame esmaltado.
 
Honestamente, eu não sabia nada sobre Sherwood Anderson até você falar nele. Não, jamais me ocorreu abandonar a família e a fábrica para ser escritor em tempo integral, como ele fez. Eu teria medo do salto no escuro e teria perdido todo o direito a uma aposentadoria legal.
 
No entanto, vou acrescentar à sua lista um terceiro nome de escritor fabricante de tintas, que é o Italo Svevo, um judeu convertido de Trieste, autor de As Confissões de Zeno [publicado pela Nova Fronteira como A Consciência de Zeno ], que viveu de 1861 a 1928. Durante muito tempo, Svevo foi gerente comercial de uma firma de tintas em Trieste. Essa indústria era do sogro dele, e dissolveu-se há alguns anos. Até 1918, Trieste pertenceu à Áustria, e essa companhia ficou famosa porque fornecia à Marinha austríaca uma excelente tinta antiferrugem, que evitava a incrustação de craca nas quilhas dos vasos de guerra. Depois de 1918, Trieste passou a ser italiana, e a tinta foi liberada também as marinhas da Itália e da Inglaterra. Para poder lidar com o pessoal do almirantado, Svevo tomou lições de inglês com James Joyce, que na época lecionava em Trieste. Eles ficavam amigos, e Joyce ajudou Svevo a encontrar editor para seus livros.
 
O nome comercial da tinta antiferrugem era Moravia. O fato de ser o mesmo nome do famoso romancista italiano (Alberto Moravia) não é mero acaso: tanto o industrial de Trieste quanto o escritor romano tiraram-no de um parente comum pelo lado materno. Perdoe-me por essa fofoquinha meio impertinente. Não, não, conforme já insinuei, eu não me lamento de nada. Não acredito que tenha perdido tempo na fábrica. Minha militanza fabril — meu serviço compulsório e respeitável ali — me manteve em contato com o mundo das coisas reais. 
 
[Fonte: O Estado de S. Paulo , caderno Cultura, de 3 de janeiro de 1987, nº 342, páginas 10, 11 e 12]

 

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POR EM 05/12/2008 ÀS 09:09 PM

Entrevista William Faulkner

publicado em
William Cuthbert Faulkner é considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século XX. Em 1949, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Posteriormente, ganhou o National Book Awards de 1951 com Collected Stories e o prêmio Pulitzer em 1955 por A Fable. Utilizando a técnica de "fluxo de consciência" consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann, Faulkner narrou a decadência do sul dos EUA, interiorizando-a em seus personagens, a maioria deles vivendo situações desesperadoras no condado imaginário de Yoknapatawpha.


 
A entrevista foi traduzida de El Oficio Del Escritor, 1965, publicação contendo as entrevistas da The Paris Review, uma versão em português foi também foi publicada no Brasil pela companhia das letras em 1998.


Jean Stein Vanden Heuvel, Nova York, início de 1956

Tradução: Delermando Vieira

 

Existe alguma fórmula, que seja possível seguir, para ser um bom romancista?
 
William Faulkner - Noventa por cento de talento, noventa por cento de disciplina, noventa por cento de trabalho. Um romancista nunca deve sentir-se satisfeito com o que faz. O que se faz nunca é tão bom como poderia ser. Sempre há que sonhar e dirigir-se mais alto que alguém possa sonhar. Não se preocupar em ser melhor que seus contemporâneos ou seus predecessores. Buscar, apenas, ser melhor que a si mesmo. Um artista é uma criatura impulsionada por demônios. Não sabe, jamais, por que eles o escolhem e, geralmente, está muito ocupado para perguntá-los. É completamente amoral no sentido de que será capaz de roubar, tomar emprestado, mendigar ou despojar a qualquer um e a todo mundo, com o fito de realizar sua obra.
 
Você quer dizer que o artista deve ser completamente inumano?  
 
William Faulkner - O artista é responsável somente ante sua Obra. Será completamente inumano se, realmente, é um bom artista. Tem um sonho, e este sonho o angustia tanto que deve livrar-se dele. Até então, não tem paz. Coloca-o à margem: a honra, o orgulho, a decência, a segurança, a felicidade, tudo, sob o fito de escrever seu livro. Se um artista verdadeiro, necessita roubar de sua mãe, para realizar sua Obra, não hesitará em fazer tal coisa.
 
Então, a falta de segurança, de felicidade, honra, etcétera, seria um fator importante na capacidade criadora do artista?
 
William Faulkner - Não. Essas coisas somente são importantes para sua paz e seu contentamento. A arte nada tem a ver com a paz e o contentamento.
 
Então, qual seria o melhor ambiente para um escritor?
 
William Faulkner - A arte nada tem a ver com o ambiente, não lhe importa onde esteja. Se você se refere a mim, o melhor emprego que jamais me ofereceram foi o de administrador de um bordel. Em minha opinião, esse é o melhor ambiente em que um artista pode trabalhar. Goza de uma perfeita liberdade econômica, está livre do temor e da fome, dispõe de um teto sobre sua cabeça e nada tem que fazer senão levar umas poucas contas simples e ir pagá-las, uma vez ao mês, à polícia local. O lugar está tranqüilo durante a manhã, que é a melhor parte do dia para se trabalhar. Nas noites existe a suficiente atividade social, para que o artista não se aborreça, se não lhe importa participar dela, o trabalho dá certa posição social, nada tem ele que fazer porque a encarregada leva os livros, todas as empregadas da casa são mulheres, que, certamente, o tratarão com respeito e lhe dirão “senhor”. Todos os contrabandistas de licores da localidade também lhe dirão “senhor”.  Um mal ambiente somente o fará subir a pressão sangüínea, ao fazer-lhe passar mais tempo se sentindo frustrado ou indignado. Minha própria experiência me ensinou que os instrumentos que necessito , para um ofício, são papel, tabaco, comida e um pouco de whiski..
 
Bourbon?
 
William Faulkner - Não, não sou tão melindroso. Entre escocês e nada, fico com o escocês.
 
Você mencionou a liberdade econômica. O escritor necessita dela?
 
William Faulkner - Não. O escritor não necessita de liberdade econômica. Tudo que ele necessita é de um lápis e um pouco de papel. Que eu saiba, nunca se escreveu nada de bom com o objetivo de aceitar dinheiro como presente. O bom escritor nunca recorre a uma fundação. Está sempre muito ocupado escrevendo algo. Se não é bom de verdade, se engana dizendo que necessita de tempo ou de liberdade econômica. A boa arte pode ser produzida por ladrões, contrabandista de licores ou bandoleiros. A gente realmente teme descobrir, exatamente, quantas penúrias e pobrezas é capaz de suportar. E a todos é o susto de saber quão duro isso pode ser. Nada pode destruir um bom escritor. Somente a morte pode alterar um bom escritor. Os que são bons não se preocupam em ter êxito ou fazer-se ricos. 
 
Trabalhar para o cinema é prejudicial para a própria obra do escritor?
 
William Faulkner - Nada pode prejudicar a obra de um homem, se este é um escritor de primeira, nada pode ajudá-lo muito. O problema não existe, se o escritor não é de primeira, porque, certamente, já terá vendido sua alma por uma piscina. 
 
Você disse que o escritor deve transigir quando trabalha para o cinema. E quanto `a sua própria obra, tem alguma obrigação para com o leitor?
 
William Faulkner - Sua obrigação é fazer sua obra, ao melhor que possa fazê-la. Qualquer obrigação que lhe fique depois disso, pode gastá-la segundo sua vontade. Eu, da minha parte, estou muito ocupado para me preocupar com o público. Não tenho tempo para pensar em quem me lê. Não me interessa a opinião de João Leitor sobre minha obra nem sobre a de qualquer outro escritor.  A norma que tenho que cumprir é a minha, e essa é a que me faz sentir como me sinto quando leio A Tentação de Santo Antônio ou o Antigo Testamento, do mesmo modo que observar um pássaro me faz sentir bem. Se eu reencarnasse, sabe você que eu gostaria de voltar a viver como um zopilote. Ninguém o odeia, nem o repudia, nem o quer, nem o necessita. Ninguém se mete com ele, nunca está em perigo e pode comer qualquer coisa
 
Que técnica utiliza para cumprir sua norma?
 
William Faulkner - Se o escritor está interessado na técnica, mais lhe vale dedicar-se à cirurgia ou assentar tijolos. Para escrever uma obra não tem nenhum recurso mecânico, nenhum atalho. O escritor jovem que segue uma teoria é um tonto. Ele tem que ensinar-se por meio de seus próprios erros; é somente através do erro que a gente aprende. O bom artista acredita que ninguém sabe o bastante para lhe dar conselhos. Tem uma vaidade suprema. Não importa o quanto admira o escritor velho; quer, na verdade, superá-lo.
 
Então, você nega a eficiência da técnica?
 
William Faulkner - De nenhuma maneira. Algumas vezes, a técnica arremete e se apodera do sonho, antes que o próprio escritor possa apreendê-lo. Isso é giro de força e a obra terminada é simplesmente questão de juntar bem os tijolos, posto que o escritor provavelmente conhece cada uma das palavras que vai usar até o fim da obra, antes de escrever a primeira. Isso aconteceu com Mientras Agonizo. Não foi fácil. Nenhum trabalho honrado o é. Foi simples enquanto todo o material estava já na mão. A composição da obra me custou somente umas seis semanas, ao tempo livre em que me colocava ao emprego de doze horas ao dia, trabalhando manualmente. Simplesmente imaginei um grupo de pessoas e as submeti às catástrofes naturais universais, que são a inundação e o fogo, com uma motivação natural simples que lhe desse direção ao seu desenvolvimento. Mas quando a técnica não intervem, escrever é também mais fácil em outro sentido. Por que em meu caso sempre há um ponto no livro em que os próprios personagens se levantam e tomam o mando e completam o trabalho. Isso sucede, digamos, no correr da página 275. Claro está que eu não sei o que sucederia, se terminasse o livro na página 274. A qualidade que um artista deve possuir é a objetividade ao julgar sua obra, mais honradez e o valor de não se enganar a respeito. Posto que nenhuma de minhas obras tem satisfeito minhas normas, devo julgá-las sobre a base daquela que me causou a maior aflição e angústia, do mesmo modo que a mãe ama ao filho que se converteu em ladrão ou assassino mais que ao que se converteu em sacerdote.
 
Como começou O Som e a Fúria ?
 
William Faulkner - Começou com uma imagem mental. Eu não compreendi naquele momento que era simbólica. A imagem era a dos fundilhos enlodados das calcinhas de uma menina, que subia a uma pereira, de onde ela podia ver, através de uma janela, o lugar em que estava sendo efetuado o funeral de sua avó, e ela relatava a cena aos irmãos, então ao pé da árvore. Quando cheguei a explicar quem era eles e o que estavam fazendo e como haviam enlodado as calcinhas da menina, compreendi que seria impossível colocar tudo em um conto e que o relato teria que ser, com certeza, um livro. E então compreendi o simbolismo das calcinhas enlodadas e essa imagem foi trocada pela a da menina órfã de pai e mãe, que se evade pelo tubo de deságua do teto para escapar-se de casa, onde nunca tivera amor, nem afeto, nem compreensão. Já havia começado a contar a história através dos olhos do menino idiota, porque pensava que seria mais eficaz. Não deu certo. Tratei de voltar a contá-la, agora através dos olhos de outro irmão. Tampouco, deu resultado. Contei-a pela terceira vez através dos olhos do terceiro irmão. Novamente, não deu resultado. Tratei de reunir os fragmentos e de encher as lacunas, fazendo eu mesmo as vezes do narrador. No entanto, não ficou completa, até quinze anos depois da publicação do livro, quando escrevi, como apêndice de outro livro, o esforço final para acabar de contar a história final e tirá-la da cabeça de modo que eu mesmo pudesse me sentir em paz. Esse é o livro pelo qual sinto mais ternura. Nunca pude deixá-lo de lado e nunca pude contar bem a história, ainda quando a intentei com afinco. Eu gostaria de voltar a intentar novamente, ainda que, provavelmente, fracassando outra vez. 
 
Há vantagem artística ao compor o romance em forma de alegoria, como, por exemplo, a alegoria cristã que você utilizou em Uma Fábula?
 
William Faulkner - A mesma vantagem que representa para o carpinteiro construir esquinas quadradas ao construir uma casa quadrada. Em Uma Fábula , a alegoria cristã era a alegoria indicada para aquela história.
 
Quer dizer que um artista pode usar o cristianismo simplesmente, como qualquer outra ferramenta, da mesma maneira que um carpinteiro tomaria emprestado um martelo?
 
William Faulkner - Ao carpinteiro, do qual estamos falando, nunca falta esse martelo. A ninguém falta cristianismo, se nos colocamos de acordo enquanto ao significado que damos à palavra. Trata-se do código de conduta individual de cada pessoa, por meio do qual esta se faz um ser humano superior ao que sua natureza quer que seja. Qualquer que seja seu símbolo – a cruz ou a meia lua ou o que fosse -, esse símbolo é para o homem a recordação de seu dever como membro da raça humana. Suas diversas alegorias são os modelos com os quais se mede a si mesmo e aprende a conhecer-se. A alegoria não pode ensinar o homem a ser bom, do mesmo modo que o livro de texto lhe ensina matemática. Ensina-lhe como descobrir-se a si mesmo.
 
Foram reunidos, em um só volume, os dois temas, não selecionados, de As Palmeiras Selvagens com algum propósito simbólico? Trata-se, como sugerem alguns críticos, de uma espécie de contraponto estético ou de uma simples causalidade?
 
William Faulkner - Não, não. Aquilo era a história de Charlotte y Harry Wilbourne, que sacrificaram tudo pelo amor e depois perderam isso. Eu não sabia que iam ser duas histórias separadas senão depois de haver começado o livro. Quando cheguei ao final do que agora é a primeira parte de As Palmeiras Selvagens , compreendi, subitamente, que faltava algo, que a história necessitava de ênfase, algo que a levantasse como o contraponto na música. Então, voltei a dar-lhe intensidade com outra parte de sua antítese, que é a história de um homem que conquistou seu amor e passou o resto do livro fugindo dele, até ao grau de voltar, voluntariamente, ao cárcere em que estaria a salvo. São duas histórias somente por causalidade, talvez  por necessidade. A história é a de Charlotte e Wilborune.
 
Que parte de sua obra se baseia em experiência pessoal?
 
William Faulkner - Não lhe saberia dizer. Nunca fiz a conta porque a particularidade não tem importância. Um escritor necessita de três coisas: experiência, observação e imaginação. Em meu caso, uma história geralmente começa com uma só idéia, uma só recordação ou uma só imagem mental. A composição da história é simplesmente questão de trabalho até o momento de explicar por que ocorreu a história ou que outras coisas fizeram ocorrer a sua continuação. Um escritor trata de criar personagens verdadeiras em situações comovedoras verdadeiras da maneira mais comovedora que possa. Obviamente, deve utilizar como um de seus instrumentos o ambiente que conhece. Eu diria que a música é o meio mais fácil de se expressar, posto que foi a primeira que se produziu na experiência e na história do homem. Mas, posto que meu talento reside nas palavras, devo tratar de expressar de maneira torpe, em palavras, o que na música pura havia expressado melhor. É dizer que a música o expressaria melhor e mais simplesmente, mas eu prefiro usar palavras, do mesmo modo que prefiro ler e escutar. Prefiro o silêncio ao som, e a imagem produzida pelas palavras ocorre no silêncio. 
 
Você disse que a experiência, a observação e a imaginação são importantes para o escritor. Incluiria você, também, a inspiração?
 
William Faulkner - Eu não sei nada sobre a inspiração, porque não sei o que é isso. Já ouvi mencionar acerca dela, mas nunca a vi.  

 

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POR EM 05/12/2008 ÀS 08:57 PM

João do Rio entrevista Bilac

publicado em

Nós nunca tivemos propriamente uma literatura. Temos imitações, cópias, reflexos. Onde o escritor que não recorde outro escritor estrangeiro, onde a escola que seja nossa? Eu amo entre os poetas brasileiros Gonçalves Dias e Alberto de Oliveira, a quem copiei muito em criança, mas não poderei garantir que eles não sejam produtos de outro meio


 

João do Rio
 Entrevista feita em dia incerto de junho de 1907

A casa do poeta é de uma elegância delicada e sóbria. Ao entrar no jardim, que é como um país de aromas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n'alma um certo temor. Eram oito horas da manhã, apenas oito horas. A rua parecia acordar naquele instante, os transeuntes passavam com o ar de quem ainda tem sono, e o próprio sol, muito frio e formoso, parecia bocejar no lento adelgaçar das névoas. — Só muito cedo encontrar-me-ás em casa, dissera ele, e eu mesmo sabia que o cantor do Caçador de Esmeraldas acorda às cinco da madrugada, escreve até as dez, sai e não recolhe senão depois da meia-noite, porque o entristece ficar num gabinete sem outra alma, à luz dos bicos de gás. Quando, porém, ia tocar o timbre de um velho bronze, o meu receio desapareceu. Estavam as portas da sala abertas e eu via Bilac curvado sobre a mesa a escrever.
 
 
 
João — Pode-se importunar?
 
Bilac — Ó ave madrugadora! Tu por aqui?
 
João — Ergueu-se com a sua aristocrática distinção. Estava todo vestido de linho branco, a camisa alva compunhos e colarinhos duros.
 
Bilac — Aposto que vens ver os meus cartões postais?
 
João — Eu olhava a sala onde há tanto tempo mora a Musa perfeita. As paredes desaparecem cheias de telas assinadas por grandes nomes, caquemonos de Japão, colchas de seda cor d'ouro velho. As janelas deixam ver o céu, a rua e as árvores entre cortinas cor de leite e sanefas de veludo cor de mosto. Do teto pende uma antiga tapeçaria francesa, a um canto um paravento de laca parece guardar mistérios no bric-à-brac do mobiliário — cadeiras de várias épocas, poltronas, estantes de rodízios, guéridons, divãs, dois vastos divãs turcos, largos como alcovas... Ao centro a mesa em que escreve o poeta, muito limpa e quase muito pequena, de canela preta, encimada por um ventilador. Os meus olhos repousam nos bibelots, nas jarras de porcelana cheias de flores frescas; a alma sente uma alegre impressão de confortável. O poeta faz-me sentar.
 
Bilac — Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.
 
João — Versos?
 
Bilac — Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto. Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo o entusiasmo —que é a vida — a este sonho irrealizável.
 
João — Basta o entusiasmo pelo irrealizável para que um homem seja perfeito, já disse Barrès. Bilac sorriu.
 
Bilac — Mas então não queres ler decididamente os pensamentos dos quarenta membros da Academia Francesa?
 
Bilac — Eu venho para coisas muito mais graves.
 
— Tenho que há na vida coisas que se dizem mas não se escrevem, coisas que só se escrevem e outras que nem se escrevem nem se dizem mas apenas se pensam. Seria feliz se me viesses perguntar aquela, que sem me entristecer aos outros, pudesse ser pensada, falada e escrita. É entretanto difícil...
 
João — Eu ouvia-o embevecido. A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou à perfeição — é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. As fadas, que são quase uma verdade, fizeram da sua existência uma sinfonia deliciosa, e como o seu talento não tem desfalecimentos e a sua atividade é sempre fecunda, a admiração se perpetua. É o poeta da cidade como Catulo o era de Roma e como Apuleio o era de Cartago. Todos o conhecem e todos o respeitam. Os editores vendem anualmente quatro mil exemplares de seu livro de versos, realizando o que até então era o impossível.
 
Onde vá, o louvor acompanha-o. A cidade ama-o. Nenhum poeta contemporâneo teve o destino luminoso de empolgar exclusivamente a admiração. Ele é o pontífice dos artistas e dos que o não são. Há homens que guardam em cofres tudo quanto tem escrito de esparso na sua múltipla colaboração jornalística e não há um dia em que pelo menos não receba dos confins da província ou dos bairros aristocráticos meia dúzia de cartas chamando-o de admirável. E nunca a sua túnica branca teve uma ruga desgraciosa, nunca nos seus períodos a elegância deixou de brilhar. Quando escreve, os jornais aumentam a tiragem com as suas crônicas, e o seu estilo impecável aureola de simpatia todos os assuntos; quando fala, as suas palavras admiráveis, talhadas como em mármore e diamante, lembram os jardins de Academos e as prosas sábias do cais de Alexandria, no tempo dos Ptolomeus. E todos sentem a fascinação do encanto — as turbas confusas e os homens inteligentes. É o portador do espírito da Hélade. No portal da sua morada bem se podia gravar o misterioso enigma da Antologia: "Nasci no bosque sagrado e sou feito de ferro. Tornei-me o secreto depositário das musas e quando falo, intérprete e confidente único, ressoa o bronze eternamente." E, entretanto, há por vezes no seu sorriso uma irônica amargura, na sua voz, que se vela, a secreta tristeza de quem está resignado a não dizer grandes verdades necessárias, e na sua alma, destinada à aclamação, uma delicadeza, uma modéstia infinita. Dois escritores ele os lê diariamente, ou pela manhã antes de começar a trabalhar, ou à noite antes de dormir — Renan e Cervantes. A vida fê-lo vestir os ímpetos e a imensa paixão lírica no burel de uma suave ironia. Quem o lê pensa em Luciano de Samósata, no ridículo do herói manchego, no travo das fantasias desfeitas. Mas, de raro em raro, surgem, como a reivindicação das idéias generosas, as tristes e delicadas imprecações da sua prosa, e em conversa muita vez quando todos riem, um doloroso suspiro de cansaço e tédio passa no seu lábio, de todos despercebido. E é ainda essa alma esquisita que cora e se confunde, quando pela milésima vez numa tarde alguém se lembra de dizer que o acha incomparável.
 
Talvez, por isso, o poeta sensual dos amores imensos, o vate embevecido nas vozes das estrelas, aquele que durante vinte anos dera intenções e idéias à natureza e comentara com um piparote céptico as ações dos homens, curvou-se um dia para a vermina com o fulgor do seu espírito luminoso e resolveu protegê-la. Bilac hoje é um apóstolo-socialista pregando a instrução. Todos os problemas da vida ele os pode encarar como Capus os trata nas suas peças. A instrução das crianças e o bem dos miseráveis preocupam-no seriamente. Eu o ia interromper na composição de um livro para perguntar a sua opinião sobre o estado da literatura brasileira e o papel do jornalismo para com essa mesma literatura. Ele falou-me com uma certa amargura, ligando as minhas perguntas ao seu ideal.
 
Bilac — Que queres tu, meu amigo? Nós nunca tivemos propriamente uma literatura. Temos imitações, cópias, reflexos. Onde o escritor que não recorde outro escritor estrangeiro, onde a escola que seja nossa? Eu amo entre os poetas brasileiros Gonçalves Dias e Alberto de Oliveira, a quem copiei muito em criança, mas não poderei garantir que eles não sejam produtos de outro meio. Há de resto explicações para o fato. Somos uma raça em formação, na qual lutam pela supremacia diversos elementos étnicos. Não pode haver uma literatura original, sem que a raça esteja formada, e já é prodigiosa a nossa inteligência, que consegue ser esse reflexo superior e se faz representativa do espírito latino na América. Ah! A nossa inteligência! É possível atacar, espezinhar, pulverizar de ridículo tudo o que constitui o Brasil, a sua civilização e o esforço dos seus filhos. Esses ataques são em geral feitos por brasileiros. Duas coisas porém ficam acima dos maus conceitos: a beleza da terra e o espírito que a habita, o encanto da natureza e a clara inteligência assimiladora dos homens.
 
Os comerciantes, os artistas em tournée, os humildes e os notáveis levam daqui a impressão imorredoura de que não há país mais aberto a todas as idéias generosas, mais espiritualmente irônico. Poderíamos acrescentar: nem mais indolente. Mas não basta haver talentos e belos livros para que haja uma literatura. Esta opinião talvez não seja uma grande novidade, mas é verdadeira. Nós nos regulamos pela França. A França não tem agora lutas de escola, nós também não; a França tem alguns moços extravagantes, nós também; há uma tendência mais forte, a tendência humanitária, nós começamos a fazer livros socialistas. Esta última corrente arrasta, no mundo, todos quantos se apercebem da angústia dos pobres e do sofrimento dos humildes. Um artista sente mais as dores terrenas que cem homens vulgares, os poetas são como o eco sonoro do verso de Hugo, entre o céu e a terra, para transmitir aos deuses os queixumes dos mortais...
 
A Arte não é, como ainda querem alguns sonhadores ingênuos, uma aspiração e um trabalho à parte, sem ligação com as outras preocupações da existência. Todas as preocupações humanas se enfeixam e misturam de modo inseparável. As torres de ouro e marfim, em que os artistas se fechavam, ruíram desmoronadas. A Arte de hoje é aberta e sujeita a todas as influências do meio e do tempo: para ser a mais bela representação da vida, ela tem de ouvir e guardar todos os gritos, todas as queixas, todas as lamentações do rebanho humano. Somente um louco, — ou um egoísta monstruoso —, poderá viver e trabalhar consigo mesmo, trancado a sete chaves dentro do seu sonho, indiferente a quanto se passa, cá fora, no campo vasto em que as paixões lutam e morrem, em que anseiam as ambições e choram os desesperos, em que se decidem os destinos dos povos e das raças...
 
Uma revista, que se fundasse, no Brasil, para exclusivamente cuidar de cousas de Arte, seria absurda. A Arte é a cúpula que coroa o edifício da civilização: e só pode ter arte o povo que já é "povo", que já saiu triunfante de todas as provações em que se apura e define o caráter das nacionalidades.
 
O que urge é compreender isso, e é aproveitar a lição dos fatos. Nós não temos unicamente, diante de nós, o problema do saneamento e do povoamento. Com o saneamento apenas, livrar-nos-emos das epidemias que os mosquitos, os ratos, os micróbios transmitem de corpo a corpo, mas deixaremos, intacta e tremenda, pairando sobre nós, a ameaça das epidemias morais, que depauperam o organismo social, e o conduzem à indisciplina, à inconsciência e à escravidão. Tratando apenas do povoamento, feito ao acaso das levas de imigração, sem fundar uma escola em cada novo núcleo de povoadores, conseguiremos somente aumentar e dilatar o império da ignorância e da irresponsabilidade.
 
O problema que tem de ser resolvido, juntamente com esses dois, é o da instrução. E o que dói, o que desespera, é que toda a gente culta do Brasil tem a consciência disto, e que, há mais de um século, esta verdade, anunciada, proclamada, escrita, em todas as tribunas, em todos os livros, em todos os jornais, ainda não achou governo que a servisse em terreno prático.
 
João — Houve um silêncio. O poeta falava como um filósofo e no seu lábio a verdade vibrava. Timidamente comecei uma frase, que não chegava a ser pergunta: Os Estados procuram criar literaturas à parte. Ainda há pouco, logo após a publicação das minhas primeiras entrevistas sobre o momento literário, todos os Estados agitaram-se, S. Paulo, Rio Grande, Pernambuco...
 
Bilac — É dividir o que não se pode dividir. Não há talentos do Norte nem do Sul. Há talentos brasileiros. Não posso compreender, para não citar senão um exemplo, em que os versos de Francisca Júlia possam ser paulistas. Quanto à separação da nossa futura literatura, ela se fará lentamente, como se vão formando a nossa raça e o nosso gosto, conforme as correntes mais ou menos fortes dos povos colonizadores. Talvez em 2500
existam literaturas diversas no vasto território que hoje forma o Brasil.
 
João — E o jornalismo? — Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, tão poeta que o seu nome é um alexandrino, limpou os vidros do binóculo e disse praticamente:
 
Bilac — O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária; os proprietários de jornal vêem limitada, pela falta de instrução, a tiragem das suas empresas. Todos os jornais do Rio não vendem, reunidos, cento e cinqüenta mil exemplares, tiragem insignificante para qualquer diário de segunda ordem na Europa. São oito os nossos! Isso demonstra que o público não lê — visto o prestígio representativo gozado pelo jornalista. E por que não lê? Porque não sabe! Tenho estatísticas aterrorizadoras, fenomenais. Era natural que decrescesse a lista dos analfabetos à medida que a população aumentasse em número e civilização. Pois dá-se o contrário. Há hoje mais um milhão de analfabetos que em 1890! E digam depois que não é preciso criar escolas e difundir a instrução. Um povo não é povo enquanto não sabe ler. Admiras-te dessa minha transformação? O poeta, que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia, batendo-se por um grave problema social!... Ah! meu amigo! Para mim esta é a última etapa do aperfeiçoamento, e o jornalismo é um bem.
 
João — Parou, foi até a janela, olhou o céu, que escurecera prenunciando chuva. Toda a sua figura transpirava simpatia harmoniosa. E, de entre as cortinas cor de leite, uma outra voz grave vibrou, cheia de melancolia:
 
Bilac — "Oh! sim, é um bem. Mas se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: Ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento!"

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:50 PM

Entrevista Juan Carlos Onetti

publicado em

Sei armar bem as coisas, não tenho a culpa de que outros as armem mal. A única diferença é essa. Deus me fez assim, só me resta cumprir. A lenda, no fundamental: calúnias. Ignorância, desconhecimento dos fatos. E eu continuo vivendo e a lenda cresce. A cada dia sou mais mau


 

A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em 'sonhos diurnos', através de um 'impulso onírico'. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do boom era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação. Republicamos nesta edição uma entrevista rara: a entrevista das entrevistas, uma reunião de trechos de entrevistas de Juan Carlos Onetti publicadas entre 1960 e 1973. Onetti morreu em 30 de Maio de 1994.

 
Qual a função que desempenha o intelectual em nossa sociedade e quais são as atividades que segundo você lhe correspondem?

Não desempenha nenhuma tarefa de importância social.  Corresponde-lhe ter talento.

Que medidas concretas pensa o senhor serem necessárias para manter viva a comunicação escritor-público?

Prazer reiterar: que o escritor tenha talento.

Como, em sua opinião, deve expressar-se o chamado “compromisso dos escritores”?

Trata-se de responder a um interrogatório organizado por um jornal comunista. Diverte-me pensar que talvez não tenham encontrado melhor subscrito apresentar os achaques de um pequeno escritor burguês e decadente. Alguém inventou o termo e o destino do escritor comprometido. Sou inocente. O único compromisso que aceito é a persistência de tratar de escrever bem e melhor e de encontrar com sinceridade como é a vida que me coube conhecer e como são as pessoas condenadas a converter-se em personagens de meus livros..

É vigente a solidão do escritor ou haveria de modificar-se o conceito na atualidade?

Se a solidão significa o que eu entendo, respondo “vigentísima”.  Para todo ser humano, seja escritor ou não. Em caso contrário, ligo-me espiritualmente aos círculos, às mesas redondas e aos torneios com flores naturais.

Se você estivesse em meu lugar reportando-se a Onetti, o que perguntaria sobre a literatura uruguaia?

Uma monstruosidade.

E o que você responderia?

Que não é elegante falar dos colegas.

Não me imagino o protagonista de uma lenda negra respondendo a isso.

Aí está o erro, não tenho nada a ver com essa lenda.

Como? Então você não é o laboratorista que toma a gente como porquinha das Índias? Uma espécie de experimentador sem escrúpulos, um corcunda a quem imputam as piores maldades?

Não, não o sou. Nem sequer sou o alcoólatra mulherengo do qual fala o capítulo segundo da lenda.

No entanto, casou-se quatro vezes e, desde que cheguei, tomou seus bons quatro copos de vinho.

Somente com vinho se pode agüentar as reportagens.

Relativamente à minha paixão por experimentar, não passa da quota normal. Você mesma tem querido me enfrentar ou outro autor nacional para divertir-se.

Parece-lhe comparável? Eu o tenho visto reunir ex-amantes cada um com seus novos amores para observar suas reações. Tudo com a expressão mais inocente.

Tenho eu a culpa de ser um mestre? Sei armar bem as coisas, não tenho a culpa de que outros as armem mal. A única diferença é essa. Não sou culpado, senhora, não sou. Deus me fez assim, só me resta cumprir. A lenda, no fundamental: calúnias. Ignorância, desconhecimento dos fatos. E eu continuo vivendo e a lenda cresce. A cada dia sou mais mau..

Você não acredita que a lenda tem um bom pé em sua literatura?

Não, minha literatura é uma literatura de bondade. Quem não o vê é um burro..

Por que escreve?

Escrevo para mim. Para meu prazer. Para meu vício. Para minha doce condenação.

Como escreve?

Estupendamente.

Fale com sinceridade.

Sim, senhora. Não entendi a pergunta..

Bem, quero dizer se escreve com um plano elaborado previamente. Se sabe, exatamente, onde vai chegar?

Sei o que se vai passar.  Não sei como vai acontecer. Se soubesse, não escreveria.

Quer dizer que verdadeiramente escreve para você? Que em uma ilha deserta escreveria?

Escreveria.

Considera que seus críticos não o interpretam corretamente?

Se por “interpretação correta” você entende “interpretação total”,  digo-lhe que isso não pode acontecer nunca. Nem sequer no amor. Além disso, os críticos que me importam sabem muito mais de literatura do que eu.

Havia pensado em perguntar-lhe algo tão pouco íntimo como sua posição frente à literatura comprometida.

A isso, acaba de inventar..

Assim vale a pena que me responda.

Acredito que não haja maior compromisso que o que se aceita tacitamente quando se põe a trabalhar ou a brincar. É um compromisso consigo próprio. Trata-se sempre de escrever o melhor que seja possível; com total sinceridade, sem pensar nunca nos hipotéticos fulanos que vão nos ler.

Se é assim, por que no prólogo da primeira edição de “Para Esta Noite”  você fala de “participar”, “participar em dores e angústias”, como se nesse livro em particular, não nos outros, você estivesse tomando posição frente a um conflito exterior, como se estivesse aceitando um compromisso, buscando deliberadamente uma participação?

O feito de que fale expressamente de compromisso nesse prólogo não modifica as coisas. Em tudo o que escrevi tenho participado. Somente os escritores ruins crêem que tal compromisso deve ser expressamente político.

Sartre, por exemplo….?

Qual é o compromisso político de Sartre na melhor de suas novelas, “A Náusea”?

Bom, eu creio que você se nega ao mundo. E sua literatura é um reflexo muito claro de sua forma de vida... suas personagens desconectadas da realidade, movendo-se num mundo distorcido...

Primeiro teria que perguntar-lhe por que crê que “sua realidade” é “a realidade”. Meus personagens estão desconectados da realidade de você, não da realidade deles. Quanto ao mundo distorcido, concordo. Porém… ou alguém distorce o mundo para poder expressar-se ou faz jornalismo, reportagens....más novelas fotográficas.

Identifica-se com o protagonista de "El pozo" quando este dizia: "Sou um homem solitário que fuma num lugar qualquer da cidade”?

Sim, com este e com muitos outros protagonistas. Já não lhe contaram que a arte é uma eterna confissão?

Continua sendo esse solitário?

Como todo mundo. A diferença está em que alguns se dão conta e outros se distraem.

Tem alguma idéia de por que seus atos são tão pouco compreendidos ou aceitos pelas outras pessoas?

A chave pode estar em que sempre digo o que penso e faço o que quero… Não falemos do resto. Conheço pessoas que me aceita e me compreendem. Com elas vivo.

Suas novelas são sempre impecáveis, laboriosas crônicas do fracasso. Quer aventurar uma explicação?

Em mim, acredito que se trata de um pessimismo natural; natural e radical.  No fundo, creio que sou uma das poucas pessoas que crêem na mortalidade. Isso influi muito. Sei que tudo vai se acabar em fracasso. Eu mesmo. Vocês também. De todos os escritores do boom se há dito que são pessimistas, que neles os personagens sempre se frustram. Talvez. Porém em García Márquez ou em Vargas Llosa, eu não percebo uma grande alegria de viver. Sinceramente, não creio que vejam a morte como um problema. E não se trata de que agora eu tenha 64 anos e que possa morrer esta noite. Não. É algo que tenho sentido desde a adolescência. Assim como se descobre que eu sou eu, assim se descobre a morte, marcam-se os limites. Um dos descobrimentos mais terríveis, o mais terrível, que tive ainda adolescente, foi que todas as pessoas que eu amava iam morrer algum dia. Isso me parecia absurdo, e dessa impressão não me refiz ainda.
 
E o suicídio, Onetti?

Em todas minhas novelas está subjacente a idéia do suicídio. Uma vez me perguntaram isto que você acaba de perguntar, por que havia abandonado a idéia do suicídio. Eu lhe disse que fizesse primeiro a prova, e depois me contasse. Quero saber antes se é melhor que tudo isto.

Nunca se perdeu em Santa Maria? Nunca fez planos nem genealogias?

Uma vez fiz um plano de Santa Maria com um amigo, porém era só para movimentar melhor os personagens. Eu o perdi quando me mudei de Buenos Aires. A mim, se me ocorre escrever um livro, já tem seu lugar em Santa Maria. Porém nunca me propus desenvolver um plano. Ou seja: nunca quis escrever uma saga. Esse é já um propósito, e eu não poderia escrever com propósitos.

E por que escreve?

Porque sim, porque gosto de contar histórias.

Quando nasceu essa vocação?

Não sei. Talvez na infância ou na adolescência, seguramente uma reação ao mundo dos adultos. Por exemplo: aqui ouço falar várias horas diárias sobre futebol. Então escrevendo me divorcio dessa realidade. Mais que sofrê-la eu, sofrem-na as personagens.

Sofrem-na por você..

Quiçá.

Você foi valorizado pelo surgimento do “boom”, ao qual se incorporou um pouco tardiamente, pois seu primeiro livro é de 1939. Durante esse tempo, quase sem leitores, para quem escreveu? Dito de outra maneira: necessita de leitores? Para quem escreve?

Respondo-lhe com o que uma vez Joyce respondeu a alguém que o entrevistava. Sento-me no extremo de uma mesa, dizia, e escrevo à pessoa que está no outro extremo. No outro extremo está James Joyce.

Viveria em Santa Maria, se pudesse?

Santa Maria não existe além de meus livros. Se existisse realmente, se pudesse viver ou vivesse lá, inventaria uma cidade que se chamasse Montevidéu.


Fonte:
http://www.clubcultura.com
Traduzido especialmente para Revista Bula por Jádson  Barros Neves


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:48 PM

Crise de paradigmas em Itaguay

publicado em

Itaguay está se desmanchando, cheia de pessoas enlouquecidas. Em busca de soluções concretas e não de utopias, o apresentador Simão recebe em seu talk show semanal convidados para apontar a saída racional e científica da crise. Os telespectadores poderão conhecer: o cineasta em seu trabalho contínuo de desmoralização do pensamento crítico, o mega-empresário lutando contra os movimentos sociais, o político-sociólogo que coopta intelectuais para o business, o dito maior filósofo nacional vilanizando a universidade, os dois cafajestes que se denominam grandes pensadores e o mago da publicidade a profetizar o consumo como salvação. O programa desta semana está imperdível. Assista aqui.


 

O apresentador Simão entra no auditório de televisão. A platéia grita, e ele pede silêncio para falar. 
 
Simão: Meus caros, boa noite, o mundo está fora dos eixos. Há muita gente louca à solta por aí. No programa de hoje, receberemos alguns convidados que dizem ser contra a loucura nacional. São as nossas cabeças mais admiradas. No primeiro bloco, o grande cineasta e palestrante de sucesso conta como trabalha diariamente pela desmoralização do pensamento crítico. Em seguida, o presidente da grande multinacional brasileira vai criminalizar os movimentos sociais, sobretudo os sem-terra. Amigos, o programa está mesmo imperdível.

Olhem só: o político-sociólogo falará da cooptação dos intelectuais para os negócios e a política partidária. Trouxemos ainda o filósofo que se considera o maior do país e que detona a universidade brasileira. No rol das surpresas, apresentamos os dois cronistas mais brilhantes da imprensa brasileira que mostram como os cafajestes promovem a si mesmos à categoria de grandes pensadores. Por fim: o mago da publicidade que criou a “ditadura baiana da felicidade” defende o consumo contra a cidadania. Não está demais, gente? Beijo do Simão e voltamos já.
  
1o Bloco



Simão: Estamos aqui com o grande diretor de filmes pornô chique dos anos 80 e que virou um dos principais colunistas multimídia no Brasil. Após anos de crítica à sociedade, ele é um dos mais ilustres representantes da “rebelião a favor”. Cineasta, por que tanto ressentimento?

Cineasta: Poxa Simão, não é isso. O problema é a falta de complexidade de quem pensa. O progressismo virou um ensopadinho de desenvolvimentismo, getulismo, leninismo, estatismo e sindicalismo.
 
Simão: A saída está do outro lado?
 
Cineasta: O ensopadinho é a utopia irrealizável e impede a agenda modernizadora, de mudanças óbvias, mas áridas para o gosto da velha esquerda: reforma tributária, reforma da Previdência, enxugamento do Estado. O monstro do Mesmo insiste em barrar a Razão.
 
Simão: Quem é a Razão?

Cineasta: É o nosso grande Político-sociólogo, o equilibrista, complexo, que você entrevistará daqui a pouco.
 
Simão: A Razão é óbvia como a lei da gravidade?

Cineasta: Sabe, o ideologismo me dá medo porque prescinde do estudo, da técnica, da análise. Falta ciência.
 
Simão: É o apocalipse globalizado que você vende a empresários em palestras de R$ 20 mil a hora?

Cineasta: A esquerda moderna não é feita de fé, é feita de lógica. O verdadeiro homem de esquerda está sempre se adaptando às mudanças históricas em busca do bem da sociedade, da qualidade de vida das pessoas, da justiça.
 
Simão: Os empresários acreditam nisso?
 
Cineasta: Falo com voz grave que as mudanças que têm de ser feitas no Brasil estão catalogadas cientificamente. Uso palavras meio complicadas, umas sacações, que nem mesmo eu entendo. Eles adoram e me pagam mais. Aprendi isso com uns amigos professores de economia, hoje banqueiros, que ganham uma grana boa para explicar por que quebraram o país e hoje estão ricos.
 
Simão: Bem, acabamos de ouvir as palavras brilhantes do Cineasta. No próximo bloco, receberemos o mega-financista que comprou estatais na privatização pagando tudo com dinheiro de bancos públicos.

Cineasta: Simão, se você me permite... Talk shows são o que há de mais avançado na maneira de refletir e debater a atualidade. David Letterman e você, claro, são muito superiores a Fredric Jameson.
 
2o Bloco




 
Simão: É uma honra receber o presidente da grande multinacional brasileira. Ele vem batendo de frente com os broncos dos movimentos sociais. Boa noite, o que você acha dos sem-terra?
 
Presidente: Totalmente criminosos e bandidos, que não respeitam a lei e não respeitam a democracia. Fazem um discurso dizendo que respeitam e querem a democracia, mas não respeitam a democracia.
 
Simão: É uma luta de classes?

Presidente: Não, não. Luta de classes já era, estamos num mundo globalizado. O que essa gente precisa é cumprir a lei.
 
Simão: Lei de mercado ou criminal?

Presidente: Os sem-terra estão batendo na porta errada. Eles deviam bater na porta dos bancos ou do governo estadual ou federal, e não aqui na minha empresa. Não temos nada com isso. Nós temos alguma coisa a ver com reforma agrária? Não.
 
Simão: O que você recomenda aos sem-terra?
 
Presidente: Vão trabalhar.
 
Simão: Com ou sem carteira assinada?
 
Presidente: Carteira assinada vai contra a flexibilidade necessária do mercado de trabalho global. Aumenta os custos da economia local. Como bem disse o brilhante cineasta, de quem assisti a uma palestra recentemente, precisamos de reformas que foram catalogadas cientificamente. 
 
Simão: É verdade. A Ciência é a saída. Muito obrigado. No próximo bloco, temos a honra de receber o grande Político-sociólogo. Fique aí nos esperando.
  
3o Bloco




 
Simão: Que honra, Político-sociólogo. Nos diga, conhecimento é dinheiro?
 
Político-sociólogo: Mais do que nunca. Quando se financia a pesquisa acadêmica, ela deve gerar tecnologia e patentes industriais. Os intelectuais devem se tornar empresários. Imagine um pesquisador improdutivo.
 
Simão: Por isso, os professores de economia estão virando donos de banco e criando uma nova classe?
 
Político-sociólogo: Esqueça a história de classes sociais. Voltando ao que interessa. O sujeito ganha uma bolsa de doutorado da CAPES, vai para os Estados Unidos aprender a mais sofisticada econometria, e depois você quer que ele vá trabalhar para diminuir a pobreza. Isso é antieconômico. Ele precisa tornar o país eficiente.
 
Simão: Bolsa de estudos é válida, mas não as bolsas de renda mínima?
 
Político-sociólogo: Há bolsas e bolsas. Uma vai alimentar o conhecimento que deve virar patente, licenças, royalties. É o futuro. Outras são para administrar a miséria, é olhar o mundo pelo retrovisor. Não vamos deixar o cara morrer de fome, precisamos gerenciar a escassez. Digo que governar o Brasil é gerir o atraso.
 
Simão: Você é um político consagrado e sociólogo. Onde entra a sociologia em seu pensamento político?
 
Político-sociólogo: O que ocorre é que mudei de ramo. Virei político profissional. Deixei de ser acadêmico. Eu não traí o meu passado. Eu o abandonei, mas continuei usando adereços da formação acadêmica, como as citações em língua estrangeira. Eu instrumentalizei o meu passado intelectual para turbinar a minha imagem, pois existe um mercado da política no qual devemos nos diferenciar.
 
Simão: Muito elucidativo. Você e o Cineasta são a mesma pessoa? Não importa. A seguir, conheceremos as idéias de outro intelectual moderno. Na verdade, teremos aqui no palco o filósofo que se diz o maior do país. Não percam.
  
4o Bloco

 


 
Simão: Gente, o nosso convidado é uma sumidade, segundo ele mesmo se define. É um combatente das misérias intelectuais do Brasil e um crítico da universidade que estaria infestada de progressistas. Boa noite...
 
Filósofo maior: Boa noite.
 
Simão: Filósofo maior, você é frustrado por não ter conseguido terminar um curso superior?
 
Filósofo maior: Veja bem, só completei o clássico, como diziam na minha época. Se for preso, pego cela comum. Infelizmente. Por mais de dez anos, fiquei isolado e estudei as religiões. Vi então que havia algo de muito errado com o ensino superior. O Brasil tem a pior escola do mundo. Para mim, no entanto, tanto faz dar aulas na faculdade ou embaixo da ponte.
 
Simão: Com que autoridade você opina sobre temas tão diversificados?
 
Filósofo maior: Se eu opino é por absoluta necessidade. O que mais me surpreende é que só eu percebo as coisas. A universidade só tem analfabetos, uns esquerdistas que não viram que o futuro está no pré-Iluminismo.
 
Simão: A verdade no pré-Iluminismo?
 
Filósofo maior: A Revolução Francesa foi um erro. Qualquer revolução é uma deformação provocada pela idéia de práxis. Existe uma democracia que resulta em mediocridade cultural. Precisamos voltar à época dos intelectuais como clérigos. As missas, por exemplo, deveriam ser rezadas novamente em latim.
 
Simão: Os jacobinos estavam errados?
 
Filósofo maior: Completamente. Qualquer revolução é uma merda. Perdão pela franqueza. A esquerda inventou essa loucura de igualdade. O que é isso, meu Deus? O povo brasileiro é maciçamente de direita em cultura, moral, costumes. O verdadeiro homem não tem de defender apenas o livre mercado, mas um estilo de vida a ser seguido: anticomunismo, livre empresa, respeito à propriedade, moral judaico-cristã, educação clássica.
 
Simão: Devemos nos preocupar apenas com a liberdade?

Filósofo maior: Vamos falar às claras. Se cada brasileiro fosse reclamar seu direito à propriedade, aonde iríamos chegar? O Brasil inteiro seria retalhado. Se cada filho de uma doméstica exigisse direito à igualdade, aos estudos e a comer mais, o que iríamos fazer? O que está a nosso alcance é garantir um alimento mais vital do que o pão, uma riqueza mais fértil que a terra. Eu falo do direito à liberdade.
 
Simão: Ao vencedor, as batatas?

Filósofo maior: Evidente.
 
Simão: Que iluminação! Vamos para um intervalo, antes de receber os dois maiores cafajestes intelectuais do Brasil. Aguardem.
  
5o Bloco


 
Simão: Dois cronistas que iluminam nossa visão da atualidade. Como virou moda admirar Nelson Rodrigues, eles são assumidos cafajestes. Escrevem seus textos na imprensa, na internet, e depois juntam tudo num livro. Fazem propaganda de si mesmos e sobem na lista dos mais vendidos. Boa noite, como vocês dois conseguem ser tão, tão cafajestes?

Cafajeste-cronista: Meu amigo aqui é o melhor articulista do país, comprovado por uma empresa de consultoria dos Estados Unidos, a mesma que fazia as auditorias da Enron. Sou uma das centenas de milhares de macacas-de-auditório dele e o leio várias vezes ao dia.
 
Simão: De onde vem o sucesso tão retumbante?

Cronista-cafajeste: Acho que de minha ironia fina, sofisticada, quase machadiana. Chamo crime de crime, ladrão de ladrão, bandido de bandido, esquerdistas de assassinos, gays de degenerados morais, de ignorante quem discorda de mim. No auge de minha esquizofrenia, sustento que a lei deve ser cumprida.
 
Simão: Curioso. Vocês falam em cumprir a lei, mas vivem praticando a calúnia, a injúria e a difamação em suas crônicas.

Ambos os cafajestes: No Brasil, o assombroso é ficar do lado da lei. Insistimos nas leis e regras da democracia, da gramática, da lógica e dos bons costumes. Isso é um escândalo aqui. Transgredimos as regras, é verdade, mas é por uma boa Razão e porque temos bons advogados, claro.
 
Simão: Qual Razão?

Cronista-cafajeste: No próximo bloco, acho que o amigo Publicitário pode ter a melhor resposta para a nossa grande causa.
 
Simão: Qual de vocês é o mais brilhante?

Cronista-cafajeste: O meu amigo aqui...

Cafajeste-cronista: Que nada, você é o maior.

Cronista-cafajeste: Não, não, você passeia brilhantemente por diversos assuntos.

Cafajeste-cronista: Está bem, fico com o título, por humildade e camaradagem.
 
Simão: Que figuras incríveis, eles parecem lordes ingleses do século XIX, em pleno Rio de Janeiro Imperial e escravista. Obrigado... No último bloco do programa, vem aí o Publicitário, o gênio brasileiro de hoje.
 
6o Bloco

 
  
 
Simão: Ele é imbatível. Com uma frase feita e óbvia, elege presidentes e vende diversos produtos. Ele dirá o que é o novo conceito de cidadão. Publicitário, você é um fetichista?

Publicitário: Isso é coisa de Brecht, que foi um stalinista nojento. Ele queria expor as relações sociais embutidas naturalmente nas coisas. Veja só, um empresário põe seus empregados para trabalhar 14 horas dia e faz um programa de responsabilidade social, com ginástica laboral, para compensar. Isso é o que há de mais moderno. Se fosse na época do Brecht, seria acumulação primitiva. Tem muito empregado que lesa os patrões nas empresas.
 
Simão: A publicidade tenta vender o que não precisamos comprar?

Publicitário: Não insista no tom brechtiano, meu caro. Não vendemos produtos, vendemos a necessidade de comprar produtos. Não existe mais consumo de massa, agora é tudo personalizado, feito para um consumidor único.
 
Simão: A economia de mercado traz a felicidade?

Publicitário: Se fossemos entregar a felicidade, ninguém consumiria. O segredo é a promessa de felicidade. A vida está sempre mais ou menos, aquela pasmaceira, mas o consumidor precisa acreditar que tudo vai melhorar.
 
Simão: Mesmo que as pessoas se matem para isso?

Publicitário: Outro dia, li uma entrevista que não entendi bem. O sujeito, que é um notório atrasado, disse: “O problema é a maneira pela qual a sociedade é regulada pela noção de consumo como condição de acesso à plenitude da vida. Se você não tem acesso àqueles bens, você é um nada. E é a única coisa de que você dispõe. Trocam-se direitos por consumo”. Onde já se viu? É contra consumir.
 
Simão: Devemos ser consumidores ou cidadãos?

Publicitário: O Brasil somente será uma grande nação quando tiver um mercado consumidor do tipo norte-americano. Junk-food, gordura trans, carrões, mulheres com os seios grandes de silicone. Esse discurso de cidadania, dos direitos humanos, cheira a mofo. O máximo que todos deveriam reivindicar é liberdade.
 
 
Encerramento



Simão fica diante da platéia, baixa o olhar, comprime os lábios e começa a falar.

Simão: Foi uma noite e tanto. É a prova de como ficou estúpido ser inteligente. Se você quer ser grande, repita as lições ditas ao longo do nosso programa. Lembrem-se do meu velho irmão Janjão, o medalhão. Estamos diante da crise de paradigmas em Itaguay, e os convidados de hoje têm a saída. 

 

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