revista bula
POR EM 30/01/2011 ÀS 12:07 PM

Tréplica: Pelé nunca pretendeu ser santo, aliás ser Senna

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PeléMeu ensaio Senna Não é Pelé produziu reações diversas. Vários leitores concordaram com meu raciocínio, outros discordaram parcialmente, muitos ficaram indignados, houve quem suscitasse a possibilidade de que Senna teria praticado conjunções carnais com membros do “sexo feminino” de minha família, um amigo próximo acusou-me de desonestidade intelectual, dois cavalheiros mais exaltados mandaram mensagens eletrônicas me ameaçando de morte etc, etc, etc. Em sua maioria, como imaginei, as reações foram passionais. Infelizmente, afinal, não há possibilidade de debate civilizado quando um dos lados está vermelho, arrancando os cabelos, rasgando as roupas e batendo contra o peito. Como diz a tradição: apelou perdeu, playboy! 
 
Porém, dentre os discordantes, houve notáveis exceções. Por exemplo: Renan do Couto e Joubert Barbosa procuraram responder meus argumentos com outros argumentos, não com xingamentos vazios. Rodrigo Duarte Oliveira escreveu que “um texto pode acrescentar muito ao leitor. Porém, o texto do senhor Ademir, apenas nos acrescenta informações sobre a sua personalidade, o seu apelo a autopromoção”. Um primor de elegância e minimalismo, quase irrespondível. Renato Pujol questionou-me educadamente, acrescentando ao final uma tirada impagável: “abraço de uma viúva passional agarrada ao seu lencinho”. Hilário!


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POR EM 11/01/2011 ÀS 03:50 PM

Acerca da arte

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Saturno devorando o próprio filhoDesde há algum tempo deixei de ler Arnaldo Jabor. Pelo mesmo motivo que não leio Diogo Mainardi e até mesmo o brilhante João Ubaldo Ribeiro — tornaram-se monotemáticos, e, como tais, monótonos. Os deslizes morais do governo Lula se transformaram em fortes e irresistíveis lâmpadas acesas para os escritores-mariposas (ou seja lá que inseto for que se sente atraído por luz). Não é que eu faça parte do grupo que perdoa o mensalão e similares. De jeito nenhum. O PT acabou pra mim. Existe tanto quanto o PSDB de FHC ou o PP de Maluf. Coloco-os na mesmíssima cumbuca, não faço a mais microscópica diferença entre eles. Mas estou me desviando. 

Não lia mais Jabor há algum tempo, mas li sua coluna no jornal “O Popular”, que fala sobre a última Bienal de SP. A obra de arte deve ser exaltante, defende ele, criticando as instalações com pretensas mensagens sócio-políticas. Diz Jabor: “A sensação dominante que tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser “arte”, vergonha de provocar sentimentos de prazer”. [Grifo meu] 

Isso me fez lembrar de Slavoj Zizek, um filósofo cuja obra gosto muito de ler, embora dele discordando várias vezes. Zizek, a cujo livro “Lacrima Rerum — Ensaios Sobre Cinema” recorri em duas colunas minhas na revista “Filosofia Ciência & Vida”, a pretexto de analisar filmes do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, tem um estilo direto, objetivo (a não ser quando entra em terreno lacaniano) que muito me agrada. Mas desvio-me novamente. Enfim, eis do que me lembrei, quando li Jabor: “Supostamente, apreciamos a arte tradicional, espera-se que ela traga prazer estético, ao contrário da arte moderna, que causa desprazer; a arte moderna, por definição, fere. Nesse sentido exato, a arte moderna é sublime: causa prazer-na-dor, produz seus efeitos por meio do próprio fracasso, na medida em que se refere às Coisas impossíveis. Em contraste, parece que a beleza e o equilíbrio harmonioso são cada vez mais do domínio das ciências (...)” (“A Visão em Paralaxe”, Boitempo, p. 200). 


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POR EM 06/07/2010 ÀS 05:37 PM

Óssip Mandelstam, o rebelde que Stálin matou renasce como poeta

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Isolado por Stálin no campo de Versonej, Ossip Mandelstam morreu, de fome, aos 47 anos

Ossip Mandelstam Durante anos, na União Soviética, dizer o nome de Óssip Mandelstam (1891-1938) publicamente era uma ofensa grave ao “guia genial dos povos”, Stálin. Aquele que o citasse podia ser preso ou, mesmo, assassinado. A polícia política fez uma varredura cultural e limpou o nome do escritor russo Mandelstam (nascido em Varsóvia) — que o político Nicolai Ivânovitch Bukhárin amava e, enquanto pôde, protegia — dos livros de história de literatura russa ou qualquer outra. Na União Soviética, “ninguém” sabia, ou podia saber, sobre o escritor Mandelstam. Era terminantemente proibido. Seus livros, como os de Boris Pasternak, não eram editados. 

Mandelstam era um poeta de formação clássica, não engajado politicamente. Num dos melhores estudos da Revolução Russa de 1917, “A Tragédia de um Povo: A Revolução Russa — 1891-1924” (Record, 1106 páginas), o historiador inglês Orlando Figes diz que Maksimilian Voloshin, Mandelstam e Andréi Biéli (ou Belyi) “mostravam-se ambivalentes quanto à violência revolucionária; entendiam-na como uma força justa e primitiva, mas revelavam horror diante de tamanha crueza selvagem” (página 503). Figes conta, na página 746, que Máximo Górki ajudou Mandelstam.  Há um belo livro no mercado, que poderia ter sido chamado de “O Livro Negro do Comunismo — Cultura”, mas o autor Boris Schnaiderman (um dos mais qualificados tradutores do russo), ucraniano nascido em 1917 e que mora no Brasil desde os 8 anos, não o permitiria. Por isso, o título é outro: “Os Escombros e o Mito — A Cultura e o Fim da Soviética” (Companhia das Letras, 306 páginas). 


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POR EM 14/03/2010 ÀS 01:28 PM

Mérito e reparação: o que lembrar antes que oficializem o racismo no Brasil

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Operários, de Tarsila do Amaral

"Inventaram que responsabilizei os negros pela escravidão. É mentira. Apenas trouxe à luz o que está em qualquer estudo sobre o período: o tráfico de pessoas negras não começou com os europeus, mas entre os africanos; e era negra grande parte dos traficantes de negros"

"As diferenças entre um branco nórdico e um negro africano compreendem apenas uma fração de 0,005 do genoma humano. É a comprovação científica de que raça não existe ou só existe para os racistas"

"Os ongueiros querem que aceitemos a falácia de que a miscigenação ocorreu por estupro. Ou seja, todos os brasileiros que não forem de uma raça pura, segundo a tese racista dos militantes, tiveram sua origem em um crime sexual"


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POR EM 04/12/2009 ÀS 03:59 PM

O corpo sem pulso

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Yoko Ono e John LennonContra todas as indicações, Fernanda Young posou recentemente para a revista “Playboy”. As fotos mostram muito piercing, tatuagem e palavras escritas em punhos, braços e costas. Nada parece convencional porque se espera, neste tipo de publicação, a mulher fruta com inúmeras próteses para aumentar seios, quadris e lábios. O que aparece ali é muita insinuação de dor e mutilação. O corpo está modificado, não por roupas, mas por meio de intervenções e de inscrições. Pessoas famosas estão exibindo mais as partes cobertas por roupas. Algumas vão além. Fazem filmes de sexo explícito e são entrevistadas no talk show de Luciana Gimenez (uma espécie de Paul Johnson da televisão brasileira). Leila Lopes contou, certa vez, que não sentia nada em termos sexuais nas filmagens. Só muita dor física. Os homens tomam Viagra para manter a perfomance durante cinco horas na mesma posição. As mulheres passam Xilocaína nas partes íntimas.

Tudo vira performance. Vinte anos atrás, Cazuza descobriu que era soropositivo da "maldita", como dizia na época, a doença que pune a sexualidade, e apareceu na capa da revista “Veja” (a versão impressa do programa Super Pop). Um corpo magro, debilitado, rosto esquálido, para chocar e vender revista de lixo cultural. As reações foram imensas. A esfera pública acabou de mutilar o que restava do compositor. Câmeras viram biopoder. Annie Leibovitz fotografou a progressiva doença de sua parceira Susan Sontag. As dores, a perda de cabelo e, por fim, o cadáver. Fez o mesmo com os próprios pais, em seu envelhecimento, a flacidez dos braços. O que pareceria vulgaridade, tornou-se vida pelas lentes da fotógrafa. Foi ela quem convenceu John Lennon a posar nu, abraçado à mulher Yoko Ono, e no mesmo dia o beatle morreu com tiro disparado por um aloprado. O corpo morto de Lennon não apareceu mais. 


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POR EM 16/11/2009 ÀS 02:34 PM

Jornalistas raramente entendem o regime totalitário de Cuba

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Fidel CastroMesmo repórteres experimentados têm dificuldade para explicar o regime totalitário de Cuba. O correspondente do “El País” em Havana, Mauricio Vicent, publicou ótima reportagem sobre Fidel Castro no domingo, 8, mas, como muitos outros jornalistas, não interpreta com precisão o funcionamento do sistema comunista. Traduzo e comento alguns trechos de seu texto, expandindo aquilo que mostra e discute de modo superficial. Mauricio Vicent construiu sua longa reportagem, “Vida secreta de Fidel Castro”, baseado quase que exclusivamente em fontes anônimas, o que é natural, pois os cubanos, mesmo autoridades graduadas, temem dizer qualquer coisa a respeito do chefão; o que parece agradar pode desagradar. A intimidade e a saúde do Al Capone da esquerda são segredo de Estado. “Hoje”, diz uma fonte anônima, Fidel “verdadeiramente está fora do poder, dedicado às grandes estratégias e aos problemas mundiais”. Se está fora do poder, como aceita o repórter do principal jornal espanhol, como pode se dedicar “às grandes estratégias”? Elabora estratégias para quem? Para o regime do qual é tutor. Na “ausência” do imperador, Raúl Castro, o irmão Débil & Loide, é no máximo regente.

Embora não tenha conseguido entrar na casa de Fidel, Mauricio Vicent colheu informações detalhadas. “Punto Cero [Ponto Zero] é o nome para designar o lugar da residência de Fidel.” O chefão “aposentado” e sua mulher, Dalia Soto del Valle, com quem tem cinco filhos, moram numa casa de quatro quartos, com piscina (luxo em Cuba) e amplo jardim. Nas casas próximas moram filhos, noras e netos. O “sultão comunista” teme ser morto e é protegido 24 horas por dia. Paranoico, costuma dizer que é vigiado, até quando vai ao jardim, por satélites espiões americanos.


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POR EM 10/11/2009 ÀS 10:35 AM

Com o dedo na garganta

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F GullarEm 1975, no auge da ditadura militar brasileira, o poeta Ferreira Gullar estava na Argentina na situação de exilado. A capital Buenos Aires era mais uma parada na longa fuga que começou pela União Soviética e passou por Lima no Peru e Santiago do Chile. Sua família se esfacelara: a esposa e um dos dois filhos haviam retornado ao Rio de Janeiro. O outro filho desaparecera naquele ano, durante o exílio argentino, em mais um surto psicológico. Os filhos tinham grandes problemas emocionais agravados pelo uso de drogas. Criou-se o vazio na vida daquele intelectual, membro do Partido Comunista e um dos conhecidos representantes da classe média que decidira resistir aos militares.

O clima de “respiração artificial”, para usar uma expressão de Ricardo Piglia, se acentuara na Argentina, às vésperas de mais um golpe político que viria a se concretizar em 1976. “Surgem rumores de que exilados brasileiros estavam sendo seqüestrados em Buenos Aires e levados para o Brasil com ajuda da polícia argentina”, diz. Quando escreve esse relato mais de 20 anos depois, no livro de memórias “Rabo de Foguete” (1998), Gullar sabe que se trata da Operação Condor, na qual os países do Cone Sul atuaram em conjunto para identificar os opositores de um governo que estivessem refugiados em países vizinhos. Na época, a única sensação era a de pavor e necessidade de exprimir, em palavras, aquela situação irrespirável.


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POR EM 09/11/2009 ÀS 01:50 PM

O intelectual do século

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Sartre Existem poucas situações mais risíveis do que as infindáveis discussões entre dois pretensiosos donos da verdade. Podem ser muito divertidas, render diálogos dos mais irônicos, dignos de Woddy Allen. Lembro-me que há alguns anos meu amigo Alencar Arrais, dileto historiador, e eu discutimos durante dias quem teria sido o mais importante intelectual do século XX. Meu interlocutor defendia, concordando com um cânone publicado, creio eu, pela “Folha de São Paulo”, o nome do sociólogo alemão Max Weber. Eu não tinha dúvidas: o intelectual do século XX tinha sido o francês Jean-Paul Sartre. Sei muito bem que a produção de Weber é mais consistente, mas, ainda assim meus argumentos eram, em meu entender, indiscutíveis: além de sua vasta obra filosófica e artística, Sartre tinha a seu favor sua polêmica atuação política, a admirável petulância de recusar o Prêmio Nobel de Literatura e, talvez acima de tudo, o fato de ter sido um inexplicável símbolo sexual. O homem foi a práxis existencialista encarnada em carne, osso, óculos e cachimbo. Contudo, obviamente as discussões entre donos da verdade tradicionalmente não tem fim, como esta não teve. Foi apenas deixada de lado, vencida pela exaustão. Mas vai voltar. O lançamento do livro “O Século de Sartre – inquérito filosófico”, do filósofo francês Bernard-Henri Lévy, dá-me farta munição para reabrir a nossa insignificante polêmica pessoal. 
           
“O Século de Sartre” não é uma mera biografia crítica sobre seu personagem título, vai muito além disso. É, sim, um verdadeiro inquérito filosófico sobre o impacto que o pensamento sartriano teve no século XX. É também uma proposta de redescoberta de seu pensamento. Apesar de Sartre nunca ter sido esquecido, tendo lugar cativo entre os gênios de todos os tempos, a decadência das utopias de esquerda que coincidentemente se seguiram a sua morte, ocorrida em 1980, relegou sua filosofia a desconfortável condição de peça de museu: fundamental como instrumento de análise de uma época, mas datada, ingênua e equivocada, quando fora de seu contexto histórico. Sartre que em vida foi uma longa coqueluche intelectual, uma moda que durou quarenta anos, depois de morto, ao contrário de alguns de seus contemporâneos, como Foucault e Camus, nunca entrou em moda. De certo modo, sua morte foi um alivio. Sartre fez barulho demais, incomodou demais, foi camaleônico demais ao longo de sua carreira para ser plenamente inteligível. O melhor seria mesmo deixá-lo no limbo de Dante, pensaram os sobreviventes.


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POR EM 06/11/2009 ÀS 11:18 PM

Da crítica exacerbada e da percepção estrábica

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homem_comprimidoEventos Pastelaria. Saborosos pastéis de vento e sopro, fritos na hora. Entre, prove, confira. Sinta no rosto o bafor ao sabor do nada dentro do pastel empapuçado. Mas então o nada não é o vento que há lá dentro? Opa! Ó paí ó! Não é este o assunto. Afasta de mim o homem do megafone, apregoando pastel de vento. Sai do meio, recheio! 

Antes de prosseguir, afixo o aviso aos navegantes do Nautilus, a lâmina prateada dos oceanos e do capitão Nemo — “Vinte mil léguas submarinas”, de Julio Verne —, bem como aos internautas da nave Bula, visitantes e colegas: o texto que se segue é longo, sujeito a mutucas e pernilongos. E o bafo quente por aqui é outro, quente que andou o tempo num entrevero de linhas cruzadas — bu(r)lesco episódio — em que os contendores iam de meros comentários ao tirocínio de seus talentos, que cada um os tem a seu tanto, alguns mais, outros menos; já outros, por certo, movidos por inconfessas idiossincrasias de foro íntimo, parece que um despeito próprio de mentes incultas, ou menos cultas. Uma gente pequena e complexada no rodapé de seu pobre intelecto; uma sombra esperneando-se na obscuridade da massa cinzenta. De alto ou mediano talento, e de outros nem tanto, o que às vezes falta é o mútuo respeito, equilibrado pela consideração dos limites — tanto intelectuais quanto morais —, ponderado pelo bom senso de cada um, aparadas as arestas das diferenças, sopesada a intempestividade, contido o explosivo temperamentalismo. 

À parte a crassa ignorância, que a essa não é mesmo de se respeitar — nem há como ela própria (com moela, galinha cega) se dar o devido respeito —, conquanto ser de se levar em conta por alguma tolerância, mas sendo de ressalvar-se, todavia, que também a tolerância tem limite; nem por isso partir para a barbárie verbal, que só faz rebaixar ainda mais o nível dos debates. A questão crucial é: como contornar a cega ignorâcia, que prescinde do aprendizado e persiste na burrice, na idiotice, primando pelo patético, pelo ridículo, apenas pelo prazer do espírito de contradição? Ó trevas! Haja sabedoria! Corolário do conhecimento. 


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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

A morte de Euclides da Cunha

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Euclides da Cunha fora deixado entrar na casa de Dilermando de Assis pelo aspirante da Marinha Dinorah de Assis, irmão mais moço do amante de Saninha. Inteiramente dominado por desvario — “Vim para matar ou morrer” —, revólver em punho, Euclides está defronte a Dilermando, no quarto deste. “O que é isto, doutor?”, o cadete pergunta assustadíssimo. “Corja de bandidos!” — é a resposta-exclamação do escritor. E atira contra Dilermando, “quase à queima roupa”. Ferido e despossuidor de arma naquele momento, o cadete tenta tomar a arma do agressor, avançando com a mão esquerda. Euclides recua e o agredido só consegue agarrar a manga do seu casaco. Recebe um seguro tiro e cai, atingido no peito e a sofrer dores horríveis, estonteado completamente. Dinorah, vendo o irmão ferido e caído, procura agarrar-se a Euclides e desarmá-lo. O escritor atira também contra ele. Dinorah, sem arma alguma, corre em direção ao seu quarto. Euclides acerta-lhe um tiro na coluna vertebral. No momento, Dinorah não sente consequências desse tiro. Nem mesmo por algum tempo. Tanto que daí a uma semana ainda participa de uma partida de futebol pelo seu clube, o Botafogo de Futebol e Regatas, pelo qual ainda vem a se sagrar campeão daí a poucos meses. Mas algum tempo depois começa a sentir hemiplegia. A lesão o inutiliza. Angustia-se. Entra em depressão profunda, suicida-se aos 32 anos, saltando no mar. Sobre esse fato, Dilermando irá registrar em famosa entrevista ao escritor Francisco de Assis Barbosa, publicada pela revista “Diretrizes” em 1941: “Vendo-me em perigo, tenta desarmar Euclides, que dispara contra meu irmão. Desarmado, este corre pelo corredor e ao aproximar-se da porta do seu quarto, Euclides acerta-lhe um disparo na coluna vertebral, inutilizando meu desventurado irmão pelo resto da sua vida” (Este resto de vida foram 12 anos culminados com o suicídio).

Euclides da Cunha escuta os gritos de Saninha e dos meninos (Sólon e o pequenino Luiz, de 2 anos e alguns meses estão com ela escondidos na despensa). Dilermando, caído, vê Dinorah também prostrado, enxerga Euclides e escuta Saninha e as crianças. Apanha o seu revolver e dá um tiro na direção oposta à que estava Euclides, só para amedrontá-lo, mas dando prova de se achar em condições de reagir. Euclides volta pelo corredor no rumo da sala de visitas mas, para surpresa de Dilermando, retoma o ataque. Outra vez para amedrontar o atacante, o cadete atira novamente contra a parede. Como o escritor continua a disparar, Dilermando tenta desarmá-lo com um tiro no punho. Não acerta direito porque Euclides levantara a mão, para alvejar Dilermando. Erra o alvo mas, mesmo assim, o disparo fere Euclides no pulso, sem lhe derrubar a arma. No início do corredor, junto à sala de visitas, Euclides, encostado à parede, atira contra o desafeto (campeão de tiro do Exército) e este grita para ele:

— Fuja, Dr. Euclides, pois não lhe quero matar!


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