revista bula
POR EM 02/04/2012 ÀS 10:33 PM

Jack London, o mito permanente

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Considerado um dos maiores escritores da língua inglesa em todos os tempos, Jack London gastou intensamente sua breve existência e cumpriu o que prometeu: “Não passarei meus dias tentando prolongá-los; prefiro ser cinzas a ser pó”. Morreu aos 40 anos

Um dos mais vigorosos autores norte-americanos, Jack London, me parece ter sido menos honrado do que merecia no seu centenário de nascimento, ocorrido em 1976. Vamos ver o que ocorre no centenário de sua morte, em 2016. Não teve até agora uma biografia à altura de sua vida, movimentada o bastante para preencher um livro onde se mesclariam aventura, drama, política, romance e tragédia. Fora alguns fracos relatos biográficos aqui e ali (incluso um escrito pela filha de Jack, Joan London, em 1938), dois autores intentaram descrever sua vida: Irving Stone, em 1938, e mais recentemente, Alex Kershaw, em 2000.  O livro de Stone foi traduzido e lançado, há anos, no Brasil, com o título: “A Vida Errante de Jack London”. Deixa muito a desejar, levando em conta que o autor fez trabalhos melhores, incluindo uma biografia de Van Gogh, e uma de Michelangelo, levada ao cinema no filme “Agonia e Êxtase”, com Charlton Heston.

Talvez os métodos de pesquisa, relativamente pobres na década de 1930, tenham limitado o trabalho de Stone. Kershaw teve mais sucesso, embora não se possa dizer que seja uma biografia definitiva. Com mais fontes ao seu alcance, encontrando dados organizados em bibliotecas, universidades e fundações mais recentes, ele conseguiu construir um livro mais profundo, aprimorado e ilustrado. Pena que ainda não haja tradução em português. Mas quem quiser conhecê-lo, pode conseguir a versão espanhola, “Jack London — Un Soñador Americano”, da Editora La Liebre de Marzo, de Barcelona. A internet põe qualquer livraria do mundo ali na esquina.


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POR EM 23/03/2012 ÀS 09:31 PM

Mídia esconde homossexualidade de Pedro Nava

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Relançamento das memórias de Pedro Nava é o acontecimento literário de 2012. Mas a imprensa faz questão de continuar escondendo que o brilhante escritor mineiro matou-se porque estava sendo chantageado por um garoto de programa. Memorialista deu um tiro na cabeça, numa praça pública 

Oscar Wilde (1854-1900), autor do romance “Dorian Gray” e de frases rever­be­rativas, teve um affair com Alfred “Bosie” Douglas — o que o levou, depois de um escândalo popularesco, à prisão. Um pouco de seu drama é contado no esplêndido “De Profundis”, espécie de canto do cisne do escritor irlandês. Nesta pequena obra-prima, possivelmente tendenciosa (mas confirmada no geral pelo biógrafo mais crível, o norte-americano Richard Ellmann), o criador de “A Importância de Ser Prudente” sugere que praticamente foi seduzido pelo jovem lorde. Pode ter ocorrido isto. O fato é que a “crise”, provocada mais pelo moralismo da sociedade inglesa do que pela homossexualidade do escritor e de seu parceiro — este, estranhamente, apresentado como vítima, talvez pela influência política e social de seu pai, um nobre —, destruiu a carreira e a vida de uma mente privilegiada. Wilde, que morreu com apenas 46 anos, era casado e tinha filhos. Recentemente, a história da homossexualidade do escritor José Donoso escandalizou o Chile, sobretudo porque revelada pelo próprio escritor, que deixou diários. O Brasil também trata a homossexualidade como “escândalo”. Ninguém escreve a biografia de Mário de Andrade, exceto o jornalista Jason Tércio, porque teme-se tocar na sua evidente homossexualidade. O escritor Lúcio Cardoso ganhou uma biografia reveladora — que retrata sua homossexualidade não protegida por parentes e críticos zelosos. A escritora Clarice Lispector, apaixonada, foi desprezada pelo autor do romance “Crônica da Casa Assassinada”. Depois de Mário de Andrade, a história da homossexualidade mais camuflada é a do memorialista mineiro Pedro Nava, que, chantageado por um garoto de programa, matou-se em 13 de maio de 1984, aos 80 anos. Agora, no relançamento de suas memórias — em edições caprichadas da Companhia das Letras, configurando, ao lado da obra do poeta Carlos Drummond de Andrade, também pela mesma editora, a maior publicação literária de 2012 —, os jornais novamente pisaram em ovos ao tratar a homossexualidade ou, mais precisamente, a bissexualidade de Nava, como se isto, a homossexualidade, fosse crime ou afronta à Humanidade. 

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POR EM 23/02/2012 ÀS 10:41 PM

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

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Há algo de muito íntimo em receber um livro com dedicatória: nestes tempos dominados pelo computador e pela pressa, ler algo escrito de próprio punho por pessoa que se estima pode ser uma experiência rara e emocionante

André Gorz e sua mulher Dorine“Para Mercedes, por supuesto”: assim Gabriel García Márquez dedicou, para minha inveja, “O Amor nos Tempos do Cólera” a sua mulher, escancarando todo o seu amor com apenas duas palavrinhas — “por supuesto”. Na edição brasileira que tenho deste livro que há muito tempo acompanha os meus devaneios literários, meu pai escreveu a minha mãe: “Para você, o amor nos tempos do... amor” (romantismo que compensou dedicando “A Terrorista”, de Doris Lessing, com ironia — “Leia, mas não seja”. O conselho deve ter sido seguido, pois o casamento permaneceu firme). Já noutro exemplar, espanhol, um grande amigo me homenageou: “A mi hermano Marcelo Franco, ésta que es la más bonita novela escrita en Latinoamérica en la lengua de Cervantes”. Portanto, mantenho três edições do livro de García Márquez nas minhas estantes sempre atulhadas: uma toda anotada por mim e as duas com dedicatórias — vício de bibliômano. 

Ler com atenção e colecionar dedicatórias é com certeza um dos sinais distintivos da bibliomania. Na verdade, uma das formas de reconhecer um bibliomaníaco é o fato de que lemos de fio a pavio qualquer livro: as orelhas, a dedicatória, as notas de rodapé, as referências bibliográficas e até o colofão. Holbrook Jackson, autor de uma preciosidade criminosamente ainda não traduzida no Brasil, “The Anatomy of Bibliomania”, reservou um capítulo inteiro de seu livro para discorrer sobre o prazer de colecionar livros com pedigree, aqueles que têm dedicatórias ou anotações de quem os possuiu. No meu caso, não sou exceção à regra: venho há anos comprando livros dedicados pelos próprios autores e consegui alguns itens dos quais me orgulho com exagero talvez doentio: Pedro Nava, Afonso Arinos, Erico Verissimo, Rubem Braga... Mas se esta faina de acumulação é estranha, Holbrook também nos lembra que a bibliomania causa menos males do que, diz ele, a “sanidade dos sãos”. Acho que procede (aliás, é curioso que a bibliomania seja vista com estranheza enquanto a cinefilia desfruta de status de atividade essencialmente intelectual. Mas não se animem os cinéfilos: a julgar pelos cadernos de cultura dos jornais, a leitura de quadrinhos já está quase ocupando o seu lugar). 


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POR EM 19/01/2012 ÀS 02:22 PM

E com o evocado vem o mistério das associações

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Depois de ler e reler os livros que o meu velho conhecido Pedro Nava deixou para mim antes de ter se colocado a salvo dos tormentos da memória, sinto que regresso de muito longe e de muito tempo atrás. E penso comigo: se o mundo mudou e ninguém mais liga para essas coisas, não tem importância — elas vivem em mim

Pedro Nava

Escrevi aqui na Bula sobre a Belo Horizonte dos escritores modernistas e, por isso, muitas pessoas ficaram curiosas em relação a Pedro Nava, pouco conhecido atualmente. Nada de novo no front: Nava, autor de seis magníficos livros de memórias, louvado pelos colegas escritores até, creio, o final da década de 80, foi depois esquecido pelos intelectuais brasileiros e parece não despertar muito interesse naqueles que poderiam divulgar a sua literatura. (Da mesma forma, perguntaram-me sobre R., citada nos meus textos, principalmente se ela seria a origem da minha inspiração. Imagino que sim — é como dizem os franceses sobre a motivação dos nossos atos: cherchez la femme. Posso também dizer que... Bem, vocês sabem. Ou não sabem?) Portanto, vamos ao Nava (não como crítico literário, que não o sou, mas como “pedro-navista” de carteirinha). 

Em junho de 1903, nasceu, na mineira Juiz de Fora, um “pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”, como ele escreveu no primeiro livro de suas memórias, “Baú de Ossos”, usando uma fórmula de Eça de Queirós (“Eu sou um pobre homem da Póvoa do Varzim”), depois também utilizada por Otto Lara Resende (“Eu sou um pobre menino do Matola, de São João del Rei”) — aliás, como a inveja é o pecado dos escritores frustrados, eu gostaria de poder dizer que sou um pobre homem de São Sebastião do Alemão (Palmeiras de Goiás, cidade da minha família materna), ou que sou um pobre homem de Itaberahy (Itaberaí, claro, onde nasceu meu pai), mas fico apenas na vontade não realizada, pois nasci nesta mui nobre, mui leal, benemérita, heróica, invicta e boa cidade de Goiânia. 


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POR EM 02/01/2012 ÀS 04:31 PM

Nenhum Brasil existe e Minas não há mais

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Dos meus vícios (há tantos!), talvez o menos condenável seja a leitura de cartas. Pois estou com sorte para cultivar minhas manias: a Companhia das Letras acaba de publicar “O Rio É Tão Longe”, coletânea de cartas de Otto Lara Resende para Fernando Sabino (e também relançou “Bom Dia Para Nascer”, agora com 74 crônicas a mais do que na primeira edição). As cartas de Otto podem ser lidas em conjunto com as cartas do próprio Fernando, publicadas pela Record em 2002 (“Cartas na Mesa”). É o que venho fazendo e o que me motivou a pensar nos velhos escritores mineiros — dos quais também há tantos.

(Parênteses imediatos para uma das minhas costumeiras digressões: sou não apenas leitor, mas também escritor constante de cartas. Desde que conheci R., há quase seis anos, enchi-a de cartas. Ah, a propósito e sem propósito: por conta dos meus textos anteriores aqui na “Bula”, recebi várias mensagens nas quais os leitores perguntam quem seria R. Respondo: R. é alfa e ômega.)

Otto, prolífico no que escrevia aos amigos, dizia-se “o último cidadão que ainda se dedica a este gênero obsoleto que é o epistolar”. Já Fernando Sabino, com apenas 22 anos, lamentava a passagem do tempo: “Sim, é verdade que um tempo nosso se encerrou. Somos homens, não somos mais meninos do Trianon, meninos do Viaduto, dos porres, das placas de rua, de cadeados, até mesmo de vitrines de chapelaria. No fundo, se a gente pensar bem, triste tentativa de sentir de novo um tempo que passou, nada mais” (Otto, Fernando e seus amigos trocavam placas de identificação de casas e cadeados de portões). E os dois fofocavam, contavam histórias, lamentavam, riam, choravam, amavam e odiavam nas cartas — essa facúndia escrita lança dúvidas sobre o alegado comedimento mineiro. Sobretudo, eles, tomados de irresistível “cacoethes scribendi” desde a infância, comentavam livros, e é essa compulsão literária que me espanta nos mineiros de então. Por isso, busco-os nas coletâneas de cartas, romances e livros de memórias que deixaram.


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POR EM 15/12/2011 ÀS 07:56 PM

Meus encontros com Kafka

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O ensaísta, crítico literário e jornalista Otto Maria Carpeaux relata seu encontro com Franz Kafka, em 1921, na cidade de Berlim
 

“Kauka.”
“Como é o nome?”
“KAUKA!”
“Muito prazer.”

Esse diálogo, que certamente não é dos mais espirituosos, foi meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao ser apresentado a ele, não entendi o nome. Entendi Kauka em vez de Kafka. Foi um equívoco.

Hoje, o “Kauka” daquele distante ano de 1921 é um dos escritores mais lidos, mais estudados e – infelizmente – mais imitados do mundo. Mas só Deus sabe quantos são os equívocos que formam essa glória. O romancista de “O Processo” é, para alguns, o satírico que zombou da burocracia austríaca; e para outros o profeta das contradições e do fim apocalíptico da sociedade burguesa; e para mais outros o porta-voz da angústia religiosa desta época; e para mais outros o inapelável juiz da fraqueza moral do gênero humano e do nosso tempo; e para mais outros um exemplo interessante do Complexo de Édipo, etc., etc., etc. Tudo, em torno de Kafka, é equívoco. Equívoco também foi aquele meu primeiro encontro com “Kauka”.

Foi em 1921, em Berlim. Embora só contando os anos do século, eu já tinha passado por duras experiências de guerra e revolução. Estudante universitário, agora, que sonhava com uma carreira literária. Berlim, naqueles anos do primeiro pós-guerra, foi um centro de vanguardas: expressionismo, dadaísmo, os primeiros pintores abstracionistas, simpatizantes do comunismo e fundadores de seitas religiosas e vegetarianas, uma boêmia na qual os jovens austríacos desempenhavam papel grande e barulhento – e alguns grandes escritores de verdade: Döblin, Arnold Zweig, Werfel. No Café Românico, centro da boêmia, esses homens feitos ocupavam mesas especiais, de que ninguém ousava aproximar-se sem ser especialmente convidado; o que não aconteceu nunca. Olhávamos para lá com inveja, escutando para apanhar, talvez, um pedaço de conversa. Rara foi a oportunidade de um convite para as tardes de domingo, no apartamento de um ou outro daqueles escritores, no bairro boêmio, mas elegante, do Bayrischer Platz, hoje um montão de ruínas. E numa dessas tardes cheguei a conhecer pessoalmente Franz Kafka. 


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POR EM 13/10/2011 ÀS 01:27 PM

O dedo de Tolstói

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A esmagadora maioria dos escritores nasce derivada de um ou dois fatos marcantes, que lhes forjam a inescapável necessidade de partilhá-los. O mais é consequência da experiência diária e da própria liturgia do ato de escrever; de resto, motivações acessórias ao ofício. Liev Nikolaievitch Tolstói não foge a essa regra. Analisando sua bibliografia, constatamos que, a priori, sua obra se encontra cindida em três eventos marcantes: seu ingresso no Exército Czarista, participando inclusive dos combates encarniçados da batalha de Sebastopol, o testemunho do suicídio da princesa Anna Stepánovna, na estação da estrada de ferro de Iásnaia Poliana e sua conversão aos evangelhos na forma de um cristianismo puro e anti-clerical.

Dissecando sua robusta produção literária, podemos identificar esse movimento pendular, oscilando de um fato a outro e, com o passar dos anos, adquirindo um caráter messiânico, panfletário e libertário. Talvez a exceção fique com “O que é Arte”, um libelo metapoético onde ele desanca a intelligentzia da época, Nietzche à frente; e “A Felicidade Conjugal”, uma novela retratando os conflitos conjugais, que deixaria as feministas de hoje de cílios em pé. Mas isso é uma outra história. Como consequência direta de sua vida na caserna, Tolstói escreve os “Sebastopolskii Rasskazi” (Contos de Sebastopol), retratando os horrores no front de Sebastopol. “Guerra e Paz”, a despeito do enorme sucesso, pode ser catalogado como um rico e minucioso tratado sobre os humores de um país em pleno campo de batalha (a invasão Napoleônica de 1812). Como relembrança da cena fatal do suicídio de uma mulher adúltera, surgiu “Anna Kariênina”, com a voz narrativa afirmando-se na voz de um Deus justo e vingador: a mim compete a vingança e a retribuição. Derivando do período de pregação e exortação religiosa, temos “Ressureição”, ‘A Morte de Ivan Ilitch” e “Padre Sérgio”, uma tróica contundente a gritar ao homem sua falibilidade e sua podridão.


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POR EM 12/09/2011 ÀS 04:43 PM

Sartre: o messias da filosofia

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O filósofo francês viveu no mundo da fantasia, escravizou Simone de Beauvoir, mentiu sobre a União Soviética e sobre Cuba e era amado pelos estudantes

O francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), o gnomo obsceno, talvez tenha sido o filósofo mais comentado e, até, lido do século 20. O que você vai ler neste texto é tão duro — sobre o baixinho mais feio do que briga entre Anderson Silva e Chael Sonnen — que dou duas dicas: há uma ampla biografia, “Sartre”, de Annie Cohen-Solal (L&PM), em português, que tem uma interpretação menos ácida e mais equilibrada do companheiro de Simone “Castor” de Beauvoir, e há “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Nova Fronteira, 2008), do historiador britânico Tony Judt. Há um “problema” para leitores preguiçosos: o livro de Cohen-Solal tem 693 páginas. Não há índice de nomes, o que é ruim numa biografia em que se cita muita gente (como o brasileiro Jorge Amado). O livro de Judt, com 478 páginas, é pau puro, e Sartre sai muito mal, com Albert Camus revalorizado. O filósofo de “O Ser e o Nada” não é, porém, o único a ser examinado neste livro esplêndido, seriíssimo.

Se você nunca leu o palavroso Sartre — e não está disposto a ler mais —, a biografia de Cohen-Solal faz um balanço quase exaustivo de suas obras. Creio que é o melhor inventário sobre a obra e a vida do escritor-filósofo, pelo menos em português. Com pouca acidez, insisto, mas, às vezes, sem condescendência. Mas, claro, é um trabalho a favor.


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POR EM 16/07/2011 ÀS 10:17 AM

Woody Allen deveria filmar também em Lisboa

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Este não é um texto sobre Woody Allen. É um ensaio/tributo a Lisboa. Mais: é um passeio pela história do Fado e seus mitos

Já me disseram que há um ditado que nos lembra que conhecer o mundo sem ir a Sintra não seria realmente conhecer o mundo. Bem, não há como discordar, mas acredito que pecado maior é ir a Lisboa e não ouvir fado.

Estamos em Lisboa já há alguns dias, R. e eu, e ainda não ouvimos fado. Ou antes: ainda não fomos a uma casa de fado, pois já ouvimos fadistas na rua e também a música, quase sempre de Amália Rodrigues, que sai das lojas de discos (percebo que escrevi “discos” em vez de “CDs”: muitas vezes, palavras entregam a idade). E há uma mendiga cega na Rua Augusta que sempre está cantando e balançando seu copo para recolher moedas; seu lamento, do qual não entendo nada, fere de um modo pungente meu coração. (Não sei se R. também se sente assim, preciso perguntá-la sobre isso — aliás, noto agora, me parece que ela ainda não reparou na mendiga, o que pode significar que os vinhos que tenho bebido talvez estejam fazendo com que eu transforme coisas banais em situações memoráveis. Passarei um dia sem vinho para conferir. Se não encontrar a velhinha novamente, com certeza ficarei não apenas um, mas muitos dias sem beber.) Iremos, claro, ouvir a música na fonte. Antes da aula prática de fado, porém, faço minhas pesquisas e descubro coisas do balacobaco (uma curiosidade: a palavra balacobaco tem uma certa ligação com o samba; qual seria, se é que existe, a palavra equivalente para o fado?). O fado tem, como todos os tipos de música, seus mistérios; por exemplo, não há concordância sequer em relação a sua origem. Para alguns, ele vem da música dos invasores árabes; para outros, ele descende dos cantos dos trovadores; há ainda quem o queira fruto das canções dos marinheiros portugueses que correram o mundo. Muita gente, contudo, crê que o fado, vejam só, viria da nossa música, da modinha e do lundu, influência brasileira (e africana) que teria chegado a Lisboa com o retorno da Família Real, em 1821, do Brasil, onde ela aportara, em 1808, fugida das tropas napoleônicas.


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POR EM 04/07/2011 ÀS 07:32 PM

Eterna meia-noite em Paris

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Este não é apenas um texto sobre o novo filme de Woody Allen. É um ensaio sobre Paris. Um guia literário de uma época. Um grande passeio pela Paris dos intelectuais, das histórias, dos escritores e artistas que ficaram gravados no inconsciente coletivo do mundo 

Todos os que escreveram sobre o último filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”, captaram bem a sua essência (e o próprio Dr. Flávio Paranhos, woody-allenista da linha de frente, já deu o seu aval ao filme). Agradeçamos aos santos padroeiros do cinema por Woody Allen não ser adepto do hermetismo cinematográfico, esse mal que lota cineclubes e esvazia cinemas: em “Meia-noite em Paris” claramente entendemos que ele questiona se haveria uma idade de ouro melhor do que os tempos atuais em que vivemos. O protagonista do filme volta, por conta de uma mágica qualquer, à Paris dos anos 1920 e passa a conviver com Scott e Zelda Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Dalí, Buñuel, Man Ray, Cole Porter. Vê Josephine Baker se exibindo no Bricktop's e dança com Djuna Barnes numa festa, o que lhe permite uma ótima piada: “Aquela era Djuna Barnes? Não me impressiona que ela quisesse liderar” (outras boas piadas acontecem quando ele antecipa o roteiro de “O Anjo Exterminador” para Luis Buñuel, que não o entende — “Por que as pessoas ficam presas na casa?” —, e quando cita uma frase do próprio Hemingway para o escritor, “Acredito que toda a literatura americana nasce com ‘As Aventuras de Huckleberry Finn’”, mas Hemingway, em resposta, apenas lhe pergunta se ele gosta de boxe). Contudo, a mulher por quem Gil Pender, o personagem interpretado por Owen Wilson, se apaixona naqueles roaring twenties, prefere a belle époque, e de novo, por causa de uma espécie de magia, eles recuam ainda mais no tempo e sentam-se a uma mesa no Moulin Rouge com Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Woody Allen parece concluir que não há uma época de ouro e que é preciso viver da melhor maneira possível o presente; o filme é assim uma apologia do “ubi sunt?” e do “carpe diem”.


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