revista bula
POR EM 10/03/2008 ÀS 08:04 PM

O Adeus de Fidel

publicado em

Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos



 

Idelber Avelar
O biscoito fino e a massa

Um certo professor de literatura cubana de uma universidade pública da Flórida preparava seu histórico de pesquisa e magistério para apresentar aos comitês avaliadores que decidiriam sobre seu tenure, a estabilidade no emprego que, nas universidades americanas, se conquista (ou não) depois de sete anos, em geral. O trabalho do cabra era completamente apolítico. Ele se filiava à semiótica, a chamada ciência geral dos signos, método de leitura bem formalista e asséptico para meu gosto mas que, como qualquer método, tem seus prós e seus contras. Popularíssimo professor, com excelentes avaliações, amplo leque de artigos nas revistas mais conceituadas, dois livros publicados (o requisito para o tenure costuma ser um livro), ele foi aprovado numa votação unânime do departamento. O dossiê seguiu para a esfera superior, a do college, e também ali ele foi aprovado por unanimidade. O presidente da universidade corroborou, como é de costume, a decisão dos especialistas. Só ficou pendente o carimbo do governo estadual, coisa absolutamente pró-forma nas universidades públicas americanas.

Até que um setor da comunidade cubana de Miami entrou em ação. Protestos e abaixo-assinados pediam que o governador cancelasse o tenure do sujeito com um curiosíssimo argumento: o fato de que ele não lecionava a “literatura do exílio” cubano em suas aulas era uma violação do direito de livre expressão da comunidade exilada. Isso mesmo: eu não ensinar sua sub-literatura nas minhas aulas é uma violação dos seus direitos. Um caso comum e corrente de avaliação acadêmica transformava-se numa estranha guerra política. Foi a primeira aula que tive sobre o que a comunidade exilada cubana entende por livre expressão. Seus métodos, que aqui nos EUA têm bastante em comum com os do lobby pró-Israel, colocam boas dúvidas sobre seu compromisso com a democracia, que tanto apregoam querer trazer de volta a Cuba. O tenure foi revertido e a carreira do profissional foi destruída.

O segundo caso é curioso e aconteceu comigo. Passeando pelo centro de Miami – cidade que visitei, para além de seu aeroporto, só duas vezes, o suficiente para nunca mais querer voltar --, me lembrei de que havia uma notícia argentina, já não me lembro se política ou esportiva, que eu queria conferir. Parei numa banca de jornal e vi o Página 12. Como sabe quem o lê, o Página 12 é um jornal que está, digamos, alguns centímetros à esquerda da Folha de São Paulo. Não é nem de longe um jornal “comunista”. Pedi o jornal ao cubano que estava na banca e lhe estendi uma nota de dez dólares. O sujeito imediatamente iniciou uma diatribe inesquecível: ¿qué quiere Usted con ese diario de comunistas? ¿qué va a hacer con un periódico de comunistas? Por qué leer esas cosas de comunistas? De cada três palavras, uma era “comunista”. O cabra perorava com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos. Atônito, eu o olhava, sem acreditar que, em nome do capitalismo, ele se recusava a me vender um produto da sua própria banca de jornais! Era uma mistura de Fellini com o teatro do absurdo. Normalmente, eu evito esses confrontos, mas decidi que não sairia dali sem o jornal. Coloquei a nota de dez dólares no bolso, tirei o dinheiro trocado, peguei o jornal, enfiei o dinheiro na mão dele, esperei que ele terminasse e lhe disse uma frase da qual depois, em alguns momentos, me arrependi: não vou escutar palestra política de jornaleiro.

Conto os casos para ilustrar a imensa falta de credibilidade de boa parte dos que gritam por “democracia” em Cuba. O problema é que, do outro lado, na esquerda, a situação é bem problemática também. Eu tenho amigos que até muito recentemente diziam que essa história de presos políticos em Cuba é propaganda. Movida pela compreensível solidariedade a uma Revolução acuada e sabotada pelo país mais poderoso do mundo, pela indignação com as centenas de tentativas de assassinato a Fidel, a esquerda fez vista grossa a uma situação indefensável. Agindo assim, perdeu credibilidade também. Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos. Aí eu não posso deixar de lamentar que as pessoas dedicadas a defender a Revolução Cubana — causa mui legítima — simplesmente não mencionem o fato. Vira uma ladainha: os defensores mencionam educação e saúde; os detratores mencionam a falta de imprensa livre e os presos políticos. Ambos têm razão. Ambos vão perdendo a razão na medida em que se recusam a olhar a coisa de uma maneira mais trimensional.

O bloqueio americano tem o seu papel no quadro que vemos hoje? Sem dúvida. Mas também é fato que já em 1965, quando o bloqueio americano ainda não havia tido grande impacto, o Comitê Central já estava discutindo se autorizava ou não a publicação de uma obra prima como Paradiso, de Lezama Lima (um extraordinário escritor que jamais saiu da ilha, talvez o maior escritor cubano de todos os tempos). No final das contas, a obra foi publicada, mas o próprio fato de que a discussão tenha existido já indica que a vertente autoritária é bem antiga. Quando se revela ao mundo, em 1971, que a perseguição aos homossexuais é política estatal explícita, fica sacramentada uma relação minha bem ambígua com a Revolução. Não sei se vocês já repararam, mas este blog, que regularmente discute política internacional, jamais fez um post sobre Cuba.

Conta-se que nos anos 1960, ao Premiê Zhou Enlai foi dirigida a pergunta acerca do que ele achava da Revolução Francesa. A resposta foi lapidar, pura sabedoria chinesa: ainda é muito cedo para saber. Não há frase mais perfeita para definir o legado da Revolução Cubana. Sou defensor intransigente da soberania dos povos e inimigo declarado de qualquer intervenção estrangeira, em Cuba ou em qualquer lugar. Mas não vou maquiar o sofrimento alheio por preguiça de repensar a derrota de um sonho.

Idelber Avelar é professor do Department of Spanish and Portuguese — Tulane University.
 

 


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POR EM 27/02/2008 ÀS 09:06 PM

A importância das pequenas coisas

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O debate cultural foi atingido nos últimos anos por uma avalanche de cânones literários, clássicos, gênios e heróis. Os exemplos mais populares são as idéias de um Harold Bloom e a elevação dos museus como centros da cultura contemporânea. Fora dos grandes, segunda essa visão, não existe vida. Há apenas vulgarização e ideologia na arte moderna, conforme martela o autor de “O cânone ocidental”, que vê o centro do mundo em Shakespeare. Com a repetição exaustiva na mídia, essa interpretação tornou-se um dos mais sólidos lugares-comuns.

A reação em favor dos clássicos ofusca outras possibilidades de entender os movimentos culturais de hoje. Nos anos 1980, o historiador norte-americano Robert Darnton iniciou um trabalho de analisar a subliteratura do Iluminismo francês. Fez isso ao lado das leituras dos enciclopedistas. Mais recentemente, o italiano Franco Moretti vem elaborando mapas e gráficos com a vasta produção literária do século XIX. Ele descobriu, por exemplo, que o popular romance histórico é ambientado em regiões de fronteira e de contato com o “outro”.

Conhecer a vastidão das ditas obras menores permite entender como se constrói o imaginário e as formas de representação de uma época. A arte é um campo aberto e fértil para essa tarefa. Atualmente, um grupo de pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) está mapeando a produção literária e cinematográfica desde os anos 1970 no Brasil. O objetivo é saber quem escreveu, filmou, onde vivem os autores, qual o gênero, cor e profissão dos personagens. Trata-se de um trabalho gigantesco que vasculha desde as grandes produções até o mais singelo.  

Nas próximas semanas, a TV Globo exibirá mais um desses trabalhos pequenos e ricos para discussão. A minissérie “Queridos amigos”, de Maria Adelaide do Amaral, recria a pós-ditadura militar e focaliza um período de 20 dias em dezembro de 1989. Baseado no livro da autora, “Aos meus amigos” (1992), a narrativa trata da situação de antigos militantes de esquerda na época da redemocratização. Desde 1989, uma série de filmes brasileiros e a minissérie de TV “Anos rebeldes” remexeram as memórias dos chamados “anos de chumbo”. 

Beatriz Sarlo diz que a ficção sobre a ditadura na Argentina ajuda a colocar as coisas no seu devido lugar no imaginário. Mostra quem torturou quem, os responsáveis por acobertou crimes, o papel do futebol para a manutenção do poder dos militares. Os relatos memoriais, diz Sarlo, serviram até de provas processos de reparação para os prisioneiros políticos. Em tempos de neoliberalismo, por sinal, tornou-se de bom tom dizer que as ditaduras da América Latina não passaram de um incidente ou um processo necessário para extirpar a doença do comunismo.

Nos filmes brasileiros recentes, é possível ver o isolamento da guerrilha (“Lamarca” e “Cabra cega”); os fetiches da identidade nacional (“O ano em que meus pais saíram de férias”); a fratura social à brasileira (“Quase dois irmãos”); a destruição do sujeito (“Batismo de sangue”); a relação documento/memória (“O que é isso, companheiro?” e “Conspiração do silêncio”); o esquecimento impossível (“Ação entre amigos” e “Benjamin”); e a construção de heróis (“Zuzu Angel”). Cria-se assim um amplo painel de como o Brasil do século XXI enxerga o passado recente.

 


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