revista bula
POR EM 31/10/2008 ÀS 09:43 AM

Vida danificada

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Tudo é uma questão de ponto de vista, diz o senso comum. Ou de paralaxe, como assinala Slavoj Zizek

Em Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, o personagem Attila é o capataz de uma fazenda italiana na primeira metade do século XX. Diante dos camponeses locais que se organizam, ele expõe todo o ressentimento daqueles que aderiram ao fascismo. Uma das cenas mostra Attila, de camisa preta, explicando aos amigos fascistas as semelhanças entre os gatos e os comunistas. Ambos são aparentemente dóceis e inofensivos, mas, a qualquer momento, podem mudar e ser traiçoeiros.

Atilla encena a forma como devem ser tratados os seguidores do comunismo. Ele retira o cinto da calça e amarra um gato numa porta. Afasta-se, corre em direção ao bicho e o esmaga com a cabeça.

É uma das cenas mais impressionantes do cinema:




O opositor de Attila é o personagem Olmo, neto de um dos trabalhadores. Este cresce na fazenda dos Berlinghieri e torna-se amigo de Alfredo, filho do patrão. Durante anos, Olmo alerta Alfredo para o perigo da adesão de Attila ao fascismo e sugere que este fosse demitido. Mas é ignorado, sob alegação de que se tratava de um homem qualquer.

O tempo passa, e o fascismo cresce na Itália. Os camisas-pretas se transformam em máquinas de matar. Bertolucci conta a história do Partido Comunista Italiano, por meio de Olmo, e a conivência do movimento fascista com os grandes proprietários de terra, como a família Berlinghieri. 

Tudo é uma questão de ponto de vista, diz o senso comum. Ou de paralaxe, como assinala Slavoj Zizek. Os anos pós-comunistas representam uma mudança de perspectiva que, no Brasil, trouxe de volta Gilberto Freyre e Nelson Rodrigues ao centro dos debates. Criticados em vida, eles ressurgiram num tempo que consegue ser mais anticomunista do que o da Guerra Fria.

Seria uma felicidade enorme para ambos, dada à aversão deles ao socialismo. Freyre apoiou a ditadura militar no Brasil, e Nelson somente acreditou na tortura do pós-1964 ao ver o próprio filho estropiado nos porões. Atualmente, virou de bom tom dizer que aquilo não foi nada e os governos militares foram o mal menor, em vista da possível revolução comunista. Uma entrevista de Freyre à revista Veja, em 1972, expõe certas posições que já antecipam a visão dos anos pós-Muro de Berlim:

“O senhor concorda com a aposentadoria compulsória do sociólogo Florestan Fernandes, que hoje leciona no Canadá?, pergunta Veja. ´Essa pergunta é muito difícil de ser respondida. O intelectual não deve ser um privilegiado. Eu  mesmo fui preso três vezes durante a ditadura de Vargas. Minha casa foi literalmente saqueada em 1930. Se o intelectual tentou atingir o regime, e se isso ficar provado, como não sei se é o caso de Florestan Fernandes, nada mais justo que houvesse uma reação de defesa”.

Florestan nunca escondeu a filiação ao socialismo e foi um dos críticos mais fortes das idéias freyreanas, sobretudo quanto à democracia social, que está hoje na crista da onda. Tão em voga essa idéia que o jornalista Ali Kamel, por exemplo, se inspirou na linha de Gilberto Freyre para defender suas teses contra as cotas raciais nas universidades:

“Florestan estava errado. Nosso ativo como nação é prezar a miscigenação. E aqui no Brasil ninguém nega o racismo. Eu não nego o racismo. Onde quer que haja homens reunidos há os piores sentimentos, inclusive o racismo. Há racistas no Brasil, em profusão. Mas o racismo não é um traço dominante de nosso caráter nacional”, disse Kamel, ao jornal Correio Braziliense, em 2006. Interessante ver o retorno ao conceito de caráter nacional, algo como o espírito do país, que está superado há muito tempo.  

O filme Cão sem dono (2007), de Beto Brant e Renato Ciascia, se passa nos anos em que tudo é “pós”. Não há mais utopia, laços sociais, política, emprego. Só indivíduos solitários numa metrópole brasileira, no caso a distante Porto Alegre, a “Gay Port” de Caio Fernando Abreu. O personagem Ciro é um tradutor que recém saiu da faculdade e decide morar sozinho com um cão vira-lata. Sua vida se resume à companhia de um cachorro e da namorada Marcela, uma manequim que sonha se mudar para o exterior.

Ciro enxerga a todos como inúteis e inferiores. Apenas ele está acima de qualquer julgamento. O olhar blasè de Ciro lembra justamente os de uma modelo. Nada acontece no filme, não há conflito, aproximando a obra do teatro contemporâneo. O drama desaparece. Há muito sexo, cigarros, bebedeiras, rock. Brant aprofunda o estilo de viver presente na adolescente rica de seu filme
O invasor (2002).



Cão sem dono é uma adaptação do romance Até o dia em que meu cão morreu (2002), de Daniel Galera. Uma parte dos novos romancistas brasileiros se volta para esse nada existencial dos tempos atuais. Um nada que se encaixa bem no modelo de produção globalizada. São todos “burgueses sem religião”, conforme bem percebeu Renato Russo ainda nos anos 1980, e conformados com o rumo tomado pelo mundo.     

O que passou pela cabeça de Foucault quando proferiu suas palestras a respeito da biopolítica em 1978 e 1979? O poder não é mais centralizado, ele alcança e penetra o corpo dos indivíduos. Ao tratar da nova forma de controle, Foucault analisou o discurso de Hayek e dos novos liberais alemães e norte-americanos. A globalização ensaiava os primeiros passos nos anos 1970, e o autor de As palavras e as coisas já se debruçava sobre idéias e políticas que defendiam a primazia do mercado e a redução do social.

Também assustadora é a avaliação de Octavio Ianni, em texto de 1998, chamado “Neoliberalismo e nazi-fascismo”. “Sob o neoliberalismo, recriam-se as condições e os ingredientes do nazifascimo. A despeito de se apresentarem como guardiães e arautos da democracia, afirmam e reafirmam o predomínio da economia, produtividade, competitividade, lucratividade e racionalidade instrumental”, alerta Ianni, que havia sido aluno de Florestan Fernandes e questionava a naturalidade de Gilberto Freyre.

 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 05:20 PM

Personalidade autoritária

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Impossível não se impressionar com os filmes de propaganda política nazista da brilhante cineasta alemã Leni Riefenstahl. É claro que as idéias expostas em obras como O Triunfo da Vontade são altamente discutíveis, contudo a força de suas imagens são inegáveis e possuem, por que não, uma estranha beleza. É de fato fascinante observar a maneira como a figura caricatural de Hitler, com seus gritos grotescos e gesticulação afeminada, cercado de suásticas por todos os lados, hipnotiza multidões. Milhares de alemães entregando-se a uma catarse absoluta, conduzidos pela presença de um líder carismático. O que testemunhamos, através da lente de Leni Riefenstahl, é a apoteose de um símbolo de autoridade de alto quilate.
    
Mas quais os mecanismos sociais que possibilitam que cenas como estas se multipliquem através da história? O que é a autoridade enquanto um valor humano? Quais os compromissos efetivos assumidos entre as pessoas que geram e alimentam os valores e as personalidades autoritárias? São questões como estas que o sociólogo norte-americano Richard Sennett persegue em seu novo livro lançado no Brasil, intitulado simples e convenientemente de Autoridade. O lançamento é tardio: a obra é de 1980, fruto de uma conferência em memória de Sigmund Freud que Sennett ministrou em 1977, na Universidade de Londres, e vem engrossar sua bibliografia em português, justando-se a pequenas pérolas como Carne e Pedra e O Declínio do Homem Público. Mesmo sem possuir a mesma qualidade destes, Autoridade é um trabalho de fôlego, marcado pela escrita elegante que celebrizou seu autor. Trata-se do primeiro volume de uma série de quatro ensaios sobre as relações complexas entre a psicologia e a política. O segundo volume versa sobre a solidão, o terceiro sobre a fraternidade e o quarto aborda os rituais. Esperemos que estes livros também sejam lançados no Brasil.
    
O objetivo de Sennett neste primeiro volume é ambicioso: desenvolver uma teoria social geral sobre o medo da autoridade. Ambicioso porque, apesar da vasta erudição destilada ao longo do texto, que demonstra o estudo aprofundado que realizou, suas concepções sobre o tema são apresentadas de forma incomodamente cristalizadas. Desde o início o autor deixa claro que para ele as características inatas de uma autoridade são “segurança, capacidade superior de julgamento, capacidade de impor disciplina, capacidade de inspirar medo”. Para Sennett o sentido de autoridade se constrói através de imagens de força e de fraqueza, que formam vínculos entre indivíduos de posições desiguais. Em outras palavras: de superior para inferior. Sennett parece desconsiderar que muitas vezes a autoridade independe das características e qualidades pessoais de quem a exerce, que podem advir de, por exemplo, um título herdado, uma posição burocrática ou a mera posse incidental de algum símbolo de status. Refiro-me aqui tanto as micro-relações de poder, estudadas por Foucault, quanto às viciosas relações de tráfico e abuso de influência, tão familiares em nosso cotidiano.     
    
Seja como for, a argumentação de Sennett, não tanto dentro do que propõe e sim dentro do que almeja, é consistente, ainda que não chegue a roçar a universalidade aspirada. Para desenvolvê-la ele optou por ilustrá-la utilizando um recurso que denuncia sua pretensão em criar uma obra mestra: a literatura. Cita em inúmeras ocasiões mestres como Shakespeare, Dostoievski e Orwell, extraindo de passagens de suas obras exemplos de figuras de autoridade e, paralelamente, do enfraquecimento da autoridade. Não é por acaso que um dos personagens mais citados é o velho Rei Lear: o monarca destronado, traído e abandonado pelas filhas. A saga de decadência e queda do infeliz soberano shakespereano serve como metáfora para ilustrar diversas situações em que figuras de autoridade, chefes, pais, líderes, vêem-se usurpados de suas posições de poder, seja por empregados, correligionários ou parentes; tal qual o próprio Lear.  
    
Além da literatura, outro recurso largamente utilizado é a psicologia. São relatados inúmeros estudos de caso, entre situações de grupo e individuais, incluindo casos clínicos, em que os nomes dos envolvidos são devidamente alterados, e histórias envolvendo celebridades como André Gide e Kafka, em que o autor disseca os meandros das relações autoritárias tanto na esfera pública quanto na privada. A partir de perspectivas freudianas, Sennett relaciona intimamente atitudes autoritárias com a busca pelo prazer de gerar servidão voluntária e, em contrapartida, “conquistar a liberdade significa abafar as vozes do prazer”. Ao mesmo tempo se aproxima da Escola de Frankfurt e sua fusão entre a psicanálise e a crítica social marxista. Abraça o conceito de “Personalidade Autoritária”, desenvolvido por Adorno e companhia, para explicar a necessidade desesperada de certos indivíduos em demonstrar força, moldando-se a cada época de acordo com as tensões históricas e sociais do respectivo período. Tensões estas que podem redundam tanto no banho de sangue resultante da Revolução Francesa quanto na “reinfantilização das massas” que Freud observou na Europa dos anos 30.    
    
Dentre os vários tipos de práticas de autoridade estudadas por Sennett, talvez a mais aprofundada seja aquelas que se coligam ao que podemos chamar de poder paterno, desdobrados nos conceitos de paternalismo e patrimonialismo. Sendo o primeiro a autoridade fundamentada em relações de laços familiares e o segundo baseada na posse, transmissão e distribuição de bens entre pessoas não necessariamente ligadas por parentesco. Neste sentido é muito pertinente a observação do autor de que ao longo do século XIX, a imagem do patrão estava superposta a imagem do pai. Foi neste época que se criou e popularizou uma metáfora: “o patrão é um pai”. Enquanto nos séculos anteriores a maior parte dos pais realmente eram patrões de seus filhos, e portanto se preocupavam de fato com sua segurança e evolução profissional, o que se tinha então era uma entidade econômica que substituía e multiplicava o poder do genitor natural, interessada unicamente em explorar a força de trabalho do falso “rebento”.
    
Contudo, a mais impressionante imagem de autoridade paterna do livro é a de um pai real, pessoa física: o pai do escritor Franz Kafka. Sennett resgata e analisa uma célebre carta pessoal que Kafka escreveu para seu pai em novembro de 1919, na qual confessa todo rancor, culpa, medo, sentimento de inferioridade, física e moral, que ele lhe inspirava. Nas quase cinqüenta páginas da longuíssima missiva, em um exercício sutil de manipulação, Kafka coloca-se como uma vítima inocente, cem por cento com a razão, diante de um tirano sádico. O escritor enxerga terror e, em meu entender, leva o leitor a enxergar sadismo nos inconseqüentes castigos paternos que sofria por suas molecagens de infância, igualando-os a tortura chinesa. Ao mesmo tempo Kafka transparece sentir-se enobrecido em função de seu sofrimento, o que empresta um elemento masoquista a seu relato. Incapaz de se livrar desta deplorável situação, sua total submissão ao pai, Kafka escreve-lhe a carta como um desabafo, mas tem consciência de que nada via mudar. O pai, um tipo de deus onipresente, onipotente, vai continuar condenando seu casamento, desdenhando sua profissão e suas ambições literárias. Em tempo: a carta nunca chegou às mãos de seu destinatário.  
    
A conclusão de Sennett para o dilema do escritor tcheco é a de que “Herr Kafka era o tipo errado de pai para o filho, e Franz Kafka era o tipo errado de filho para o pai”, mas o fato é que “a dominação é uma doença necessária de que padece o organismo social”. O simplismo aparente desta conclusão revela na verdade o substrato da visão de autoridade do autor. Que como se percebe não é muito diferente daquela do Grande Inquisidor da fábula de Dostoievski, extraída de Os Irmãos Karamazov, evocada ao fim do livro: o poderoso homem de Igreja que violentamente acusa o Cristo revivido de provocar anarquia oferecendo ao povo a impossível visão conjunta de liberdade e autoridade. Mas, independente de qualquer coisa, Sennet é um intelectual de fino trato. Não se sentiria a vontade nas masmorras imundas freqüentadas pelo Grande Inquisidor. Com certeza ficaria bem mais confortável entre os convidados das inúmeras festas requintadas proporcionadas pelo personagem principal do romance O Recurso do Método, do cubano Alejo Carpentier. Trata-se de um homem culto, educado, apreciador de bons vinhos e música erudita, mas que também é um ditador sanguinário de um pequeno país da América do Sul. Ditador sim, mas antes de tudo um cavalheiro.

 


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POR EM 12/10/2008 ÀS 06:58 PM

Pensar o Brasil com Sérgio Buarque de Holanda

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Um ano antes da grande noite do Ato Institucional nº 5 que se abateria sob a Nação, Sérgio Buarque de Holanda deixava claro que acreditava que, apesar da sua ancestral submissão aos poderosos de plantão, o povo brasileiro permaneceria fiel aos princípios democráticos

             
Para quem não se conforma com os atuais altos índices de popularidade do presidente Luís Inácio Lula da Silva (aprovado por mais de 77,7% da população brasileira, um recorde histórico), a leitura de uma palestra dada por Sérgio Buarque de Holanda (1902—1982) na Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, em 1967, no começo da travessia do conturbado regime militar (1964—1985), pode ajudar a explicar muita coisa. 
    
A palestra, “Elementos básicos da nacionalidade: o homem”, encerra o livro Sérgio Buarque de Holanda: Perspectivas, coletânea que reúne ensaios de 28 estudiosos de várias gerações e procedências, além de imagens, bibliografia e textos poucos conhecidos do próprio historiador, lançada pela Editora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e organizada pelos professores Pedro Meira Monteiro, da Princeton University, e João Kennedy Eugênio da Universidade Federal do Piauí.
    
No texto, Sérgio Buarque de Holanda recorda uma observação de Joaquim Nabuco (1849—1910) sobre uma suposta submissão do povo brasileiro, que seria “maior do que a das outras nações sul-americanas”, o que poderia explicar um pouco o atual conformismo da população com o que o economista chileno Sebastián Edwards, professor da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) e consultor econômico do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, já definiu como “economia da melancolia”, ou seja, uma trajetória sem crises, mas também sem crescimento.
  
 À época, na casa daqueles que haviam derrubado e enxovalhado as garantias individuais dos cidadãos, Sérgio Buarque de Holanda citou Joaquim Nabuco para contestá-lo, argumentando que não se podia dizer que as tentativas de governos ditatoriais haviam encontrado o povo brasileiro cegamente submisso ou inerte. “E se é certo que esse povo recebeu com aparente indiferença a mudança de regime em 1889, e não se deixou abalar, depois disso, por tendências restauradoras, para tanto há de ter contribuído largamente o sentimento generalizado de que a Monarquia já tinha cumprido sua missão e pouco adiantaria querer sustentá-la ou restaurá-la a qualquer preço”, dizia.
    
Àquele tempo, um ano antes da grande noite do Ato Institucional nº 5 que se abateria sob a Nação, Sérgio Buarque de Holanda deixava claro que acreditava que, apesar da sua ancestral submissão aos poderosos de plantão, o povo brasileiro permaneceria fiel aos princípios democráticos. Para ele, historicamente, o Brasil, depois de uma fase mais ou menos prolongada de ditadura, empenhava-se sempre por voltar à aplicação de constituições escritas ou das consultas eleitorais. Por trás da frase, com certeza, estaria a sua esperança de que a ditadura, que já levava três anos, logo refluísse e o País voltasse à senda democrática.  Aconteceu, porém, o contrário: Sérgio Buarque de Holanda nem viveria para ver o fim do regime ditatorial.
  
 Ao se referir ao regime igualmente de exceção que se inaugurou em 1930 — que, até hoje, é chamado de Revolução de 30 por historiadores pouco perspicazes —, não deixa de mostrar Getúlio Vargas como homem que se via como chamado pela Providência para guiar a nação em crise, exercendo forte apelo sobre as grandes massas, “lançando os dados nesta ou naquela direção, ora para a direita, ora para a esquerda, numa versatilidade que só não enganava aos muito precavidos ou aos muito teimosos”. Qualquer semelhança com o governante atual, descontado o fato de que vivemos hoje sob regime democrático com os devidos freios a aventuras caudilhescas, não é mera coincidência.
    
O resultado disso, dizia Sérgio Buarque de Holanda, foi que, “conservadas as massas, assim, na dependência do poderio de um homem, era como deixá-las em estado de menoridade ou de imaturidade para seguir os rumos naturais”. De onde vem, portanto, essa submissão natural das massas brasileira? Essa vocação para se deixar levar por um homem providencial?
    
Dizia Sérgio Buarque de Holanda que viria das duas sociedades diferentes nos níveis e modos de vida que existem no Brasil: a que, abrangendo a maioria do País e de sua população, exibe ainda hoje traços coloniais, e aquela que, representada sobretudo pelo Estado de São Paulo, não receia o progresso nem o futuro. Na primeira se achariam ainda encastelados os resíduos de um passado renitente e se apresentam condições arcaicas, que lembram as da Índia e do Egito, enquanto na outra, mais ativa e progressista, encontram-se aspectos capazes de evocar Nova Iorque ou Chicago.
    
Mais de 40 anos depois, essa análise, feita com base nas idéias do historiador francês Jacques Lambert, autor de Os Dois Brasis (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969), ainda seria válida? Sem dúvida, porque o Brasil, se cresceu muito nas últimas quatro décadas, poucas modificações sofreu em sua estrutura social e política porque continua refém do egoísmo e da cegueira das oligarquias que o dominam.
  
 Em outras palavras: não houve nenhuma revolução social nem qualquer ordenação nova na sociedade brasileira. Até porque as oligarquias estaduais — aquelas mesmas oligarquias que se achavam representadas no Parlamento ao tempo da Monarquia e que ganharam maior peso com a República — ainda continuam suficientemente bem representadas no Congresso, sempre dispostas a bloquear todos os esforços que visem eventualmente a romper o status quo.
    
Basta ver que, até agora, passados seis anos de governo Lula, o Congresso não se dispôs a votar uma reforma tributária para valer, que desonere os custos das empresas e dos cidadãos assalariados. A ponto de o País continuar a contar com duas espécies de cidadãos: de um lado, aqueles que pagam compulsoriamente ao Estado; de outro, aqueles que roubam o Estado. Até porque os que fazem parte das grandes massas marginalizadas nem sequer podem ser chamados de cidadãos.                  

II

Entre os ensaios dos analistas convidados a participar deste livro, um dos mais instigantes — embora seja difícil escolher os melhores, entre tantos tão bem escritos e pensados  —  é “Raízes do Brasil y El Laberinto de la Soledad: una comparación” em que José Ortiz Monasterio, do Instituto Mora, do México, compara as obras de Sérgio Buarque de Holanda e Octavio Paz (1914—1998), encontrando em ambas enormes semelhanças, já que tomam elementos da história, da sociologia, da literatura, da psicologia e outras disciplinas a ponto de tornar sua classificação extremamente difícil.
    
Já em “Sérgio Buarque de Holanda, historiador das representações mentais”, Ronaldo Vainfas, professor de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), admite que pensar Sérgio Buarque como historiador das mentalidades “avant la lettre” seria uma tentação fácil, mas que pode ser inexata, já que "Visão do Paraíso" (1958) é livro de tamanha complexidade teórica e erudição que seria impossível classificá-lo em qualquer esquema rígido ou escola historiográfica.
    
Vainfas lembra ainda que "Visão do Paraíso", quando saiu à luz, estava na contramão da história e, por isso, ficou relegado ao ostracismo por várias anos. E só na década de 80 acabaria por adquirir a importância devida, depois de ter servido de inspiração para Laura de Mello e Souza escrever "O Diabo e a Terra de Santa Cruz" (1986), livro que, segundo o professor, inaugurou a leva de pesquisas da hoje chamada “nova história cultural” no Brasil. Como se vê, os ensaístas concordam que a obra de Sérgio Buarque de Holanda é de tamanha amplidão que não pode ficar restrita a categorias ou classificações.               

III

Em “Raízes do Brasil: Uma Releitura”, Brasil Pinheiro Machado (1907—1997), antigo professor de História na Universidade Federal do Paraná, destacou também a análise de Sérgio Buarque de Holanda segundo a qual o liberalismo, nas democracias sul-americanas, tendem para o caudilhismo, diante da ausência ou inconsistência dos órgãos partidários. É o que se vê, hoje, na figura do presidente Lula, que paira acima dos partidos, inclusive daquele que fundou e que lhe serviu de apoio para ascender ao poder. Curiosamente, o prestígio político e popular de Lula, segundo as mesmas pesquisas, não surge, porém, como uma força capaz de se transferir para um possível candidato à sua sucessão. É, portanto, pessoal e intransferível, o que lhe permite sonhar com um tranquilo retorno à cadeira presidencial em 2014.                    

IV

Sérgio Buarque de Holanda, ainda estudante, começou a colaborar em publicações como “Correio Paulistano”, “A Cigarra” e “Revista do Brasil”. De tendências monarquistas, influenciado pela leitura de Eduardo Prado (1860—1901), autor de "A Ilusão Americana" (1893), que considerava funestos os transplantes mecânicos das instituições dos Estados Unidos, como fizeram os primeiros republicanos no Brasil, o futuro historiador mudou-se para o Rio de Janeiro em 1921, matriculando-se na Faculdade de Direito.
    
Ligado aos modernistas de São Paulo, tornou-se representante da revista “Klaxon” no Rio de Janeiro. Em 1927, foi diretor de um jornal em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, e, em 1929, viajou para a Europa, sobrevivendo em Berlim com colaborações para jornais brasileiros e trabalhando em agências de notícias, como a “Havas” e a “Associated Press”.
    
Retornou ao Brasil em 1930, publicando então na revista “Espelho” o ensaio “Corpo e alma do Brasil”, primeira versão do que seria o livro "Raízes do Brasil" (1936). Continuou a trabalhar na “Associated Press” e a coloborar como crítico literário no “Diário de Notícias”. Trabalhou ainda no Instituto Nacional do Livro. Em 1944, começou a trabalhar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e publicou "Cobra de Vidro", reunindo textos sobre crítica literária, sociologia, história e temas afins. Em 1945, saiu o seu primeiro livro de pesquisa em história, "Monções".
    
Naquele mesmo ano, assinou um manifesto contra a ditadura de Getúlio Vargas. Em 1946, mudou-se definitivamente para São Paulo, dedicando-se sobretudo à pesquisa histórica, embora continuasse a colaborar em jornais, como a “Folha Carioca” e a “Folha de S.Paulo”. Entre 1946 e 1956, foi diretor do Museu Paulista, mas, entre 1952 e 1954, atuou ainda como professor na Itália. De volta, retomou a direção do Museu Paulista, só o deixando para assumir a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia de São Paulo. Por essa época, publicou "Caminhos e Fronteiras" (1957).
    
De 1958 é a primeira edição de "Visão do Paraíso: Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil", apresentado originalmente como tese para a cátedra de História da Civilização Brasileira. Em 1972, como responsável pela "História Geral da Civilização Brasil", da qual se encarregou entre 1960 e 1972, publicou "Do Império à República", que formava o volume V daquela coleção.
  
Em 1979, publicou "Tentativas de Mitologia", em que reuniu ensaios semelhantes aos que incluíra em "Cobra de Vidro".  Em 1980, o antigo pensador de tendências monarquistas inscreveu-se como membro-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), que, antes de chegar ao poder com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República em 2002, anunciava-se como uma agremiação de tendências socialistas. Morreu em São Paulo, em 4 de abril de 1982.
  
Deixou inacabado "Capítulos de Literatura Colonial", que deveria ter sido o sétimo volume da "História da Literatura Brasileira", dirigida por Álvaro Lins, livro organizado e prefaciado por Antonio Candido em 1991. Em 1996, Antonio Arnoni Prado organizou "O Espírito e a Letra", coletânea em dois volumes de suas críticas publicadas em jornais entre 1920 e 1959. Sérgio Buarque de Holanda screveu ainda uma extensa introdução à coletânea de textos do historiador alemão Leopold von Ranke (1795-1886), O "Atual e o Inatual em L.von Ranke" (1979), e o livro "O Extremo Oeste", publicado postumamente em 1986.
    
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SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: PERSPECTIVAS, de Pedro Meira Monteiro e João Kennedy Eugênio (org;).. Campinas: Editora da Unicamp. Rio de Janeiro: EdUERJ, 719 págs., 2008.
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POR EM 15/09/2008 ÀS 06:43 PM

O Beatle palestino

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“Os Beatles são mais populares que Jesus Cristo. E não sei o que vai acabar primeiro, se o rock and rol ou o cristianismo.”

John Lennon

Aquilo que antigamente chamávamos de Igreja Anglicana já estava extinta há séculos quando foi oficializado o culto aos Beatles na velha Inglaterra. Na realidade, não havia mais nenhuma das antigas instituições. Recomeçávamos a civilização, praticamente, do zero. 

Sabiamente, o novo governo que se instituía percebeu que não bastava apenas reerguer os prédios em ruínas e voltar a cultivar os campos abandonados às plantas daninhas. Sim, o populacho estava nu e faminto, mas não precisava somente cobrir e alimentar o corpo. Necessitava, sobretudo, de alimentar e aliviar o espírito. As muitas décadas de seguidas desgraças avivou-lhes o extinto de sobrevivência, mas não privaram-nos de suas naturais necessidades emocionais. Sentiam falta de religião, sentiam falta de cultuar algo maior do que eles próprios, sentiam falta do inexplicável agindo em suas vidas. Em suma, o forçoso materialismo dos últimos tempos não curou a inata irracionalidade humana. 

Precisávamos remediar a situação em nome da ordem e do progresso. Tínhamos que lhes dar ídolos, dar-lhes uma mitologia, dar-lhes uma entrada para o mundo transcendente; para que se esquecessem do trágico passado recente e tivessem forças para olhar para o futuro, que poderia ser promissor. Assim, combateríamos os surtos de barbárie que assolavam certas regiões e, quem sabe, talvez até conseguíssemos diminuir o número de suicídios. Precisávamos de tantos braços para trabalhar quanto fossem possíveis e não podíamos dar-nos ao luxo de perdê-los por banalidades emotivas.  

A primeira opção, logo descartada, foi utilizar uma obscura lenda de um rei bretão, talvez chamado Lancelot, que governou a ilha depois de retirar de uma árvore uma espada mágica que pertenceu a seu pai, um mago de nome Artur. A sugestão desagradou a muitos, pois os ingleses, tradicionalmente, sempre odiaram a monarquia. Não suportariam a idéia de adorar um rei que também é deus. Tivemos que buscar outras idéias. 

Decidiu-se, enfim, por usar o que estava mais fresco na memória coletiva do populacho: os Beatles. Os quatro jovens de longos cabelos, inspirados pela providência divina para produzir sons, origem de todas as coisas. Entidade quadrupla que juntos formam um deus uno perfeito. Quatro emanações dos atributos do eterno. John: emanação da ira. Paul: emanação do amor. George: emanação da paz. Ringo, o deus que matou a Besta e tomou seu lugar: emanação da potência. Eis os mistérios da nova fé.  

Lembro-me bem que a sugestão partiu dos deputados de Liverpool, então capital inglesa provisória, pois o lugar onde antes existia Londres existe agora uma cratera, quase um lago, devido a incessante torrente do Tâmisa. Como se sabe, os Beatles nasceram (evento chamado agora de Natividade) em Liverpool. Pesou bastante na decisão o fato de que seria conveniente instituir ao mesmo tempo em que o culto pessoal, também a adoração a uma cidade sagrada. Não se concebe uma divindade sem uma cidade santa, poderosa em sua força telúrica, para ser alvo das devotas peregrinações dos fieis. Algo que sempre ajuda no crescimento da economia, aumenta o fluxo de viajantes nas estradas e, por conseguinte, de moeda em circulação e de trocas comerciais. Liverpool, sendo uma cidade grande, com quase dez mil habitantes na ocasião, reunia todos os predicados estruturais para assumir este importante papel. Tivemos uma decisão feliz ao escolhê-la e escolher seus quatro rapazes.  

Não foi difícil instituir a nova religião. Sobretudo porque, ao contrário de quase todo o resto, não eram tão raras as imagens gráficas do quarteto. Felizmente, muitas delas sobreviveram aos grandes incêndios do início do século passado e, por mais sorte ainda, da proibição da posse de papel pintado pelos tiranos derrubados no início deste século. Diversos indivíduos, creio que sem saber bem o porquê, mas incentivadas pelos pais e avôs, que por sua vez foram incentivados por seus respectivos pais e avôs, guardavam com todo cuidado estas imagens a várias gerações. Exibiam-nas orgulhosos em encontros sociais, como objetos de imenso valor. Lembranças de um passado glorioso. Sabemos até que muitos foram os casos de assassinatos cometidos pela posse destas raridades, hoje relíquias. Já existia, portanto, um culto insipiente, extra-oficial. Seus rostos já eram vagamente conhecidos pelo populacho, como algo digno de admiração. Precisávamos apenas canalizar esse potencial sacro para algo organizado dogmaticamente. Criar suas verdades. 

Porém, se seus rostos eram de conhecimento vulgar o mesmo não se pode dizer de sua história. Para a esmagadora maioria das pessoas, os Beatles eram apenas sorridentes rostos sem passado. Não se sabe por que riem. Nem mesmo nossos cidadãos mais cultos tinham acesso a informações precisas sobre os Beatles. O material escrito disponível era irrisório. Com quase a totalidade de nossos livros destruídos a preservação de nossa tradição cultural tornou-se bastante deficiente. Possuímos apenas sombras, nuanças, fragmentos, de nosso passado, onde os Beatles foram personagens tão importantes. 

Restava, é claro, a tradição oral. Seus exageros gritantes, que para nós, homens cultos, constituíam em pecado, agradavam sobremaneira ao populacho. Deu-nos farto material para sua doutrinação. Baseados nestas parcas e maleáveis informações funcionários do governo, escribas, desenvolveram toda uma ortodoxia. Bela, sedutora e gloriosa coleção de narrativas sacras, de exemplos de vida, parábolas, fábulas, discursos, sermões; lidos inicialmente em separado e posteriormente reunidas em um único volume. O populacho chamou-o de White Book. É sempre melhor que eles mesmos o batizem. Mostra fé. 

Em toda esta mitologia religiosa nascente, nada era mais importante do que o fato de que os Beatles eram músicos. O aspecto musical foi um elemento importantíssimo na difusão do culto. O principal dogma da religião apregoava a verdade de que Beatles cantavam e tocavam seus respectivos instrumentos divinamente, como ninguém antes ou depois deles, com arte tão grandiosa que eram capazes de criar vida. Apesar de todas as vicissitudes, o gosto pela música nunca se perdeu em nossa ilha. Aconteça o que acontecer o espírito humano sempre foi e sempre será musical. Nada mais justo que acreditarem que o mundo foi criado através da música. Criado pelo supremo mistério da música dos Beatles, em sete acordes, tão longos e poderosos que duraram cada um sete dias e sete noites. Antes só existia o silêncio. Trata-se sem dúvida de uma bela metáfora, talhada para o sucesso. Como de fato o foi. 

E o foi principalmente porque, tantos séculos depois de suas mortes, tivemos o privilégios de ouvi-los. Sabíamos que em um passado remoto existiam aos milhares registros sonoros de suas obras musicais. De modo miraculoso, máquinas reproduziam o som de seus instrumentos, sem que eles necessariamente estivessem presentes. Lamentavelmente, só restavam em toda ilha três cópias conhecidas dos discos plásticos que guardavam estes sons. Foram devidamente confiscados e tornaram-se propriedade pública. 

Não conseguimos, ainda, reproduzir os objetos como se fazia há tempos. Com esforço, fomos capazes do prodígio técnico de fazê-los tocar. De forma precária, é verdade. Por isto mesmo, fomos obrigados a permitir a execução pública das músicas dos Beatles somente em datas religiosas especiais. Ao todo, cinco vezes por ano: nas datas de nascimento de cada integrante do grupo e no aniversário do martírio de um deles. As audições públicas somente se dão, por motivos logísticos e de segurança, em nossa capital política e religiosa de Liverpool. O que por um lado é positivo, pois a raridade aumentava o valor e o peso sacro do evento. Prova disto são os inumeráveis crentes que desmaiam emocionados ao ouvir, pela primeira e, muitas vezes, última vez na vida, depois de viagens extenuantes, os acordes arranhados dos sagrados instrumentos, seguidos de alegres gritos juvenis proferidos pelas sagradas gargantas dos Beatles.   

Se as vozes originais raramente podem ser ouvidas, em compensação em cada templo existente no interior da ilha abundam cópias das partituras das sacras canções, mantendo-as sempre pulsantes, frescas na memória do populacho. Nossos sacerdotes, que chamamos de maestros, aprendem, antes de mais nada, como base de suas formações religiosas, ler e conduzir música. Ciência que, felizmente, ao contrário de muitas outras, não se perdeu e são bastante úteis na direção dos cultos públicos ao quarteto, feitos basicamente de cânticos à capela e recitações poéticas. As técnicas e os instrumentos disponíveis atualmente, é claro, não são os mesmos dos tempos de ouro dos Beatles. Época em que homens viviam na inocência do paraíso terreal, em fartura, bonança e contentamento. Mas, mesmo imperfeitos, procuram se aproximar o máximo possível do que acreditamos ser seus ensinamentos fundamentais, seus tons. 

Mas, enfim, as verdades teológicas são sempre assuntos amplos demais para se esgotarem em poucas páginas, e as minhas acabam. Sobretudo, quando o destino da religião focada tende a expansão. Pois, se a velha Inglaterra viveu tempos de paz e progresso sobre a proteção dos Beatles, seus filhos, não demorou a que outras nações européias que se reerguiam, e com as quais recomeçávamos a praticar comércio, adotassem o culto. Não há nada que faça-nos duvidar de que a difusão da religião será surpreendentemente rápida. Chegará a todo o mundo, quando voltarmos a ter possibilidade de comunicação com as paragens mais distantes. Não restam dúvidas disto. 

Certamente não vou viver para testemunhar sua extensão máxima. Mas, aí de mim, já vivi o suficiente para ver agir a maldade humana nas coisas sagradas. 

Foi no País de Gales onde se urdiu a mais deplorável das inevitáveis heresias que surgem das erradas interpretações das santas verdades da fé. Um sujo eremita galês, vestido em trapos, ganhou fama pregando ao populacho sobre a gloriosa volta eminente de um impossível beatle palestino. O fanático garante haver encontrado, nas ruínas do que dizem ter sido uma igreja anglicana (um velho culto pagão), manuscritos antigos que afirmam que os Beatles não eram quatro, mas, sim, cinco deuses. Esta Quinta pessoa do Eterno teria o nome de Stu, ou Jesu, ou ambos, não estou certo, e representaria a emanação do dor. Não toca nenhum instrumento e não canta, não possui tanto talento quanto seus irmãos, apenas conta histórias sobre pescadores e agricultores. Não é originário de Liverpool, mas de uma região muito distante, que, para nós, homens letrados, é meramente lendária, conhecida como Palestina; terra muito rica e fértil, onde mana leite e mel das plantas e os tijolos são feitos de ouro.

Segundo o heresiarca de Gales, o beatle palestino sacrificou-se aos rigores dos sons para salvar nossas almas do pecado. Teve sua cabeça explodida pelo barulho ensurdecedor da poderosa música de seus irmãos. Seu holocausto deixou marcas. O beatle palestino, além dos cabelos, também usava barbas longas, tão longas que chegavam a seus pés. Depois de sua morte, seus quatro irmãos sobreviventes dividiram sua barba entre si, para que nunca o esquecessem e para que houvesse fartura na Inglaterra. Stu, Jesu, voltaria para recuperar sua barba no fim do mundo, que, segundo o louco, estava próximo. 

Ano passado o eremita galês foi apedrejado por uma multidão inconformada com suas blasfêmias. Morreu, cuspindo sangue aos jatos, jurando em brados ameaçadores que falava a verdade e que todos nós iríamos nos arrepender amargamente, que iria haver fome, choro e ranger de dentes, em vingança divina por sua morte. Ninguém lhe deu atenção. Todos sabiam que dentre os santos Beatles apenas um deu a vida para nos salvar: John. Aconteceu em dezembro, dia 08 de dezembro; e por isto neste mês se comemora a festa do natal, ouvindo a sua voz em Liverpool. 

 


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POR EM 08/09/2008 ÀS 06:41 PM

Chupa essa manga

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(Bocejos do meu enfado) 
 
Isto é um conto, e meu nome não lhes conto. Mostro-lhes, entanto, como destilar, em pequenos frascos ou em doses homeopáticas pra leão, o veneno da provocação. Pra começo de conversa, fecho, com bocejos de enfado, o último de uns livros que andei lendo, dessas fornadas que andam saindo por aí, bafejadas pelo fole ao fogo da reles bajulação ou forja de resenhas fajutas ou fraudulentas, à força de alardear baixa literatura, de rasa densidade e temperatura mínima, como coisa de qualidade e até de “gênio” pós-moderno. Coisas desse tipo porejam também em terras de Nelore — venha para as terras de Nelore —, com o seu jeito nelore de ser, bééé! muuu(lher)!; os cornos brotando nas cabeça, antes de serem extraídos para fabrico de berrantes —, não raro assinadas, tais resenhas, por certos professores de terceiro grau, podendo que o grau seja mais etílico do que universitário, favorecendo neófitos ainda com brotoejas na cara da insípida literatura, ou assaduras na bundinha que mamãe beijou, porquanto ainda incipiente e insipiente, consoante ou de conformidade com as consoantes propriamente ditas, intervogais e afins, conquanto diferenciadas entre si. 
 
Há casos de “profs”, em Nelore City, de idade provecta — de terceiro grau, eu dizia —, já quase que de mala e cuia prontas para os contatos de terceiro grau com o ET da eternidade, porquanto já desconectados da realidade, em vias de serem deletados por senis obsolescências, e todavia embeiçados por certas alunas “escritoras” ou “poetas” entre aspas. E andam eles pelos eventos literários com o livro publicado pela aluna, exibindo a “obra-prima” e torrando a paciência de ouvidos alheios com a leitura de uns poemas chinfrins e patéticos, ressaltando-lhes a suprema qualidade poética e cuspindo os perdigotos de indiretas com o intento de subestimar a outros poetas, bem melhores, que ali se prestam, por educação, a ouvir-lhes a babação de bocas moles — vide, por comparação, a boca de lábios frouxos de um presidente da República que andou enchendo as burras com a compra e venda de gado nelore, e que, cínica e acintosamente para alguém educado na Sorbonne, boquejou em vídeo de TV e chamou de vagabundo aos velhos como ele, para não dizer de gente com idade para ser pai dele. Eta pai d´égua!
 
Tocando em frente, como naquela música do bom violeiro pantaneiro, toquemos a boiada, enquanto por aí trocam lâmpadas no bocal dos soquetes, se me entendem a elétrica metáfora, e umas e outras, genuflexas e contritas, caem de boquete numa nota de cem pratas. E aqui continuando com o início, falávamos de ridículos professores, “enamorados”, afetados por suas “paixonites” — não aquelas paixonites agudas de antigamente, antes com a murcha muxiba ou aponevrose do penduricalho caída que nem barbela de peru —, ainda mais por não estarem falando com idiotas, mas seres no mínimo inteligentes para perceberem a mediocridade da baixa literatura que exibem como coisa genial. Patéticos, ridículos, esses cantos de cisne professoral. Vão mijar, velhos! Que essa purpurina toda, pra cima de tais poemas e de tais meninas, não passa de tesão de urina. E parem de apadrinhar publicação de mixórdias que não passam de mera e diletante literatice, coisa que não vai a lugar nenhum nem servirá para nada, a não ser para fins escatológicos de algum leitor duplamente desprevenido: de senso crítico e de papel higiênico para o devido uso.
 
Nada de novo na papelada da propalada “nova” ou “novíssima” literatura de Nelore, globalmente falando, em cadeia ou rede nacional. Não vamos aqui generalizar, mas muito da loja de Bugigangas & Penduricalhos dessa propalada literatura, incluída boa parte dos “melhores da geração na venta”, alardeia-se por meio de orelhas, prefácios e resenhas, tanto mais quanto maior a fornada de autores e papel desperdiçado que, ultimamente, chega às livrarias. São crias de parto precoce, ainda sugando a placenta, e muitas delas formatadas via blog — nada contra, conquanto o ar saturado de fraldas ou cueiros de certa literatura —, daí para as editoras, com as bênçãos de amigos — também autores — que militam no meio jornalístico ou mantêm laços de mútuos interesses com editores e livreiros.
 
É por conta destes trâmites, tráfico de influência, permuta de favores, ação entre amigos, esqueminhas de amores carnais expressos e quejandos de igual teor, que as portas se abrem e se lavram resenhas sobre livros nem tão bons quanto se alardeia, nas páginas dos grandes jornais, nos grandes centros do país. E a galera inculta e incauta, que não manja nada, guincha, pula, bate palmas, peida e pede bis, feito macaco diante da banana, a exemplo do que ocorre também no campo da música, outro lixão de muita porcaria, promovida pela mídia, ou por conta de duplas ditas sertanejas, já estabelecidas, que ficam apadrinhando novas duplas de coisas ainda piores do que eles. Gente que nunca foi cantor, mas fica aí estufando as veias do pescoço até quase arrebentá-las, tentando se passar por artistas e, o que é pior, logrando sucesso junto a um público acostumado a engolir música (?) ou ruídos de péssima qualidade — não raro raiando a idiotice —, por falta de melhor formação ou informação cultural; por falta de dom, alma de artista, vivência e poesia, ou falta de desconfiômetro mesmo. Pois é, coitadinhos, vão logo dizer que somos preconceituosos e que a culpa não é deles, patati-patatá. Então é melhor deixar pra lá, causa perdida, pura perda de tempo e argumento.
 
Chega a dar enjôo, o cheiro de ovo no fresco glacê das loas e broas confeitadas para beneficiar a esse comércio de coisas fajutas, forjadas a mentiras, mais não sendo senão abobrinhas decantadas como boas obras literárias, mas que — masque, rumina esse coco, ou chupa essa manga —, na verdade, e quando muito, são medianas em sua maior parte, quando não verdadeiras empulhações a cuspe, impingidas ao leitor, com as bênçãos da mídia conluiada com as editoras. Em Nelore City, por exemplo, publicam-se algumas toneladas de livros ruins, desde que os autores paguem pela edição. E o pior é que as editoras costumam levar esse lixo às bienais de livros do chamado Eixo, pegando-se o Minhocão e curvando-se a espinha dorsal — pedindo bênção — ao pés do Corcovado. Duas corcovas tem o camelo, uma só tem o dromedário. Mixórdia literária que se leva daqui pra lá, e que só depõe contra o que de mais representativo se produz na área por aqui, e que não é mostrado. E assim tais editoras prestam um desserviço na área, contribuindo para a depreciação pública, meio que generalizada, da literatura produzida em nossas plagas, não bastasse a falácia de que santo de casa não faz milagre. Ô praga!
 
O que se tem, então, no contexto geral, é um conúbio quase carnal dos que vivem deste comércio — afoitos escritores de fachada, dando uma de espertos —, a tirar vantagens dos canais abertos, que levam ao canal excretor ou tubo terminal por onde se despeja o enxurro de uma literatura perrengue, diarréica. Se o canal é de dente podre, o bafo insalubre, doentio, paira no ar. São escribas ladinos, boa parte deles sem talento, expelidos a fórceps, forçando a projeção mais pela política literária e menos pela literatura propriamente dita, de melhor qualidade. Uma diarréia nacional a obrar-se por quilo, vendida como literatura, por atacado e a granel. A verdade, a lamentável verdade, é que eles até vendem — e até vão para as academias de letras, pra virarem cupins e roerem os móveis —, graças aos meios de que se utilizam e que, ao certo, pra eles, justificam os fins, e vice-versa a mesma coisa, numa espécie de marketing com o empurrãozinho por conta de “críticos” entre aspas, a ver o que tiram em proveito próprio deste conúbio de bastidores.
 
Tudo isso, sem falar dos poetas e escritores que ficam torrando a paciência de resenhistas que vivem em outros estados do mapa, telefonando para eles, dia e noite, até em horas tardias, inconvenientes, perturbando-lhes o sossego, como esses impertinentes funcionários de bancos, querendo vender produtos que só lhe tomam dinheiro e mais enriquecem os banqueiros. Assim os tais poetas e escritores. Insistentes feito muriçoca, pedindo resenhas sobre livros seus, só para forjar fama, fazer média em suas províncias literárias, posar de “estrelas” da literatura nacional. Em Nelore City mesmo tem gente fazendo isso — poetas, romancistas e contistas —, constrangendo os escritores de fora, que não sabem como sair dessa sem melindrar o patético, o ridículo implorante, “mendigo” de resenhas. Querem fama a qualquer preço e a toque de caixa, e não se tocam, achando que os resenhadores — sérios, muitos deles — não estão aí para resenhar todo e qualquer livro escrito no país. Tem gente que não enxerga o próprio nariz!
 
Estou por aqui e por conta própria, solidário com as vítimas desse tipo de coisa, que desabafam comigo, reclamando de gente daqui de Nelore City, que fica implorando resenhas, querendo avançar com as escoras dos elogios nem sempre merecidos. E nem me desculpem o replay, a indelicadeza de não ser generoso neste aspecto, mas vou insistir no que me toca e já tornei público: não insistam, não cometo mais o delito de prefaciar livros, não faço orelhas ou sequer trechinhos de contracapa; e salvo em casos muito especiais, não leio — não tenho tempo e não gosto de ler originais alheios — nem opino sobre futuros “bestsellers”. E quando ouso rara resenha ou comentário, é por puro encantamento com a obra, dessas que raramente aparecem e se aproximam do verdadeiramente grande poeta ancional que espero há anos.
 
Nunca pedi prefácio a quem quer que seja, nem resenha, nem nada; quando muito, busco divulgação na imprensa. Sempre defendi que uma obra caminha sozinha, por si mesma, e se não caminha, vai para o ostracismo do aterro sanitário que, muitas das vezes, é mesmo o seu devido lugar. E olha, nem é má-vontade, é cansaço, mesmo, quando não é enfado ou porque ando desmotivado. Ainda assim, há quem insista a pedir que eu leia calhamaços e dê minha opinião, que, não sendo elogio, nem sempre agrada e, salvo raros casos, não é levada em consideração — também não sou nem tenho a intenção de ser nenhum mestre de ninguém —, ou então fazem biquinho de menino emburrado, de gênio contrariado. Só falta pedirem que, além de prefácios e orelhas, eu faça também sobrancelhas, pé, mão, botox e lipoaspiração que lhes sirvam de “piercings” — saldo médio ou enfeite — em suas obras amiúde “geniais”, com perdão da má palavra.

 

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POR EM 26/08/2008 ÀS 09:03 AM

Literatura e Internet

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Os sites literários devem ser grandes depósitos de textos, bibliotecas universais? Devem abrir espaço para a discussão de problemas editoriais no Brasil? Os catálogos das editoras e as estantes das livrarias brasileiras revelam que os escritores brasileiros contemporâneos (poetas, contistas e romancistas) são minoria no imenso universo do livro. Estão espremidos (quando muito) entre livros didáticos (a maior fonte de lucro), clássicos da literatura universal e brasileira (domínio público), traduções, biografias, livros de auto-ajuda, etc. O ideal seria a elaboração de uma lei que criasse um fundo, cujos recursos proviessem dos lucros obtidos pelas editoras com a publicação dessas obras de domínio público. Esse fundo poderia patrocinar concursos públicos para publicação de obras inéditas ou mesmo editar (como o fazia o Instituto Nacional do Livro) livros selecionados em concurso ou em outra modalidade de seleção.
 
Os poetas, contistas e romancistas contemporâneos brasileiros estão fora do mercado. Entretanto, na opinião de livreiros, editores, dirigentes de câmaras do livro, a indústria editorial no Brasil vai muito bem, obrigado. Ora, só o governo compra 40% da produção de livros. Isto significa que está tudo muito bom (para eles). Todos nós (ou quase todos) publicamos nossos livros (quando publicamos) por editoras universitárias ou por conta própria. Ou seja, somos lidos apenas pelos amigos. A grande maioria escreve para as próprias gavetas. Um ou outro escritor consegue pôr a cabeça fora da água, a muito custo. Alguns conseguem organizar antologias e, assim, tirar do limbo, uns poucos escritores. É o caso de Nelson de Oliveira, Rinaldo de Fernandes e outros. Louve-se também o trabalho de Rogério Pereira, à frente do jornal Rascunho.
 
Realizei pesquisa no dia 13 de março de 2006, no “Google”. Fiz busca das seguintes palavras, em ordem alfabética: amor, arte, Bíblia, conto, cultura, guerra, Jesus, literatura, livro, paz, poesia, revista, saúde, sexo e vida. Pela ordem de grandeza, são os seguintes os números de páginas, no Brasil, de cada uma das palavras acima: Saúde – 37.600.000; Vida – 24.300.000; Cultura – 19.200.000; Livro – 16.500.000; Revista – 15.100.000; Arte – 13.600.000; Amor – 13.200.000; Literatura – 9.440.000; Sexo – 9.440.000; Guerra – 6.520.000; Jesus – 6.130.000; Poesia – 6.000.000; Bíblia – 5.130.000; Paz – 2.370.000; Conto – 1.690.000.
 
O elevado número de páginas dedicadas ao livro é sintomático. Como falar em “morte do livro”, se na própria Internet ele está mais vivo do que nunca? Eduardo Diatahy B. de Menezes, no artigo “A morte do livro na era virtual?”, observa: (...) “em nossa época de avanço exponencial das tecnologias de comunicação e informação, resumidas na presença avassaladora da Internet, surgem novos profetas anunciando a morte do Livro! Felizmente, o que se tem presenciado é o processo contrário: nunca se produziu tanto livro e jamais houve um acesso tão amplo a informações de toda ordem, contidas nas maiores bibliotecas e museus do mundo; jamais existiu uma livraria com um acervo de 3 milhões de livros como a `Amazon.com`, e criações generosas como a Biblioteca Virtual do Estudante produzida pela USP ou o Jornal de Poesia realizado por Soares Feitosa, que põem enorme volume de livros à disposição na Internet. Nossos velhos hábitos mentais não nos fazem capazes de vislumbrar sequer as mudanças que ainda virão nesse rumo sem limites”.
 
E “crise da literatura”? Pode-se falar em crise, num sentido amplo. Certamente a crise não será de criação, mas de editoração, de mercado editorial. Pois os poetas, contistas e romancistas não param de escrever. Se não conseguem publicar (em forma de livro), a causa não está neles. Ou está? Os leitores estariam mais interessados em Paulo Coelho do que em Francisco Carvalho? Ou tem sido sempre assim? Dizem que os editores esperam por novos transgressores da linguagem. Novos Guimarães Rosa, James Joyce, Franz Kafka. Não, eles esperam por novos O Nome da Rosa, Harry Potter, O Código da Vinci, que vendem antecipadamente milhões de milhares. O que é perfeitamente lógico, do ponto de vista do mercado. Eles estão interessados em quem vende mais. Em razão disso, poetas como Anderson Braga Horta, romancistas como Carlos Emílio Corrêa Lima, contistas como Emanuel Medeiros Vieira, e outras centenas de bons e excelentes escritores continuarão com seus livros nas gavetas ou nas páginas da Internet.
 
Como afirmar que poesia não é lida? Há dezenas ou centenas os sites e blogs de pura poesia. Pelos comentários dos leitores, percebe-se que há uma avidez de leitura. Então por que são raros os livros de poesia nas prateleiras das livrarias?

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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:16 PM

A literatura fantástica no Brasil

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Para Tzvetan Todorov, "a expressão ‘literatura fantástica’ refere-se a uma variedade da literatura ou, como se diz comumente, a um gênero literário".
 
Segundo ele, "o fantástico teve uma vida relativamente breve. Ele apareceu de uma maneira sistemática por volta do fim do século XVIII, com Cazotte; um século mais tarde, encontram-se nas novelas de Maupassant os últimos exemplos esteticamente satisfatórios do gênero." E pergunta: "...por que a literatura fantástica não existe mais?"
 
Todorov estudou, basicamente, a literatura européia, com ênfase na francesa. Poe apenas estaria "muito próximo dos autores do fantástico". Suas novelas se prenderiam quase todas ao estranho (sobrenatural explicado) e algumas, ao maravilhoso (sobrenatural aceito). As Mil e uma Noites se situariam numa das sub-divisões do maravilhoso – o hiperbólico. Bierce e Carr são pouco citados.
 
Teríamos, então, o gênero fantástico e alguns sub-gêneros dele: o fantástico-estranho, o fantástico-maravilhoso, o estranho puro e o maravilhoso puro. Todorov não os denomina sub-gêneros, embora afirme: "O estranho não é um gênero bem delimitado, ao contrário do fantástico." E dá como exemplos dele os romances de Dostoiévski. O maravilhoso seria, ainda, subdividido em hiperbólico, exótico, instrumental e científico (a science fiction).
 
Além disso, o fantástico teria dois importantes gêneros vizinhos: a poesia e a alegoria.
 
Os autores estudados por Todorov são "criativos", para usarmos uma expressão de Freud. Ou escritores singulares. Não se enquadravam nos limites do Romantismo nem do Realismo, salvo uns poucos: Balzac, Mérimée, Hugo, Flaubert e Maupassant. Há, ainda, aqueles que os manuais de literatura incluem quase que arbitrariamente nesta ou naquela escola. Gautier é tido como romântico e parnasiano. No entanto, foi um rebelde, ao lançar o movimento estético da "arte pela arte". Mérimée é tido como simplesmente realista. Nerval é posto ao lado dos grandes românticos, embora tenha sido um precursor do simbolismo e do surrealismo. Nodier, também chamado de romântico, e’ precursor do próprio Nerval e do surrealismo.
 
Alguns nem sequer são lembrados, como Jacques Cazotte, o autor de Le Diable Amoureux. E veja-se que ele é muito anterior a Balzac. Quando morreu (1792), o fundador do Realismo nem havia nascido.
 
De análise em análise, Todorov chegou a outra conclusão: a de que a literatura fantástica nada mais é do que a má consciência do século XIX positivista. E como interpretar ou explicar Kafka? Assim: "as narrativas de Kafka dependem ao mesmo tempo do maravilhoso e do estranho, são a coincidência de dois gêneros aparentemente incompatíveis."
 
Com o aparecimento de Tirano Banderas, de Valle-Inclan, seguindo-se O Senhor Presidente, de Astúrias, e depois as obras de García Márquez, Juan Rulfo, Scorza, Cortázar, Fuentes e outros, os críticos necessitavam cunhar essa nova tendência da literatura. Para uns o nome deveria ser "realismo fantástico"; para outros, "realismo mágico".
 
E no Brasil?
 
Durante o século XIX poucos foram os escritores brasileiros que enveredaram pelo fantástico. Álvares de Azevedo, em Noite na Taverna, e Machado de Assis, em alguns contos, são os mais conhecidos. Apesar disso, historiadores como Sílvio Romero e José Veríssimo não se detiveram na análise dessas páginas enquanto literatura fantástica. O primeiro, na monumental História da Literatura Brasileira, embora se refira, aqui e ali, a Poe, Gautier, Perrault e outros cultores do gênero, mesmo nesses momentos fala apenas de "imaginação ardente" e "fantasia". Edgar Allan Poe é um "desequilibrado".
 
Como ainda hoje em muitos estudiosos da Literatura, o vocábulo "fantástico" não passa de derivado ou sinônimo de "fantasia" e "imaginação", que, por sua vez, estão associados aos adjetivos "misterioso", "sobrenatural" e "grotesco".
 
Massaud Moisés se detém neste último vocábulo: "Confundido não raro com o fantástico, o burlesco, o gótico, o cômico de baixa extração, o grotesco ergue-se, no entanto, como categoria estética autônoma..." E relaciona o grotesco aos autores românticos, citando Schlegel, Hoffmann, J.Paul, Poe, Cousin e Victor Hugo.

 

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POR EM 05/08/2008 ÀS 12:18 PM

Grande Arte Vs. Sétima Arte

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O boxe é chamado de Grande Arte. O cinema é chamado de Sétima Arte. Nos dois casos, será arte? A perspectiva de arte predominante no Ocidente, apesar dos esforços das vanguardas do século XX, é uma herança romântica. Arte seria o resultado dos esforços individuais de uma mente criativa, de uma personalidade singular, na produção de um objeto, no sentido lato ou enquanto receptáculo, que prima por sua singularidade, valor espiritual ou intelectual. Segundo esse critério, nem o boxe, por ser uma atividade físico-motora, nem o cinema, por ser obra de uma equipe, seriam arte. Felizmente, o mundo real não é tão simplista assim.   
           
No texto “
Woody Allen é o filho pródigo de Dostoiévski”, publicado na coluna Imprensa de 27 de agosto de 2008, num trecho no qual compara desfavoravelmente o cinema com o boxe, o jornalista Euler de França Belém, escreveu que “o que me surpreende é a quantidade de gente inteligente, como Flávio (Paranhos), Ademir Luiz, Lisandro Nogueira, Enio Vieira e Lourival Belém, encantada com cinema”. Não posso falar pelos confrades citados, mas, pessoalmente, apesar de ser “encantado” com cinema, não considero cinema como arte. Cinema é indústria. Porém, uma indústria que, em casos raríssimos, permite que alguns indivíduos produzam arte dentro de suas engrenagens, como parte de uma estratégia de busca por legitimidade. Não é por acaso que o Oscar é anualmente atribuído pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. As três palavras-chave: academia, arte e ciência. Essa é a imagem que se deseja vender. Se de fato são acadêmicos, artísticos e científicos é outra coisa.
           
Em todo caso, mesmo o cinema não sendo primordialmente arte, sem dúvida, artistas na acepção da palavra trabalham e trabalharam em cinema, de Fitzgerald até Sartre. É um bom modo de se ganhar dinheiro. O escritor Frederic Raphael, um dos autores do roteiro de De Olhos Bem Fechados, apresentou uma boa definição para isso, referindo-se a Stanley Kubrick: “Ele é, começo a suspeitar, um direto de cinema que por acaso é um gênio e não um gênio que por acaso é um diretor de cinema”.
           
O senso comum tem mais facilidade em enxergar ideais artísticos no cinema do que no boxe. Muitos o consideram uma luta bárbara. Não por acaso, o pugilista mais conhecido das últimas décadas, que se tornou símbolo do esporte para as novas gerações, é Mike Tyson. Um pegador, não um estilista. Seria Tyson um artista? Creio que não. No máximo foi, durante um curto espaço de tempo, uma máquina de demolição. O que não tira seus excepcionais méritos como atleta.
           
O mesmo não pode ser dito sobre Muhammad Ali, um estilista nato. Mas falar de Ali é apelar para o óbvio. Da mesma forma que os Beatles, ele é um refugio para leigos. Quem não entende nada de música pode dizer que adora os Beatles com a certeza de que não vai falar bobagem. Quem não entende nada de boxe pode louvar a grandeza de Ali com a certeza de que não vai falar bobagem. Ali é como Pelé, um gênio indiscutível que elevou seu ramo de atividade a esfera da Grande Arte. Ambos são exceções, não regra. Por exemplo: Brito, o zagueiro titular da lendária seleção brasileira de 70, tão tricampeão quanto o Rei, também era um artista? Dificilmente. Era um operário da bola, o famoso carregador de pianos.
           
Assim como Joe Frazier, talvez o maior adversário de Ali. Foi campeão olímpico em 1964, nocauteou Ali em 1971; que o derrotou honrosamente no épico combate apelidado de “Terror em Manila”, em 1975. Nada disso foi suficiente para transformar Frazier em um artista. Um campeão sim, um grande atleta com toda certeza, um artista não. O mesmo vale para James Braddock, Sonny Liston e até mesmo George Foreman, que conseguiu a proeza de ser campeão mundial dos pesos pesados aos 46 anos, nocauteando um aparentemente imbatível Michael Moorer. Não é todo dia que nasce um Thomas Hearns, campeão em cinco diferentes categorias, ou um Sugar Ray Leonard. Para cada Joe Louis existem dezenas de Maguilas. Não é gratuitamente que o peso-pesado Adilson Rodrigues dos Santos, o Maguila, que muitas vezes é ridicularizado por sua simplicidade, mas que possui uma sabedoria das mais pragmáticas, nutre uma adoração quase religiosa por Eder “Galo de Ouro” Jofre. Ele sabe que apesar de ser muito mais forte e pesado, Jofre é um gênio inalcançável.
           
Enfim, o boxe é, realmente, a Grande Arte descrita por Hemingway e Norman Mailer, mas nem sempre. Da mesma forma que existem poucos grandes filmes, existem poucas grandes lutas. A raridade contribui para grandeza. O que talvez não seja suficiente para alimentar a sede de sangue do mundo contemporâneo. Não me parece coincidência que nos últimos anos o pugilismo tem perdido espaço frente ao vale-tudo, enquanto fenômeno de massa. Minotauro é o novo artista da praça. Para mim parece justo. Ou justiça poética.  


 

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POR EM 29/07/2008 ÀS 07:42 PM

Prosa de ficção: algumas noções

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Tenho encontrado leitores que me fazem perguntas embaraçosas como esta: “O que devo fazer para aprender a escrever conto, novela, romance?” No mais das vezes, digo-lhes: “Comece lendo os clássicos.” Alguns me responderam: “Mas eu já li quase todos e, mesmo assim, ainda não sei como escrever um conto.” Ora, há dicionários, manuais, tratados que dão noções sobre espaço, ação, incidente, drama, conflito, unidade dramática, história, célula dramática, lugar, tempo, passado anterior ao episódio, tom, personagens, tipos, caricaturas, linguagem, concisão, concentração de efeitos, diálogo, diálogo interior, monólogo interior, discurso direto, narração, descrição, ponto de vista, foco narrativo, primeira pessoa, narrador onisciente, começo, fim. Também o conhecimento de tudo isto parece não ser suficiente para dar ao aprendiz de escritor o cadinho para a realização da obra de arte. E, por falar em cadinho, captei a seguinte lição de Adolfo Casais Monteiro, em Os Pés Fincados na Terra: “A arte não é invenção pura; o artista é como que um cadinho em que se realiza a mistura dos ingredientes que são o pó da experiência.” Muitos sociólogos ditos marxistas insistem em afirmar que toda pessoa é capaz de criar qualquer obra de arte, desde que se lhe dêem condições sociais, culturais para o exercício dessa capacidade. Ora, milhares e milhares de pessoas letradas, bem vividas se dizem poetas porque sabem escrever versos. No entanto, não são poetas ou não conseguem escrever bons poemas. Os gramáticos seriam então os melhores poetas, contistas ou romancistas.

Muitos desses escritores principiantes estudaram gramática, leram os principais livros – da Antigüidade aos dias de hoje –, se debruçaram sobre manuais, tratados, dicionários de literatura, e, crentes de já saberem tudo e estarem prontos para a criação literária, tentaram escrever contos, novelas, romances. O resultado, porém, tem sido desastroso. Faltou-lhes o quê? Persistência? Nem sempre. Humildade? Talvez. Imaginação? Quem sabe? Talento? Não sei.

Há quem pense ser mais fácil escrever contos ou poemas curtos que romances. Como se tudo fosse questão de tamanho. Ora, contistas são contistas, poetas são poetas, romancistas são romancistas. Alguns escritores conseguem ser bons como poeta, contista e romancista. Muito contista sonha com um grande romance e freqüentemente o ensaia nos contos mais longos. Já o narrador mais afeito à arte de narrar nunca confunde alhos com bugalhos. Confunde-se também conto com crônica, o que é menos grave. Pior é chamar de conto simples anedota, piada, notícia, comentário, etc. No livro A Nova Literatura: O Conto, Assis Brasil faz didática distinção entre conto, crônica, prosa poemática e poema em prosa. Crônica é um relato, bastante pessoal, onde o autor nomeia e descreve acontecimentos, criando enredos num tempo histórico passado. O poema em prosa e a prosa poemática são formas confessionais, ausentes de fabulação.

À medida que o homem avança no tempo em sentido contrário à caverna (ou todo movimento é um retorno?) mais se torna difícil expressar-se por conceitos. Assim, a oralidade primitiva se confunde cada vez mais com a escrita dos novos tempos. Isto não quer dizer que o caso, o conto oral tenda a desaparecer. Ora, como não encontrar semelhanças entre o conto rural, que se confunde com a lenda, e o conto urbano de feições realistas? Difícil também delimitar os campos do imaginário e do real.

A história curta, tradicionalmente conhecida como conto, não só tem servido de objeto de discussões entre narradores e teóricos em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das transformações sofridas pelo gênero. Muitos estudiosos elaboraram vastas enunciações do conto. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa sem proveito. Porque a cada conceituação e a cada transformação seria preciso um novo batismo.

Os manuais, os tratados, os dicionários não tratam de questões menores ou de noções rudimentares da arte de escrever literatura. Pois eu quero aqui dedicar algumas palavras a essas “outras noções” de como escrever “corretamente” prosa de ficção. Ou como não escrever “incorretamente” prosa de ficção.

Comecemos pelo emprego exagerado de lugares-comuns e gírias. Os livros estão cheios de “nariz aquilino”, “lágrimas de crocodilo” e outros chavões. Se não é possível a metáfora, que se descreva o nariz do personagem com criatividade. Vejamos a gíria na frase: “O gatinho andava ao meu redor.” Ora, daqui a alguns anos quem poderá imaginar que o narrador se referia a um rapazinho e não a um felino? O escritor poderá passar como genial: o “gatinho” seria uma metáfora.

Há escritores que abusam da grafia distorcida de vocábulos, na certeza de estarem sendo fiéis à língua do povo, realistas, e de estarem preservando o idioma português. Ora, por que escrever “home” em vez de “homem”, “bêbo” em vez de “bêbado”, “eu tô com fome”? Neste caso, para ser fiel ao propósito de escrever como fala o zé-povinho, melhor seria: “eu tô cum fomi”. Guimarães Rosa fez malabarismos para não cair nessa esparrela. Escreveu sempre a fala do povo do sertão mineiro, porém com invejável inventividade, sabedoria, consciente do significado de cada sílaba, de cada vocábulo, de casa frase.

O mau uso dos diálogos tem sido outro pecado de muitos escritores. É o caso de personagens do tipo Zé-prequeté falando como literatos, isto é, o oposto do uso excessivo de gíria ou transcrição da fala do joão-ninguém. José de Alencar é criticado por ter posto nos lábios de seus índios o modo de falar dos portugueses. Porém o romantismo tinha lá suas leis, como a de que os diálogos nunca reproduzissem a fala dos “sem fala”. O sertanejo que falasse como o doutor da cidade, com acatamento e respeito às normas gramaticais.

Há também o vício da repetição exagerada de vocábulos, na mesma frase, no mesmo parágrafo, no mesmo capítulo, no mesmo conto. Os mais comuns são: “que”, “mas”, “estava”, “era”. Vejamos este caso: “João dos Bois ia levantar mais tarde. Antes de levantar...” Contemos os “que” neste trecho: “Mieko achava que devia voltar à lavoura novamente e conversa com o Noriel e pedir que ele não contasse a ninguém o que tinha acontecido.” Do mesmo livro é a frase: “Foi só depois que o Roberto tinha levado a Arume que a Mieko achou que podia escrever.”

Semelhante ao senão apontado é o uso forçado de figuras de linguagem, o emprego desnecessário dos artigos, o descuido na conjugação dos verbos, os cacófatos. Tudo isso é muito comum em narradores brasileiros do final século XX e depois. Para isto, dizia-se: “Fulano não tem estilo.”

Passemos aos personagens. Um dos erros mais comuns é o excesso de personagens em contos. A não ser que somente dois ou três deles participem diretamente da ação. A primeira causa disso será o surgimento de personagens desnecessários, sem lugar na ação, supérfluos. Depois, a confusão no enredo. O tamanho da narrativa não comporta muitos personagens. E não será a evolução do gênero que irá mudar isso.
E para que personagens sem nome? Cabível em contos com muitos personagens. Somente os principais, dois ou três, terão nomes.

Outro equívoco de alguns narradores: o aparecimento súbito de um personagem secundário, irrelevante, e o seu repentino desaparecimento. Melhor excluí-lo da história.

Vejamos a descrição dos personagens. O narrador não precisa descrever o caráter dos personagens. Se fulano é mau ou bom, não cabe ao narrador qualificá-lo e, sim, ao leitor. Suas ações e suas palavras o pintarão aos olhos do leitor. Também é ocioso descrever o aspecto físico dos personagens, especialmente em conto. No romance realista e naturalista a descrição não podia faltar. Como não se deliciar o leitor com o corcunda de Notre-Dame? Porém a descrição não se fazia gratuitamente. Sem o aleijão do personagem o romance não existiria. A descrição de defeitos ou características não faz sentido, a menos que o aspecto físico do personagem seja imprescindível à história. Se fulano é cego, manco, perneta, se assim descrevendo o personagem quis o narrador simplesmente “enfeitar” a história, homenagear alguém, seja lá o que for – a descrição então será uma excrescência.

Agora a questão do narrador. Durante muito tempo prevaleceu em prosa de ficção a onisciência do narrador, fosse personagem ou não. Porém tudo mudou a partir de James Joyce. O narrador onisciente desapareceu. Os pensamentos dos personagens não podem ser do conhecimento do narrador. “Fulano tencionava matar sicrano.” “Ele se sentiu culpado de alguma coisa.” A interferência excessiva do autor-narrador é um mal maior para a narrativa. Assim como o excesso de observações e explicações. Não deve o narrador dar informações, sobretudo se inúteis à trama. Exemplo: “Na curva do caminho surgiu um cavaleiro: era o Vadico, um velho conhecido que batia muito na mulher.” Tal informação é até sem sentido no conto, vez que Vadico nem sequer volta à cena.

Mencionar nomes de cidades, logradouros, somente se absolutamente necessário ao enredo. Dizer que fulano mora na Rua São Sebastião ou na Avenida Dom João poderá ser necessário, sim. Se não o for, para que o nome do logradouro? Nunca explicar o óbvio. Como assim: “Em Fortaleza, a bela capital do Ceará, vivia fulano.” Aliás, nunca explicar nada. “Isto aconteceu porque...” Melhor o mistério. Cada leitor fará uma dedução. Nunca opinar. “Aquela mulher era má.” Cabe ao leitor o julgamento dos personagens. O narrador não é juiz, não decreta nada. Sua função é tão-somente narrar.

Moreira Campos, um dos mestres do conto brasileiro ou um dos melhores discípulos dos grandes mestres, seguia à risca as lições de Tchecov. Em “Breves palavras”, apresentação do livro Dizem que os cães vêem coisas, escreveu: “Sou fiel, quanto à síntese, ao conceito de Tchecov: ‘Se a espingarda não vai atirar no conto, convém tirá-la da sala.'” Ainda desse mestre a advertência de que, “se você vai derrubar a casa, apodreça de logo a cumeeira.”

Em suma: para escrever boa prosa de ficção é preciso, além de conhecer todas as técnicas de narrar e muito talento, saber lapidar, transpor, alterar, substituir, riscar, cortar, remendar, costurar palavras, frases, parágrafos inteiros. E não ter medo do cesto de lixo, de ser cruel consigo mesmo. Não ter complacência com o vício, o erro, a mediocridade. Não ter piedade nem de si mesmo nem de personagens.

 

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POR EM 29/07/2008 ÀS 11:24 AM

Borges, o atualíssimo

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O título acima é meio que uma paródia do conto Funes, o memorioso, constante em uma das primeiras coletâneas narrativas de Jorge Luis Borges, Ficções, editada em 1944. Há um dado curioso nesse livro, ou em torno dele, que foi ter sido escrito na década de quarenta do último século. Parece, assim, que estamos diante de um artefato antigo. Ledo engano, embora tenha vindo a lume, para ser exato, há 68 anos atrás. Nessa idade o livro seria já velho: fosse um homem. (Não que não o seja, de certa forma).
 
Mas por que – indaga o leitor – um dado curioso? Porque não havia naquela época a internet, sequer indícios de que os homens empreenderiam algo tão fantástico. O universo já existia desde sempre, ou pelo menos desde quando foi escrito o primeiro poema épico ou o primeiro livro, quer dizer, no último caso: as primeiras tentativas de armazenar o todo. (d`Alembert foi um desses ambiciosos obreiros, e criou um dos objeto de culto do escritor argentino) Por outras palavras, somente três décadas depois do surgimento deste livro premonitório que se chama Ficções os homens começaram – década de setenta – a edificação concreta de algo mais sutil, e cujo nome pode ser A biblioteca de Babel. Tratá-la por Babel não tem a mínima importância, pois equivale a um reflexo, um efeito comum em Borges.
 
A biblioteca de Babel é um conto ilustre daquele título famoso. Nele, o argentino inventa uma arquitetura cujo número de recessos evoca, já, os labirintos da rede mundial. Borges, como sabemos, cultiva com especial predileção algumas palavras, qual pátio, vindicação, contestação, prodigalizar e intuição. De seu vocábulo interessa-nos esta, pois ele terá intuído – ou previsto – o surgimento dessa enorme empresa que os homens logram, agora, com êxito espantoso, e se não alcançaram o infinito, beiram-no vertiginosamente. Quem navega pelo ciberespaço pode não chegar a lugar nenhum ou fazer uma viagem inútil, movido pela curiosidade de abrir janelas. O problema é que essas aberturas não têm fim.
 
Quem lesse A biblioteca de Babel em outro ano, digo, outra década anterior – seja 1989, ano por acaso em que Borges faleceu – não poderia associar essa história ao futuro, e quem sabe se perdesse em seu intrincado argumento (com argumento intrincado eu seria menos explícito). Poderia, se tanto e por associação, vincular o conto aos livros na sua forma tradicional, e pensar – o que já é quase uma nostalgia – nas bibliotecas povoadas de livros tradicionais. Nem mesmo os críticos e admiradores de Borges – Emir Rodriguez Monegal, Allan Robbe-Grillet ou Michel Foucault, por exemplo – tenderiam para o futuro, embora seu cabedal e seu gênio tenham sido especialmente raros. Quem sabe se pudesse pensar, tanto tempo depois da publicação de Ficções, que este livro se tornasse cada dia mais datado. Porém, quis o destino ou quiseram os deuses que as cápsulas aí encerradas por Borges – que queria morrer completamente – se tornassem indestrutíveis pelo concurso da técnica, condenando-o.
 
Borges, que merece de nós o epíteto de atualíssimo, viverá, ainda, longos anos, graças a essa sutil descoberta. Há momentos em que ele a intui translucidamente:
 
“prefiro imaginar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…” (trecho de A biblioteca de Babel)
 
Leio esta linha e percebo, no ato, que estou diante de um monitor, vagando na internet, onde alimento este texto para um blogue semanal. Jorge Luis Borges candidata-se de vez à imortalidade porque previu e fala aos homens do futuro, sem menoscabar a tradição. Uma das possíveis lições contidas nessa descoberta é de que o escritor, ao se lançar em seu trabalho poliédrico, deve esforçar-se por intuir o universo futuro, captando em seu instante os possíveis sinais ou vestígios desse universo posterior. É assim ou desaparece. O artista deve ser, na feliz expressão de Ezra Pound, a antena da raça e tornar-se a fonte para uma extravagante arqueologia do devir. Imagino que Borges conseguiu esta proeza com talento e fidelidade, ao manipular a metáfora, que é definitivamente mágica.
 
A título de esclarecimento, retornei à leitura d`A biblioteca de Babel por vias travessas. Agora sei que, quando a li pela primeira vez, não entendi nada ou entendi muito pouco. Cansado de outros afazeres, fui assistir a um canal de televisão, e acabei descobrindo que não perdi meu tempo. (Supostamente, poderia estar fazendo algo mais útil, escrevendo ou estudando. Mas assim poderia ter passado em branco o presente “conto-artigo”). Então, deparei nesse canal com uma entrevista em que a artista digital Gisele Beigelman abordava a arte na era da internet. Foi ela quem citou Borges como escritor capaz de refletir sobre o universo em que vivemos, lendo um trecho de Funes, o memorioso. Instigado, fui ao texto e continuei o jogo: soube que Funes era “o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente exato.” Giselle tinha razão, embora tenha citado um dos últimos parágrafos do conto para justificar sua tese. Porém, dei-me conta de que noutras partes de Ficções também está cifrada essa coisa que agora sabemos: a www.
 
Com efeito, A biblioteca não foi um acidente: a internet foi prevista muito antes e povoa o universo fantástico de Jorge Luis Borges.

 

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