revista bula
POR EM 20/09/2012 ÀS 08:27 PM

Qual a relação entre William Faulkner e John Ford?

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Descubro que William Faulkner, Nobel de Literatura de 1949, está citado no elenco de roteiristas de mais um John Ford, “Ao Rufar dos Tambores”, ou “Drums Along the Mohawk”, de 1939, com Henry Fonda e Claudette Colbert. O site IMDb, que costuma ser completo nas suas fichas, coloca o grande escritor como “não creditado”. Fui atrás, armado de Wikipédia e Google Books (que reproduz páginas remotas específicas sobre o assunto que nos interessa). Leio que Faul­kner esteve presente no início do processo de adaptação da novela de Walter D. Edmonds (maior best-seller da época depois de “E O Vento Levou”, de Margaret Mitchell), sobre o casal de pioneiros na Guerra da In­de­pendência americana. Mas foi considerado muito denso, inapropriado para o que os produtores queriam.

Há um folclore que os pesquisadores demoliram nos últimos anos de que Faulkner sofria em Holywood, o que não é verdade, só em parte, em alguns momentos. Ele ganhava bem, 500 dólares semanais no início, chegando a mil depois de alguns anos. Quatro mil dólares por mês no final dos anos 1930 não eram pouca coisa. Testemunhos confirmam que Faul­kner levava a sério os encargos dos scripts, apesar de ter tido dificuldades, pois não se sentia à altura do que esperavam dele. Chegou a sumir por uma semana logo depois de ter sido introduzido numa sessão exclusiva em que se decidiam os rumos de um filme.


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POR EM 28/08/2012 ÀS 10:30 PM

Monteiro Lobato: alma de boxeador

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Os originais do livro de estreia do polemista Monteiro Lobato, “Urupês”, uma coletânea de textos analisados neste ensaio, dormiu algumas noites, esquecidos, na garçonière usada pelos modernistas liderados por Oswald de Andrade, em São Paulo. Foi em 1917, muitos anos antes da semana de 22. Depois foram devolvidos ao autor, que conseguiu definir um papel transgressor nesta obra que mudou a literatura brasileira por vários motivos, especialmente por um: o de ter inventado o povo no genial perfil do Jeca Tatu, personagem vítima do latifúndio e do colonialismo que foi apropriado pela cultura brasileira como um vetor de visibilidade e insurgência.

O modernismo é um movimento amplo, que extrapola a Semana e o enfoque paulistano (da capital). Nasceu do inconformismo do talento diante da mesmice da cultura, que estava amarrada a velhos esquemas agrários, culturais, políticos. É pioneiro mais no Rio de Janeiro do que em outros lugares, e não se circunscreve apenas à literatura, mas à caricatura, ao panfletarismo, ao deboche e à denúncia pura e simples. Vejo Monteiro Lobato como um dos primeiros modernistas e sua importância revolucionária foi reconhecida mais tarde pelo próprio Oswald de Andrade, quando se reconciliou com ele depois de anos de rusgas e ressentimentos. Mas Lobato era turrão e inconformado demais, e além disso, vivia no interior, para fazer parte de um movimento de inspiração europeia. Lobato bebia em fontes abundantes da literatura universal e aferrava-se à narrativa coesa, eficiente e encantadora, inspirada pelo mato que o cercava. 


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POR EM 13/08/2012 ÀS 06:26 PM

Gore Vidal deu certo como Edward Gibbon e errado como Fitzgerald

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Àquele que tem pretensões literárias, que pretende apresentar-se como herdeiro de Stendhal e Flau­bert, ou Melville e Henry Ja­mes, na­da é mais ruinoso do que fazer mais sucesso como “historiador” do que como escritor. Gore Vidal era uma espécie de Edward Gibbon a­mericano. A temática homossexual transformou pelo menos dois de seus livros, “A Cidade e o Pilar” e  “My­ra Breckinridge”, em sucesso editorial, mas, nesse campo, perdeu, para outros autores, como James Baldwin e mesmo Edmund White (as memórias deste, “City Boy — Minha Vida em Nova York”, são divertidas, sem a “assepsia” de Vidal ao narrar a própria homossexualidade. Vidal é sempre malicioso ao dissecar a vida alheia, como a homossexualidade de Tennessee Williams e a suposta bissexualidade de Bob Kennedy, que teria partilhado um “soldado” com Rudolf Nureyev). Mas o sucesso absoluto de Vidal advém mais de sua literatura histórica e, para seu desconforto, de sua crítica literária corrosiva e, às vezes, precisa. “Cri­ação”, sobre a Grécia, “Ju­li­ano”, sobre Roma, e “Lincoln” são livros extraordinários, como registro histórico, uma história das mentalidades, mas, em termos literários, tão tradicionais como a prosa de Balzac, com a diferença de que, no francês, a história “é” literatura. Vidal é apontado como tendo ódio pelos Estados Unidos. Talvez seja mais adequado dizer que tinha ódio mais pelo que avaliava como “mitologia americana” — a democracia com dois partidos de perfis similares parecia-lhe um regime de partido único, portanto, totalitário  (o que é falso) — e por alguns políticos. Seus sete livros sobre a história americana, começando com “Lin­coln” e chegando até Franklin D. Roosevelt, com “A Era Dou­rada”, antes passando pela construção do Império e por sua meca cinematográfica, Hollywood, são, no geral, exemplares. E revelam mais paixão do que ódio pelo país. 


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POR EM 09/07/2012 ÀS 11:16 PM

Sobre livros, autores e um leitor

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Uma reflexão crítica sobre a história da literatura, as grandes façanhas editoriais e as dúvidas suscitadas sobre a autoria de textos e livros precursores

Deparei-me com um pequeno ar­­tigo que despertou o meu interesse. Ao lê-lo, vieram-me à mente títulos de livros, nomes de  autores e algumas reminiscências de longa data. Resolvi trazê-las à luz. Mas antes, comecemos com o artigo que, para os  aficionados por livros antigos, poderá ser de bom paladar.

Foi vendido o mais antigo livro da Europa. Foi este o título do pequeno texto que, resumidamente, dizia:  a Biblioteca Nacional da Grã-Bretanha comprou, por 11 milhões de euros (cerca de 27,5 milhões de reais), o  “São Cuthbert Gospel”, o livro mais antigo da Europa. Trata-se do Evangelho de São João, um manuscrito em latim,  que encontrava-se em poder da Ordem Jesuíta Bri­tânica. A obra, com 9,6 x 13,6 cm, é encadernada em couro vermelho e data da época de Cuthbert de Lin­disfarne (Cutberto, mon­ge e  bispo inglês) que morreu em 687. O livro foi en­contrado em seu sarcófago no ano de 1104. Segundo a British Library “trata-se de um dos livros mais importantes da bibliografia mundial”.

Da cultura egípcia, conservaram-se documentos feitos em papiro que da­tam de 4 mil anos a.C., isso graças ao clima seco e propício da região do Nilo. O que impressiona no “São Cuthbert Gos­pel” é o fato da obra ter sido conservada 417 anos num sarcófago da Europa Central, com um clima bem adverso ao do Egito.


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POR EM 22/05/2012 ÀS 08:29 PM

A morte do tradutor de Guimarães Rosa para o alemão

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Curt Meyer-Clason, o grande divulgador da literatura brasileira, latino-americana e portuguesa na Europa no pós-Segunda Guerra Mundial, morreu em Munique, sul da Ale­ma­nha, em janeiro, aos 101 anos.

Meyer-Clason, tradutor, escritor, editor, ensaísta e crítico, deixou uma obra incomparável — cujo volume e conteúdo só aos poucos é conhecida em sua profundidade. Seu nome não constava nas manchetes de primeira página — só nos círculos editoriais, entre autores e leitores. Os estudiosos do ramo terão décadas de trabalho para pesquisar, analisar e interpretar a enorme quantidade de documentos, registros, apontamentos que Curt Meyer-Clason produziu e deixou para a posteridade. Em seu acervo encontram-se, além disso, milhares de cartas de autores que traduziu.

Sua biografia é tão diversificada como os livros que traduziu. Por uma invulgar casualidade do destino, sua vida enveredou por um caminho que jamais planejara.

Curt Meyer-Cla­son nasceu em 1910 em Ludwigsburgo, cidade próxima à Stuttgart, no sudoeste da A­le­manha. Seus ancestrais eram da nobreza; seu pai era oficial no exército prussiano. Frequentou o ginásio em Stuttgart e, em seguida, matriculou-se numa escola de co­mércio. Era a carreira que pretendera seguir. Partiu para o norte da Alemanha. Em Bremen encontrou trabalho numa firma americana que atuava no ramo de importação de algodão e tinha filial em Le Havre. O jovem empregado aprendera, segundo suas próprias palavras, a “classificar algodão”. Do­minava o inglês e o francês e por isso foi incumbido de tratar da correspondência da empresa, trabalho este que tornava necessário seu constante deslocamento entre Bremen e Le Havre.


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POR EM 17/05/2012 ÀS 05:54 PM

Nietzsche e as consequências

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Em ensaio publicado no livro “A Cinza do Purgatório”, Otto Maria Carpeaux afirma que Nietzsche foi vítima do símbolo terrestre do infinito: a tolice humana
 

Otto Maria Carpeaux

A nenhum homem sério poderia deixar de preocupar a grave discrepância entre os valores da civilização alemã e as forças destruidoras no seio do mesmo povo que os criou. A civilização, a nossa e a universal, seria incompleta, se lhe faltassem a austeridade de consciência de Lutero, a catedral invisível de Bach, o céu olímpico de Goethe, a visão histórica de Hegel, e a lição espiritual de tantos outros; e o que importa não são as obras de alguns gênios, é o espírito que os criou, o espírito alemão. Mas a força alemã pretende destruir a nossa civilização, e empreende a cruzada em nome desse mesmo espírito alemão. Estamos em face de um dilema gravíssimo.

Oferecem-se-nos três soluções: os valores da civilização alemã seriam a justificação espiritual bastante da obra material que aqueles empreendem; ou os próprios valores da civilização alemã seriam os criadores espiritualmente responsáveis daquela força destruidora; enfim, haveria duas Alemanhas, uma divina, outra do diabo, ocupadas numa milenária luta interior, a que assistimos, espectadores compassivos e vítimas passivas.


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POR EM 13/05/2012 ÀS 07:11 PM

Sobre os poetas engajados

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Pablo NerudaPablo Neruda foi um poeta stalinista, o que para muitos equivale a acusação. Não é o único caso de grande poeta engajado: Bertolt Brecht é mais conhecido como dramaturgo, mas, ao lado de Neruda, escreveu alguns dos melhores poemas ditos engajados do século XX. Com “me­lhor” não se quer dizer melhor ideo­logicamente e pior sob critérios estéticos. São versos de estilo e de poeta genuíno. Segundo os críticos de todos os meridianos, entre os principais defeitos da arte engajada está a obsolescência: por filiação com realidades políticas efêmeras, ela necessariamente se torna datada, ao passo que as obras significativas são aquelas que resistem ao confronto inevitável com a temporalidade. Só resistem as que exprimem um grau satisfatório de liberdade de pensamento, que ninguém ousaria dizer que se trata de propaganda de algum projeto político, como perceptivelmente fazem os dois poetas mencionados: a poesia deles tem, deliberadamente, conteúdo ideológico comunista.

Outro defeito — consequente do primeiro — é que não teriam alcance universal porque filiam-se a realidades concretas, não a situações abstratas. São particulares, não universais. Por fim, implicam em juízos de valor por parte do artista. Neruda, por exemplo, exalta ou detrai uma série de personalidades históricas — tece um rosário delas na sua obra —, e é provável que nem todos concordem com ele. Sua poesia estaria manchada de parcialidade e tendenciosismo político. Simples assim? Há quem diga que o maior de todos os poetas, Shakespeare, desconhece essas limitações, embora sua obra teatral seja a mais política de todas, da literatura universal: ninguém, como Shakespeare, colocou tantas cortes e príncipes no palco, como se a atmosfera do poder lhe interessasse mais profundamente do que as outras. 


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POR EM 24/04/2012 ÀS 08:20 PM

Qual é a idade do gênio?

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Napoleão BonaparteCheguei na livraria e procurei por autores contemporâne­os brasileiros. Não tinha em mente nenhum deles em especial. O primeiro que apareceu na minha frente, em forma de lombada, foi Miguel Sanches Neto, cujo título era uma pergunta: “Então Você Quer Ser Es­critor?” “Sim, eu quero”, pensei comigo e o tirei da estante. Sentei-me num sofá e abri direto no conto que dá nome ao livro. As primeiras palavras me puseram diante do espelho: “Antes eu olhava as orelhas dos livros dos autores mais velhos para ver com qual idade haviam escrito suas obras-primas, sofrendo ao saber que muitos surgiram quando eles eram bem mais jovens do que eu”. Tal qual a protagonista des­se conto — Lúcia de Sousa —, o nome “Miguel Sanches Ne­to” não me parecia ainda mais especial do que João das Couves. Era apenas um nome como qualquer outro. Mas eu me identifiquei completamente com sua frase: poderia tê-la escrito, eu. Percebi que a angústia que me consome — a mim, que desejo ser escritor — não é exclusivamente minha. Não comprei o livro naquele mo­mento; dirigi-me a um vendedor e pedi emprestado papel e caneta, para copiar o trecho transcrito. Seria a abertura desse breve ensaio, que eu já supunha terminado. O que Sanches chama de “autor mais velho”? Por outras palavras, qual é a idade que justifica qualificar um escritor estreante de temporão? Há casos excepcionais, entre eles o de uma poeta goiana, Cora Coralina, o que foi digno de referência de um conterrâneo seu, Flávio Carneiro, em “O Leito Fingido”: “a poeta, apesar de ter começado a escrever aos 14 anos, só publicou seu primeiro livro aos 75!” É um exagero, condicionado pelas circunstâncias da autora. Pode significar também uma esperança!


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POR EM 23/04/2012 ÀS 10:01 PM

Por que é que os revolucionários foram reacionários

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Anthony Burgess

As revoluções levam a açoites de aço, trabalhos forçados e ao encarceramento de grandes escritores. No entanto, o termo “re­vo­lucionário” continua a gozar das mais nobres conotações, enquanto que o termo “reacionário” detém, tanto na arte quanto na política, o monopólio do mau. Já se disse que os revolucionários na literatura foram em geral reacionários em matéria de política. Minhas recentes reflexões sobre o centenário de T.S. Eliot me levam a perguntar a mim mesmo se esta afirmação é valida, e se for, se ela deva afetar nossa atitude diante de sua obra como poeta.

Por trás da revolução literária iniciada em Londres por T.S. Eliot e Ezra Pound, encontra-se uma eminência parda cuja carreira filosófica e poética foi cortada por uma bala em Flandres, durante a Primeira Guerra Mun­dial. Esta eminência parda era T.E. Hulme, que nos ensinou que “a crença humanista na perfeição do homem é falsa... e a razão da falsidade é o erro de não se reconhecer o pecado original. A vida é essencialmente trágica e fútil...”. Certamente existiram outros pessimistas mais antigos e mais ilustres que Hulme — Santo Agostinho e Scho­penhauer, por exemplo — mas o mentor dos humanistas foi Hulme. Na Inglaterra, a grande visão progressista havia sido difundida por H.G. Wells e Bernard Shaw e pelos socialistas, mas Eliot e Pound, assim como W.B. Yeats, rechaçaram-na. Ao rechaça-la, pareciam dispostos a abraçar doutrinas tão vis como o fascismo, e a aceitar práticas tão vis como o genocídio. T.S. Eliot, que como o generalíssimo Franco, foi um cavalheiro cristão, esteve do lado errado na Guerra Civil Es­panhola. Ezra Pound, que adorava Mus­solini, esteve do lado errado na guerra mundial que se seguiu àquela e este foi um crime muito mais grave. 


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POR EM 20/04/2012 ÀS 09:39 PM

Preferência não se discute; gosto, sim

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A situação da crítica literária junto a leitores, intelectuais, jornalistas, está cada dia mais irrespirável. Ser crítico literário, estudar a literatura de forma acadêmica, está se tornando algo tão complicado quanto apoiar o aborto, a legalização das drogas e a discussão a respeito do casamento gay. Politicamente correto é não se importar com a teoria, lixar-se para a tradição, mandar às favas qualquer crítica ou crítico produzido nos corredores da academia, sejam eles estruturalistas ou formalistas, ligados às teorias do imaginário ou às correntes dos estudos culturais.

Os críticos recebem as piores alcunhas: repetidores, macaqueadores, dependentes dos professores e dos grandes especialistas. Aos seus detratores a crítica é tudo, menos um ato de inteligência diante de uma obra. Os profissionais que a isso se dedicam ficam reféns da ditadura do gosto, presos nas frases feitas utilizadas como argumentos definitivos, coisas do tipo “gosto não se discute”. O que dizer diante disso?

Tentemos definir, primeiro, para que serve a crítica literária. Para que um crítico existe? Penso que o papel de um crítico é o mesmo de qualquer intelectual das ciências humanas: historiador, sociólogo, antropólogo. Des­mistifiquemos para que os que se doem não cortem seus pulsos. Não, um crítico não se julga superior aos outros leitores. Não são, nem se consideram os donos da verdade. Pelo contrário, sua obrigação, intenção e compromisso é o diálogo permanente com tudo o que já foi escrito, seja nas academias ou na solidão da criação artística verbal. Ser crítico é uma profissão como outra qualquer, como ser sociólogo também o é. A literatura não é feita para os críticos apenas, tal como a sociedade não existe para os estudos sociológicos. Essas coisas existem para a humanidade como um todo, circunscrevem-se nela, fazem parte dela. Mas nem todos têm tempo, intenção ou vocação para dedicarem sua vida exclusivamente ao estudo da literatura ou da sociedade.


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