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NEI DUCLÓS
EM 18/02/2013 ÀS 12:12 PM

Cigarros ordinários acesos um no outro para economizar fósforo, um restinho de iodo para desinfetar um ferimento no dedo, papel e caneta embrulhados em pijamas e outros trapos numa valise que carrega por todo lado, por mais de cinco prisões para onde foi jogado junto com milhares de outros presos políticos, misturados a vigaristas, ladrões e malandros, acompanham o escritor na sua faina: o de escrever notas que mais tarde vão continuar a literatura iniciada nos confins do Brasil seco e violento. Os livros que esmerilha na sua rotina brutal são narrados como personagens ocultos, um amontoado de letra miúda, mal alinhavadas e passíveis de todas as correções. O protagonista é o livro — pode ser “Angústia”, publicado em 1938, ou as anotações que geraram mais tarde “Memórias do Cárcere”. Ele está sendo esmiuçado nos apertos sem conta, em meio ao pavor, o horror, a miséria, a sujeita e o escândalo. O que lemos em “Memórias do Cárcere” é uma obra sobre literatura, que começa a ser esboçada na cadeia. A s notas se transmutam mais tarde, reescritas e editadas (dez anos depois de sua soltura, em 1938) para a posteridade — foi publicado em 1953 pelo seu filho Ricardo, que mudou o título original, “Cadeia”.
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EDGAR WELZEL
EM 06/02/2013 ÀS 12:44 PM

A Floresta Negra, no Sudoeste da Alemanha, é uma das mais belas regiões do país. A área abrange quase a metade do Estado de Baden-Württemberg — que, ao Sul, faz limite com a Suíça e, a Oeste, com a França. A topografia é acidentada com vales, colinas e montanhas cobertas de densa mata de pinheiros que, ao sol do verão, assumem uma cor verde-escuro quase beirando ao preto, daí o nome de Floresta Negra. A Oeste, formando a divisa com a França, serpenteia languidamente o Reno, a mais importante veia aquática europeia, cujas nascentes têm suas origens nos Alpes suíços; em seu percurso penetra o território alemão do Sul ao Norte, onde faz um desvio em direção à Holanda e lá desemboca no rio Maas — formando um intrincado delta cujos braços espraiam-se no Mar do Norte. A Floresta Negra estende-se além do Reno, em território francês, onde as árvores são da mesma família e a cor verde-escuro viceja. O que muda é apenas o nome: os franceses chamam-na de Floresta dos Vosgues.
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ADELTO GONÇALVES
EM 08/01/2013 ÀS 02:07 PM

Não foram poucos os críticos e leitores menos desatentos que viram em Eça de Queiroz (1845-1900) um misógino de mão cheia. Motivos não faltam ao longo de sua obra e mesmo em sua correspondência com amigos, especialmente com Ramalho Ortigão (1836-1915). De fato, em muitos de seus romances e contos, são frequentes palavras pouco lisonjeiras que dirige ao sexo feminino. Sem contar que a suas heroínas quase sempre reserva um final trágico, talvez como forma de punição a quem não soubera superar ou controlar os furores do sexo.
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NEI DUCLÓS
EM 03/01/2013 ÀS 12:48 AM
A sobrevida de um novelista de costumes, que usa a câmara como teclado e conta histórias baseadas na sua paixão

Um veterano que já está no lucro, o cineasta americano que um dia foi comediante e enveredou pelos caminhos do cinema radical, tem feito sucessivas obras que geram polêmicas por motivos diversos do que acontecia no início da sua carreira. Antes, era preciso celebrar o gênio do texto enxuto, perfeito e hilário, que contradizia o humor tradicional e instaurava o riso cerebral no ambiente hiperurbano da sua Nova York. Hoje é o rodízio de cidades europeias que abraçam seu trabalho sempre impecável, mesmo que digam o quanto perdeu em criatividade. Allen está acima de enquadramentos. Precisamos abordar alguns dos seus filmes para mergulhar na sua diversidade autoral, como fazemos neste ensaio.
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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 01/01/2013 ÀS 08:01 PM
O jornal espanhol “El Mundo”, publicou reportagem, “Céline quis fugir para a Espanha”, na qual se diz que, apesar do apoio do ditador Francisco Franco, o líder e general francês Charles de Gaulle impediu pessoalmente a escapada. De Gaulle disse a Franco que o asilo a Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), escritor fascista que atacou violentamente os judeus, atrapalharia as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países.
O texto de “El Mundo” é baseado em reportagem de ‘L’Express”, que inspirou-se em extensa pesquisa da revista “Histoires Littéraires”, que teve acesso aos arquivos do Ministério do Exterior da Espanha. Em 1949, com a derrota da Alemanha e a vitória dos Aliados, aqueles que eram fascistas, como Céline, corriam risco de prisão e, mesmo, à pena de morte. O advogado do escritor, Jean-Louis Tixier, avaliando que o governo francês seria duro com o colaborador do regime nazista de Vichy, recomendou que escapasse para a Espanha, país dirigido por um político que tinha simpatia pelo nazi-fascismo. A punição seria severa. Céline, pressionado por sua mulher, Lucette, procurou as autoridades espanholas por intermédio de seu amigo Antonio Zuloaga, “antigo adido cultural da embaixada espanhola em Paris”. Franco concordou com o pleito, mas, sob pressão do então poderoso De Gaulle, recuou. “El Mundo” frisa que a história está documentada em “Le Rêve Espagnol de Céline — Documents Inédits”, apontado como “amplo estudo” de Jean-Paul Goujon, historiador e professor emérito da Universidade de Sevilla.
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NEI DUCLÓS
EM 26/12/2012 ÀS 10:29 PM
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O Drummond erótico do livro “O Amor Natural”, o Quintana malvado, longe do farisaísmo a que foi condenado na era da internet, o Cabral lírico de “A Escola das Facas”, desafiando a secura dos seus epígonos: estranhas porções da diversidade literária, opostas à percepção consagrada nas obras de grandes poetas.
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NEI DUCLÓS
EM 14/12/2012 ÀS 08:19 PM

De perto somos todos normais: de esquerda, de direita, de centro, alienados. De longe, quando a persona é vista em sua inteireza, que só pode ser expressada pelo talento de cada um, o bicho pega. Jorge Luis Borges e Pablo Neruda causam desconforto quando se fala neles. Um porque apoiou a ditadura argentina, outro porque foi ministro do governo de Salvador Allende. Essa maldição que persegue o gênio nos afasta da essência de suas obras. Neste ensaio, alguns pontos focais do trabalho inumerável de dois mestres da literatura universal. Um exercício de ver com os olhos livres e deixar de lado o que é datado e perecível, mesmo que o talento se expresse às vezes sob a ótica contaminada por convicções ideológicas.
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NEI DUCLÓS
EM 02/12/2012 ÀS 03:16 PM

A geografia literária de três países de língua espanhola que nos cercam com sua presença em muitos outros vetores — do comércio à História e ao turismo — nos diz mais sobre eles do que um contato direto. Seus autores, mais recentes como o mexicano David Toscana, ocultos como o uruguaio Carlos Maria Dominguez ou clássicos como o chileno Francisco Solano, relatam seus universos imaginários fortemente arraigados em paisagens que sobram. No deserto, na beira rochosa do mar ou no descampado, paisagem é ficção, tão real quanto um sonho ou a imagem num espelho.
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NEI DUCLÓS
EM 22/11/2012 ÀS 08:27 PM
O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Resnais e a roteirista Marguerite Duras no filme fundamental de 1959, “Hiroshima, Mon Amour”. É, como todos, um filme sobre cinema: a mulher francesa participa de um documentário sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma é a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, já que joga pesado com a necessidade real de convívio depois do massacre e a única saída para isso é resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova relação.
Ela precisa ficar em dia com uma dívida com o passado. Tinha soterrado na memória o episódio em que amou um soldado alemão na Segunda Guerra, em plena França ocupada e por isso foi punida com o encarceramento e a loucura. Por ter essa ferida aberta dentro de si, tornou-se incapaz de amar. O encontro com um arquiteto japonês, que tem tudo para ser um momento descartável de sexo, se transforma numa sessão psicanalítica, em que o amante/doutor encarna o personagem assassinado, o soldado alemão, e faz com que ela recupere cada instante do desejo que enfrentou barreiras e preconceitos e jogou-a na condenação por parte dos seus conterrâneos.
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J. C. GUIMARÃES
EM 18/11/2012 ÀS 10:09 PM
A "História da Literatura Ocidental", de Otto Maria Carpeaux, é um dos maiores testemunhos do humanismo no século 20

Jorge Luis Borges escreveu, em “A Biblioteca de Babel”, que “nalguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais”. Tal livro, contextualizado, é Deus ou um simulacro de Deus. Inspirado no símbolo borgiano, proponho ao leitor deste suplemento um análogo de proporções mais modestas; outro livro — literalmente falando — que ambicionou compendiar todos os demais (de valor), foi escrito em português e se encontra no Brasil, onde foi também redigido, entre 1944 e 1945. O autor que o engendrou é de algum modo fantástico, e Borges o depararia num crítico — mais coerente falar aqui em historiador da literatura — nascido no império austro-húngaro no ano de 1900, chamado Otto Maria Carpeaux: o homem que leu quase tudo. Não é tanto exagero assim, se nos valermos de uma evidência concreta, bem ao alcance das mãos: a “História da Literatura Ocidental”, sua obra mais importante.
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