revista bula
POR EM 29/04/2008 ÀS 06:43 PM

Os óculos

publicado em

Entrou na cozinha com pernas atrasadas de tanta pressa e o suor alagando-lhe a testa, onde sentiu a explosão. Sua cabeça fez menção de voltar sozinha e sem óculos. Dedos trêmulos tatearam seu rosto à procura de sangue, mas assim no escuro era impossível distinguir a vida do esforço, tudo líquido e viscoso, uma coisa só. Então seus dedos nervosos descobriram a ausência dos óculos.

A porta aberta do armário? A porta aberta do armário. Que mais poderia estar com a altura de sua testa no caminho entre a porta da cozinha e a chave, além da porta do armário?

De lábios abertos e dentes cerrados, aspirava um ar com ruído fricativo para expressar a dor que vinha chegando. A mão esquerda, apalpando o ar vazio, obstinada, procurava obstáculos. Com a testa doendo, qualquer objeto era obstáculo, porque estava noite.
 
Deu o primeiro passo em alguma direção, mas parou temeroso porque não ver era causa de muita insegurança. Arrastou o pé de volta e descobriu satisfeito que o pé não tinha roçado sequer nos óculos. Chegou a pensar que essa era uma boa razão para ficar alegre, mas não teve tempo de usufruir da alegria apenas prometida porque olhou para baixo, onde supunha o piso, e olhou com todo esforço de seus olhos de pupilas redondas e azuladas sem ver nada além de grandes manchas leitosas mergulhadas em trevas densas. Só então percebeu suas pernas trêmulas, como atacadas por algum cansaço.

Seu olhar quase parado, inútil, não lhe concedia um conhecimento, a noção da distância entre a altura em que se mantinham seus pensamentos e o piso de ladrilho onde por certo estariam agora seus óculos. Mas que sei eu de distâncias?, pensou ele sob o peso do isolamento em que se via agora submerso. Como conhecer qualquer espaço sem conceber o infinito, a não-forma, a abertura para o inexistente?

Era turvo seu pensamento sobre as distâncias, porque sem luz não existem cores e sem elas deixam de existir as formas. A distância, não a distância abstrata que só existe como conceito, na mente, mas a distância concreta, individualizada é uma dádiva da visão.

Quando lhe bateu o arrependimento por ter começado a pensar, tentou concentrar-se nas pernas, que tremiam, contudo, tê-las apenas como constatação das duas mãos, era como se se tratasse de um objeto qualquer, vivo, mas alheio a seu próprio corpo. Então agachou-se até assegurar-se com as mãos espalmadas que não sentaria sobre seus óculos. E sentou-se com seu pequeno peso e sem medo no piso da cozinha.

Ao lembrar-se de que viera com pressa atrás da chave, voltou a ter pressa. Agora, entretanto, inutilmente, pois estava sentado sobre si mesmo no piso frio de ladrilho da cozinha. E sem noção exata do que havia em sua volta. Desde criança não via mais o mundo daquela altura em que agora mantinha os olhos, mas agachar-se também não lhe concedia um novo ponto de vista a respeito do mundo. Sentiu no peito o galope da pressa, mas conteve-se, exercitando seu autodomínio.

Numa fulguração da pressa, teve o relume, incerto e instantâneo, pensando que poderia guiar-se pela memória, e chegou a ver a mesa com suas cadeiras, no lado esquerdo e, vizinha dois passos, no lado oposto, a pia com a louça da véspera. Ao lado do bebedouro, pendurado na parede, o molho de chaves, que viera procurar, depois de ter descido até o térreo, acossado pelo atraso. Mas foi apenas um relume, como um suspiro que se interrompe no meio, pois ficou em dúvida sobre os pontos cardeais. A memória já não lhe informava em que posição estava seu corpo, que relação espacial ele mantinha com as quatro paredes da cozinha. Como saber se o fogão ficara-lhe às costas, como parecia, ou à frente, como poderia ser? Então resolveu desbravar o ladrilho todo com as mãos, confiando apenas no faro de seus dedos, que saberiam distinguir um par de óculos de qualquer outro tipo de objeto.

Sentado sobre os calcanhares, primeiro apalpou os joelhos, minucioso, os joelhos que mantinha colados ao piso frio. Depois de certificar-se de que estava pronto, lançou-se à aventura de esquadrinhar metodicamente cada centímetro daquele imenso campo invisível. Será isso a morte, esse imenso nada? ele perguntou-se num susto. Mas sua mão esbarrou em algo liso e duro, que lhe pareceu o pé da mesa, e a sensação, por um instante, garantiu-lhe a vida.

Sentou seu peso sobre os calcanhares para descansar e novamente seus dedos, ainda mais nervosos, foram perscrutar a testa e as faces, onde voltou a descobrir uma umidade viscosa, que talvez fosse sangue misturado ao suor. Limpou os dedos na calça e acalmou-se um pouco. Não saber a natureza da umidade já era o limiar de uma solução.

Quando se lançou, pouco depois, em uma direção ainda inexplorada e bateu com a cabeça no assento de uma cadeira, pela primeira vez teve vontade de chorar. Mas continuou, porque o sentido de urgência, impulso inicial, latejava em suas têmporas.

Seu atraso já era agravado por minutos em que ele estava perdido, sem saber quantos eram. Estar à beira do desespero confrangia-lhe o coração.

Na extensa e fria superfície do piso, além do pé da mesa e das pernas de uma cadeira, nada mais suas mãos conseguiam encontrar.

Arrastando-se em volta e por baixo da mesa, convenceu-se finalmente de que seu par de óculos voara para outro lado qualquer. Mas que lado? Mesmo sem muita certeza, quando iniciou a busca, tinha uma vaga idéia de como se distribuíam as paredes da cozinha pelos quatro pontos cardeais. Agora estava confuso, sem conseguir orientar-se com segurança. Quando bateu pela segunda vez com a cabeça no assento da cadeira, descobriu com raiva que andava em círculos, repetindo as áreas por onde já passara. Mas então é isso, indignou-se, a linha reta então é isso, não passa da ilusão do progresso?

Tirou a gravata com cuidado depois de esfregar as mãos novamente na calça. Mas, ao tirá-la teve o súbito pressentimento de que era um gesto inútil, pois nada mais poderia ser feito. Parou com a cabeça erguida e a testa enrugada, como se bastasse essa atitude para ter uma noção aproximada do tempo gasto na procura dos óculos. Desistiu de continuar tirando a roupa. O dia já andara mais do que a distância entre a porta e o armário: não existia mais atraso.

Resolveu então continuar sentado no piso frio para descansar. 

 

leia mais...
POR EM 29/04/2008 ÀS 07:39 AM

O egoísmo de Newton Appletree

publicado em

Não sei se nasci de outro ser, se surgi do nada, se me autocriei. Porque não tenho nenhuma história, porque sou único. Já vivi entre homens, macacos, pássaros, peixes, insetos e a nenhuma dessas espécies pertenço, apesar da aparência física com os primeiros. Repenso sempre a hipótese de ter sido o homem o meu criador. Mas com ele não me entendi.
 
Minha primeira amarga lembrança é a de uma prisão e, preso, eu só pensava em quem me poderia ter colocado ali. Revoltava-me viver cercado por quatro paredes, sozinho e sem qualquer comunicação com outros seres. Quem seriam meus carcereiros, os construtores da prisão? Onde estariam? Por que não me apareciam, até para zombarem de mim?
 
De tanto questionar minha situação, acabei discutindo minha origem. Eu deveria ter um criador. Não poderia subitamente ter surgido dentro de uma sala. Quem edificara aquelas paredes? Antes de minha existência já elas haviam sido inventadas. E seus inventores me seriam também anteriores. Possivelmente semelhantes a mim. E eu imaginei o homem. Para mais uma vez rebelar-me. Por que manterem-me preso? Arrombei uma porta e fugi. Nada ao redor me indicava a existência do tal homem. Nem de outro qualquer ser. E caminhei feito um desesperado. Queria encontrar vida, seres como eu ou mesmo diferentes de mim. De repente meu primeiro grande susto. Uma cidade se estendia diante de meus olhos e nas ruas seres semelhantes a mim iam e vinham. Seriam aqueles os meus criadores e inimigos? Aproximei-me devagar, com medo de ser posto novamente na prisão. Recostei-me a uma parede, todo olhos e ouvidos. Pronto a correr à primeira ameaça, reagir, enfrentar meus tiranos, matá-los, se preciso. No entanto, o primeiro que por mim passou sorriu-me, e era bela. Só podia ser a mulher de minha idealização primitiva. E eu me senti homem, por instantes. Porque um minuto depois passou por mim um homem e eu senti não ser ele meu semelhante. Alguma coisa me dizia ser ele diferente de mim, porque tudo nele semelhava o ser imaginado na prisão. E aquele ser era apenas meu criador e nunca meu semelhante.
 
Apesar disso, tranqüilizei-me. Se eles me quisessem mal, já teriam me agarrado e conduzido de volta à prisão. E todos me tratavam com cordialidade ou indiferença.
 
Decidi aventurar-me a andar entre eles, olhá-los de frente, ouvi-los, aprender-lhes os hábitos, conhecê-los de perto, enfim. Fiz curtas amizades e nenhum deles suspeitou de nada. Trataram-me como se homem eu fosse. Alguns me contaram pedaços de suas vidas, falaram-me de seus parentes e amigos, de suas atividades e eu concluí quase definitivamente que entre nós havia um grande fosso.
 
Todos tinham um passado, um nascimento, um pai e uma mãe, parentes, amigos, colegas, todo um complemento de si mesmos. Eu não tinha nada disso. Era só, único. A menos que sofresse de amnésia. Procurei um médico. Ele se estarreceu e eu tirei a conclusão definitiva de não ser homem.
 
Vivi dias de profunda tensão. Não entendia nada ou entendia tudo. Imaginava coisas que via logo a seguir. Nasci poliglota, o que me permitiu poder me comunicar facilmente com quaisquer homens. Quando perguntaram qual o meu estado civil, respondi: solteiro de nascença e para sempre. Meu interlocutor gargalhou, achou espirituosa a resposta. Eu senti tédio.
 
Sofri vexames quando me perguntaram nome, data de nascimento, nacionalidade, grau de instrução, profissão, simpatias políticas, etc. “Chamo-me Newton Appletree, nasci em 30 de janeiro de 1945, em New York , formei-me em engenharia e adoro democracia.”
 
Eu tinha medo de ser julgado um bandido foragido da prisão. Ou um espião russo.
 
Quando li os livros de Deniken, temi ser um deus, um extraterreno enviado à Terra em missão especial e que dela me houvesse esquecido. Temi sobretudo ser visto e tratado como tal.
 
Assustou-me depois ser uma espécie de deus, um ser eterno.
 
Deve ser horrível a eternidade. A intemporalidade. Uma das primeiras coisas que me preocuparam foi o tempo. Contar meu tempo de existência. Com isso passei a temer o fim, a desintegração, a morte, o não-ser mais.
 
Pelo aspecto físico, terei uns trinta anos de idade, mas, como não nasci, talvez tenha apenas um ano, se contar minha existência a partir do momento em que me conscientizei de mim. Certamente já me gastei alguma coisa, algumas partículas já se foram de mim. Meu funcionamento, meu mecanismo (a alma, o espírito, a psique dos homens ou dos outros seres animados da natureza terrena) já devem andar defeituosos.
 
Os homens, meus criadores, são meu deus, segundo sua linguagem, que foi a que me deram. Mas de mim não nascerá nada físico, material, orgânico. Não deixarei descendentes, nem trago ascendentes. Sou simplesmente uma criatura humana. Não disponho de meios para descobrir por quem e como fui criado. Para quê? Certamente para servir aos meus criadores, como escravo. Mas eles estão enganados – não serei escravo. Não aceito a finalidade para que fui criado. Viverei só e para mim mesmo somente...

 

leia mais...
POR EM 22/04/2008 ÀS 07:59 AM

As luvas de vulpino

publicado em

Quando desapareceu das ruas (e seu passo pesado e cadenciado de autômato deixou de ser medido com os olhos até dos mais velhos), a criançada nem percebeu, mas já brincava mais sossegada. Recolheram-no as autoridades da nova segurança, psiquiatras, algum padre caridoso, damas unidas da beneficência.
 
O passo medido, cronometrado do velho Vulpino costumava fazer mexerem-se milimetricamente as pupilas de todos – parentes de desaparecidos, gerentes bancários, mocinhas caseiras. O mundo inteiro da cidade se hipnotizava por onde aquele homem calado passava, pedra a pedra pisada e repisada.
 
Uns achavam-no soberbo em sua musculatura de touro, e berravam por dentro. De noite, em sonhos sangrentos, choravam. Cada banana esmagada ao pisar de Vulpino virava pasta para o escorregão de vacas, bois e bezerros. Vaiavam-nos seus vizinhos, risonhos.
 
Muitos comparavam suas pernas grossas e seu calção preto a craques mitológicos de seleções e times imbatíveis. Mais adiante, no entanto, todos, ao mesmo tempo, cuspiam e escarravam recordações de copas, campeonatos e vitórias. E brigavam como nas eras de brigas.
 
Havia quem pensasse em vestir camiseta qualquer, de portuário, carregador de fardos, como aquela de Vulpino. Mas pensava duas vezes e não saía da beira da fantasia. O touro mudo podia se ofender. Perceber ironias, heresias no imitador. E acordar, enfurecer-se.
 
O nome Vulpino seria obra de intelectuais ou de seus pais. Dele mesmo ou do folclore. Não escondia qualquer razão e tanto podia ter sido Getulino como Mussolino. Porém os mais medrosos viviam de olho no latim, às escondidas.
 
O pobre homem, no entanto, não fazia mal a ninguém. Não espancava cachorros, não olhava para crianças, não falava a desconhecidos. E até um dia se disse incompreendido, desprezado, esquecido, apesar de tudo o que fizera, a vida inteira dedicada ao trabalho. Assim mesmo, sentia-se bem e realizado. Daí seu passo cadenciado, seu silêncio, seu orgulho.
 
Nunca contou um só capítulo de sua epopéia, porém os mortos, se pudessem falar ou escrever, teriam incontáveis histórias para atormentá-lo.
 
Esses mortos viveram instantes terríveis nas mãos de Vulpino. Seus punhos de aço, escondidos por grossas e invejadas luvas, quebraram ossos como se quebram ovos, sangraram peitos como se sangram porcos, fizeram gemer por noites e dias as vozes de muitos presos.
 
Tudo isso, porém, é apenas passado. E nem os mais velhos se lembram dos tempos áureos de Vulpino.

 

leia mais...
POR EM 08/04/2008 ÀS 10:19 AM

A guerra dos bárbaros

publicado em


Descalça, Tereza esfregava um pé no outro. A barra da saia ora descia até os joelhos, ora subia até o princípio das coxas. A mão direita alisava o pano. As unhas pintadas se confundiam com as bolinhas vermelhas que ornavam o fundo azul do tecido. Pequenina aranha passeava entre uma das pernas da mesa e a parte inferior da tábua. Na parte superior, um livro aberto, e sobre ele a outra mão da moça. “Sujeito é o ser a respeito do qual”(...) Tentou cobrir todas as letras, espalmando a mão sobre o livro. “Sujeito oculto”. Olhou para a rua. Um chapéu, uma cabeça, um pescoço apareceram e desapareceram num relance. Tudo brilhava, como se caísse uma chuva de estilhaços do Sol. A menina fechou o livro e abriu um caderno. “Tive um sonho horrível ontem”.

O rosto de Ruggero brilhava, suado. E parecia mais bonito assim. Os raios do sol tingiam de amarelo pedaços do chão coberto de folhas secas. Talvez, debaixo delas, cobras preparassem botes. Pisassem com leveza, como se voassem. E por que não voarem? Ruggero já havia voado, num filme. Tereza pouco ia ao cinema. Tudo uma porcaria, no dizer de seu pai. Coitado, as onças já o teriam comido. Seu Joaquim surgiu, então, montado num cavalo. Por onde tinha andado? Ruggero agachava-se, catava mangas no chão e se punha a chupá-las. Muito doces. Joaquim aproximava-se de sua filha e segredava: ele vai morrer envenenado. As mangas encerravam veneno de cobra. O italiano estirava-se no chão, a gritar.

Na parede alguns rabiscos a lápis. Certamente obra dos irmãos de Tereza. Coisa de bárbaros. Há quantos dias os estrangeiros se encontravam na cidade? Se ainda não haviam realizado nada, pelo menos a apatia do povo andava sumida. Uns até exageravam na euforia. Aqui e ali apareciam crianças fantasiadas de índios. Como se fosse carnaval. Muitos, porém, não acreditavam na palavra dos estranhos. Filme coisa nenhuma. No mínimo, espionavam. E deviam ser russos ou americanos. Falavam italiano e português para engabelar todo mundo.

Tereza riu e brincou com a caneta. Na janela da casa defronte da sua, meio corpo de Dona Gal vasculhava a rua. Talvez houvesse muita gente na praça. Abriu o caderno. “Sentei-me no banco da praça, para descansar ou pensar”. Súbito surgiram meninos a gritar. Logo após, os carros dos italianos. Todos sorridentes. Iam para os sítios, o meio da serra. Há dias haviam chegado, em grande alvoroço. Pareciam gente de circo. A meninada até se enganou e alegrou. No entanto, a notícia imediatamente se espalhou. Nada de circo; tratava-se do pessoal do filme. Que filme?

A moça deu um salto. Voou até o quarto, abriu o guarda-roupa, uma gaveta, meteu as mãos entre livros e cadernos. Cantarolava. Fez tudo ao contrário, até sentar-se à mesa de estudos. Abriu o caderno buscado. E foram aparecendo rostos bonitos e famosos: Burt Lancaster, Anthony Quinn, Yul Brynner. Como os achava maravilhosos, embora nunca os tivesse visto em movimento. E Ruggero Vasari? Por que as revistas não estampavam o rosto dele? Passou outras folhas: Brigitte Bardot, Sophia Loren, Claudia Cardinale. Ah! ainda seria atriz. Primeiro iria embora daquela porcaria de cidadezinha. Conheceria astros e estrelas. Sua mãe choraria muito. Seu pai diria “não”, esbravejaria e seria capaz de amaldiçoá-la para o resto da vida.

Abandonou o álbum e retornou ao diário. Moscas voaram e novamente pousaram na mesa. “O filme se chamará A Guerra dos Bárbaros. Distribuíram folhetos. Precisam de centenas de figurantes. Como se fossem índios de verdade. Basta vestirem tanga e se pintarem de jenipapo e urucu. Muita gente aqui tem mesmo cara de índio. E eu nem imaginava que aqui tivesse vivido índio. Muito menos sabia dessa guerra. Os folhetos trazem informações novas para mim. E, certamente, para quase todos nós. Essa guerra teve início em 1687. Os nativos do Nordeste se levantaram contra os brancos. Por isso nos documentos da época o movimento foi também denominado Levante Geral dos Tapuias. Eu não quero ser apenas figurante. Só me interessa papel importante. Ao lado de Ruggero”.

Tereza viu de novo Dona Gal à janela. Parecia sorrir. Coçou a coxa. Um homem cumprimentou a mulher e sumiu. A moça abriu o livro: “Sujeito determinado”.

Fantasiado de índio, um rapazote chegou à porta, esbaforido. “Menina, chame sua mãe, depressa”. Tereza assustou-se. “Seu Joaquim esfaqueou um homem no mercado”. A mocinha se levantou: “Mamãe, mamãe”. O visitante suava e tremia. “Parece que morreu. Discussão por causa dos estrangeiros, do filme”. A mulher chegou coberta de espumas. “O delegado prendeu Seu Joaquim”.

Um enxame de moscas levantou vôo, feito um bando de bárbaros.

 


leia mais...
POR EM 25/03/2008 ÀS 11:15 AM

O primeiro homem

publicado em


Quando Leão morreu, até papai, que tinha um coração de pedra, chorou. Inconformada, amaldiçoei todos os carros do mundo. Logo, porém, me conformei, porque a morte do bichinho me foi favorável: voltei a ser a menininha da casa. Todo o recente passado ressurgiu mais caloroso ainda, na forma de mimos, chocolates, passeios ao zoológico. 

Apesar disso, eu vivia suplicando a papai que arranjasse outro cãozinho. Ele se afobava, dizia um não áspero, dava desgosto ver um animal de estimação, criado quase como filho, ser atropelado por esses malucos. Eu cuido bem dele, tranco o portão, não o deixo sair para o meio da rua, eu insistia.
 
No meu aniversário seguinte, minha grande alegria: um cachorrinho de presente, com fitinha e tudo, comprado por não sei quanto. Taí o moleque, disse papai, cheio de sorrisos e abraços. Vinha com bafo de bebida, olhos brilhantes, mãos pesadas, outro, a boca entupida de sins.
 
Em verdade, o velho era louco por cães e já não resistia ver a casa vazia, sem um latido. Durante toda a festa me abraçou e beijou mais duas ou três vezes e o novo hóspede só faltou não largar mais. Como se fosse pai pela primeira vez.
 
É esse o nome dele? perguntei, irritada, a certa altura dos carinhos. Moloque é mais bonito, apressou-se mamãe a propor, ignorante do que dizia, eu soube depois. Batizei-o ali mesmo, com guaraná. E não o larguei mais, toda dedicada a banhá-lo, mimá-lo, beijá-lo, como o fazia com as bonecas já esquecidas a um canto. Ele me olhava bem no fundo dos olhos e parecia querer dizer alguma carícia, botava a linguazinha para fora, cheirava-me toda, mordia-me, carinhoso.
 
Passava da hora habitual de dormir, quando fui para meu quarto, sonolenta e cansada, e lá foi ele a me seguir. Mamãe, porém, não permitiu que dormisse sequer ao lado da cama, quanto mais junto a mim. Onde já se viu isso, menina? Ou você não estudou higiene? E fez um sermão daqueles, como se não estivesse sido dele a iniciativa.
 
Perdi o sono por instantes, zangada com a injustiça de mamãe, e fiquei a ouvir o coitadinho ganir. Parecia um choro de dor. Penalizada, imaginei que o deixariam dormir no sofá da sala, pelo menos. Papai não iria obrigá-lo a passar a noite ao relento. E quando todos estivessem sonhando, ele voltaria para junto de mim e teria minha cama onde pudesse repousar da viagem, do batismo e da festa. Para tanto, deixei a porta do quarto entreaberta.
 
Ainda não dormia, as imagens conscientes misturando-se às do sonho em formação, quando ouvi uma leve pancada na porta. Não me mexi nem abri os olhos. Preferi acreditar que aquilo fizesse parte do que eu engendrava no cérebro: Moleque saltava para a cama, cheirava-me o rosto, puxava os lençóis, metia-se entre meus braços, à cata de calor...
 
Com pouco, senti um corpinho macio roçar-me os pés, cheirá-los, lambê-los. Arrepiei-me toda, sensível com sou ao mais delicado toque. Tentava abrir os olhos, mover-me, mas não conseguia, entorpecida. Não que passasse por minha cabeça tratar-se de uma pessoa humana. Não, eu tinha certeza de que ali estava o Moleque. Sobretudo porque entre eu e ele não havia nada. O danado conseguira meter-se não só debaixo do lençol, mas ia varando, pouco a pouco, a roupinha frouxa que eu vestia. Alcançou-me as pernas, a seguir, e eu mais me arrepiei. E foi escalando meu corpo, à procura de carnes mais macias, de um travesseiro onde pudesse dormir sem se torturar. E chegou às coxas e lá se concentrou por não sei quanto tempo.
 
Garanto que ainda não dormia, mas forças não tinha para reagir, retirá-lo dali, colocá-lo ao meu lado ou até deitá-lo fora da cama. Mesmo quando seus dentinhos me desceram as calcinhas.
 
Foi uma operação tão perfeita, carinhosa, doce que não pensei em outra coisa senão em sua inocência. Ora, ele, de certo, achava que eu me sentiria melhor nua. Ou o tecido lhe era áspero, desagradável, quem sabe?
 
Eu ainda não tinha pêlos na vulva e aquela língua morna lambendo-me a pele fez-me estremecer.
 
Em verdade, eu gostava de passar a mão sobre essa parte do corpo quando me deitava para dormir. Uma sensação tão boa que eu logo pegava no sono. Também durante o asseio eu costumava fazer isso, mas pensava em pecado, ficava triste e terminava arrependida.
 
Mas o pior aconteceu na casa do vizinho. Eu ia sempre lá brincar com uma coleguinha que tinha um irmão. Brincávamos os três, de tudo, boneca, esconde-esconde, manja, carrinho. E ele andava sempre me chamando para os quartos escuros, tirava minha calcinha, alisava minha pequena boceta, encostava a piroca e dizia que era meu marido. Mas nunca enfiou nada, só fazia pegar, cheirar, coisa sem importância.
 
Voltando àquela noite, depois das primeiras lambidas, abri, instintivamente, as pernas, doida para que aquela língua penetrasse em mim. Digo doida, mas não agia conscientemente. Para mim estava sonhando. Seria uma espécie de limpeza, já que durante toda a festa eu havia bebido muito guaraná, urinado várias vezes e não me lavara, apesar das constantes advertências de mamãe.
 
Mas, estranhamente, ele parou de me lamber e deitou-se sobre minha barriga. Encostou a cabecinha perto de meus peitos, estirou as mãos, como se me abraçasse, e a piroca, dura, forçava a entrada de minha já inflamada bocetinha. Vai e vem, senti dor e prazer misturados, não sei se gritei, se gemi, se chorei. A coisa entrava com força, dilacerando, rasgando, queimando minhas entranhas. E eu morria de gozo, de um prazer nunca sentido.
 
De manhã, sangue nas pernas, na cama, nos lençóis, uma dor enorme no pé da barriga e nada de Moleque.
 
Se você não quiser acreditar em minha história, pior para mim, mas juro que você é o primeiro homem.

 

leia mais...
POR EM 18/03/2008 ÀS 09:57 AM

O calendário de Júnio McAbana

publicado em


Nas andanças que fazia dentro da cachola, Júnio McAbana matutou um novo calendário, que fizesse frente aos existentes e privilegiasse as minorias, os exóticos e outros seres estrambóticos. Cismou com a mesmice desse calendário gregoriano, que para ele a única coisa interessante que trazia era o 29 de fevereiro, isso mesmo de quatro em quatro anos. Para começar, a semana seria de dez dias, sendo cinco dedicados ao trabalho e cinco ao lazer. Assim sendo, o fim de semana seria de cinco dias.

Segundo esse novo calendário, o ano seria de dez meses, cada mês com 40 dias e o primeiro ano começaria a ser contado a partir de 15 de março de 2010. No horóscopo, um mês seria dedicado a um bicho e o outro a um pé de pau ou à sua fruta. O primeiro seria o mês do Calango; o segundo, o mês da Cagaita; o terceiro, do Carrapato; o quarto, mês do Carrapicho; o quinto, mês do Piolho; o sexto; da Mama-cadela; o sétimo, mês da Sanguessuga; o oitavo, do Puçá; o nono, da Barata; e o décimo, mês do Araticum.

No calendário de Júnio McAbana, no 24 do mês Um seria comemorado o Dia do Viado, um feriado nacional, onde se realizariam as paradas gays, pela manhã, e à noite seriam rezadas missas e realizados cultos protestantes. O carnaval seria do dia 35 ao dia 40 do mês Dois. Dia 20 do mês seguinte seria comemorado o Dia da Esbórnia; dez dias depois seria o Dia do Feladaputa, com um desfile cívico de todos os árbitros e bandeirinhas de futebol e todos os demais fdps do ramo e dos outros ramos.

No Natal, dia 25 do mês Dez, seria comemorado, na verdade, o Dia de São Herodes. Em dez do mês Sete seria o Dia dos Ladrões, cinco dias depois o Dia dos Maconheiros, Cachaceiros e Drogados. No mês seguinte, no quinto dia útil da segunda dezena, seria comemorado o Dia da Corrupção, um feriado nacional da mais pudica devoção, com palanques e desfiles de todos os gêneros. O mês Nove seria dedicado todo ele aos cornos, prostitutas, tarados e pistoleiras, com a realização de um grande festival de cerveja, danças típicas, muito axé, samba, maracatu e o escambau.

O mês Três teria uma data dedicada ao Dia de São Cão, onde o ponto máximo era o megashow televisivo do conjunto “Capetas em Delírio”, o mais popular e que parava o País no horário nobre das 8 horas da noite. Outro dia também muito interessante desse mês seria o Dia de São Nunca. A festa aconteceria de tarde.

O feriado mais importante, no entanto, no Calendário de McAbana, não seria o Dia de São Cèsare Apóstolo, nem o de Santo Anhanguera Bandeirante von Rusember’Gue e muito menos o Dia de Santa Periquita do Bigode Loiro, mas, sim, o Dia dos Escalafobéticos Ululantes do Vigésimo Dia. Nesse dia, feriadíssimo de festa, tudo estaria ou seria invertido: a esquerda passava a ser direita, o certo viraria errado, o inferno seria o céu, as mulheres virariam homens ...

 


leia mais...
POR EM 11/03/2008 ÀS 01:42 PM

A arca

publicado em


De longe, avistei a aglomeração, e a curiosidade me arrastou para ela. Talvez algum mágico estivesse a encantar a pequena multidão. Podia tratar-se de comício, também. Avancei mais curioso, atento aos aplausos e modos daquela gente. Não, ninguém engabelava ninguém, e todos vestiam trapos sujos. Um cheiro de lixo mandou-me dar meia volta e volver. Porém meus olhos queriam inventar o mágico ou o político, e me grudaram às costas do último molambudo.

– Morreu galego? 

O bruto fez ouvidos de mercador. Refiz a pergunta, de trás para frente, a rir de mim mesmo. Você me respondeu? Nem ele. Como podia estar muito distraído, toquei-lhe o braço, com ira. Não se virou, mas desfiou um metro de porcarias. Só depois virou a cabeça para trás e me fitou demoradamente. Dei um passo para a esquerda e postei-me às costas de um que bodejava e erguia os braços. Que diabo! Um terceiro, cheio de rugas e cãs, não parava de rir. Mais outro olhou-me. De seus olhos vermelhos escorria muita água. Aquilo já me assustava e perturbava. Não, não me amedrontava. Ora, nenhum daqueles coitados parecia ofensivo. E menos eu compreendia onde me achava. Claro, diante de uma casa em formato de ar-ca, metido no meio de um magote de mazelentos. E no interior da tal arca? Saí a pedir licença a um e outro, a abrir alas, até al-cançar a porta. O porteiro sorriu-me e convidou-me a entrar. Que alívio! Pacatos e inteligentes frequentadores de exposições fuma-vam e parolavam, requintadas senhoras furoavam intrigas entre si, bisonhos críticos parodiavam-se, risonhos e educados todos, bem vestidos e corados, alvos e adornados.

Dirigi-me a um gorducho de cara e jeito de sabido e indaguei o significado daquela multidão lá fora. Ele não me soube dar resposta, encenou uma exposição de motivos sobre o que acontecia do lado onde se achava. Ouvi por três vezes a palavra tranquilidade. Como eu lhe virasse o rosto, indicou-me um respeitável senhor sentado a um birô. Parti no rumo do venerando homem e repeti a pergunta. Para quê? Ele se enfureceu. Porém, antes de me agredir, levantou-se, como se despertasse de um sonho bom, e se disse sentir-se obrigado a ir chamar a polícia. E pôs-se a andar de um lado para outro. “Ora, são os mazelentos de segunda, terceira e quarta categorias que desejavam ser expostos. Impossível! Não adianta esse protesto absurdo. A exposição é de mazelas de primeira ordem, conforme o senhor pode ver.” E apontou para as quatro paredes. Só então percebi as peças expostas. A arca havia sido construída especi-almente para a exposição. Relacionou os nomes das mazelas principais, representadas ali por figuras humanas. Agradeci as informações e juntei-me aos demais frequentadores. Remirei-os. Diante das peças expostas, trocavam opiniões. Uma lustrosa senhora, diante de um homem vestido de chagas, suspirava: “Maravilhoso! Maravilhoso! Maravilhoso!” Tentei ser polido e voltei-me para a exposição em si. Pernetas, manetas, coxos, cegos, leprosos, anões, gigantes, deformados compunham a galeria de mazelentos. Não seriam estátuas, manequins de gesso, plástico, bronze? Só então relacionei os protestos da multidão do lado de fora à explicação do diretor da Exposição. Sim, o chagado se retorcia. Logo, a amostra se constituía de seres vivos. Cheguei a deixar transparecer minha emoção. “Ah! estão vivos?” Um prestimoso senhor tratou de me ensinar que “logicamente, pois é a Primeira Exposição de Mazelas. De nada valeriam elas, se não fossem em seres humanos.” Procurei atenuar minha ignorância. Aqueles pedestais, as poses, a rigidez das figuras, tudo dava a impressão de estarmos diante de imagens, como as de museus, igrejas, jardins. O homem deixou-me a falar só, e eu terminei fugindo dos o-lhos do outro – o exposto.
 
Adiante, outro mazelento sorria para uma criança, que o admira-va. Ria e fazia trejeitos, caretas, mungangos. O rico menino encabulou-se e dirigiu-se ao pai: “Olhe, ele está rindo para mim.” Ao que o pai respondeu, asperamente: “É um mentecapto. Não se preocupe.” Noutro estande, um hermafrodita servia de motivo à briga de dois intelectuais a discutirem deuses e deusas. Para meu espanto, falavam ora em latim, ora em grego. E se maculavam disso e daquilo, entre risinhos e citações épicas, piscadelas e expressões vulgares: cachorro da moléstia, filho de uma égua, cabra da peste.
 
Eu, mal entendedor, tratei de pular fora daquilo, antes do dilúvio.

 

leia mais...
POR EM 27/02/2008 ÀS 09:13 PM

O aniversário de Branca de Neve

publicado em


No final da tarde, Sandra e Morais davam ordens aos garçons e os últimos retoques no salão de festas, arrumavam os docinhos, os enfeites. Não paravam de falar aos filhos para que se comportassem. Nada de briguinhas, confusões. Queriam uma festa sem defeitos. Luzia, fantasiada de Branca de Neve, ia e vinha pelo salão, sorriso em todo o rosto. Olhava os ornamentos das mesas e paredes. Vistoriava o pequeno palco. Bruno se acercava das guloseimas, pronto a dar o bote. Saulo brigava com o irmão. Não metesse a mão em nada. Morais completava a admoestação. Nenhum deles devia se antecipar ao início da festa, servindo-se antes da chegada dos convidados. Impacientavam-se todos. As crianças corriam, os pais fumavam e se irritavam. E nada de convivas. “Será o trânsito?” Inquieto, Morais chamou um garçom. Sandra se exaltou. O marido não devia beber antes da chegada dos amigos. “Cerveja ou uísque?” A senhora acendeu mais um cigarro e se pôs a andar pelo salão, a revistar adornos e manjares. Um rapaz se apresentou, carregando uma filmadora. Morais pôs-se a dar-lhe instruções. Os meninos ora corriam, ora se abeiravam das mesinhas repletas de gulodices. O sol se punha atrás dos prédios.


A chegada de Xênia, Osvaldo e filhos causou exaltação nos anfitriões. Alegria geral, abraços, risos. Iniciaram-se as filmagens. A menina Ana correu ao encontro de Luzia e entregou-lhe um presente. As demais crianças se fizeram arredias. Sentaram-se os quatro adultos. Morais sorvia goles de cerveja. Cheio de euforia, gritou pelo garçom: trouxesse copos para o casal amigo. Sandra reclamou: queria também um copo. Luzia abriu o embrulho, com pressa, sob as vistas dos irmãos e visitantes. Bateram palmas, deram vivas. A aniversariante arrastou a amiguinha pelo braço: iria mostrar-lhe todo o salão. Branca de Neve e os Sete Anões, desenhados e pintados em folhas de cartolina e isopor, anunciavam fantasias. O palco, a cortina, o pano de fundo. “Vai haver uma peça, sabia?”


Sandra anunciou a chegada de Elizabete, Jonas e a pequena Vanessa. E levantou-se para recebê-los. A menina correu na direção de Luzia, presente à mão. Mais abraços, beijos, parabéns. Morais gargalhava, enquanto Jonas se esforçava para mostrar a musculatura do braço. Sandra falava alto. Os garçons serviam bebidas e salgadinhos.


Adão surgiu de mansinho, a esbanjar fumaça pelas narinas. Os anfitriões se disseram surpreendidos. Não o esperavam para tão cedo. O convidado conduzia um objeto embrulhado em papel colorido. Perguntou pela aniversariante. Gritaram-lhe o nome. Luzia sorriu e correu. Apresentavam Adão aos casais convidados quando se anunciaram Onira, Getúlio e duas meninas. Elizabete cruzou as pernas. Onira ajeitou os óculos, enquanto acariciava a filha: “Continua dando aulas?” Morais fumava, Sandra ria e gargalhava: “Continue filmando, rapaz.” Elizabete gritou por Vanessa. As meninas recém-chegadas se dirigiram a Luzia. Queriam entregar uma lembrança, apenas uma lembrancinha. Getúlio passava mão na testa, e parecia rir ou chorar. Osvaldo olhou para o relógio de pulso. Adão dava risada a gosto. Luzia controlava o sistema de som. As crianças iam e vinham pelo salão, olhos nas iguarias. Umas dançavam, outras conversavam. Sandra chamou a aniversariante. Hora de dar início à encenação. Rebuliço no salão. Mais convidados chegavam, carregados de mimos e sorrisos. “Vamos iniciar o teatro. Apaguem as luzes e silêncio.” Bateram palmas. A anfitriã dava ordens ao cinegrafista: não deixasse escapar uma só ação da peça. No palco, acendem-se algumas luzes. Dois personagens se mostram em vestes reais. Mimam uma boneca: a filha há tempos esperada. O rei (Morais) se dirige à rainha (Sandra): A filha teria por nome Branca de Neve. A platéia bate palmas. Xênia ajeitava o cabelo, olhos fitos no palco. O narrador anuncia a morte da rainha. O rei se põe a chorar. Sandra retira-se do tablado e corre à mesa, a rir. Movimento inverso realiza Xênia. O narrador anuncia: O rei terá nova esposa. Um padre passa a celebrar o casamento real. Getúlio mete mão no bolso. A meninada permanecia silenciosa. A nova rainha se mira frente ao espelho mágico: “Existe alguém mais linda do que eu?” A garotada grita “existe, existe.” Jonas alisava o queixo. Sandra fumava. Luzia entra em cena: “Sou Branca de Neve.” A rainha se observa diante do espelho e pergunta quem é a mais bela do reino. Uma voz vinda dos fundos grita: “Há uma menina muito mais bela do que Vossa Majestade”. Morais se retira do palco e chama um garçom: “Mais cerveja, que o rei está morto”. Risos e gargalhadas. Luzia pede silêncio, irritada. Sobe ao estrado Jonas. A rainha se dirige a ele e ordena: “Leve a menina ao bosque, mate-a, arranque o coração e o traga a mim”. Onira cochichava para Sandra. O caçador arrasta a princesa pelo braço. A menina grita e cai. Riem na platéia. Sandra brada: “Cuidado com minha filha.” Luzia se ajoelha e pede clemência: “Não me mate, por favor.” Jonas, o caçador, ergue a mão, olha para a menina e também se ajoelha: “Perdão, princesa. Vou enganar a rainha. Ela quer o seu coração, como prova de que a matei. Vou, pois, matar um cervo e arrancar-lhe o coração. Fuja para bem longe daqui”. Luzia corre para o fundo do palco e Jonas sai pela lateral. Reaparece no salão, a rir e ajeitar a camisa. Batem palmas. Onira olha de viés. Xênia se ergue e se retira. Branca de Neve reaparece no palco; ao fundo o desenho de uma casinha. Deita-se numa caminha e adormece. Jonas esfrega as mãos e levanta os ombros. Entram no palco sete anões, representados por meninos e meninas. Onira cutuca um pé de Sandra. A princesa desperta. Os anões se põem a conversar com Branca de Neve. Sandra quebra um copo. Alvoroço no salão. Morais fumava e batia pé no chão. Reaparecem a rainha e o espelho: “Quem é a mais bonita do reino?” Uma voz rouca ecoa no salão: “A mais bela de todas é Branca de Neve.” A rainha se desgrenha. Risos, vaias. Getúlio ajeita o cabelo com mão. Uma bruxa (Sandra), disfarçada de velhinha, carrega maçãs numa cestinha e bate à porta da casinha dos anões. Jonas enche a boca de empadas. A bruxa oferece uma maçã à princesa. Gritos, conselhos: “Não aceita a maçã; é envenenada.” Luzia sorri, olha para a platéia: “Eu tenho que aceitar e comer. Faz parte da história.” Dá uma mordida na maçã e cai. Os anões gritam, choram. Os convidados batem palmas. Xênia olhava para as coxas de Getúlio. Entra em cena o príncipe, representado por Saulo. Elizabete aproxima-se de uma das mesas, rebolando-se. A princesa ressuscita. Luzia se ergue e abraça o irmão. O narrador fala do casamento da princesa. E encerra, em voz pausada: “E viveram felizes para sempre.” Mais palmas, assobios, aplausos. Xênia pinta-se diante de espelhinho, calada. As luzes se acendem. Palmas, gritinhos, ovações, agitação na platéia. As crianças se dispersam, correm. Sandra olhava para a barriga de Jonas. A aniversariante pergunta se está na hora dos parabéns. Sua mãe levanta-se, retira-se da mesa e grita: “Vamos cantar os parabéns.” A criançada se agita e corre em direção à mesa maior. Luzia se posta junto ao bolo. Todos cantam “Parabéns pra você”. O grande bolo com sete velinhas é cercado de adultos e crianças. Aparecem fotógrafos de todos os lados. Luzia sopra e apaga as velas do bolo. O primeiro pedaço entrega à mãe ou ao pai? Abraços, beijos, gritos, cantos. Inicia-se a distribuição do bolo em pratinhos. Osvaldo não pára de falar: “Bebida é fundamental, tudo é droga.” Getúlio ajeita a cabeleira e anuncia, baixinho, para Osvaldo: “Sonho que sou escravo.” “Escravo da mulher? Só se for da melhor.” “Com mulher de farda nem o Diabo pode.” Onira deixa a mesa, irritada. Sandra sai atrás dela. “Ele tem outra.” Getúlio olha para elas e se volta para Osvaldo: “Casamento não foi feito para mim.” Adão ajeita os óculos e discorre sobre sexo imaginário. Xênia alisava a face: “Amizade com mulher, até certo ponto.” Onira olhava para o busto de Xênia: “Sabia do nascimento do bebê de Oxesiscrana?” Adão ajeitou os óculos, cigarro nos dedos, e separou-se do grupo. Osvaldo chupou o copo: “Todo governante é ditador.” “Todo ditador é governante.” “Não, toda mulher quer governar homem.” Morais olhava para Jonas: “Clube de futebol virou negócio.” “Tudo é negócio mesmo.” “Como é aquela frase? Tempo é dinheiro.” “Time is money.” Adão acendeu um cigarro: “Droga significa volta à inocência.” “Usar droga para não ser adulto?” “Ele quer dizer o seguinte: drogado parece criança.” “Não é bem isso.” Elizabete piscou para Sandra: “Homem tem de ser fogoso.” “Muito fogo para se queimar.” “Não vá me queimar com esse cigarro.” Sandra fumava e olhava para os quadris de Elizabete: “Homem só pensa em sexo na hora, pouco antes, muito antes, mas só por um minuto.” Sandra, Elizabete, Xênia e Onira se dão as mãos e se põem a dançar. “Na Idade Média o casamento...” “A idade média para o casamento deve ser aos vinte anos.” “Cadê os sete anões?” “Mais cerveja aqui, garçom.” “ E a aniversariante já fugiu com o príncipe?” “Quem quer bolo?” “O príncipe se escafedeu, se safou.” “Morais, ainda tem uísque?” Jonas mordeu orelha de Elizabete: “Adoro orelhas.” Ela se esquivou: “Adoro minhas crianças e odeio cigarro, bebida, conversa fiada.” Um casal com filhos se despedia dos anfitriões e da aniversariante. Derrama-se cerveja numa mesa. Crianças pulavam, corriam, se esgoelavam. Onira chamou o marido. Adão tentava conversar com Getúlio: Sabia o significado dos anões? “Uma louca!” Sabia? “São os sete pecados capitais?” Mais convidados se retiravam. “Por que já vão?” Espoucavam balões. “Mais cerveja?” Sandra se pôs a cantar como os anões. Palmas, assobios. Um dos anões chorava, aos berros. Outros se iam, atrás dos pais. Os anfitriões agradeciam os presentes e as presenças dos convidados. Os garçons cambaleavam. O cinegrafista ria. Pedaços de bolo e salgadinhos espalhados no chão. Cerveja e refrigerante derramados. Gritavam, vociferavam, gargalhavam, dançavam, corriam, caíam, choravam, reclamavam.


Súbito as luzes se apagaram. “É o fim do mundo.” “Passam anos e vêm anos e é essa mesma coisa.” “É o caos, meu amigo.” “Mãe, cadê você?” O vulto de uma bruxa passeava pelo salão. Uma voz sibilava: “A morte vem vindo.” Havia medo nos olhos das crianças e angústia em cada adulto. Meia-noite.

 


leia mais...
‹ Primeiro  < 2 3 4 5 6
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2017 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio