revista bula
POR EM 11/06/2008 ÀS 09:52 PM

Quatro contos de um parágrafo

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1.Traição
Quando a música entrou pelos ouvidos de João, ele foi instantaneamente arremessado de volta no tempo. Por alguns segundos fechou os olhos e sentiu um aperto no coração. Foi como se despertasse e sentisse o corpo, de novo. E de quem se lembrou? Dela, de Maria, que foi sua namorada quando a música fazia sucesso. Lembrou da festa onde marcaram encontro e dançaram coladinhos, ao som dessa mesma canção. Não tinham compromissos; eram livres e jovens João e Maria, estavam apaixonados um pelo outro, e no fim da noite deram um longo beijo de capitulação. O amor era um conjunto de sensações físicas inenarráveis, e que desapareceram... Ao abrir os olhos, em silêncio, teve João a estranha sensação de que traia a esposa (ao seu lado) com Maria. Olhou para esta de soslaio, mais perplexo que envergonhado - até porque a esposa e Maria eram a mesma mulher, separada por uma década.
 
2. Pernas
A porta de seu escritório dava para o corredor que saia na sala, de onde podia enxergar frontalmente a televisão. Começaram lá a abordar um assunto de seu interesse, fazendo-o pausar a leitura dos contos “horrorosos” de Uma outra vida, de John Updike. Levantou-se e deu alguns passos em direção à sala, quando descortinou, por trás do sofá que se interpunha entre ele e o cômodo, duas pernas nuas e estendidas, escoradas num nível inferior da estante. Eram as pernas de Lídia, a esposa, que se acomodara no chão entre as almofadas. Do ângulo em que estava, já indiferente ao noticiário, ele as surpreendeu de ponta-cabeça, douradas pela luz amarela do ambiente. Parou e pôs-se a admirá-las sem que a mulher o percebesse, não podendo dela divisar o tronco e a cabeça, escondidos pelo móvel. Enxergava só o fantástico par de pernas, em tesoura, pousadas ali como uma borboleta. Por um instante julgou que contemplava as pernas mais bonitas do mundo. Parece até que elas o aguardavam, prontas para o amor, sucedendo-lhe um princípio de ereção. Não era uma fantasia que tivesse, mas a cena imprevista fê-lo imaginar um caso proibido, numa alcova de motel: eram pernas de Lívia...
 
3. O momento da criação
O escritor solitário finalmente conhecia o mar. Era uma manhã carregada, as nuvens ameaçavam precipitar. Mas a praia estava limpíssima e tudo o que ouvia, de muito distante, era apenas o compassado bater das ondas. Descalçou os pés e os colocou pela primeira vez na areia gelada e macia, que sensação! Avançou até aonde a água alcançava seu peito nu e tomou seu primeiro banho oceânico. Mergulhar, não quis. De retorno à praia, sentou-se, respirou fundo e admirou longamente a paisagem matinal. Estava entediado, apesar de tudo. Não tinha ninguém, o escritor. Fez uma concha com a mão e a enfiou na areia branca como se fosse um menino. Ergueu uma porção e lançou em direção à água que vinha e refluía desde a madrugada dos tempos. Notou em seguida que os dedos ficaram salpicados pelos pequenos grãos, que procurou limpar na vaga que retornava outra vez. Porém, tão minúsculos eram esses grãos que de todo não saíam da pele, pegajosos. Perlustrou um deles, insignificante, sobre seu imenso, descomunal polegar. Averiguou-o, sem mais o que fazer. Súbito, teve a inspiração! Ia escrever sua primeira história. Foi quando uma gota da tempestade que vinha caiu em seu rosto e ele prontamente recolheu as roupas e voltou para dentro. Ali, foi primeiro à torneira, lavou direito as mãos – tinha mania de assepsia - e pôs-se ao trabalho inebriante.
 
4.Anedota russa
Mickael Vasiliev Boutachévitch-Petrachevski: era este o nome do conspirador-mor. Dizem que não era excepcionalmente capaz, mas fazia coisas indesejadas. Deixava-se, como Baltasar Bustos, influenciar por livros proibidos. As idéias da França escapavam pelos dedos e chegavam tanto na Argentina como na Rússia, onde um rei se incomodava, cheio de motivos. Numa daquelas sextas, o círculo de Petrachevski contou com a presença de um novo integrante, cujo nome não sabemos e não conviria celebrizar. Era o delator: que se perca. Os rebeldes foram todos descobertos, passando os próximos oito meses na prisão. Era improvável que fossem inocentados. O mais certo é que restavam duas possibilidades, ambas terríveis: serem enviados à Sibéria, onde praticariam trabalhos forçados, ou serem simplesmente fuzilados. A agonia tomou conta daqueles homens, amigos dos servos e inimigos da servidão. Após o trânsito do processo, conheceram finalmente a sentença: o infeliz Petrachevski e seus sequazes seriam mesmo mortos. Um frio ruim atravessou suas entranhas, ao receberem a notícia. Tal-e-qual os césares de Roma, os de São Petersburgo também ofereciam circo ao povo, de forma que os condenados foram conduzidos à Praça Semenóvski. Era um circo ameaçador, na verdade: o povo assistia ao espetáculo e voltava para casa com medo. O quarto condenado, confuso e desesperado, vê três de seus colegas serem amarrados ao poste de execução. Em seguida levam-no também, não há rufar de tambores nem toque de recolher armas - há apenas um estampido seco, uma carga fatal no coração. O genial Ordinov desaparece aos 30 anos de idade, parabéns ao rei pela merda que fez!

 

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POR EM 11/06/2008 ÀS 09:45 PM

Teoria da desfiadura

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Eles vão chegar, mais hora, menos hora. Ofegantes, embravecidos, cientes de me poderem pegar e matar. Porém não me pegarão nem me matarão. E voltarão decepcionados, porque eu sei o que sou e fui.
 
Um dia, eu tinha doze anos e o tempo não passava nunca, aquela pintura desbotada diante de mim. Na lama, afundavam-se meus pés, feito bichos medrosos. Ao meu redor tudo se expandia e eu nem olhava com pena de minha pequenez. Todo dia esse sempre estar só, muito triste. Acocorava-me ao pé da bananeira pensa, a olhar, distraído, para as minhocas que se contorciam no charco do quintal. Minha mãe não chorava, mas espantava as galinhas, os urubus e o sol para não se lembrar dos gritos de meu pai. E aguava o chão de manhã e de tarde, com medo da seca.
 
Nesse perseguir, com os olhos, as minhocas, eu tive uma idéia.
 
Eu era a meada de lã do sapatinho inconcluso. Novelo colorido no colo de minha mãe. Se puxasse a ponta do fio, me desenrolava todo, me desfiava. Mamãe me chamava aos gritos, afobada, vasculhava o quintal. Fugiu, o capeta. Trepou no muro, feriu-se nos cacos de vidro, foi-se embora. Louca e muda, me encontrava estirado ao longo do chão, enrolado nas bananeiras apodrecidas, sujo de lama, feito um porco, confundido com as minhocas.
 
Puxei a pequenina ponta, forcei, primeiro com as pontas dos dedos, depois com a mão fechada, senti que conseguia, a ponta crescia, eu me desfiava, tudo escurecia e eu me perdia num quintal esquisito, sombrio, e o medo me agarrava pelas canelas e me arrastava para os pés de Nosso Senhor.
 
Cresci. A idéia se enroscou em mim, feito cobra. Por que não desfazer a meada, com dor, sacrifício, intensidade? Acreditei ser necessário difundi-la, por mais absurda que parecesse a muitos. A vez de descobrir meus semelhantes, fazê-los aprendizes, doutriná-los. Alguns poucos ouviram e abaixaram as cabeças. Falei e falei. Discutimos e elaboramos novas idéias, um programa de lutas e objetivos. Criava-se o embrião do grupo.
 
Três anos após, registramos o partido e concorremos às eleições. Lutamos nos palanques apedrejados e incendiados pelas turbas. Gritamos nas mesas dos bares. Hasteamos bandeiras que causavam risos fabulosos. Propusemos a criação de entidades públicas de defesa dos direitos de nossos adeptos e apresentamos projetos de lei que reformulassem todo o sistema educacional, dando aos estudantes uma noção exata do direito de desfiar o novelo.
 
É minha a frase que se tornou célebre e serviu de estopim para a guerra contra nós desencadeada: “Enquanto somos capazes de dar a vida pelos nossos ideais, vocês são capazes de tirar a vida dos outros pelos vossos.” No mesmo dia nosso partido foi posto na ilegalidade e uma grande onda de perseguição se abateu sobre nós. Os que não conseguiram fugir para o exterior se viram imediatamente presos e executados.
 
Agora eles virão me buscar, ávidos de sangue em suas mãos assassinas, ofegantes e embravecidos, cientes de me poderem pegar e matar. Porém eu não serei jamais capturado e morto, eu o prometo em memória de meus companheiros massacrados pela intolerância, em fidelidade à minha primeira idéia, lá no quintal de minha velha casa, às meadas e minhocas que me ensinaram lições inesquecíveis. Eu juro: não me deixarei matarem. Serei realmente, como sempre fui, um suicida. Agora, agora mesmo.

 

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POR EM 09/06/2008 ÀS 07:04 PM

O aventureiro Franco Ornelas

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Franco Ornelas deixa monumental biografia de aventuras. Nas amorosas então era exímio. Seu negócio era variar de mulher. Ele se apaixonava perdidamente à primeira vista. Bastava que a mulher tivesse o mínimo de apelo físico e o máximo potencial de perigo. Mas uma só acolhida da mulher em seu tálamo, ou que na alcova dela fosse rolar, já era o de que precisava para enjoar definitivamente.

Dessas aventuras de alcova sobreviveu a várias emboscadas, a tiros no peito a facadas de maridos furiosos. Cada cicatriz era um troféu, que tinha orgulho e prazer em exibir na roda aos amigos.

Mas suas aventuras não se resumiam a essas, não. Ainda jovem foi piloto de moto e se apresentava no globo da morte de um circo. Segundo consta, depois que ele deixou a função, o circo nunca mais arranjou piloto tão arrojado. Tinha um número que ele fazia a sete metros de altura, sem rede, por fora, em cima do globo. A bola rodando e ele compensando o giro da bola no acelerador da moto. Depois saltava fazendo pirueta sobre uma rampa. E nuca se machucou nessas loucuras.

Foi pára-quedista ousado. Saltava de avião e deixava para puxar a presilha no último instante. Tirava o fôlego da platéia. Dizem até que foi o primeiro brasileiro a saltar de prédio e nos despenhadeiros na Chapada Diamantina.

Teve um período em que chegou a trabalhar em Hollyood, como stuntman, nas cenas de desmantelo. Naqueles tempos, românticos do cinema em que as cenas de perigo eram feitas, não por computador, mas por malucos de carne e osso, lá estava Franco Ornelas, vendendo sua coragem e sua habilidade para dar realismo às cenas. Nessa época ele teria unido suas habilidades de acrobata com  as de aventureiro de alcova. Dizem que pegou as divas mais cobiçadas dos anos sessenta. E não duvido, porque de fato ele era um sujeito bem apessoado e de lábia escorreita. E o que era mais importante, dedicava-se quase que à atividade com muito afinco.

O que Franco Ornelas jamais poderia prever é que depois de sobreviver a tantas aventuras radicais, sua vida fosse ter um fim tão ordinariamente trágico.

Ocorreu que, com as campanhas de combate ao mosquito transmissor da dengue, ele quis contratar um biscateiro para limpas as calhas de sua casa. O camaradinha pediu duzentos reais para o serviço que faria em poucas horas. Foi aí que o nosso aventureiro, já velho e com a barriga protuberante, resolveu ele próprio subir no telhado e executar o serviço.

Uma telha úmida se rompeu com seu peso e o fez desequilibrar. Ainda tentou uma manobra dos seus bons tempos de stuntman, deitando sobre o telhado em busca de alguma coisa pra se agarrar. Em vão. Tudo o que ele agarrou desceu com ele e madurou na calçada. O socorro veio rápido. A ambulância subiu a 85 abrindo fendas no engarrafamento a golpe de sirene. Mas dentro do veículo o nosso Homem de Plástico, como foi chamado um dia, já estava abrindo fendas no além com suas braçadas de aventureiro.  

 

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POR EM 09/06/2008 ÀS 06:43 PM

À sombra das sibipirunas

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Hoje meu sono promete ser muito bom. Leve, não porque esteja muito próximo da vigília, mas porque devo sonhar com aquela brisa azul que me lambe a face, faceira, e foge nas alegres cores de seu par de asas quase transparentes.

 
Continuo fazendo heroicamente minha caminhada diária sempre que posso e sei que posso menos do que seria necessário. Uma hora batidinha no relógio. O homem já foi à Lua e até hoje não inventou uma pílula que substitua essas caminhadas! Espero que o Dr. Alcyr Barbin Filho, meu cardiologista e algoz, pois foi ele quem me prescreveu esta tortura, não seja muito afeiçoado a crônicas. Ele não me imagina um rebelde. Hoje eu podia e fui caminhar. À sombra das sibipirunas, como já avisei lá no alto. E as sibipirunas me protegiam do restinho de sol existente.
 
Tinha percorrido pouco mais da metade de meu trajeto quando vi. Lá estava o menino de shortinho e sem camisa, com a franja espessa a esconder-lhe os olhos. Ele tinha o braço direito um pouco levantado, e na mão, no polegar de sua mão, uma cigarra, que ele mostrava com orgulho a dois amigos. Uma cigarra dessas grandes, maior do que a mão dele. Então ele alçou a mão direita como se estivesse dando um impulso, e a cigarra abriu suas asas imensas e sumiu na copa de uma árvore. Uma sibipiruna com uns restos de flores amarelas. Os três meninos pularam de alegria, gritando e batendo palmas.
 
Se a cigarra voltou para o polegar do menino, se não voltou, não sei. Nem importa saber. Porque quando não se sabe, se tem o direito de imaginar. E o que sei é que houve um momento em que uma cigarra e um menino se encontraram num canteiro de avenida. Para a cigarra, o menino pode ter representado um gigante benfazejo com um dedo polegar muito apropriado a alguns instantes de repouso. Aquela cigarra, para o menino, não pode ter sido senão um fantasma diáfano e cheio de liberdade ou um espírito sutil capaz de o levar a mundos muito distantes.
 
Você, caro leitor, tem todo o direito de discordar, de supor que nem ele era um gigante nem ela um espírito. Seja lá qual for sua suposição, todavia, você há de concordar comigo que houve um instante em que entre os dois se estabeleceu algum tipo de relação. Qual? Também não sei, mas me parece que um precisou do outro, e os dois se fizeram poesia.
 
Depois de assistir a esta cena, continuei minha caminhada, como sempre, mas sorrindo, com uma cara que alguns podem ter pensado que era de bobo. As pessoas se proíbem de sorrir quando sozinhas. As pessoas gostam muito de proibições. E dormem com sono leve entre sonhos pesados.

 

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POR EM 02/06/2008 ÀS 07:00 PM

Muito antes disso

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Joana plantava e colhia verduras no quintal. Comprava estrume e sementes e organizava canteiros, cercados de pedras. Erigiu também canteiros suspensos em estacas, para preservar as plantas da fome de gatos, ratos e galinhas. Convocava os filhos a ajudá-la no revolver a terra e aguar as verduras. As minhocas, retorcendo-se, davam nojo nos meninos. Sobretudo em Juvêncio. Para aumentar o sacrifício, foram obrigados a fazer entregas em domicílios e levar o produto da safra à feira da cidade. Uma vergonha!
 
Muito antes disso, Joana se escondia na cozinha ou no quintal, a lavar roupas. Juvêncio se arreliava quando ela o impedia de brincar na calçada. Escondia-se de si mesmo durante horas. Parecia dormir em pé ou sentado. Despertava assustado. Não sabia mais por onde andava a mãe. Talvez dormisse também, sofrida. E onde se achavam os irmãos? Talvez matassem lagartixas no quintal. O pai certamente conversava lorotas na mercearia.
 
De noite, no quarto, havia sempre uma lamparina acesa. Joana dormia numa rede, junto às dos filhos. O pai noutro quarto. Sem sono, ela saía da rede e se punha a matar muriçocas. Não demorou muito, apareceram em seu corpo eczemas. Ela se maldizia continuamente. Coçava-se sem parar. E mandava Juvêncio comprar pomada Minâncora. Fosse à mercearia pedir dinheiro ao pai. O caminho mais curto, uma ruazinha estreita, parecia ao menino o pior dos caminhos, porque de repente saíam dos quintais manadas de bois. Antes de dormir, o menino rezava e pedia a Deus e a todos os santos pela saúde da mãe. Não por medo dos bois, mas para não ver Joana sofrer.
 
Mais do que dos animais, Ju tinha pavor de tomar banho. Não da água fria, mas da grande caixa-d’água suspensa abaixo do telhado. Às vezes a água saía pelo ladrão. Ju olhava para cima e imaginava a caixa a desabar. Banhava-se às pressas. Joana se irritava: fosse tomar banho direito, tirar a rabugem. Ou queria virar porco?
 
Chegada a noite, outro medo maior se apossava dele: do escuro, da escuridão. Ir à cozinha, nem pensar. Ao lado dela a despensa cheia de baratas e assombrações. Ir à sala de jantar somente enquanto a mãe por lá estivesse, na cozinha, lavando panelas e pratos, ajeitando uma coisa ou outra, fechando portas e janelas. Se queria beber água, aguentava a sede. Se queria urinar, deixava para mais tarde, na rede, embora o castigo por isso fosse horrível. Almas e outras entidades habitavam as trevas.
 
Joana também precisava cozinhar. E novamente mandava Juvêncio à mercearia. Tarefa penosa essa de conduzir, nos braços, achas para o fogão. Não somente pelo peso delas, mas, sobretudo, pelo incômodo que causavam. Ora, da mercearia até a casa ia uma distância de mais de quinhentos metros, no mínimo. Os braços se feriam, se enchiam de calombos. E a vergonha de andar pelas ruas feito um burro de carga? Vergonha de que, se você não está roubando?
 
O pior se dava, porém, quando as baratas, aninhadas entre as madeiras, resolviam passear por seus braços. Não havia outra alternativa senão arremessar tudo ao chão. O pior momento ainda não seria esse, mas o anterior – quando descia ao porão da mercearia, pelos fundos, onde a lenha se amontoava. Uma descida aos infernos! Primeiro um portão de madeira, depois a treva. No meio dela, os paus arrumados horizontalmente junto à parede e, entre eles, toda a sorte de insetos e bichos: sapos, ratos, lagartas, aranhas, lacraias, formigas e as terríveis baratas. Todas enormes, pretas e fedorentas.
 
Antes de dormir, o menino pedia a bênção à mãe, fechava os olhos e suplicava a Deus e a todos os santos o prêmio maior da loteria para o pai e, para a mãe, a cura das eczemas. Acordava sobressaltado, quando a mãe batia em suas pernas na vã tentativa de livrá-lo dos insetos. O pai roncava no quarto ao lado. Durma, meu filho. Estou matando muriçocas. E ele dormia de novo.
 
Muito antes disso, porém, Juvêncio apenas brincava e via nos olhos de Joana um sorriso de quem era feliz.

 

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POR EM 24/05/2008 ÀS 10:50 AM

A jaula

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Levei minha namorada grávida pro terraço do edifício, beijei-lhe os lábios e joguei-a no vazio. Podes crer. Foi massa, vê-la cair lá de cima e esborrachar-se no asfalto, feito uma porca barriguda. Na maior. Pena que eu não estava lá embaixo, pra sentir de perto o impacto do corpo se arrebentando. Saca só, imagine a cena. A merda, cara, é que agora estou aqui sem merla, sem crack, sem uma carreirinha de coca, sem um doce da pesada. Não sabe o que é doce? LSD. Ácido lisérgico. Doideira, meu. Maior barato. E eu aqui sem nem sequer um baseado, um brauzinho básico pra esfumaçar as idéias confusas. Tô aqui nessa zorra, com uma zoeira em minha cabeça, sei lá o que é, um trem assim, umas vozes estranhas, e parece que um bebê chorando, longe, longe, lá dentro, no fundo de mim, dentro da alma, e no inferno da minha cabeça. Mas, se quer saber, de vera que não me esquento com isso não, meu irmão. Tô me lixando, cagando e andando se não tive êxito em tudo que fiz na vida, mas tive muito ecstasy, muita curtição, e agora tô preso aqui, neste fedor de merda e mijo. Quem foi o desgraçado que cagou até entupir a porra do vaso? Por que não consertam a droga da descarga? Isso aqui não é flor que se cheire, e a vida é mesmo uma merda. Me dei mal, mas fico na minha, apesar desta zoeira de grilos metálicos perturbando minhas idéias. Penso até que o bebê sou eu mesmo chorando, quando era pequenininho assim e minha mãe me abandonou na Estação Rodoviária. Me deu um pirulito e, sorrateiramente, sumiu e me deixou lá sozinho, chorando no meio de gente estranha. Pai? Tenho pai não, véi. Se tenho, não sei quem é, nem quero saber. Mas toca essa harmônica de blues aí, meu. Manda ver. Tu não é músico? Manda aí, pô.
         
Pausa para ouvir a gaita, gangorrando o corpo. Depois é o silêncio. O psicopata sentado no chão, escorado na parede e com as pernas estiradas, distraindo-se com mexer os dedões dos pés, como se fossem figuras de desenho animado, ou personagens do cinema mudo.
         
Não suporto mulher grávida, azarando a vida, botando mais inferno no mundo, volta a falar o assassino, para o colega de cela. Na verdade, não há ninguém ali, além dele, como não há nenhuma harmônica de blues. O companheiro de cela é imaginário. O preso ali é só ele, isolado, incomunicável, por ser de alta periculosidade e representar risco a outros detentos. Serial killer. Oito assassinatos em série, todos de mulheres grávidas. É doido varrido. Lembra-se do filme O silêncio dos inocentes, com Anthony Hopkins e Jodie Foster? Tem um psicopata que mata mulheres e tira-lhes a pele pra confeccionar com ela um vestido; o próprio assassino operando a máquina de costura. Pois é. Esse cara aí é terrível tanto quanto. Depois vem o outro filme, Hannibal – A origem do mal.

Coincidentemente, esse aí na cela se chama Aníbal, só que sem o agá e com um ene só. Por aqui já o chamam de Caníbal, mistura de canibal com Aníbal, onde se vê que a diferença é só uma questão de acento agudo ao invés de pingo no i. Ele jura que vai fugir e matar a mulher do diretor da prisão, mas o doutor Rafa não tá nem aí pras ameaças. Além disso, não é casado. Dizem até que é um boiola dissimulado e que solta a franga numa boate privativa, uma tal de Bungee Jump, em que se entra pela porta dos fundos e não se sabe bem onde é que fica. Chegadão numa rola, fissurado numa sucção, pegando com as duas mãos e caindo de boca, mamando a manjuba com sofreguidão. Dizem que ele costuma gritar Vai que é sua, Rafael!, que nem o Galvão Bueno gritava pro Tafarel, na hora da cobrança de pênaltis. É o que dizem os presos aí. Que o diretor é o cara. Pros cocos. Tenho nada com isso não.

Acho até que eles inventam essas coisas por causa de algum ressentimento, porque esse doutor Rafael é mão de ferro, mau pra caramba. Sempre que lhe dá na veneta, costuma colocar preso perigoso na cela dos tarados, o mesmo que atirar carne aos cães. Os caras também são assassinos irrecuperáveis. Malhados, musculosos, com cara de pitbull, metem medo até nos carcereiros. E têm uns cacetes de jumento. Dizendo os detentos aí que o diretor olha pra eles e fica logo com a boca cheia d´água... Também o bochicho que corre aí pelos cantos é que o matador de mulheres grávidas é o próximo da lista. O bicho vai pegar. Se correr, o bicho pega; si ficar, o bicho come. Vai ser um estrago. Vão detonar as hemorróidas dele. O cara tá ferrado. Literalmente fodido. Primeiro, antes de enrabá-lo, pois é certo que ele vai se espernear, vão dar-lhe umas boas porradas, amaciá-lo a murros, e ele nem vai saber se foi coice de burro ou castigo de Deus. Vão deixá-lo em petição de miséria, como dizia minha avó. Assim como tem a lei do Cão, tem também a lei de Deus, dizia ela, abraçada ao espiritismo e arrematando que Deus tarda, mas não falta com o castigo que cada um merece ou faz por merecer. Tenho pensado nisso, agora que me tornei evangélico, larguei as drogas e leio a Bíblia todos os dias.

Muito que me arrependo aqui na prisão, onde cumpro pena por ter estrangulado minha avó. Foi um acidente: dei-lhe uma gravata e exagerei no aperto, quando fui tomar-lhe dinheiro pra comprar droga, e ela tentou me impedir. Me arrependo e busco a minha salvação. Graças ao pastor Jacinto Pena, que nos visita aqui na penitenciária e garante que só os convertidos estão salvos dos maus caminhos, pois têm os passos rastreados por Jesus. Pastor Jacinto, fora da igreja, faz parte de uma cooperativa e botou pra rodar um microônibus na frota de transporte alternativo; contratou motorista e mandou fazer adesivo pra colocar no vidro do veículo, dizendo que o mesmo é Propriedade de Jesus. Diz o pastor que Jesus entrou nesse negócio com ele, e teve gente que fez chacota ao ler o adesivo; não sabia — ironizou o gozador — que Jesus, aquele que dissera “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, agora estava no ramo do transporte de massa, explorando ganhos financeiros com as demandas da sociedade capitalista. O pastor Jacinto colou, também, no vidro traseiro do microônibus, e no vidro de seu carro particular, o adesivo com a frase Rastreado por Jesus. De nossa parte, em sinal de gratidão a Jesus, que nos salva de nossos pecados, a cada visita do pastor a gente contribui com dinheiro pra construção do Grande Templo da Fé Universal e do Reino de Deus. Já sinto pena de quem não contribui, pois terá que se haver com Deus, alerta o pastor, meio que sorrindo ao brincar com o próprio nome. Mas a gente aqui nunca que deixa de contribuir. Meu reino não é desse mundo, disse Jesus, o filho de Deus, e, por conta disso, o Grande Templo, segundo o pastor Jacinto, não será construído na Terra, mas no céu mesmo, onde fica a casa do Pai. Aleluia! Deus é pai e Jesus tem poder! Estou tão arrependido! Coitadinha da minha avó!

 

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POR EM 21/05/2008 ÀS 11:19 AM

Uma Ferrari em Mundocaia

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Quando o proprietário morreu de cirrose etílica, Chiquinho da Loló já era de maior e tinha sido promovido a comprador-vendedor. Sabia mais do que qualquer outra pessoa no mundo sobre os segredos de como tocar o ferro velho do Zé Pelego. A mulher e os filhos do morto quiseram tocar o negócio e despediram Chiquinho com acinte e humilhação. Mas o norrau que ele tinha de administrador foi com ele.
 
Chiquinho pensou até em começar um novo ferro velho nos arrabaldes de Mundocaia. Mas tinha só a cara, a coragem pouca e sua experiência acumulada de anos mergulhado na graxa.

O negócio do finado patrão, por inexperiência dos herdeiros e desavenças internas, foi fazendo água. Mas o pior de tudo é que o Zé Pelego, do outro mundo onde se encontrava, resolveu dar umas incertas no estabelecimento. De quando em vez um cliente, assim sem mais nem menos, via seu fantasma zanzando entre as prateleiras de peças. Houve um caso em que Zé Pelego até tentou comprar umas sucatas de um cliente habitual. Os fregueses, apavorados, foram raleando. Até que o negócio teria ficado às moscas, se fosse açougue. Mas como era ferro velho, ficou às ferrugens.

Puseram placa de vende, mas não apareceu interessado. Um dos herdeiros, o que mais havia maltratado Chiquinho, foi atrás dele e lhe propôs negócio. Chiquinho fez doce, querendo descontar as humilhações que sofrera. À noite, o antigo patrão lhe apareceu em sonho, deu conselhos e fez revelações.

Pelego lhe informou que ele (Chiquinho) era seu único filho verdadeiro. Que aqueles que se diziam seus filhos eram postiços. Quando pegou aquela mulher, ela já teria vindo com os acessórios filiais prontos. Aconselhou-o a comprar, que na condição de pai, mesmo sendo um habitante do além, lhe daria uma mãozinha na recuperação do negócio.

Pelo sim pelo não, Chiquinho comprou o estabelecimento a preço de galinha velha na bacia das almas. Passou pra dentro e começou a reorganizar tudo: uma faxina em regra, o rearranjo das prateleiras. Pintou as fachadas e pagou umas horas de carro de som para apregoar na praça a nova direção.

Na reinauguração, convidou antigos e potenciais clientes para um churrasco. Era uma tarde de sábado de enfumaçado agosto. Quando o pessoal já estava engrenado no chope e se fartando de carne assada, começou um redemoinho no meio do pátio. Apesar dos sanis-da-cruz feitos em sua direção, o troço crescia a olhos vistos. E foi crescendo, juntando poeira, gravetos, pedaços de latas e fazendo aquela bagunça sobrenatural. Os convidados saíram correndo pra ver de mais longe. O rodopio foi incorporando peças que estavam por ali amontoadas, numa fúria crescente.

De repente a paz restabeleceu, restando só um funil de poeira desaparecendo céu acima. O pessoal retornou e tudo estava no lugar. A não ser pelo fato de que o redemoinho havia construído, do restolho, uma Ferrari Maranello, zero em folha, que reluzia impávida no centro do pátio. E pelo fantasma do Zé Pelego que nunca mais atormentou ninguém.  

 

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POR EM 20/05/2008 ÀS 11:31 PM

Um segredo

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Todos reunidos em volta da cama com seus olhos abertos resplandecentes de esperteza, todos fechando em círculo as saídas com seus corpos grandes, à espera. Um muro de músculos e hálitos plantado em sua volta. Eles sabiam de tudo. Então eles sabiam de tudo. Completaram suas idades, desde o início, sabendo de tudo, mas sem coragem de revelar que sabiam.

Lívia, de frio, encolhe-se por baixo do edredom e puxa o lençol para esconder o rosto. A luz, ah, esta luz a incomoda. A luz e os olhos que a vida toda se mantiveram mudos, enquanto espreitavam cada canto e seus segredos. Três pares de olhos amoitados ali mesmo, dentro de casa, da sua casa, a caverna que julgava ser indevassável.

Por que fingiam acreditar, se já sabiam, então, que não era verdade?

O desejo de sumir num desmaio está preso à língua como um frio, um frio grosso que a imobiliza. Não há mais o que dizer, e mesmo a confissão não a pode redimir ou salvar da vergonha. Seus filhos, então, podem fingir, mas é impossível não perceber acusação em seus olhos. E por que tanta luz, quem teve a idéia desta iluminação toda?

No quarto, no ar do quarto, respira-se o cheiro do suor que os lençóis absorveram enquanto a febre ainda renitia. Ninguém ousaria acusá-la, naquele entanto, com a morte em revoada silenciosa ali no pequeno espaço entre o céu e a terra. Antes embarcar naquele coche escuro e definitivo a sofrer as agruras da vergonha.

Beatriz, a sua Beatriz, principalmente ela, deve orgulhar-se, neste momento, da vitória. No transcorrer de seu crescimento, todos os dias, quantas e quantas palavras foram-se acumulando, que agora jazem inúteis no monturo das mentiras! Não foi o que disse o brilho de seus olhos pontiagudos tão logo ela chegou? Não, jamais poderá dirigir-lhe novamente qualquer palavra, pois tornaram-se todas suspeitas de inutilidade.  

O frio entra pelos interstícios abertos entre o edredom e o lençol. Lívia sente-se desprotegida, mesmo procurando prender com pés e pernas a orla de sua coberta. Ela se concentra na operação com muito método, prendendo primeiramente os panos com firmeza por baixo dos calcanhares; manobrando em seguida para que as pernas estiradas enrolem-se nas laterais, com cuidado para que não restem frinchas por onde possa passar o frio, e com ele a vida que o marido e os dois filhos trouxeram-lhe em oferta. Ela os quer fora, livres de seu contato e do suor que cheira mal. Pensa apenas em ficar só, seu corpo e suas culpas, para poder descansar.

Muitas vezes tivera de afastar as suspeitas sobre o comportamento de Armando. Ele, o mais quieto, quem mais examinava os cantos da casa, principalmente os cantos que luz nenhuma conseguia iluminar. Armando observava a teia de uma aranha como se estivesse pensando em lhe copiar o modelo. Atento. O último espaço de uma gaveta, a paisagem cheia de penumbra por trás da geladeira, a poeira acumulada por cima dos armários, de tudo tinha ciência, mas uma ciência calada que lhe vinha morrer no alto da garganta. Atrapalhava-se um pouco ao ser surpreendido em alguma empresa de que só ele tinha conhecimento. Mas isso por pouco tempo. Mudava de posto, escolhia atividade diferente, e nada se arrancava de suas descobertas.
  
Sua respiração úmida e quente é um barulho ritmado que o lençol abafa subindo e descendo. O ar, cada vez mais insuficiente. Pensa em mostrar o rosto debaixo de toda aquela iluminação, entretanto reluta, pois não quer suas lágrimas expostas como um pedido de piedade.

Finalmente, o que já vinha temendo desde que se formaram em barreira ao seu redor. Leonardo senta-se à beira da cama e uma de suas mãos enfia-se por baixo das cobertas à procura de Lívia. Ela encolhe-se mais, agarrando-se aos próprios ombros e enfiando o queixo entre os seios e a interseção dos braços em cruz. Violada a vida inteira em suas intimidades pela própria família, sem que o soubesse, não permitiria, agora, contato algum. A cama, Leonardo, a cama é meu último reduto. Não tente, meu pobre marido, dar prosseguimento a esta comédia. Por que a deixaram pensar estes anos todos que estava a salvo da bisbilhotice alheia? Que os filhos se fechassem mudos, ainda relevava. Chegava quase a entender. Ah, não, mas Leonardo, com seu ar sempre alheado de tudo, colhendo da vida apenas recortes e beiradas, Leonardo não pode ter o silêncio perdoado.

Ouve o cochicho dos filhos, percebe algumas sílabas isoladas e consegue apenas supor que seja ela mesma o assunto dos dois. Então se aflige ao concluir que não é mais do que um objeto familiar, um objeto neutro já, e em cuja presença não é preciso manter qualquer discrição. Sente raiva na garganta entupida de impotência e nas veias da garganta que se estufam de um sangue grosso de veneno. E por que não vão embora, não vão conversar sobre o que quiserem à beira de seu próprio túmulo?

 

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POR EM 20/05/2008 ÀS 08:15 PM

Para que esses olhos arregalados?

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Arnóbio de Barros andava armado da cabeça aos pés: revólver amarrado à perna, outro na cintura, pistola junto ao peito. Maria de Fátima, sua mulher, devota de Nossa Senhora, rezava toda noite. Nenhum mal acontecesse ao delegado. No entanto, aconteceu. Ou quase se deu a desgraça. Homem assaltou loja. O comerciante tremeu e entregou dinheiro, relógio e outros bens. Os dois empregados não tugiram nem mugiram. O bandido fugiu. Para uns, usava máscara.
 
Quando se sentava atrás da mesa, Arnóbio pedia café, enquanto punha na gaveta as armas. Lambia as bordas da xícara e tirava os sapatos. Ligava para Fátima. Tudo em paz? E folheava autos. O crime da Rua Morgue. Não gostava de literatura, mas conhecia de nome alguns escritores. Predispunha-se a ler um ou outro, estimulado por colegas. Lesse O Processo, de Kafka. Não conseguia ir além da primeira página. Preferia alisar as armas, contar os projéteis, falar de crimes e castigos. Quando chegasse o retrato falado do bandido da luz vermelha queria ser o primeiro a vê-lo. Sim, senhor. Precisava ficar só e brunir as armas assinaladas com as letras AB. O ajudante, no entanto, deu meia-volta: o retrato do assaltante da loja... Arnóbio se irritava com frases compridas: trouxesse o retrato. Abrigou o revólver na gaveta e esperou a novidade. Passados dez segundos, o auxiliar abriu a porta e olhou para o governador aposto na parede, dois palmos acima da cabeça do delegado. Na xícara mosca lambia os lábios de Arnóbio. O governante parecia sorrir de tudo e de todos, das identificações, das informações, dos traços fisionômicos, dos bandidos, dos insetos, da polícia.
 
O delegado mandou o rapaz se retirar e abriu o envelope. Aquele rosto não lhe pareceu estranho. Voltou-se para o retrato do governador. Calçou os sapatos e se dirigiu à porta. Não o importunassem durante os próximos vinte minutos. Deu duas voltas na chave e retornou à cadeira. Pôs sobre a mesa o retrato falado: testa ampla, olhos arregalados, bigodinho preto, queixo redondo. Dirigiu-se ao banheiro e se postou diante do espelho. Se estivesse com uma das armas, daria um tiro naquela testa ampla.
 
Durante dias e meses Arnóbio dormiu mal, olhos fixos no retrato do assaltante da loja. E se arquivasse o inquérito? Fátima se retorcia na cama. Para que aqueles olhos arregalados? Para te ver melhor. Ela suspirava, como se rezasse a Nossa Senhora. Ele alisava o bigodinho, como se afagasse a pistola. Melhor incinerar os autos.
 
O tempo escorria pelos pés do delegado, abria e fechava a porta, trazia e retirava o ajudante. O tempo espantava as moscas da xícara, folheava autos, afagava armas. O tempo mantinha o sorriso do governador, apresentava retratos falados, comentava crimes desvendados e misteriosos. Até chegar o dia em que Arnóbio de Barros levou para casa os autos e o retrato falado do assaltante da loja e os queimou. Cortava o mal pela raiz. À noite, arregalou os olhos e viu a piedosa Maria de Fátima coberta de lençóis. Apalpou o queixo redondo, mirou as armas e abraçou com força a mulher.

 

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POR EM 13/05/2008 ÀS 01:45 PM

Maracanãs

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No meio daquelas mulheres tão coloridas e belas demais para seus olhos turvos, a tontura o empurrou para os cantos, barata chutada com nojo. A alegria geral cresceu em ondas avassaladoras, afogando-o. Ele escapulia, cheio de culpa, fugindo dos olhos que o não olhavam. Pião perdendo a velocidade, prestes a rolar descontrolado, a ponta para todos os lados. Equilibrou-se, voltou à mesa. Suava, arfava. Iria embora, para a rua, a praia, os matos longínquos? Não, restava-lhe ver e sentir. E beber, por não lhe ser possível o amor de tantas mulheres. Mais uma cerveja. Já que pular também não podia. Acendeu um cigarro. De seu canto, veria tudo. Estaria, de certa forma, mais perto de todas as folionas. Daquelas calcinhas verdes e daquelas meias pretas, daqueles óculos vermelhos e daqueles penachos cinzas, que cantavam feito maracanãs fogosas à beira da lagoa. Rodopiavam e riam já dentro de seus olhos arregalados e famintos. Beleza demais para a sua feiúra de lobo solitário.
 
Mas quem privatizou a natureza, o sexo? Não, era tempo de brincar. Com certeza, milhares de homens mais tristes gritavam por detrás de máscaras. Umas até femininas. Criou coragem, bebeu um gole, ergueu-se. E correu para o meio do salão, esquecido de suas pobres cores. Cercou-se de passos e harmonias e gritou um grito de vencido. Tão próximo de tudo, perdeu a noção do sonho e mergulhou noutro. Mais antigo e terrível para o seu corpo raquítico de comedor de açúcar. Ao seu redor, já não bailavam mocinhas. Nem as aves do livro de zoologia. Eram guerreiras em pé de guerra. Amazonas.

Maracás medonhos matraqueavam no ar repleto de fumaça. Dentro das cuias, pedras preciosas em revolução. Fora, penas de guarás agitados, como numa tempestade. Guarás ferozes, brancos, pretos e vermelhos, que esvoaçavam ao seu redor. Abelhas mortíferas, a querer ferroá-lo, queimá-lo. Iria tombar feito um cobarde caraíba? Parou, como se fosse possível frear o medo que galopa dentro dos olhos.

Estranho, espécie de sonho. Ou o delírio de quem bebe para dormir? Voltaram as maracanãs enlouquecidas, rindo daquela cara de cera, múmia fugida da frigidez do tempo. Mergulhavam harmoniosamente no espelho das águas. Dois bandos a sapatear exatamente um nos pés do outro. Balé perfeito. Fascinado, não viu aproximarem-se dois imensos soldados. Agarraram-no pelos sovacos, como se o fossem depenar. As folionas reuniram-se numa só, caladas, estáticas.
 
Conduziram-no, espantado. Maestro daquela ópera. Vá embora, se não quiser ser jogado por cima do muro. Do rochedo que apaziguava o mar. Aquele jaguar a bufar lá fora. Deixou-se levar como um cordeiro para o horto. O mar gritava, o samba fugia, a lua rolava, o frio zunia. Caiu para sentar-se. E logo dormiu e teve um sonho. Quando o sol lhe queimou os olhos, um riso esquisito abria-lhe a boca de lado a lado.

 

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