revista bula
POR EM 29/09/2008 ÀS 03:01 PM

60 segundos em 50

publicado em


O uruguaio avançou pela direita. 
      
Bigode o acompanhava, a curta distância, na corrida. Rápido, sem se deixar intimidar pelo marcador, o uruguaio rasgava a intermediária do campo, rumo à meta brasileira. Tinha o fôlego dos desesperados. Passava dos trinta minutos do segundo tempo. A partida havia alcançado seu momento crítico e a Celeste precisava de mais um gol. O uruguaio sabia que em seus pés podia estar a última oportunidade de sua equipe de virar o placar. O título mundial estava em jogo. Tinha que ser perfeito. 
      
O arqueiro brasileiro, Barbosa, goleiro do tipo sem luvas, poucos passos de debaixo das traves, observou a aproximação do adversário com a frieza típica dos grandes da posição. Esperava. Por um instante imaginou que o lateral derrubaria o uruguaio, fazendo falta, antes que ele pudesse alcançar a grande área. Percebeu que não aconteceria isto quando à distância entre os dois, repentinamente, aumentou. O adversário estava quase chegando à linha de fundo. Calculou que o uruguaio iria cruzar a bola na pequena área, para que um de seus confrades tentasse o cabeceio. Era o obvio. Com essa certeza, Barbosa deu um curto passo adiante, para melhor se posicionar para a defesa, fechando o ângulo.   
      
Antes do momento capital, Barbosa, em gesto mecânico, e durante apenas uma fração de segundos, apertou os olhos focando a massa disforme de torcedores que fazia moldura atrás dos atletas que corriam contra ele. Percebeu que a torcida estava muda. Eram talvez duzentas mil pessoas no estádio e todas estavam amargamente mudas. Não era a escassez de gritos e assobios que tomou conta do estádio após o empate, poucos mais de dez minutos antes. Não, era um silêncio muito mais profundo. O silêncio dos grandes momentos. Aquele que faz o tempo parar. O zeitgeist conseguira calar o Maracanã lotado. 
      
Desligado de tudo que não fosse à pelota, o uruguaio entrou na proteção da grande área e mudou a trajetória de sua corrida para a esquerda. Bigode ainda o seguia. Trotando em linha reta, Juvenal pôs-se em sua frente. Era o momento de chutar ou seria travado. Chutou. 
      
No preciso instante do impacto da chuteira contra o couro, ecoou por todo o estádio a poderosa voz do grande capitão uruguaio, vinda do então distante meio de campo, movida pela certeza do gol, berrando vingativa nunca ninguém soube exatamente o que.
      
E a bola viajou com mais veneno do que força.  
     
Apenas no último instante, Barbosa percebeu que errara sua previsão. O atacante não cruzou a bola.

Chutou direto para o gol. Uma bola rasteira. Segundo alguns profissionais do mundo futebolístico, a mais difícil de agarrar. Por conta do engano Barbosa já ia quando teve que retornar, perdendo o ângulo de defesa. Mas, com agilidade de gato, foi e voltou no mesmo movimento. Saltou, raspou o gramado e socou o couro pela linha de fundo. O que seria o fatídico gol uruguaio foi evitado por um triz e o tempo voltou a correr.  
      
O cimento do estádio saltou. O gigante Maracanã ressuscitou em um brado de bárbaro, engolindo um novo berro colérico do capitão uruguaio. Reduziu-o a um fio de voz entre milhares de outras. Justo a voz que passara mais do que a última hora e meia monopolizando todos os ouvidos em campo e fora dele. 
     
O tento redentor estava perdido. Em seu lugar a Celeste bateu um inábil escanteio, que não deu em nada. Barbosa subiu mais do que todos e agarrou a bola no ar. 

Em seguida, o arqueiro brasileiro foi bater o tiro de meta, exibindo um discreto meio sorriso no rosto encharcado de suor. Bateu tão forte na bola que ela saiu pela linha de fundo, do outro lado do gramado. A força hercúlea tinha explicação: Barbosa chutou com a certeza orgulhosa de que naquele dia sairia de campo coroado campeão mundial. Não estava errado em pensar assim. Fala-se muito que o resultado de uma partida jamais está definido antes que soe o apito final. Na arte chamada futebol tudo pode acontecer. Em geral tal máxima é correta. Mas não daquela vez. Não havia o que discutir: o escrete brasileiro já era campeão mundial antes mesmo de pisar no gramado. E o negro épico Barbosa, goleiro do tipo sem luvas, anunciariam todas as crônicas matutinas, foi o herói do dia.

 


leia mais...
POR EM 15/09/2008 ÀS 08:06 PM

A Flor no labirinto

publicado em


De madrugada, acorda com os bem-te-vis lançando numa aurora laranja seu bem-te-vi amarelo. Deixa a cama silenciosa, veste-se e vai para o serviço. Lá, também nenhum telefonema. Chove, e ele contempla a chuva raiada de sol: casamento de raposa, ensinaram-lhe quando criança


  
Aconteceu na manhã da terça-feira, quando lhe telefonaram avisando que ela tinha ido embora – na noite da segunda, tinham feito amor e sofrido muitas outras alegrias. Avisaram para o rapaz não se espantar, quando encontrasse a casa vazia, e também disseram que a mulher não queria telefonar. Não queria mais falar com ele, foi o que disseram.

Na terça-feira, portanto, ele volta para uma casa silenciosa e abandonada, sentindo como se de noite uma enchente tivesse alagado o local, enquanto ele dormia, e houvesse levado tudo. O pássaro solitário, mudo na gaiola, olha-o obliquamente. O videocassete, de painel luminoso, onde ele via as horas (seu jeito de saber o tempo, pois nem mesmo um relógio de pulso usara em toda a vida), havia sumido. Vagueia pelo ambiente devastado com a súbita mudança, até quando os últimos fogos do dia se rompem numa penumbra crescente. O telefone ficou mudo o tempo inteiro. O rapaz e seu silêncio pensativo dormem cedo, nessa primeira noite.

De madrugada, acorda com os bem-te-vis lançando numa aurora laranja seu bem-te-vi amarelo. Deixa a cama silenciosa, veste-se e vai para o serviço. Lá, também nenhum telefonema. Chove, e ele contempla a chuva raiada de sol: casamento de raposa, ensinaram-lhe quando criança.

Na quinta-feira, ainda não se acostumou ao silêncio, à ausência do toc-toc dos tamancos na cerâmica, ressonando em seu despertar, e do vazio dos olhos dela e seus cílios grandes sorrindo para o beijo-borboleta no rosto dele adormecido sobre o travesseiro. Mal suporta a ausência do silêncio, quando antes ela se penteava no espelho oval da cômoda, ainda refletindo o primeiro dourado do amanhecer. Não sente fome, pelo meio-dia, não sente fome. Uma faxina na casa. Depois, reler velhas cartas, com seu conteúdo para sempre danificado. Recupera mentalmente os atos da terça-feira: um beijo, até mais tarde, ela dissera, até mais tarde.

Após um dia branco, a noite da sexta-feira esfria. Não foi trabalhar, e o pássaro o observa de lado, quando ele passa do quarto para a área de serviço e da área para o quarto, levando e trazendo roupas e lençóis. Dorme cedo, cansado. Em algum instante de seu sono, estende o braço para o lado da cama onde ela se deitava. Ela: hipotenusa de cetim de bruços no colchão, durante muitas e muitas tardes esquecidas. Ele: o cateto oposto, sentado na cama, olhando o corpo da mulher zebrado pela luz das persianas, após conversas e brigas, que acabavam em longos silêncios. 

Acorda de madrugada e fica olhando a escuridão diluir-se na claridade cinzenta. Volta a dormir, e o hábito do sábado o desperta outra vez para o quarto de luz intensa e as crianças brincando e gritando na rua, a janela aberta. Mais tarde, ouve pela primeira vez na semana a primavera-imitadora cantar na gaiola – ela se calava docemente à flauta do passarinho, confusa floresta de vários pássaros juntos. O sábado à tarde: silêncio, livros, solidão. Quebra o telefone.

Praia, sozinho, no domingo, e esse mar esmeralda que acaricia o céu dentro dos olhos também cor de esmeralda. Mais tarde, com marecéu carmesim, o rapaz volta para casa exausto, com seu corpo salgado cheirando a sol. Move-se na penumbra, como um gato. Acende a luz do quarto e contempla o colchão ainda baixo no lugar onde ela dormia. Descobre um pouco de ternura no guarda-roupa: um par de tamancos gastos, a letra formiguinha num bilhete e um pacote de absorventes devassado. Por quê? Por quê não com o marido?, se pergunta, sem pensar em outra coisa.

Também descobre, murcha num canto da gaveta, uma calcinha azul: única seda em seu caminho. Agora terá a vida inteira para se perguntar.

 

leia mais...
POR EM 15/07/2008 ÀS 04:15 PM

A fome de Malthus

publicado em

Há três dias o reverendo Thomas Malthus não se alimentava. E pouco dormia. Precisava fazer a revisão final de seu livro. Não queria um só erro tipográfico. Nada de gralhas.
 
Morto de cansaço, sono e fome, adormeceu sobre o impresso. E teve um sonho horrível. Acordava, faminto, e gritava pela criada. Preparasse urgentemente um farto almoço. A criada, porém, não pareceu ouvi-lo. Irritado, Thomas correu à cozinha. E encontrou o corpo estendido no chão. Fedia. Talvez tivesse morrido de preguiça.
 
Cada vez mais esfomeado, o economista vasculhou toda a casa à cata de alimento. Nem um só grão de arroz. Desalentado, Thomas resolveu sair de casa. Iria a um restaurante. Porém teve um grande susto ao abrir a porta. Dezenas de cadáveres estirados ao longo da rua. E moribundos retorcendo-se de dor.
 
Que peste seria aquela?
 
O reverendo aproximou-se de um homem que lambia o chão. Dissesse apenas o nome da peste. E o semimorto disse: fome. Não havia mais alimentos em Londres. Feito um doido, Thomas corria as ruas. Só cadáveres e moribundos. E notícias alarmantes. Em toda Inglaterra não havia mais um único bife. Tudo podre. Como os homens, também ao animais morriam. Nem insetos restavam. Todos haviam sido devorados.
 
Súbito o economista avistou um belo e enorme rato. Urgia pegá-lo. Daria um suculento bife.

Malthus preparava-se para o bote fatal. Pegaria o bicho pelo rabo. E saltou. O rato, no entanto, não se deixou capturar e fugiu. Não correu muito, porém. À sua frente apareceu um gato encantador, de belos olhos verdes.
 
A princípio, o economista se desesperou. Seu bife ia virar banquete de gato. Depois se alegrou. Rato no almoço, gato na janta. E armou-se para o duplo ataque.
 
No último ato do sonho, o gato se transformava em Napoleão Bonaparte. E o rato num lord qualquer. Os franceses haviam, finalmente, invadido a Inglaterra. Thomas acordou aos gritos, suado, apavorado. A criada lia sua teoria da crise mundial de alimentos. E ria.

 

leia mais...
POR EM 14/07/2008 ÀS 09:46 PM

Adagio appassionato

publicado em

Sua mão estremece sábia e desconfiada após o afago. Corpo estranho, este corpo crescido, ela tateia: fora de seu controle. Contorna com os dedos o lóbulo da orelha, flácida curva. Definitivamente, com exceção do corpo, a mesma Estela que subia das ondas do mar, aureolada de sol, e vinha correndo ao seu encontro, aspergindo areia e o doce perfume de seu hálito infantil, e, cheia de inquietação, de longe, ainda, perguntava mãe, foi mesmo Deus quem salgou a água do mar?, e ela respondia que sim, minha filha, por saber que a menina em tudo dependia dela e isso a fazia sentir-se forte. Vê-la era sempre como um susto, por gosto. Com uma ponta do lençol, seca o rosto da filha, suavemente, porque mais que isso ela sabe que não conseguirá fazer.
 
Conhecera-lhe o corpo, saliências e reentrâncias, cada espaço, porque em si a tinha gerado. Apenas o corpo, que estava em si controlar. Você, pensa Lígia quase envergonhada, vinha correndo de dentro do mar, banhada de luz, respingada de água e areia e então eu a reconhecia. Como era bom aquele tempo em que eu a sabia uma parte de mim.
 
Há mais de meia hora a claridade azulada se esvai lenta e resig-nadamente pelas cortinas cerradas, abandonando o quarto. A cama, colcha repuxada, perdeu a aspereza das formas exatas: ninho de nuvens, agora. O Cristo da parede, coração exposto, não aparece mais na paisagem que até há pouco o sustentava. Lígia olha para o Cristo e para a janela, olhar duro e reto, irritada com a impotência dos dois. Então olha para o vulto impreciso de Estela sem saber mais nada, seu mundo vazio.
 
Nada, então, a solução de tudo? Por mais que se desespere tentando resolver a questão, apenas uma fina camada de suor no buço e as palmas das mãos frias e úmidas. Não está preparada para as transformações nem as deseja.
 
Às vezes tem a impressão de que Estela dorme, por isso torce bruscamente os dedos, temendo o impasse.
 
Com a mão trêmula e gasta de vida, sacode de leve o ombro da filha. Seu pai, Estela, daqui a pouco em casa. E a filha a encara, os olhos vermelhos ainda. E inchados. E eu, que faço de mim, desorientada? Lígia volta a olhar para a janela, em fuga, agora, para não se machucar naquelas duas brasas que a perscrutam. A janela é mancha azulada que nada diz.
 
Aguda e travosa, uma coisa arranhando o interior de sua garganta - a consciência da perda. E antiga. Não pode desvencilhar-se da idéia de que abdicara de alguma coisa sagrada no deserto instante em que recebia nos braços o corpo molhado de Estela. Que sim, sua resposta invariável, que Deus. Que outra coisa poderia responder, se ela era tão pequena e sua cabeleira loira empastada de água salgada nada revelava sobre o futuro?
 
No ar morno do quarto protegido, convidou Lígia. Assuntos de alcova. Estela estava tensa, o semblante destruído. Mas então, o que é isso? Não que ignorasse totalmente por que caminhos perigosos andava a filha. Não ignorava. Mas havia sempre a esperança de que não passasse tudo de boatos. Essa maldade que nos faz destruir com certo gosto. Mesmo, entretanto, tendo já tido notícias, precisava ouvir da própria boca, a boca de Estela, com a força de seu hálito, para então acreditar. Quando ouviu sua voz pelo telefone, logo depois do almoço, meu Deus do céu, uma voz assim, e achou que havia fundamento nas histórias.
 
No ar morno do quarto protegido, Lígia pensa horrorizada que o silêncio a vai estrangular. Então não eram mentiras, dizia o olhar com que recebeu na sala, logo depois do almoço, a filha desesperada. No ar morno do quarto protegido, ela convidou, porque dividia sua casa por assuntos. Tenta com afinco encontrar a Estela que emergia das ondas, mas só a encontra perquiridora refazendo as significações. Sem auréola de sol - tenebrosa. Bem mais fácil enlaçar-lhe o corpo quando molhado, apesar do sal e do frio. Conhecia-lhe, então, todas as curvas existentes e as que apenas se prometiam.
 
De repente, aproveitando-se de um dos muitos momentos de silêncio que se estabelecem no quase impossível diálogo, Lígia arrepende-se de ter trazido a filha para seu quarto. E é com horror que pensa nisso, porque aquela é a filha que criou, tentando todos os dias educá-la, fazê-la igual a si mesma. Tê-la agora deitada em sua cama, com a cabeça abandonada em seu regaço, é uma espécie de conivência indesejada. Há pecados contagiosos como doenças. Mesmo sem vê-lo, ela sabe que o coração exposto do Cristo vela acima da cabeceira. De súbito lhe vem à mente a palavra violação: seu significado perigoso. Se já estava há algum tempo aflita com a falta de progressão da entrevista, agora está convencida de que não deveria tê-la começado. Pelo menos ali, no quarto do casal.
 
O que de certa maneira abranda a cumplicidade entre mãe e filha, ela descobre, são as sombras que silenciosamente foram diluindo todas as formas nítidas. Não ver alguma coisa pode significar sua anulação. E Lígia, então, volta a sentir-se calma e segura. Mesmo assim, contudo, é com alguma relutância que seu dedo desenha no escuro o rosto de Estela, numa carícia tão antiga quanto dissimulada.
 
Estela retrucava, às vezes, o coração cheio de suspeitas, mas como é que você sabe?, querendo descobrir as razões que se escondiam nas respostas da mãe. Ora, porque sempre foi assim. Cansada ou incrédula, sentava-se na areia e construía castelos de curta vida. Mas eles eram reais e decifráveis. Às vezes espichava os beiços e enrugava a testa, significando sua discordância. Era assim que costumava encarar os adultos, seu modo de ser insolente, de os considerar sempre culpados.
 
Ao fecharem sem ruído a porta do quarto, apesar da penumbra em que imergiam, por causa das cortinas, Lígia percebeu que era ainda dia claro. Examinou a janela, sem muita atenção, entretanto, pois sabia que a tarde vagava ainda entre sexta e noa. Antes que pudesse proferir uma única palavra, Estela jogara-se na cama, de bruços, engasgada em seu próprio choro. E assim ficara, por mais de meia hora. Entre soluços e suspiros, ao final de muito tempo, contou indignada a decisão do marido. Irrevogável. Ele, um advogado com seu vocabulário. Assim mesmo dissera: irrevogável. Afinal, quais são os limites do amor?, fitando a mãe, a interrogação naquela mesma cara com expressão de areia e mar. Por que há de ser o coração tão estreito que nele caiba apenas um amor?
 
Horrorizada, Lígia fizera o sinal da cruz. Que Deus, o mesmo que salgara o mar, perdoasse aquela menina pelo nonsense do que dizia. E tentou afastar-se, mas era-lhe impossível sem que empurrasse a cabeça da filha em prantos. E apesar do horror, e do suor, e do olhar manso e puro do Cristo de coração exposto, afagou com suavidade a cabeça jogada em seu colo. Que Deus nos perdoe a todos nós, humildes pecadores.
 
Volta-lhe o sentimento da violação, cujo zumbido, aliás, não tinha deixado de ouvir num espaço por baixo da consciência. E observa, então, como naquele momento se arrependera de ter trazido a filha para seu quarto. Nunca se pensara capaz de sentimento tão mesquinho. E este arrependimento do arrependimento anterior, que é negação por fechar o círculo, ele é que a impulsiona a curvar-se e, lábios tateantes, procurar a face da filha. Difícil entender a vida, minha filha. Há muito renunciei a qualquer entendimento. E no escuro do quarto, sente-se por momentos enternecida. Estela, ao jogar-se em seus braços - encharcado, seu maiô azul salpicado de estrelas - está entanguida de frio, a pele arrepiada. Ao enlaçá-la pela cintura, aquela mesma sensação de que a está perdendo. Já não sei quem foi, minha querida, não sei quem foi que salgou a água do mar. Mas onde foi isso, quando? Lígia olha para o Cristo de coração exposto, olha para a janela, como se fossem mais do que apenas duas direções, suas formas desfeitas na escuridão, e lhe pudessem sugerir alguma resposta.
 
Lígia não sabe mais se a filha vela - debruçada sobre sua dor - ou dorme, finalmente aliviada. Sacode-a com delicadeza e cheia de medo do que poderá estar acordando.
 
- Estela, minha filha. Agora temos de levantar. Já ouço os passos de seu pai.

 

leia mais...
POR EM 11/07/2008 ÀS 12:00 PM

Os azares de Nazeno

publicado em

Quando Nazeno instalou seu pitidog naquele arrabalde de Munducaia, jamais podia imaginar que um empreendimento tão miúdo pudesse lhe trazer tamanhas dores de cabeça. 
 
Primeiramente foi o fiscal de postura do município que, sem compostura nenhuma, lhe extorquia o rico dinheirinho, toda semana, em suposta operação fiscalizatória.
 
Recorreu a um vereador representante do bairro e conseguiu os documentos que supostamente lhe faltavam e o fiscal achacador deu uma trégua. Mas o que ele não esperava é que o vereador passasse a ser uma pedra no seu sapato. Volta e meia mandava alguém pegar um balaio de cachorros-quentes, refrigerantes e latinhas de cerveja. E pagar que era bom, neca.

Mas o pior de tudo ainda estava por vir. Tomezinho, o chefe da boca-de-fumo da área, resolveu fazer ponto na porta de seu estabelecimento. Não bastasse o desconforto de ter um traficante azedando o ambiente, o malfeitor ainda resolveu cobrar dízimo pela proteção.
 
Por último, a ronda policial resolveu dar um bacolejo nos malas da região. Quando Tomezinho viu que o pau ia pegar, achou por bem dar uma de esquerdo. Enfiou-se no estabelecimento, guardou junto com os pertences de Nazeno os seus petrechos: uma pistola automática de uso exclusivo das forças armadas, buchas de maconha, pedras de craque, papelotes de cocaína, além de umas latinhas de merla.

E ainda ameaçou o proprietário: “Os meganhas não vão achar. Mas se achar é tudo seu.” Imediatamente avançou num sanduíche que estava saindo para outro cliente e começou a comer disfarçadamente.

O ardil de Tomezinho não vigorou. Um policial a paisano viu tudo e os fardados chegaram e não pegaram apenas a tranqueira. Primeiro algemaram o traficante, depois pegou as muambas sem maiores aborrecimentos ao comerciante.
 
Foi então que Tomezinho ameaçou Nazeno: “Uma classe de gente que não merece viver é cagueta. Quando eu sair você me paga.”
 
Nazeno é um cara do bem, mas medroso que péla. E maior que o medo em si é o medo de deixar o medo transparecer. Ante a ameaça não teve coragem de contar pra ninguém. Sofria sozinho. O medo vinha em ondas. Começava como uma dor de dente, descia pro queixo. Fazia o queixo bater. Descia depois para o intestino, para se esparramar por fim para todos os nervos do corpo. E tremia feito um maleitoso.

Mas o tempo amenizou aqueles surtos e ele quase esquecia que era um homem jurado de morte. Mas ontem a justiça relaxou a prisão de Tomezinho, o que foi o mesmo que assinar a sentença de morte de Nazeno. A mãe do comerciante, que inesperadamente veio lhe visitar, mal teve tempo de aparar o corpo, para que o filho morresse em seus braços, vitimado por cinco tiros a queima-bucha, desferidos pelo malfeitor.

 

leia mais...
POR EM 24/06/2008 ÀS 12:06 PM

O automóvel

publicado em

Durante anos Alfredo Lisboa cuidou daquele automóvel negro, como se fosse algo profundamente seu. Durante anos não fizera outra coisa senão lavar, limpar e amar aquele carro daquela funerária de Balsas. Era um homem solitário, de pouca conversa. Andava sempre vestido de preto, embora não acreditando que a morte e seu enigma fossem apenas passagem para o outro lado da vida. Tinha suas crenças, sobretudo a de entender que a morte do ser humano era como a de qualquer outro animal, ou seja, quando se morre, acaba-se de vez. Tinha ele uma figura esquelética, corcunda, retraída e amarelada pelos linhos do Tempo, lembrando às vezes a de um sacerdote de um templo egípcio. Fumava muito e, de quando em quando, perdia-se por entre os uivos dos cães, as sombras e os açoites dos ventos noturnos, bebendo aqui e ali, de boteco em boteco. O que se sabia dele era que não tinha um parente sequer naquela cidade. Chegara ali numa jardineira antiga, ocre, GMC, como que fugindo de si mesmo, de algum trauma. Quem conta isso é o barbeiro Olício, tido por todos como confessionário, espécie de desabafo. Sabe-se que tivera sua família, mas a abandonara, a esposa lhe traíra com o jovem açougueiro Leônidas, e o filho, único por sinal, fora morar atrás das grades. Motivo: tráfico e estelionato. Agora, quase não tinha amigos.Tinha, no entanto, enquanto troca de palavras, apenas a presença do Dr. Elias Barreto, dono da única funerária daquelas bandas.
 
Quando pegou aquele emprego, fora por ser bom motorista, naturalmente pelo fato de que ninguém em Balsas tinha a ousadia de guiar aquele estranho Cadillac negro. Assim que alguém falecia, lá ia o Dr. Elias à casa de Ermidas, no outro lado do rio, solicitá-lo, por obséquio, que fosse dirigir aquele auto, levar o defunto à cova, à fome da terra.
 
Muitos diziam coisas sobre aquele automóvel. Até o lojista Anastácio, último a guiar o veículo, dizia que, numa noite, estacionado à porta de sua casa, quando dentro do mesmo, alguém soprou, às suas costas, na orelha sua, seguido, ainda, de uma gargalhada e um arroto. Em suma, havia muitas supertições acerca do Cadillac. Ele mesmo nunca vira nada. Sossegado guiava, sossegado falava, sossegado dormia nos fundos da funerária, junto aos ataúdes. O esquivo Alfredo era, na certa, uma espécie de sombra. Nunca tivera doença alguma que soubesse. Não tinha hábitos comuns, sequer freqüentava a casa das mulheres de vida “fácil”. Se gozava, se tinha prazer de orgasmo, talvez fosse lá no silêncio da funerária, atrás dos ataúdes, fumando seu cigarro-de-palha, masturbando-se, repensando na fazer de sua mulher e o jovem açougueiro.
 
Um dia, Alfredo Lisboa amanheceu frio, duro, amarelo feito açafrão, caído no fundo da funerária. E agora? Quem, uma vez que seu único irmão solicitara o corpo, iria levá-lo à sua antiga cidade, distante dali a uns quarenta quilômetros?, pensou Dr. Elias.
 
Apressado, Dr. Elias foi até o outro lado do rio. Lá chegando, soube que Ermidas viajara, não estava. A solução foi convocar dois amigos, Pedro e Thiago. Thiago era gay, mas corajoso. Pedro era tímido e sofria do coração, apesar de metido a macho.
 
O fúnebre automóvel avançou pela estrada barrenta rumo à cidade do irmão de Alfredo. Fazia um frio enorme. A noite descia escura e fechada. O vento zumbia nas copas das árvores. O silêncio cortava feito navalha. O ataúde, então semicerrado, com a tampa destravada, guardava o corpo de Alfredo. A noite já ia alta, quando aquela tampa do caixão rangeu e o velho Alfredo, que sem jamais saber que sofria de catalepsia, colocou a mão para fora do ataúde, afastando a mesma. Apático, sem compreender, bateu com a mão fechada no vidro transparente da cabina, aquele que fica atrás do motorista, dizendo meio fanhoso: “Que houve? Aonde vamos?” Num repente, Thiago largou a direção e saiu em desesperada carreira, enquanto Pedro, olhando atrás de si, estufou os olhos, começando a entrar em pânico, esticando-se todo, bufando, o coração uma mola propulsora, a boca entortando, e tic e toc e tac e fim.
 
O velho Alfredo nada pôde fazer senão sair do ataúde e colocar o corpo, ainda quente, morto, de Pedro, no interior do mesmo.O dia estava quase raiando, assim que aquele Cadillac negro entrou de volta na principal avenida de Balsas.

 

leia mais...
POR EM 19/06/2008 ÀS 07:01 PM

Uma parede toda azul

publicado em

Criança o velho nunca tinha desenhado. Um pouco por causa de certo pudor inexplicável, seu pudor de velho, que desde sempre sentira, mas também porque criança não sabe dizer muita coisa além de criancices.

Então aconteceu ter acordado naquela manhã achando que estava na hora de conversar com alguma criança. Sua memória não o ajudaria muito - não vira uma só que fosse nas últimas décadas. Mesmo assim estava decidido a tentar ainda que não passasse de um esboço sem muitos detalhes, com traços bem simples e alguma delicadeza. Principalmente na voz. Retivera na memória, este tempo todo, a lembrança de algumas palavras ouvidas em voz infantil. Uma sonoridade que se aproximava da voz do flautim, quando as palavras eram proferidas aos borbotões da raiva, mas podia parecer de veludo, como o som da clarineta, sempre que estivesse na hora de dormir.

Levantou-se da mesa do café com muita esperança, apesar do corpo um tanto curvado. Tinha algumas idéias, que não queria extraviadas, por isso evitou sair ao quintal, onde costumavam enganchar-se nos galhos mais baixos dos maricás os melhores pensamentos que concebia. Urgia registrar as idéias que lhe afloraram à medida em que ia engolindo seu desjejum. Nem trocou de roupa, convencido de que nas dobras do próprio pijama escondiam-se recordações provavelmente indispensáveis.
  
A banqueta de três pernas estava no lugar de onde nunca saía, em frente à parede azul. A seu lado, quase muda, a caixa de giz à espera de novas criações. O velho, condescendente, olhou-as com olhar macio – suas companheiras de muito tempo. Ele mesmo, muitas vezes, confundira-se naquele cenário, por não saber onde ficavam seus limites, o recorte que o deveria fazer distinto do ambiente onde se movia.

Com calma resignada começou a limpar melhor a parede, onde não apareciam traços físicos de personagens anteriores, mas tão-somente manchas brancas do giz apagado. Depois de considerar com atenção o espaço vazio na parede, o espaço azul a ser preenchido, achou que estava tudo bem, sem, contudo, iniciar imediatamente sua obra. Era um tempo que não lhe fazia falta, um tempo indiferente que não chegava a ser um desperdício. Para os solitários bem treinados no exercício da solidão, o tempo é apenas uma invenção proposta por algum delírio.

Não era todo dia que o velho forjava suas criaturas na parede. Apenas quando sentia necessidade de conversar sentava-se na banqueta, aguçava o pensamento e começava a dar forma a seu companheiro. Tinha preferência por homens, pois com eles entendia-se bem, sem ser preciso explicações tortuosas. Às vezes criava mais de uma pessoa. A conversa animava-se, havia divergências, enfim, os assuntos voavam.

Na semana anterior, inventara de construir um casal. Então tivera de passar o dia inteiro na frente da parede, porque conversava uma hora com o marido, então tinha de dizer alguma coisa à esposa. Voltava ao marido, que reclamava das interrupções e assim o tempo foi passando, e só abandonou o parlatório no início da noite, quando apagou o casal para dormir.

Sua melhor criatura, ainda lembrava, tinha sido um homem de óculos com lentes bastante grossas e olhar cândido, um olhar minúsculo e brilhante. Ele se apresentou como um sábio antigo, filósofo cujos escritos foram queimados em Roma, num incêndio de proporções gigantescas. O mundo, disse-lhe o filósofo, o mundo teria sido outro, não fosse a desfaçatez daquele maluco. Deu conselhos com voz calma, enunciou alguns princípios pausados e luminosos, por fim despediu-se fechando os olhos antes de ser apagado.  

O velho sentia um pouco de ansiedade ao começar os primeiros traços de uma nova personagem por não saber de antemão a quem estava dando vida. Suas criaturas eram sempre surpresas para ele mesmo, que odiava ser surpreendido, amante como era de sua rotina. Quando sentia o giz tocar na superfície lisa da parede, sua mão estremecia com uma vibração tão sutil como aquela do corpo do passarinho, que um dia pretendera salvar no quintal, por baixo dos maricás.

Criar uma criança, então, passou a ser uma pressão desafiadora. Podia dizer que inventava o mundo sem necessidade de abrir os olhos, mas não podia saber qual o resultado de tal aventura. Isso era o que o velho entendia por uma pressão.

Suas mãos estavam úmidas e ele as enxugou no jaleco sujo de giz. O suor umedecia-lhe também a raiz da barba cinza. Mas ele não cogitou de secar a pele do rosto, pois vinha chegando a imagem dos cabelos de uma criança e não podia perder tempo com o supérfluo. Era um cabelo castanho e liso, de um menino, de um menino com a idade das crianças. Uma idade em que se canta para chamar alegria.   

Gravado o primeiro traço na parede, o velho entrefechou o olho esquerdo, enrugado, para imaginar as dimensões. Jamais cometera uma desproporção. De suas mãos era impossível aceitar que saísse qualquer forma que não fosse perfeita. Aproximou-se um pouco da parede com as mãos trêmulas de carícia. Uns tantos gestos rápidos e retos, alguns ondulando curvas suaves e o esboço de uma cabeça estava pronto.

Passando pelo pescoço, relutou em lhe dar uma garganta por não saber o tipo de pigarro usado normalmente por uma criança. Então secou novamente a mão para não molhar o giz, para não ter dificuldade de apagá-lo mais tarde, quando fosse a hora de dormir. Enquanto não se resolvia sobre a garganta, dedicou-se a trabalhar nos olhos. E os fez com uma habilidade majestosa iguais aos seus próprios olhos, que via com freqüência no espelho. Usou sua própria imagem como modelo.

Um pouco mais e a fisionomia foi-se delineando: um ar de quem acaba de se descobrir muito cansado. Tentou corrigir o paradoxo, mas os retoques acentuavam cada vez mais os cantos caídos da boca e dos olhos. Parou de trabalhar, afastou-se para examinar melhor o que estava feito. Havia grossura de giz nos traços que se cruzavam. Mas não havia mais remédio, as formas dadas teimavam em não se desmanchar.

No desenho do corpo, um corpo infantil enroupado, não houve dificuldade. Apesar disso, quando chegou ao desconforto – agachado para desenhar os pés – por causa de uma vertigem, o velho sentou-se no chão, imóvel.

O menino pela primeira vez sorriu e cumprimentou seu autor com voz de flautim. Que sono, ele demorou-se dizendo. Então bocejou com amplitude e estirou os braços. Ao sair da parede, não encontrou mais o velho, que havia desaparecido, por isso tirou o jaleco sujo e foi dormir.   

 

leia mais...
POR EM 17/06/2008 ÀS 11:45 AM

A ponte sobre o rio dos amantes

publicado em

Só podiam estar em lua-de-mel. Tantos beijos, afagos, enlevados um do outro. Ela, vista de onde eu me achava, parecia ter seus vinte anos e ser muito bonita. Ou talvez se tratasse de beleza artística, cosmética, aparente. Ele também se vestia da mais fina elegância e dava ares de galã de cinema.
 
Não, não devia ser verdade. Eu sonhava ou talvez filmavam por ali. De onde haviam surgido? Por que tão bem aparentados naquele ermo? Ora, só havia o rio, a ponte onde eles namoravam e a estrada de que a ponte fazia parte. E mais nada. Só eles e eu. Eles esquecidos do mundo, eu todo ouvidos e olhos. E, apesar disso, eles não notaram minha presença, enquanto eu não perdia um só gesto deles, um só movimento das mãos, dos olhos, dos lábios.
 
Nunca gostei desse tipo de indiscrição, nem mesmo quando fui criança. Se algum dia me pus a espiar casais, o fiz da maneira mais discreta possível. Aquele, porém, assim tão esquisito, ali naquela ponte, eu não podia deixar de ver, olhar, espreitar. Sobretudo quando se atracavam, se grudavam num interminável abraço/beijo. Nem pareciam dois, antes um só ser – figura arrancada às mitologias, novo hermafrodita.
 
Imaginei despregá-los. Talvez até me agradecessem o ato humanitário. Dei o primeiro passo e eles, como se percebessem meus movimentos e minhas intenções, se separaram tristemente, feito irmãos siameses contra cuja ligação a medicina se interpusesse. E se olharam com toda a profundeza que existe no olhar de quem se olha ao espelho. Em seguida, com a lentidão dos eternos, ele afagou o cabelo dela, e sorriram, como crianças. E balbuciou não sei que palavras mágicas, cabalísticas.
 
Eu só via seus lábios a se despregarem e a se juntarem. Ela apenas sorria, um ingênuo e magnífico sorriso.
 
Súbito ele enfiou as mãos nos bolsos, com sofreguidão, e deles retirou cigarros e fósforos. A luz se fez e a fumaça do fósforo e depois a do cigarro aceso fizeram com que ela levasse as mãos aos olhos e abaixasse a cabeça. Já não adiantava, porém, nenhum gesto, porque a primeira baforada inundava-lhe a cabeleira, provocando-lhe afobação. Inquieto e nervoso, ele abanou o ar com tamanha precipitação que conseguiu esbofeteá-la. Atingida pela pesada mão dele, sentiu-se tonta e cambaleou.
 
Mais nervoso, ele jogou ao rio o cigarro e amparou-a, enquanto parecia pedir perdões. Ela, no entanto, desprendeu-se dele e, chorando, correu ao longo da ponte, para encostar-se ao extremo da murada, os olhos mergulhados nas águas.
 
A princípio, ele se pôs a gesticular e falar, sem sair do lugar onde estava desde quando os avistei. A seguir, caminhou no rumo dela. Ao alcançá-la, agarrou-a pelos braços e virou-a para si. Ela ainda chorava e se puseram a falar com muitos gestos, como se se ofendessem. Ele apontava para o rio, e ela, cheia de pavor, arregalou os olhos para o precipício. E exaltou-se, a chorar, a bradar, enquanto ele se calava e debruçava sobre a murada. Depois ele retirou do bolso um lenço vermelho e o entregou a ela.
 
Nenhum de nós percebeu, por isso, a aproximação de um carro. Eu mesmo só alertei quando ouvi uma buzinada. Voltei-me para o intruso. Ao volante do automóvel uma mulher pedia desculpas (de se ter aproximado, de haver buzinado?) e dava marcha à ré.
 
Quando me virei de novo para o casal, isto é, para a ponte, já a mulher e o homem haviam desaparecido. Nem sobre a ponte nem ao longo da estrada havia nenhum sinal deles. Corri até a murada e ainda pude avistá-los a nadar contra a correnteza.

 

leia mais...
POR EM 17/06/2008 ÀS 09:45 AM

Os mortais

publicado em

Chega um tempo em que as ervas medram, crescem como praga invadindo o quintal, o pátio, trepando, com fôlego, nos muros, nos vãos e caibros da casa; e é nesse tempo que as flores, e suas pétalas, murcham e mais parecem faces chupadas, secas em covos de melão, exalando, no pó do ar ferroso, seu aroma de pudim retraído, regado a louros de um sopro que, pastoso e ferido, aderna à lágrima dos arvoredos em chumaços de chapéus sombrios; chega um tempo em que o existir é o inexistir, em que o real, de tão real, real não nos parece, em que, em suma, em nossa porta ouve-se o soar do bater do punho de um espectro visível, cruel e insensível em seu modo, em sua troupe de arcanjos agônicos; e é nesse tempo, justamente nesse tempo, que a angústia nos toca, nos sangra, inaugurando em nós, a farsa do abandono, dos dias sem sol, sem chuva; e é por isso mesmo, nesse tempo, que a dor de estar ausente, embora apensa aos “slides” das horas, à vida em libélulas de som, nos visita, com sua legião grega e seus soldados precisos em suas lanças, em seus elmos, em suas cnêmides; e não nos é concebível a lâmpada de elidir o que de ruim nos é imposto, ainda mais e quando elas, as urtigas, povoam nosso corpo e em nós fazem vibrar a nênia de uma raça primitiva, oriunda, é certo, dos confins da Mongólia; e é aí, meu Deus, que o ser não sabe ser e, por ser o que já não sabe, passa ser a força e os elos da serpente do Nilo, a naja, talvez, ou a víbora que, por Marco Antônio, um dia mordeu Cleópatra. Chega um tempo em que a nossa casa é pura teia e nossos móveis, abandonados, frouxos no escuro de suas formas, encostam-se pelos cantos, e não há viv'alma que ali não pressinta o defluir da vida, do que pensa ou pensou; chega um tempo em que tudo é vácuo, e nada é explicado a nada; e fora, ou é, nesse tempo que se encontrava eu, Pedro, Ana , minha irmã, e Thiago, meu pai; e fora muito antes desse tempo que Maria, minha mãe, deixou de existir, se é que existir era estar ali, era estar aqui, era “nascer” para além do sol, do abstrato em que nossos olhos cabem; e fora, ainda, por esse tempo afora que meu pai, juntamente comigo e Ana, pôs-se a ruir na faúlha do que naqueles dias se alongava; e vendo ele que as teias, as traças, os escorpiões, a tudo cobriam, e sentido, no peito, o vazio se erguendo, se construindo, à sonata empírica dos bruxos, das sombras em estado grávido, entendeu que a nós fora dado o direito livre de escolha, entre existir e inexistir.
 
Crente, então, nessa fé, e diante de tamanho desespero, desceu conosco àquelas terras vermelhas, por dentro da mata vermelha, à espera de ali encontrar a grande fonte, ou seja, o verdadeiro sentido de existir; e ficamos, assim, vagando em círculo; e, quanto mais andávamos, mais a mente se nos apagava, se nos diluía. Vagamos durante vários dias até que, de repente, nos vimos debaixo da porta, da gigantesca porta que dava entrada para o vale, o fantástico vale de luz e ilusões, que mais parecia um pulmão se inflando, se aquecendo, num processo de inspiração e expiração.
 
À medida que avançávamos, à medida que o tempo chegado ficava para trás, em nós o coração se encantava, enraizava-se com sopro de flautins dourados. Com muito susto, assombro que aos deuses desperta, flagramo-nos no colo daquele reino, daquele vale enunciado em framboesas e alfazemas, onde, carregadas, as jabuticabeiras pendiam-se frouxas, sedosas, e as parreiras, enquanto verdes e molhadas, exsudavam em seu suor, em seus pêlos de cachos copuliformes, sensíveis, enfim, ao vento amaciando as têmporas, os figos, num estremecer de espumas oleosas; a luz, naquelas bandas, era dócil, tênue como a face de um deus; e era dela, de sua aura esmagada em ponches de maçã, do ventre de seus fios em marfim, que a Grande Mão se edificava e em salmos de sangue proclamava a aurora com sabor de pêssegos carnudos; e fora lá nesse tempo, muito longe do tempo chegado, que encontramos a fonte da magia ocidental, dos pífaros aguados em percucientes de brisa, a jorrar a água que deifica e fortalece a herança da alma na Terra; e fora dela, do esguicho de suas águas em arco-íris e, terminantemente, à poeira luminosa vazando as asas das crisálidas em festim, que bebemos, saciamos nossa sede; mas, como no espaço se concebia, se determinava, não nos era permissível assentar morada por lá, uma vez que, depois de estarmos alimentados, aquele vale se inchava, se inflava, feito balão, pressionando-nos, fazendo com que nos evadíssemos, fugíssemos de seu interior; então, depois de havermos matado nossa sede, reativado nossa força, a este tempo chegado voltamos; e, passado algum tempo, tudo dentro deste plano se nos voltava a violar, e nos fazia arder em lenhos de resinas incendiadas.
 
Dia-após-dia, retornávamos à fonte, logo que nos víamos de novo enfraquecidos. Como sempre, ela nos dava de beber, expelia do espírito de suas entranhas; e, assim, meu pai, naquele vale, erguia, primeiramente, suas mãos em forma de cuia e dela recebia o alento, enquanto eu também o seguia, acompanhado de perto por Ana; e vários dias ficamos voltando àquele reino de magia ocidental.
 
Um dia, não me lembro quando, sei que corria no céu uma fumaça escrita em cuneiforme, retornamos à fonte; mas ela, em sua sabedoria transcendental, não mais verteu de sua água a meu pai.
 
Depois de levantar as mãos em cuia, muitas e muitas vezes, ele, enfraquecido e estonteado, recuou comigo e minha irmã àquele tempo chegado.
 
Noutro dia, pela mesma hora,volvemo-nos a essa fonte; no entanto, nada de água, alento, para meu pai; jorrou ela apenas para mim e Ana; mais enfraquecido, meu pai retrocedeu a este tempo chegado; e, ocorridos os dias, mirou-se ele no espelho empoeirado da sala sufocada de ervas; porém, sua imagem não se refletiu; abatido, destituído de energia alguma que pudesse faze-lo resistente, olhou para nós com olhos de sabão em pó, empacotados e brancos, indo, em seguida, em direção à porta, ao tampo-de-abertura deste tempo chegado; como quem é apagado pela borracha da mão se achando no erro, desapareceu, esquivou-se entre as sebes do lugar, e nunca mais o vimos!
 
Uma semana depois, quando Ana e eu (ao voltarmos daquela fonte ocidental) estávamos sentados à porta da casa tomada por ervas, uma pomba luminosa veio e pousou no parapeito da janela ardida em feixes, em aros de estanho vil, e, ali, como se nos conhecesse há muitos anos (e seus olhos muito se assemelhavam aos de meu pai), ficou a nos observar, vigiando, atenta, nossos gestos, nossos movimentos; era bastante suave seu ruflar, bater de asas e, no seu vôo de luzes, preocupou em estar sempre perto de nós; mas os fluídos emitidos de sua aura, do eixo de seu ser, não lhe premeditavam que em si Sat era sadia, que em si Ananda ainda era leve, frágil como casca de ovo.
 
Chega um tempo em que a desolação é total, em que nunca sabemos se já estamos, ou estamos, em que nos vem o pensar de onde viemos e até quando iremos; e fora por este tempo, e devido a ele somente, que íamos todos os dias àquela fonte ocidental, numa eternidade que só o Céu e a Terra hão de provar; e, por não compreendermos este fato, ansiávamos o ápice da existência, mesmo que fosse por um segundo, mesmo que nos fosse árduo o instante de admitirmos que não estarmos vivendo e, por imaginarmos assim, dessa maneira tal, é que fomos à fonte, naquele meio-dia de setembro, com o intento de lá sorvemos o alento; para nossa tristeza, nossa desilusão, ela não mais jorrou para Ana e, como espectadores do Infinito, postamo-nos ante ela estáticos, e mudos, na persistência, ou espera, do ato de Ana, de sua mão pênsil em forma de cuia; a fonte naquele dia jorrou apenas para mim; desencantados, retornamos à tarde a este tempo chegado.
 
Voltamos, noutro dia, à fonte, àquele mundo de fascínio e encanto, mal o sol surgira; no entanto, ela, a fonte, jamais jorrou para Ana; e não me era possível ceder de meu alento, ou seja, do que ela me ofertava, à minha irmã, pois o que me era dado era dado rapidamente, e, rapidamente, eu deveria bebê-lo; não havia tempo para ceder a ela; e Ana, então, uma semana após, quando esgotada na sala da casa em ervas, mirou-se no espelho em que meu pai antes se mirara, e sua imagem também sequer se refletiu; sentindo-se abatida, feito um elefante que, pressentindo a morte, a vida, chegando, caminha no rumo de seu cemitério, ela desapareceu, sumiu na névoa, no calor das tabocas ardendo.
 
Vencidos os dias, outra pomba, voando em tênues raios de luz, pousou no parapeito das janelas em ervas, e ali permaneceu, o coração pulsando na pele iluminada do peito; eram, agora, duas pombas em luz sutil; e uma delas, se estou certo, tinha o perfil igual ao de Ana; aquilo me fez pensar no que era existir.
 
Chega um tempo em que tempo é de repensar, e é deste tempo que ora falo; a quem interessar, deixo escrito no pano de algodão branco da mesa: há dias vou àquela fonte ocidental, e ela até hoje nunca me negou seu alento e em mim, por mais que eu não queira, Ananda é forte, vibra como lírios no campo, enquanto Sat se me soa ininterruptamente; por mais que eu procure, não compreendo ainda o que é existir, sobretudo porque Thiago e Ana já não se fazem mais presentes, e a solidão, por cá, é abismo, ferrete imóvel no ar, entre os vãos dos caibros; e nada é mais triste do que não ter alguém pra conversar, dizer alguma coisa, a não ser aquelas duas pombas, sobre o parapeito da janela, que não sei se são ou se realmente são; e o pior de tudo é ter, ainda, a amarga certeza de que aquela fonte ocidental jamais me negará seu alento!

 

leia mais...
POR EM 11/06/2008 ÀS 10:32 PM

Toc

publicado em

O balde d'água estava encostado no canto da sala de jantar. As orquídeas, emurchecidas e arroxeadas, então no colo do vaso tosco e postado sobre a mesa de ébano, exalavam um cheiro peculiar a morte. O relógio da parede, com seu pêndulo e seus algarismos romanos, executava um acorde de tempo e sonolência, ou seja, ruminava as horas.
 
E Roque estava ali, coxo e capenga como sempre. Limpava a sala. Esfregava. Esfregava o rodo contra o assoalho, num coxear insistente. Eram Roque e o toc, toc e o Roque. Roque, tocando seu rodo, rodava pela sala adentro. Era bobo e babava. Tinha uma perna besta, abobalhada como ele mesmo. Seu semblante denotava uma estupidez bem maior do que o maior e o maior dos mistérios.
 
Naquela manhã de maio, cinzenta e fria, eu me postara, naquele canto da sala, a observá-lo. Parecia não existir. Era como um ente, um gnomo. Como pode? Como? O bobo nem está morto nem está vivo: é um susto no tempo (...).
 
Margarida me contara seu sonho. O vulto surgira, dizia ela, unicórnio e loucura revestidos de negra túnica, fogo, língua ardente queimando o espaço, à procura de seu corpo, no meio do vento e do campo anuviado. Margarida me confiara. O campo, segundo o sonho, bem como o ar, recendiam a flor, e se moldavam nas ondas da névoa, ao bafor empírico e plástico. Ela me dissera. O sonho acontecera justamente um dia depois que o bobo lhe ofertara aquele ramalhete de margaridas. Com a baba escorrendo pelo canto da boca, hálito afumado comendo o beiço, ele chegara, como a dizer “margaridas para Margarida”, dando a entender o seu desejo.
 
Margarida confirmara. O bobo surgira, monstrengo de negra túnica, expondo uma gana de quem muito deseja. Ele a possuíra durante o sonho: incubo?
 
Estávamos à porta do hotel. O frio nos tocava levemente na tarde baça. Margarida nada sabia sobre o bobo. Não sabia de onde viera, por que viera, nem como viera. Um dia apareceu por aqui, falava. Chegando, ajeitou-se neste hotel – andrajos e bobeira solitária. Já acostumamos com a sua figura esquisita e seu idiotismo, dizia.
 
Eu estava de passagem. Era caixeiro-viajante. Não entendo o motivo, mas, naqueles dias, momentos em que passei na cidade de Caldas, ele se me afeiçoara, grudara a mim. De vez em quando, punha-se resmungando para o meu lado, exprimindo sílabas desconexas, como se estivesse roncando, ganindo. Sacudia, balouçava os ombros, baba escorrendo no canto da boca, quando me chamava a atenção.
 
Algo que nunca me saiu da cabeça era aquele seu jeito e costume de dizer-me, numa convulsão estúpida, que, se morresse, voltaria para ver-me. “Eu volto”, repetia, continuamente, com sorriso lacônico. Era quase incompreensível. Às altas horas da noite, estando em meu quarto, eu o escutava arrastando os móveis, manquejando na escuridão do sótão. Claudicava. Era toc, toc, toc.
 
Eles se foram na madrugada de sábado, em direção àquela pescaria. Eram quatro: três irmãos e o bobo. “Eu volto”, disse-me antes de sair. Levaram canoa, material suficiente, para um bom momento às margens do Corumbá. “Eu volto”.
 
###
 
Toc. Toc. Toc. Ei, Roque? Roque? Novamente toc. Ah, você está aí, hein? Levantei-me da cama. A luz do quarto permanecera desligada O coxear no sótão cessara. Sentado na cama, ouvidos e olhos atentos, fiquei alerta. Ei, Roque? Você não está pescando? Ei?!
 
O hotel era só silêncio. De repente, o manquejar desceu, pelo corredor, em sentido ao meu quarto. Toc. Toc. Toc. Era o bobo? A porta estava encostada. O manquejar achegou-se. Ei, Roque? É você, hein? Eu refletia. Ela se abriu. A luz frágil, tênue, pôs-se no vão, enquanto uma lufada fria, violando a luz suave, assoviou por entre a porta.
 
Os corpos foram encontrados. Todos os irmãos. Fazia quase uma semana que haviam ido. A canoa virara. Os corpos foram encontrados, menos o do Roque.”Eu volto”.
 
Depois de uma semana, após o acidente, ele aparecera. Estava imundo, maltrapilho. Ao retornar. Deixou-me encabulado e pensativo. Morrera ou não? Telebulia ?
 
A chuva fina, e fresca, caía sobre a cidade. Eu já estava de saída. O menino chegou gritando: “Ei, o bobo voltou! Ele está aqui!”
 
Deparei-me com ele no corredor do hotel. Fedia.Com os olhos assustados, sorriso lacônico no beiço (havia um quê em seu interior), disse-me, ganindo e revirando a cabeça, ao sibilo do infustamento das palavras: “Eu volto”.

 

leia mais...
 < 1 2 3 4 5 6 > 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2017 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio