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POR EM 24/11/2008 ÀS 07:55 PM

Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos de Goiás

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Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar

1945. A segunda grande guerra que varreu o Planeta acabara de terminar, deixando um rastro de milhões de mortos.

De São Paulo, cinqüenta famílias japonesas pertencentes à Seita Shindo Renmei – Liga do Caminho dos Súditos, resolveram fugir para o interior de Goiás.

A seita era alvo de aguerrida perseguição. Implacavelmente, a polícia combatia seus integrantes em virtude dos assassinatos promovidos contra os que reconheciam como verdadeiras as notícias dando conta da derrota do império japonês.

A Shindo Renmei era uma organização secreta que exercia forte influência ideológica sobre a colônia nipônica radicada em São Paulo, mas diluída também nos demais Estados brasileiros. Com estruturação paramilitar e radical difusora das milenares tradições japonesas, a Liga do Caminho dos Súditos afirmava que a notícia sobre a derrota dos países do Eixo não passava de propaganda enganosa, produzida pelos países aliados. Na realidade, as ondas de rádio da BBC de Londres, divulgando ininterruptamente a rendição japonesa, não passavam de artifício rasteiro para minar o inquebrantável moral dos saldados leais ao imperador, contra-divulgavam os líderes da Shindo. E passaram a perseguir e assassinar todos os integrantes da colônia nipônica que acreditavam nas notícias emanadas da rádio londrina. Para os militantes da seita radical, era inadmissível duvidar da invencibilidade nipônica, ostentada em mais de 2600 anos de sucessivas vitórias, sem que o país tivesse perdido uma guerra sequer.

A Shindo preparou então seus esquadrões de matadores – os tokkotai - e foi à caça dos que acreditaram na vitória dos países liderados pela Inglaterra, EUA e URSS. Assassinaram quase 30 imigrantes, deixando feridos mais de 150.

A reação da polícia não demorou. O DOPS paulista encarcerou mais de 30 mil suspeitos e não menos de 400 foram condenados a penas que variaram de um a 30 anos de cadeia.

Por interferência direta do mais alto dirigente da República, um decreto presidencial deporta para o Japão 80 integrantes da seita. Todavia, no indulto do Natal de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek coloca todos em liberdade, no que imaginou estar virando esta página negra da história contemporânea brasileira.

Com a generosidade do ato, o presidente mais popular dentre todos já havidos, imaginou ter lançado uma pá de cal sobre a tragédia que assolou os 200 mil imigrantes japoneses. Ninguém percebeu - nem os serviços de inteligência das três armas, nem a CIA, a quem os policiais e militares brasileiros prestavam solícita obediência - que 50 dos maiores dirigentes e matadores da Shindo Renmei, migraram, com suas famílias, para o interior de Goiás.

No mínimo dois membros de cada uma das famílias que agora fugiam para o Planalto Central, foram impiedosamente torturados e mortos nos porões do DOPS paulista. Providencialmente, a polícia permitiu que poucos sobrevivessem à tortura, com o único objetivo de que – libertos – relatassem na colônia, as técnicas brutais de martírio e suplício. Afogamento, choque elétrico, estupro, pau de arara, garrote vil, simulação de fuzilamento, retirada de órgãos do corpo, era o mínimo que ocorria nos porões das delegacias de polícia.

Primeiramente as famílias vagaram a esmo pelos portos do Rio de Janeiro e Santos, esperançosos em encontrar os prometidos navios japoneses que os levariam de volta ao país do sol nascente.  Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar.

O local era de difícil acesso, habitado por descendentes de escravos, os quilombolas. Se o inacessível lugar conseguiu assegurar liberdade aos negros, assegurou também – por outro lado – o completo isolamento dos remanescentes de escravos, como se o tempo tivesse abruptamente congelado. Os negros quilombolas, descendentes dos primeiros africanos que aqui aportaram, adentraram o século XXI vivendo como se estivessem em 1746.

Os quilombolas, de início, estranharam aquela gente de olho puxado que se mantinha arredia a qualquer tentativa de aproximação. Mas souberam compreendê-los e não criaram problemas. Sabiam que só estavam ali - naquela terra tão inóspita e inacessível – por estarem passando por uma implacável perseguição. E disso conheciam como ninguém. Por isso, os afro-descendentes respeitaram a dor de seus mais novos e únicos vizinhos, permitindo-os curtir em paz o isolamento escolhido.

Nas 50 famílias que agora dividiam com os quilombolas as serras inóspitas, havia mais de 30 cientistas. Eram pesquisadores famosos no Japão, respeitados e venerados pelo número de descobertas e invenções, sobretudo nas áreas da engenharia militar e da biomedicina.

Cinco desses cientistas foram os que desenvolveram o avião de caça militar Zero, que tantas baixas infligiu aos aliados nas homéricas batalhas aéreas travadas nos céus do Pacífico. Mas a maior parte dos cientistas migrantes destinava suas pesquisas para a área da engenharia genética.

Na China, quando o país estava subjugado pelo Japão, aqueles cientistas integraram o grupo que perpetrou todo o tipo de experimentações, utilizando seres humanos como cobaias, notadamente crianças e mulheres chinesas. Como receberam carta branca do imperador e do alto comando militar japonês, não havia impedimento ou limitação - fosse ético, moral ou religioso – à experimentação científica. A completa inexistência de limites levou ao sacrifício de 600 mil mulheres e de 1 milhão de crianças por experiências genéticas mal sucedidas.

Quando chegaram a São Paulo, já dominavam insumos suficientes para abrirem uma nova frente na pesquisa embrionária. Deram origem à partenogênese, técnica científica através da qual um ser vivo nasce a partir de um óvulo sem, contudo, haver fecundação.


O objetivo passava agora a conquistar o absoluto controle sobre a reprodução humana, de modo a gerar apenas seres plenamente sãos, com biotipos pré-definidos e já com o ordenamento cerebral estabelecido para se obter a máxima performance, o máximo fator de inteligência. Os cientistas não mais admitiam a casualidade dos relacionamentos do homem com a mulher que geravam filhos imprevisíveis, às vezes com ótima desenvoltura física, mas inadequado desempenho cerebral; outras vezes com alto desempenho cerebral, mas capacidade física comprometida. Muitos marginais e criminosos foram criados em berço de ouro, tiveram formação rígida, pais devotados, relacionamentos seguros e confiáveis.

Era então necessário fugir a esta lógica de incertezas e adentrar à lógica da previsibilidade matemática, rigorosamente exata, em que saberiam gerar filhos vitoriosos, física e mentalmente saudáveis, os únicos admissíveis, aceitáveis, aptos a conduzir o império japonês a um novo ciclo de conquistas e glórias.

Desde sempre, os cientistas japoneses consideraram o pleito de todo realizável, porque a partenogênese existe em profusão na natureza. Ocorre nas abelhas e formigas, que conseguem procriar por esse método solitário, sem que haja a necessidade da presença dos dois sexos para a fecundação do óvulo. Não por acaso, uma abelha rompendo o sol nascente era o símbolo da seita nacionalista, escolhida, dentre outras razões, pela impecável organização, estruturação hierárquica militar, e capacidade de reprodução pela partenogênese.  

Mas, se a partenogênese ocorre com extrema naturalidade no meio ambiente, nos mamíferos jamais ocorrera. Caso conseguissem emplacar o método em seres humanos, como intentavam, estariam os cientistas asiáticos revolucionando a biologia reprodutiva.

Se para todo o mundo científico a tentativa soava uma aventura ficcionista e lunática, para a seita, revolucionar a Ciência com a comprovação da pesquisa em fase conclusiva, era questão de dias, semanas quando muito. Para chegar a esse estágio, muito contribuiu o fato de terem substituído, nos laboratórios, camundongos, lagartos e chipanzés por crianças e mulheres chinesas capturadas quando da guerra entre a China e o Japão.

De 1 milhão de crianças chinesas sacrificadas, quase a totalidade ocorreu por terem nascidas defeituosas, com todo o tipo de distorções: algumas com cinco olhos, outras com várias cabeças, muitas sem tronco, só com braços, pernas e cabeça.  Houve um grupo de crianças que nasceram com treze pernas. Num outro “lote”, originaram crianças com a cabeça cujo diâmetro media 1,05 metro. Certa vez se debruçaram sobre uma encomenda do Comando Supremo do Exército Imperial Japonês. Produziram 87 exemplares de uma espécie destinada a ocupar o lugar dos kamikases nos aviões-bomba, destinados a atingir alvos inimigos. A espécie era um mutante constituído unicamente de uma minúscula cabeça, do tamanho de uma laranja – seu cérebro só comportava as instruções para a missão militar – e dois fortes braços para segurar o manche do avião, de modo a dirigí-lo com segurança em direção ao alvo determinado.

A eclosão da 2a. Guerra Mundial obrigou os cientistas da Shindo Renmei a redirecionar os experimentos para a indústria armamentista, deixando em segundo plano as pesquisas genéticas, o que comprometeu sobremaneira o cumprimento das metas estabelecidas para área.

Mas o golpe quase de misericórdia ocorreu quando os paises do Eixo amargaram a derrota militar. Humilhados e derrotados, os cientistas tiveram que se haver por conta própria, sem a proteção do Império e de sua rede de apoio e financiamento.

Sozinhos, largados no mundo, caçados pelo serviço de inteligência militar dos EEUU e URSS, passaram a vagar, disfarçados, pelo mundo. Os que caiam, capturados, eram de imediato integrados à elite dos cientistas dos países que, agora, se constituíam nas novas superpotências hegemônicas. Seus crimes foram ignorados e passaram a gozar de todo tipo de privilégios como nova cidadania, altos salários e posição social.  O único preço cobrado foi que se dedicassem ao máximo – e com exclusividade - para levarem suas novas pátrias ao ápice das inovações científicas e tecnológicas, e naturalmente, renegassem por completo a antiga nacionalidade japonesa.

Os cientistas que conseguiram se refugiar no Brasil imaginaram que a distância dos grandes centros os manteriam protegidos, possibilitando que retomassem as pesquisas genéticas, por tanto tempo obstaculizadas. Era vital que assim fosse. Dar prosseguimento às pesquisas significava resgatar da humilhação o heróico povo japonês.

Mas novamente a descoberta das atividades secretas da Liga do Caminho dos Súditos os colocaram na mira da polícia. Mais: quando se certificaram que o imperador havia mesmo capitulado, assinando uma rendição que consideraram humilhante, intitularam como traidores da pátria Hiroito e todos os generais japoneses. Envergonhados, abriram mão da cidadania japonesa, resolvendo constituir uma nova nacionalidade, uma nova raça, a partir do marco zero, baseada no que de melhor havia na raça japonesa, com o que de interessante conseguissem encontrar nas demais raças, incluída aí a brasileira.

Por isso a pressa em dar continuidade às pesquisas. A meta agora era constituir, a partir das 50 famílias originárias, uma nova raça que, em curto prazo, dominaria Goiás, o Brasil, a América Latina e depois o mundo.

Nos rincões do Nordeste goiano, protegidos pelas muralhas naturais das serras escarpadas, abrigados pelo mais completo e solitário isolamento, iniciaram a conquista da nova missão.

Do japonês extrairiam o cérebro, a inteligência e suas tradições culturais milenares. Não havia no mundo uma nacionalidade com cultura tão rica e singular, caracteristicamente disciplinada, componente fundamental na nova raça que deveria conquistar o mundo. A tão próxima presença dos quilombolas nos arredores era, por demais, providencial. Os negros guardavam ainda as nobres características dos africanos de 1.500. Braços longos e fortes, pernas rígidas, corpo musculoso, esguio e bem torneado, além de resistente, devido aos séculos de trabalho escravo e condições adversas. Não sabiam ainda o que extrair dos brasileiros brancos, raça que consideravam servil, raquítica e subnutrida.

Como o objetivo primordial era gerar a raça superior, acabaram se contentando em extrair dos brasileiros tão somente a característica espacial, ou seja: o simples fato das pesquisas estarem se realizando no Brasil já era de todo suficiente para contemplar a nacionalidade brasileira. Consideram-se, com este arranjo, devidamente protegidos, convencidos de que o novo homem não emergiria maculado, eivado de vícios e defeitos.

Não demorou e o século inteiro de suor e esforços no campo das ciências, pura e aplicada, resultou em retumbante êxito. Os cientistas conseguiram equacionar os problemas até então insolúveis, e todos foram chamados a conhecerem os 100 primeiros bebês originados pela partenogênese. A maior dentre todas as realizações humanas.

Em êxtase, nenhum dos presentes conseguiu conter as lágrimas. Estavam diante da nova era. Testemunhavam o novo mundo que se descortinava e, orgulhosos, perceberam-se Deus, eis que desvendaram os mistérios da criação.

Ali estavam 100 bebês absolutamente lindos, inteligentes e saudáveis. Beleza inigualável; resistência física que os imunizavam contra todas as doenças, inclusive câncer e Aids; e inteligência descomunal, só possível de ser alcançada pelos demais humanos por volta de 3005. Em homenagem aos antepassados, a safra de bebês sobrenaturais, a safra de super-homens, foi denominada tokkotai.

No momento em que a descoberta foi anunciada, os membros das famílias japonesas que em 45 migraram para Goiás, estavam todos velhos, muitos morrendo. E a velhice – como que a anunciar a morte iminente - é senhora da razão, de modo que os princípios primeiros, que os levaram a se esconder qual escravos, foram mudando com o tempo.

O tanger dos anos, além das marcas indeléveis que empresta à vida, costuma distribuir também equilíbrio e generosidade. O radicalismo nacionalista, a ideologia imperialista, a arrogância autoritária, tudo isso foi, paulatinamente, carcomido pelo tempo. Continuavam sonhando em dominar o mundo, mas agora, para disseminar outros princípios: ética, democracia e justiça social.

Apesar de isolados, os raros e fugazes contatos havidos com os goianos do Nordeste do Estado os fizeram conhecer uma atroz realidade. Descobriram a capacidade da miséria e da injustiça social dar conformação a uma sub-raça de humanos, uma sub-raça de viventes, uma sub-espécie de gente tão sofrida que as características  humanas já lhes escapavam. Paulatinamente, os japoneses foram percebendo que todo o Brasil estava mergulhado num injusto sistema em que ao povo restava o papel de boiada a ser tangida, massa ignara a ser manobrada.

Em todos os milênios jamais haviam se deparado com algo parecido. A descomunal riqueza produzida pela nação, estupidamente apropriada por escassas ratazanas, uma elite cruel e sem caráter.  

Reprogramaram, então, as metas, e o grande objetivo passou a ser buscar – a todo custo – o desenvolvimento equilibrado entre o homem e a natureza.

Imediatamente, os 100 bebês foram encaminhados para todas as partes do País. Em 25 anos estariam dominando as mais relevantes esferas do poder político brasileiro, Executivo, Legislativo e Judiciário.

Nesse ínterim, estaria sendo despachada a segunda remessa – agora de 300 bebês – para todos os países do mundo, de modo a se repetir o ciclo justiceiro no Planeta.

Quando, porém, a primeira safra dos bebes da nova era atingiu a idade adulta e já gerenciava, com inusitada desenvoltura, os altos cargos da república, Tokuiti Eiit Sakane, o ultimo remanescente vivo das 50 famílias que haviam migrado para Goiás, chorava copiosamente.

Alguma coisa na experiência - não conseguia identificar o problema - saíra errado. Os homens criados para construir a nova história adquiriram no percurso um vício horrendo, terrífico, que destruía irremediavelmente, qual chaga invasiva, o plano do novo mundo. Todos, invariavelmente todos, enveredaram para a corrupção, o clientelismo e o jogo de interesses.

Conquistado o Poder, envolveram-se em negociatas, chantagens, conspirações, desvio de recursos públicos, jogatina e prostituição. Chegaram a criar bancos oficiais, federal e estaduais, cuja principal função era promover jogos, surrupiando do povo os parcos trocados que mal pagavam o pão amanhecido.

Os tokkotai - batalhão em sua segunda versão criado para redimir o mundo - como que resgatando as origens históricas, dos idos de 45, transmutaram-se em paladinos da injustiça, em matadores, jagunços de fraque, cartola, Harlley Davidsons e iates luxuosos. Atuavam com tal desenvoltura que passaram a ter ascendência sobre os demais cidadãos, sobre os que levavam suas vidas de maneira justa e honesta. Era como se conseguissem hipnotizar a todos, conseguindo, inclusive, desvirtuar o pensamento, o ideário e a ação política de religiosos, lideranças e políticos corretos.

Por mais que esforçasse, escapava à compreensão do povo simples e humilde, o fato de políticos sérios, quando eleitos, passassem a defender tudo o que, por toda a vida, haviam combatido. Esses políticos passavam a considerar aliados e correligionários, uma marginalia de senhores que, até bom pouco tempo, repugnavam como o que de pior pudesse existir na sociedade. As instituições financeiras internacionais, que antes responsabilizavam pela fome endêmica do povo, agora eram tidas como parceiras privilegiadas, idolatradas, a quem generosamente, entregavam as riquezas do País na forma de juros escorchantes, num volume jamais visto em toda a história da humanidade.

Sakane, antes de se recolher, tivera o cuidado de conversar, por horas a fio, com Toshiko Shinai, a única dentre todos os super-seres que permitiria sobreviver. Estava já mulher formosa, estonteantemente bela, pele morena, cabelos longos ondulados. Detalhou os sonhos primeiros da colônia, os problemas havidos na travessia, detendo-se sobre a missão que a única sobrevivente da nova raça deveria perseguir. Vagaria como um ronin, um samurai sem senhor, à caça de cada um dos 99 tokkotai encastelados nas instituições da República. Deveria matar todos, livrando os brasileiros da fonte da corrupção e do entreguismo.

Após tudo acertado, liberou-a para a missão solitária. Pode vê-la ainda de relance, como um bólido, saindo em direção a Brasília, onde iniciaria o justiçamento.

Tokuiti Sakane não conseguiu dormir. Resoluto, atravessou o silêncio denso da madrugada esquadrinhando a névoa seca e fria. Ativou, em cada um dos 27 laboratórios, uma bomba sub-atômica. Repetiu o procedimento em todas as casas, alojamentos e instituições edificadas pela colônia japonesa. Quando o sol anunciava desvirginar o que restava da noite, programou o mecanismo para que tudo explodisse no minuto seguinte. Era preciso destruir tudo. O povo brasileiro levaria muitos anos para se livrar dos tokkotai infiltrados em todas as instituições do País. Urgia não perpetuar o mal. Era imperativo estancá-lo.   

Enquanto contava o correr do minuto fatal, Tokuiti, passava a vida. Em fração de minuto relembrou a infância, o casamento, os sete filhos, as guerras contra a China e contra os aliados, a tortura no DOPS de São Paulo, a fuga para Goiás, a esperança de um Japão imperialista e invencível, substituído pelo sonho de um Brasil melhor e um mundo mais justo para todos, as lideranças políticas brasileiras hipnotizadas pelos tokkotai...                          

Antes que a explosão eclodisse, levou o revolver à cabeça e desferiu o tiro fatal. Ainda se lembrou de, em pensamento, implorar desculpas aos brasileiros, povo que generosamente assentira em lhes dar guarida.  Como num capricho da natureza, as rajadas de sangue que, com o tiro, escaparam atingindo a parede branca do quarto, ali desenharam a figura de um vigoroso sol nascente, como a querer iluminar as trevas que historicamente tornavam os dias em noites..


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POR EM 24/11/2008 ÀS 11:17 AM

Na esquina, perto do fim do mundo

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O chefe sabe das coisas. O chefe sabe de todas as coisas. Sabe da guerra e da arte de guerrear; sabe matar sem usar arma nenhuma e até mesmo como aniquilar o inimigo com armas que não matam e que, pior que a morte, trazem o medo e o horror

Eu sou Agramunt. Posso pecar por arrogância, nunca por timidez ou modéstia: escolhi o meu nome, determinei a vida que levo. Na escolha do nome hesitei entre este de que me orgulho e Almedíxer. Recolhi os dois em um romance de cavalaria, Tirant lo Blanc, sobre o qual, no Quixote, diz o cura ao barbeiro “este é o melhor livro do mundo” e que, como toda obra clássica, recebe mais citações que leitura.

Da vida não me arrependo, eu a dediquei a uma causa. Os meus detratores falam em fanatismo, quando não em loucura; esquecem-se de que são como eu e que lutam por causas deploráveis. Ficaria envergonhado se gastasse a minha vida em busca de dinheiro, ambição que reprovo. Abomino também os que lutam pelas glórias do poder temporal. A minha vida pertence à Organização; não me cansarei de defendê-la e de admirar aquele que a dirige com inquestionável saber. Inúteis seriam minhas palavras se não servissem para dignificar o chefe.

O chefe sabe das coisas. O chefe sabe de todas as coisas. Sabe da guerra e da arte de guerrear; sabe matar sem usar arma nenhuma e até mesmo como aniquilar o inimigo com armas que não matam e que, pior que a morte, trazem o medo e o horror.

Ele já viveu milênios e muitos outros milênios viverá. Não o assombraram as máscaras de pavor dos inimigos que viram a morte rasgar o espaço cavalgando o fio de sua espada. Não o assustaram bravatas como as dos que, de forma insultuosa e covarde, se insurgiram, em indefinido tempo, contra o seu poder. Estes já não contam entre os vivos; que de alguma divindade menor possam receber piedade.

O chefe distribui paz aos seus e guerra a todos os contrários. Em um passado que não determino, esteve entre os que queimaram aldeias na Ásia Menor, secundando o Macedônio. Foi o único sobrevivente do massacre que as hordas de um Clã impuseram ao seu pequeno país, destruídos os templos, as bibliotecas, os palácios, os moinhos de papel.

Sobre as cinzas de uma praça arrasada, clamou aos seus antepassados e jurou justiça. O chefe é justo, seus atos são equânimes — a razão e a lógica ocultam seus sentimentos e foram poucos os que o julgaram transtornado ou vingativo. Que sobre suas indignas almas se derrame o perdão.

Ele sabe falar uma língua arcaica e tecnicamente morta, desconhecida dos mais ilustrados filólogos, semiólogos e lingüistas. Interpõe vogais longas e sonoras a consoantes labiais suaves e a sua fala soa como poesia. Daí testemunharem que o chefe sabe do amor.

Dessa língua não se conhece a escrita, não que o chefe seja iliterato ou rude, mas não tendo outra pessoa que a possa ler, escrevê-la é desnecessário. Ele a utiliza em pequenas orações cantadas em voz baixa e em longas pregações políticas dirigidas ao seu estado-maior. Apenas um, entre tantos chegados, consegue entendê-la sem, contudo, se atrever a nela pronunciar sequer o nome de um deus. O Shift (é esse o nome da estranha língua) só é falado pelo chefe e, por curial hierarquia, traduzido pelo subchefe do estado-maior. Assim, o chefe pode ser compreendido pelos outros subcomandantes da Organização.

Em tempos, cogitou-se traduzi-lo ao latim, descartado pelo próprio chefe por sua difícil compreensão a eslavos e asiáticos, e depois ao grego clássico, excluído pela utilização exígua das vogais e pelo receio de que ele se emocionasse ante citações de Homero. Sim, o chefe é humano, mas suas emoções são mantidas in pectore; dele nunca se viu uma lágrima, nem que derramada sobre um improvável poema de Sjögren.

Ele me nomeou o seu escriba. Decerto não foi pelo reconhecimento de minhas eventuais habilidades literárias, por desconhecer minha letra quase ilegível ou julgar-me dotado de inteligência singular. Conquistaram-me esta honra meus precários conhecimentos acerca do PageMaker 6.5, um programa de editoração eletrônica complexo e já ultrapassado, nestes tempos de cibernética obsolescência.

Determinou que eu contasse a sua vida e, ante o meu espanto em me ver forçado a tentar descrever a eternidade, assegurou-me ficar satisfeito com o razoável: eu deveria relatar em livro a história da Organização e preparar o meu sucessor, que Organização e chefe sobreviveriam aos finitos dias que me pudessem restar.

Sugeriu que eu o fizesse em inglês, para que facilmente esse relato se espalhasse ao mundo; contrapus o português, pelo seu caráter quase criptográfico, argüindo a sua exatidão para o raciocínio. Exemplifiquei com Baruch Spinoza, holandês que escreveu em latim, mas pensando em português, toda a sua obra filosófica. Deu-me crédito e aquiescência quando afirmei que Spinoza escrevera sobre Deus e que, optando pelo português ao inglês, eu escreveria ao invés de iria estar escrevendo sobre a sua vida. Depois, ele poderia traduzir ao Shift ou então, com a sua anuência, seria criado o novo idioma universal.

Para confirmar nosso pacto ele disse... riverrun, tuvive ismui peligerous... que eu, riobaldamente, traduzi para... viver é muito perigoso... percebendo que o chefe era sabedor do esforço que alguns acadêmicos tupiniquins têm feito, para demonstrar que o rio que nasce nas escarpas de Joyce vem, por parabólicos vieses, desaguar no Mare Nostrum Rosianum destes triestes tropicões.

Todavia, não foi essa a interpretação do subchefe do estado-maior que entendeu que o chefe, após arrotar de tédio, reclamara que são demais os perigos desta vida e, pronto, convocou a cimeira de sábios e radicais para que fossem estabelecidas as novas normas de segurança pessoal do chefe e da Organização.

A bem da verdade, devo dizer que o chefe era um homem alto e forte, de tez acobreada, malares salientes, barba rala e amarelada e olhos de cor indefinida, caracteres que não permitiam, nem a observador atento, determinar com exatidão a sua origem. Poderia ser mongol ou ameríndio, berbere ou inuíte; provavelmente não era ariano.

O seu rosto lembrava os rostos dos vencedores e os dos vencidos; o chefe era a própria representação da Humanidade. Os cabelos, que nunca pude ver, estavam sepultados no mistério de um gorro de couro sem tintura; um bigode maltratado tentava encobrir a boca rasgada, de onde a língua, nos raros instantes de veemência, saía de entre os caninos a espargir saliva pelo espaço que deveria abrigar os incisivos superiores. Inexistem relatos confiáveis sobre as causas dessa anodontia.

Um antigo subchefe do estado-maior, caído em desgraça, ousou sugerir um implante ou uma prótese. Antes de sua execução por fuzilamento, o chefe explicou-lhe, com paciência, que aquele era o rosto da Organização, a logomarca da coragem e do destemor, a eternização da sua imagem como símbolo, o arremedo da máscara cabúqui de um samurai aterrador.

Completava a figura espectral uma longa túnica de lã escura, não deixando entrever parte alguma de seu corpo, exceto as mãos, de um branco violáceo, longos dedos de pianista, unhas tratadas de crupiê. Um anel de ferro com sinete cobria a falange proximal do anular direito e nenhuma cicatriz lembrava que aquelas eram as mãos de um guerreiro. Por baixo da túnica, a instantes, viam-se as pontas de grosseiros coturnos com biqueiras de metal.

A sua coragem era proverbial, do que dava testemunho a sua ousadia em afrontar leis e nações que ele dizia ilegítimas. Escarnecia de potências forjadas a sangue de inocentes e mantidas pela opressão de miseráveis; desconhecia fronteiras, abominava crenças e, em todo o orbe, apoiava qualquer insurgência que contrariasse poderes espuriamente estabelecidos.

Acreditava que a paz dos vencedores, a pax romana, era necessária, desde que a Organização a promovesse e a mantivesse sob seu comando e inspiração. Destarte, colecionava inimigos; a sua vida, para a Organização tão preciosa, era agora a preocupação do estado-maior que, reunido enquanto o chefe sesteava, tomou sábias decisões que a preservariam para a glória de pósteros e coevos.

Como primeira precaução, proibiu-se o Shift. Sendo o chefe o único que o falava, uma simples imprecação neste idioma poderia significar sentença de morte a quem a proferisse.

Tentei argüir uma nulidade conceitual, já que os inimigos desconheciam tão secreta língua. Cassaram-me a palavra, lembrando-me que eu não era membro do estado-maior, mas apenas o escrevente regulamentado; eram dispensadas as opiniões dos que desconheciam os meandros da Organização e as artes da guerra. Foi decidido que o chefe guardasse o Shift para suas quase silenciosas orações e para seus monólogos interiores, que a língua oficial seria o inglês, com sotaque oxfordiano ou do Harlem, pouco importando.

Diante da impossibilidade concreta de se ocultar o chefe — a sua presença era necessária à propaganda e ocultá-lo seria desestimulante aos propósitos da Organização —, cuidou-se de empreender manobra diversionista que confundisse o inimigo e preservasse a integridade e a sobrevivência do chefe. Procurariam um sósia, que seria exposto em situações de risco.

Tal figura deveria concentrar em si todas as competências e habilidades do chefe além de, fisionomicamente, ser dele indistinguível, pelo menos num primeiro olhar. Deveria ser capaz de pilotar um jato de combate, qualquer que fosse o seu fabricante, e realizar manobras radicais com helicópteros Bell, Sikorsky ou Agusta. Deveria reconhecer e montar-desmontar de olhos fechados um fuzil AR-15 ou um Kalashnikov e ter a pontaria de um campeão olímpico. Também saber manejar a espada, não importando quando, ou com que aço, teria ela sido forjada.

O sósia deveria ser capaz de discorrer sobre Filosofia, Lógica, Economia, Psicanálise e Futebol em qualquer academia que o quisesse confrontar. As diversas seccionais da Organização foram instadas a encontrar o candidato perfeito.

De todas as partes do mundo começaram a chegar os pretendentes a exercer tão nobre ofício; causava espanto como eram entre si tão diferentes e quão pouco se pareciam com o chefe. Corroborava esta diversidade, segundo analistas do estado-maior, a dificuldade que certos gerentes de seccionais tinham em definir a figura do chefe, há muito esquecida ou confundida nos escaninhos de suas já desgastadas memórias.

Assim ninguém se assustou com a chegada daquela malta multifária e heterogênea, na qual se misturavam velhos, jovens, calvos, hirsutos, longi- e brevilíneos, caucasianos, sascatcheuanos, txucarramães e botocudos. O estado-maior reuniu-se e indicou um, o eleito, que, após passar por um período de adaptação, foi entregue ao conselho de sábios e depois ao de guerreiros, que o deveriam preparar.

Pessoalmente, não pude vê-lo antes de seu treinamento e caracterização e, quando pela primeira vez compareci a uma reunião presidida por ele e não pelo verdadeiro chefe, confesso que, se não tivesse sido avisado desta possibilidade com antecedência, poderia jurar que era o chefe quem estava lá. Jubiloso, anotei esta observação e a submeti ao subchefe do estado-maior que a repassou, com um sorriso, ao que seria o chefe. Ele retribuiu a cortesia e, ao sorrir, mostrou incisivos superiores perfeitos.

Percebi, com espanto, que haviam se esquecido desse detalhe; levei o indicador aos meus dentes e o subchefe, com evidente satisfação, comunicou ao estado-maior que um especialista em exodontia já estava autorizado a proceder a exérese dos incisivos superiores, completando a transfiguração.

Os problemas começaram no conselho de sábios. Concluíram que seria impossível, em breve tempo, infundir os conhecimentos para que o clone (assim o apelidou um sábio que dominava rudimentos de genética e biologia molecular) se ombreasse ao chefe em competências.

Também os guerreiros argumentaram que, face à velocidade com que nova tecnologia é agregada à arte de matar, seria impossível a um só homem adquirir tão alentado elenco de habilidades guerreiras, excetuado o chefe, que sabia das coisas.

Outra reunião foi realizada, enquanto chefe e clone faziam a sesta, sob o comando do subchefe do estado-maior que propôs uma pauta restrita, na qual se examinaria apenas a possibilidade de serem preparados outros sósias, abreviando sobremaneira a implantação das novas normas de segurança.

Da intenção ao gesto, o mínimo descompasso. Um número indefinido, até porque secreto, de novos sósias foi incorporado ao staff da segurança, alguns escolhidos por qualidades já adquiridas, outros apenas pela capacidade teatral de imitar o chefe e seus trejeitos, definitivamente descartada a semelhança física como requisito. Pronto estariam aptos a cumprir a gloriosa tarefa de substituir o chefe nos momentos de perigo e, suprema glória, morrer em seu lugar.

Algumas seccionais, cujos candidatos haviam sido preteridos, exerceram pressão diplomática para que também fossem consideradas e pretenderam impor outros aspirantes a clone, para que fosse assegurada a cada uma a sua importância política dentro da Organização.

Com o propósito de evitar o caos, o subchefe, ad referendum do estado-maior e com o velado consentimento do chefe (ou de seu clone, percebi depois), criou uma Academia de Transfiguração, a cochichos apelidada de Laboratório de Clonagem, redigiu seus estatutos, definiu normas pedagógicas e diretrizes curriculares e nomeou uma comissão diretiva encarregada de sua gerência e operacionalização.

As providências foram executadas com presteza e, a partir dessa época, as reuniões ordinárias passaram a contar sempre com um clone no lugar do chefe, de quem não se tinha mais notícias, a não ser as informações prestadas pelo subchefe que a cada dia se tornava mais poderoso, convocando e presidindo reuniões e mantendo o chefe, ou aquele que o representava, em um nicho um pouco afastado da mesa principal, envolto em penumbra, para que dele não se distinguisse o semblante ou o olhar.

Construí meu próprio patíbulo em uma dessas reuniões quando o “chefe” me chamou e pediu, em surdina, que eu não esquecesse de incluir em meus relatos a elegância de sua nova túnica, enfatizando talhe e caimento, além de mencionar a delicadeza do tecido, detalhes da trama e da urdidura e até os fios de prata dispostos em risca de giz.

Ao subchefe, reservadamente, fiz ver que eu não poderia escrever uma crônica de futilidades, uma história sobre o mundanismo, que Organização e chefe... “o verdadeiro, onde andaria?”... “recolhido em retiro espiritual, de onde em breve retornará com toda a sua força e poder para nos guiar à vitória final que se vislumbra”... foi a resposta, e eu completei... Organização e chefe eram determinantes sintagmáticos, complementares e necessários, e que o livro que eu me havia proposto escrever deveria ser verdadeiro, áspero e contundente, para que não restassem dúvidas sobre o seu valor e que ninguém soubesse dizer se ele era um atributo do chefe ou da Organização, ou se cada um deles era do livro apenas uma revelação ou um avatar.

O subchefe sugeriu que eu guardasse segredo destas observações assaz pertinentes (ele colecionava lugares-comuns), e que ficasse em silêncio obsequioso até ulterior deliberação, permanecendo recluso em meus aposentos sem nada mais escrever.

Alguns dias depois, procuraram-me o subchefe e dois clones já desdentados, que me transmitiram a decisão soberana do estado-maior: o meu trabalho de redator estava temporariamente suspenso e que eu seria, a partir desta data, o responsável pelos papéis da Organização. Lamentavam que eu tivesse de ser transferido para uma instalação de segurança máxima, e sentiriam a falta de minhas prudentes e tempestivas observações.

Achei que seria promovido de escrevente a notário e que teria sob a minha guarda, além da história, a memória da Organização. Quando me levaram ao meu novo local de trabalho, percebi que eu seria apenas o novo atendente do setor de suprimentos para escritório do Almoxarifado Central.

Não sei quanto tempo faz que estou aqui dentro, envolvido com o trabalho de embalar resmas, contar lápis e borrachas e escrever, corrigir, reescrever estas anotações que chamo de minhas singelas e ridículas memórias.

As coisas não vão bem e o chefe deveria saber. O almoxarifado entrou em decadência, os pedidos e as entregas de suprimentos rarearam, mas acho que é uma situação transitória, a Organização é poderosa, indestrutível, e persistirá com outro nome, em outro lugar, sempre com o chefe em seu comando, sobrevivendo a investidas de subchefes corruptos e usurpadores, mantendo seus prodigiosos sábios e suas legiões de guerreiros.

A Organização não morreu e nunca morrerá; ela continuará viva nos clones do chefe, que agora são muitos e andam soltos pelas ruas, como posso ver todos os dias na esquina em frente à minha janela, esta minúscula escotilha com grades de ferro, acanhado mirante de onde tento observar um pedaço do mundo.

Eles chegam maltrapilhos, sujos, barbudos e despenteados, a sorrir o seu sorriso desdentado, encostando as mãos em súplica nos vidros fechados dos automóveis que param no sinal.

Eu sei que algum dia também serei um deles, um clone do poderoso chefe. Eu só não queria que me arrancassem os dentes.

 

GIL PERINI é escritor, autor de O Pequeno Livro do Cerrado (Ateliê Editorial).


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:48 PM

A dinastia

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Dava gosto vê-los trabalhar. Ao nascer do sol, puxado pelo pai, seu Adão, o grupo de nove chegava ao pé do eito como quem chega para um espetáculo de dança ou ritual de fé. Um ao lado do outro, por ordem de idade e tamanho, ferramenta no ombro esquerdo. Com a mão direita, retirava o chapéu e o retornava à cabeça, olhando pro céu com gravidade. Protegia o rosto com um escudo de sinal da cruz e balbuciava umas palavras de subserviência a Deus. Tudo em uníssono. E mandava ver.

Seu Adão e os filhos eram afamados no Vale do Bingueiro, a ponto de serem chamados de A Disnatia. Não tinha serviço ruim para eles. Dizem que cobravam caro, mas o coronel Betúlio, seus contratante mais freqüente, achava que era o caro que saía barato: serviço a tempo e a hora.

Seu Adão buscou o nome dos filhos na genealogia de Cristo: Abraão, Davi, Jacó, Jessé, Salomão, Josafá, Ozias, José e Messias. Por ser o caçula, franzino, a rapa da tacha, se diz, Messias ainda não ia pro eito. Quando completou 10 anos, idade boa, Messias teve um troço, um desmaio que assustou todo mundo. O pai fretou um Jipe e o levou para tratar em Mundocaia. Abaixo de Deus, a Medicina lhe deu jeito. Mas Messias voltou com a cabeça virada: queria ser médico.

Seu Adão achou um disparate. Se nem o coronel Betúlio deu conta de ter um filho médico. Ele então!... Mas a idéia foi contaminando a família, como praga ou erva daninha. Os outros filhos, com tato e jeito, acabaram por convencer o pai a mandar o filho pra Munducaia estudar. Se nove não sustentar um, o mundo tá perdido, diziam.

 O filho franzino tinha para o estudo a mesma desenvoltura que os outros para a foice e a enxada. Não demorou para que Messias fosse o agente de idéias da cidade. Em poucos anos estavam todos contrariados com o estilo de vida que levavam. Pior. Perceberam que não havia mais lugar no mundo para gente que vivia como eles.

O mesmo ano em que deixamos o Vale, seu Adão, dona Eva e os filhos com nomes da Bíblia, se mandou pra Munducaia, atrás do sonho de ter uma vida melhor  um filho médico.

Rapidamente, cada qual arranjou uma ocupação. Serviço tosco, mas o bastante para continuar sustentando o sonho de ter um parente médico. Alguém a quem pudessem recorrer em caso de doença, de um ataque, de um acidente. Só lamentavam que o grupo havia esfacelado, cada qual prum canto, por sua conta e risco.

Quando o Messias se formou foi uma festa. A família reunida não cabia em si de justificado orgulho. “Coronel Betúlio não conseguiu ter um filho médico”, a vaidade comichava no íntimo do pai.

Agora Messias tem três empregos e pouco tempo para dar atenção ao pessoal que lhe foi tão bacana. Mas mês passado ele excedeu na displicência. Ao final de seu plantão, no pronto-socorro municipal, veio a notícia de um ancião anônimo atropelado.  Messias alegou que o outro plantonista, quando chegasse, cuidava do caso.

Só na manhã seguinte, Messias soube que o homem atropelado era seu velho e comovido pai. Mas agora era tarde demais.   


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:46 PM

Paisagem do pequeno rei

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Mastigando ainda restos do desjejum, sem pensamento nenhum em sua cabeça, Juninho levantou-se da mesa e grudou a testa no vitrô fechado: seu modo de espiar aquele mundo que se mantinha escondido por trás das paredes. Pela boca aberta em cilindro, divertiu-se algum tempo expelindo o bafo quente com que embaçou pequeno círculo na vidraça transparente. E meio que riu, satisfeito com tal poder, o de cobrir a parte que quisesse do terreiro com sua cerração, aquele bafo que lhe subia do peito. Para além da janela, no fundo, a inundação de azul de um céu despenhadeiro: uma vertigem. Bem ao fundo, a inundação de azul, onde um rebanho de alvos cirros se deixava singrar por alguns pontos pretos movediços - pequenos e trágicos pontos finais - que, uns atrás dos outros, desenhavam largos e lentos círculos. Alheio ao significado do que ultrapassava os muros de seu terreiro, o menino desenhou, com a ponta do dedo, um grande jota arredondado: exercício necessário da própria afirmação. No gancho da letra, seus olhos enquadraram, no recanto mais afastado do terreiro, o imenso flamboiã de tronco rugoso, já meio decrépito, no exato momento em que um bando de maritacas marulhentas alçou vôo e mergulhou no céu, deixando a árvore, com seus galhos retorcidos, inteiramente desfolhada.

Grupo remanescente de andorinhas sobrevoou o terreiro - as claras penas do peito quase roçando os galhos mais altos da árvore praticamente nua. Talvez uma despedida, véspera da grande viagem. O menino olhou as andorinhas, o flamboiã, olhou as maritacas, distante e indiferente. Ele olhava com a boca aberta, olhava com as mãos espalmadas na vidraça, com os olhos, olhava com o corpo todo, mas nada entendia, porque tinha o olhar bronco de quem ainda não aprendera a possuir as coisas a distância.

Só ao ver o passarinho pular do nada para o meio da galharia é que se agitou um pouco mais. Como um chumaço de algodão embebido em mercúrio cromo, saltitando com vivacidade de um galho a outro, ágil, certeiro, encheu os olhos do menino, que, deslumbrado, apressou-se a limpar com as duas mãos a vidraça embaçada. Mas o que era aquilo, aquela pequenina bola púrpura, tão cheia de vida e de vontade própria? Gritou com estridência, chamando o irmão, para que viesse ver o que nunca tinham visto nem sabiam que em algum lugar existisse. O irmão terminava calmamente de tomar seu café com leite e não se moveu na cadeira. Juninho insistiu, aflito, parecendo-lhe aquela uma oportunidade única na vida, primeira e última. O pensamento foi-se, então, formando devagar, um grande círculo, como um remanso do ar em volta do terreiro, das árvores, um remanso lento, mas irreprimível. Um espetáculo que era seu, tão-somente seu. Além do irmão, a mais ninguém permitiria seu desfrute. Mas aquilo não chegava a ser um pensamento, porque ele apenas o sentia, embora com o corpo todo.

- Mas onde?!

Dois vidros acima, o irmão, impaciente, nada via além do que sempre ali estivera: as árvores, a pequena horta, um galpão coberto com folhas de zinco, uma gangorra e alguns trastes inumeráveis e invisíveis, de tão fixos na paisagem.

O menino gritou que no flamboiã, cada vez mais aflito, porque agora ele também nada via e relampejou-lhe a sensação quase insuportável da perda mesmo antes da posse. E sacudia as mãozinhas gordas preparando o choro.

Como se o mundo, de repente, estivesse a se apagar, o menino pensou com urgência.

- Lá!

Ele gritou com o dedo teso, quase furando a vidraça. Tinha acabado de rever, fascinado, a pequena bola vermelha a saltitar. Então, em pânico, vislumbrou o perigo: o passarinho não estava preso dentro daquela cena, que, de um momento para outro, poderia dissolver-se. - Eu que vi primeiro. Ele é meu!

O irmão não percebeu logo o sentido daquelas palavras proferidas com tamanha veemência e confirmou que sim, que era dele, e que ninguém, por enquanto, ameaçava privá-lo do que era seu. Ele não sabia que o pequeno jamais aprenderia a dispor de tudo com todos, pois era do tipo que só consegue sentir que é seu quando possui sozinho, sem partilhar com mais ninguém. E por não conhecer o próprio irmão é que tentou ainda por algum tempo mostrar-lhe o quanto é de todos aquilo que, a princípio, parece de ninguém.

Mas não é isso, foi a resposta exasperada que o som estrepitoso do sapateado abafou. O cabelo empastado na testa suarenta era sua irritação com a conhecida conversa de enganar, que já adivinhava: depois ele esquece. Não é isso. Meu é o que minha mão segura, seus membros agitados como em espasmo, por causa do medo.

Só aos poucos a compreensão foi-lhe penetrando venenosa. Suas propostas não demoviam o menino, cujo torvo olhar ameaçava sorver a paisagem toda: meu é na minha mão. Nem o canarinho da terra, estralando na gaiola, nem o hamster acrobata, que tanto o encantava. Nada. Quase certo que já os considerava seus. Necessidade nenhuma de barganha. Meu é na minha mão. E esperneava barulhento.

O corpo tenso ligeiramente inclinado para a janela, estúpido e esperançoso, Juninho acompanhou o imergir de seu irmão na loira claridade do terreiro. A expectativa machucava-lhe os músculos, mas a dor não o distraía. Sentia-se ligeiramente compensado das aflições ainda há pouco vividas, ao enquadrar na mesma cena o passarinho vermelho, nos galhos do flamboiã, e seu irmão, gestos atávicos de caçador, esgueirando-se rente ao muro, corpo em arco, longas esperas de cócoras - o estilingue preso pelas extremidades. Compensado, mas temeroso, ainda, com a possibilidade de uma fuga repentina, definitiva. O suor, por isso, porejava-lhe no buço, na testa, empastava-lhe o cabelo da nuca. Meu é na minha mão, sentia cansado mais do que pensava. Mas é meu, parecia responder seu olhar vitorioso, logo depois, ao olhar acusador do irmão, quando este, assomando à porta da cozinha, entregou-lhe nas mãos o passarinho. É meu. E reparou, enquanto lhe assoprava as penas, que visto de perto era ainda mais belo do que de longe, apesar da flacidez do pescoço de onde pendia inerme uma cabecinha inútil.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 12:10 PM

Os desatinos de um nome

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Antes mesmo de nascer, o pai determinou: se for menina vai se chamar Desdêmona. A família não tinha informações de quem era Desdêmona na tragédia de Shakespeare, nem na ópera de Verdi, tampouco que o nome vem do grego e significa mulher de má sorte. Eh, o velho bardo gostava dos tais nomes falantes.

O restante da família achou o nome meio atrapalhado, mas ante a teimosia do pai durão, ninguém ousou demovê-lo. Como não havia ultra-som para revelar o sexo do rebento ainda no cerne da mãe, os familiares torciam para que viesse um menino, para quem o  pai escolhera um nome que não desagradava tanto: Iago. A sogra arriscou perguntar: por que não Tiago? A senhora é ignorante. Então fique calada! Disse o pai arrotando pretensas erudições.

Para descontentamento dos demais e gáudio do pai, veio uma robusta menina. Pai normalmente quer um filho-homem por amor de seu narcisismo. Mas ele se apegara tanto ao nome, que desejava ferrenhamente uma filha para lhe atribuí-lo. Então lá estava ela, a Desdêmona.

Antes que algum impedimento irrompesse, correu ao cartório para o registro. Quando declinou o nome, o escrivão perguntou se tinha certeza. Irritado o pai quis saber por quê. Desdêmona tem Demo no meio, disse o escrivão indiferente. Bobagem, retrucou o pai em sua convicção irremovível.

A menina tinha realmente alguma coisa de extraordinário. Quando a enfermeira foi tirar o sangue para o teste do pezinho, a agulha rejeitou a pele e derreteu que só cera morna. Trouxeram mais agulhas, e nada. Assombrada, a enfermeira desistiu do teste.    

Outras coisas estranhas começaram a acontecer. A enfermeira deu um berro e desmaiou ao adentrar o berçário e ver a pequena levitando meio metro acima da borda do berço.

Quando todo mundo já começa a acostumar com as esquisitices, ela deu de andar pelo rodapé das paredes. Depois evoluiu para as caminhadas pelo teto, de cabeça pra baixo, que nem uma lagartixa branca, falando coisas confusas com voz de caverna. Deu para olhar para os semáforos e as luzes se confundirem. Muita gente se acidentou com as confusões por ela provocadas. A lembrança do Demo no meio do nome assaltou o pai que, já meio assombrado, contou a todos.

A mãe fez novena, já não para a filha sarar. Mas para morrer e livrar a todos daquela tribulação, que julgavam ser a presença do demo. Certo dia, quando ela flutuava entre um bloco e outro do condomínio onde moravam, parece ter perdido a estabilidade e se estatelou no chão. O IML a deu como morta. Velório foi feito, mas, para espanto geral, na hora de fechar o caixão para ser enterrada, ela se levantou lepidamente e falou: mamãe, quero água.

Como tinham o atestado de óbito, acharam por bem considerá-la morta e registrou o nascimento de outra filha, como o nome que a mãe queria: Renata. E todos os problemas desapareceram e a ex-Desdêmmona é agora uma garotinha dócil e amigável. A mãe acredita que sua alma foi trocada.
 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:17 PM

A morte exata do crítico medidor

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Em seu escritório atapetado, cercado de livros por todos os lados, o crítico avaliava, com régua métrica, calibrada pelo Instituto Nacional de Metrologia, quantos centímetros de espessura possuía o texto do escritor X ou Y. Era seu lazer e sua vocação, para a qual havia dedicado grande parte de sua vida e carreira, ambas devotadas integralmente às letras.

Por escolha própria não havia contraído nenhum matrimônio, nem tido filho. Evitava mesmo a todo custo o contato com outras pessoas. A não ser os fortuitos e de breve permanência. A crítica literária era sua única e verdadeira paixão. Havia nascido para isso, para ser crítico. E era o que exercia com afinco, na sua solidão de celibatário aplicado, até mesmo nos piores momentos de sua vida, nem sempre alegre.

Havia começado seu trabalho de medição da escritura do texto dos autores com uma medida em palmos, mas, aos poucos, com sua fama crescente e na proporção em que se avolumavam os pedidos que lhe chegavam de todas as partes do globo, havia abandonado esse padrão, já há muito ultrapassado, em favor de um mais pertinente ao sistema métrico vigente.

O nível máximo de escritura que algum autor já havia alcançando na sua rígida escala pessoal havia sido de 40 centímetros -e o mínimo, em torno de ¼ de um palmo, cinco centímetros. Era um crítico diligente e tenaz e vivia, literalmente, afundando-se em livros e leituras.

Nos últimos dias de sua vida, estivera a ponto de desenvolver um novo método revolucionário, que iria lhe permitir medir, além da espessura, também a massa ou -dito em outras palavras,- o peso da escritura de determinado autor.

Para isso já havia feito diversos testes, com balanças de todos os tipos, analógicas e digitais, nacionais e importadas, chegando a delinear um projeto de um protótipo especialmente adaptado às suas exigências, desenhado por ele próprio, para o qual, entretanto, infelizmente ficaram faltando muitos desenvolvimentos que permaneceram inconclusos.

Sua estante, como alguém poderia esperar, era abastecida com uma multiplicidade sem fim de livros, que cresciam numa torrente até o pé-direito do escritório que chegava à altura máxima de sete metros. Aos mais espessos e pesados, assim medidos por ele, dedicava um lugar de honra no topo da estante, que estava ficando para lá de abarrotada.

Foi vítima de um acidente inusitado e infeliz, porém, conseqüente com sua atividade literária, enquanto cochilava sobre uma pilha de livros recém-medidos, o pescoço molemente apoiado sobre o último da pilha, quase que se oferecendo inconscientemente ao sacrifício. Num momento e zás! A estante inteira veio a desabar em cima dele, causando-lhe morte súbita por esmagamento e quebra do pescoço.

Hoje se encontra enterrado sob sete palmos de terra. De vez em quando, algum autor timidamente iniciante, sedento de julgamento, ainda vem depositar algum livro que acabou de dar à luz sobre sua lápide, por uma crença que ficou difundida principalmente entre os escritores mais jovens. Na vã esperança de que, do além onde se encontra, o nosso crítico possa ler e declarar a sua apreciação, a respeito da medida exata de sua escritura.


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:24 PM

O estranho

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Não dormiu por toda a noite. Ou pelo menos teve a sensação de não haver dormido. Fora tomado de sensações estranhas. Tudo começou com uma noção equivocada de desnível. De todo jeito que deitava, mesmo que com a cabeça apoiada numa pilha de travesseiros, Cairo se achava de cabeça pra baixo. Junto a isso vinha uma bola no estômago e uma perturbação na boca, como se os dentes tivessem se convertido num misto de algodão e pedregulho.

Não tardou para começar uma espécie de flutuação. O fato de morar na décima laje de um edifício de apartamentos parecia lhe retirar a firmeza. Mas o incômodo avançou. Era como se ele equilibrasse mal e mal numa quilha remota da Via Láctea. Sentia-se num mundo-de-corda-bamba-sobre-abismo.

Suspenso por escoras precárias e que a qualquer momento fossem desabar, arrastando-o para o fundo sem fundo de um buraco.

Cairo tentou pensar em coisas firmes e concretas para se recuperar daquele torpor. Mas suas tentativas surtiram efeito contrário. Seu corpo que apenas boiava sobre o abismo começou também a se diluir como um gás, até esparramar-se por completo a ponto de não haver mais noção de unidade.

Tentava mover-se, mas estava completamente paralisado. Não bolia um dedo sequer. Era como se seu coração e seus pulmões houvessem dissipado. Estava sem pulso e sem fôlego. E a noção de ser-em-si, ainda que vaga, talvez se desse agora por um processo extracorpóreo.  Estaria Cairo morto?

De manhã, o toque do despertador conseguiu reuni-lo outra vez. Mas era como se na urgência do reagrupamento ele tivesse sido refeito num arranjo diferente. Com as células colocadas em locais inadequados, formando órgãos com funções novas e desconhecidas. E porque não dizer, inúteis para a vida cotidiana.

A ver-se no espelho da pia, era como se visse, não um-outro, mas um não-ser.  Era ele mesmo, mas sem legitimidade para existir. Sua cara tacanha. Seus braços de cipó, suas mãos de barbatana, seu tronco de munguba, suas pernas de galho invertido ostentando na forquilha um cacho escroto.

Onde estaria o Cairo assertivo e focado, o executivo pitbull, o eficaz diretor de produção de uma multinacional? Suas mãos se apresentavam inábeis para as coisas mais comezinhas e tudo parecia inadequado, esbarrando nos objetos ou deixando-os caírem. Achou o dentifrício nojento, a escova esquisita e ao tentar escovar os dentes machucou as gengivas com gravidade, a ponto de tirar sangue.

Ao vestir-se não achava a ordem correta. A cueca sobre a calça, as meias sobre os sapatos. Foi um custo para ordenar essas coisas antes tão banais. Mas dar o nó gravata não foi possível. Por fim atinou de usar uma que já vem com o nó feito e é só puxar um fecho ecler. A muito custo arrumou-se. Pegou o elevador, o carro no subsolo e, achando-se um bicho de outro bioma, estranhou o sinal vermelho, avançou e envolveu-se num acidente de graves conseqüências.

 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 11:56 AM

Sobre o inconsciente

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Cornélio Basso fez uma pausa. Agarrou o copo e o levou aos lábios. Na platéia houve inquietação. Alguém tossiu. Da primeira fila de cadeiras pareceu sair um homem agachado, ou pequeno. Uma criança, talvez. Pôs-se de quatro, de costas para o orador, no início do corredor atapetado. Cornélio voltou a falar. Os desejos recalcados não deixam de ter uma existência no inconsciente. No entanto, a platéia se mostrava inquieta. Ouviram-se sussurros. O homem agachado pôs-se a andar pelo carpete vermelho, rumo à saída. Subiu o primeiro degrau, caminhou, subiu o segundo. No inconsciente os desejos inconciliáveis podem coexistir. Na primeira fila uma cabeça olhou para trás. O fugitivo já ia quase ao meio do corredor, a passos lentos e cadenciados. Os desejos inconscientes não são modificados nem pela realidade exterior nem no decorrer do tempo.

À saída, uma hora depois do início destes acontecimentos, Terêncio Floro perguntou a Helvídio Lucano se vira um vulto deixar a sala. Não, não vira nada, a não ser Cornélio. Vira e ouvira. Pois fora ali para ver e ouvir Cornélio Basso. Por acaso esse vulto tinha alguma importância? Terêncio desculpou-se.

Pensou tratar-se do vulto de Torquato Gélio. Porém Torquato jamais faria aquilo. Nunca se retiraria de uma conferência. Ainda mais se o conferencista fosse Cornélio Basso. A não ser que tivesse sentido algum mal-estar.

Lélio Silvano chegou à calçada, olhou para os grupinhos formados aqui e ali, e optou por Terêncio e Helvídio. Deram-se palmadinhas nas costas. Cornélio estivera magnífico. Sim, o inconsciente só obedece ao princípio do prazer. Ele disse isso? Não lembro de ter ouvido isso. Provavelmente falou isso no exato momento em que acontecia aquilo. Lélio sorriu, ensaiou uma risada, conteve-se.

Referia-se Terêncio ao cachorro? Helvídio olhou, espantado, para Lélio e, em seguida, para o chão.

Cachorro? Que cachorro? Ora, não entendia como haviam deixado um animal entrar no anfiteatro.

Desleixo total dos diretores. Descuido gravíssimo. E se se tratasse de um cão raivoso? Terêncio tomou a palavra: Esse animal não era um homem? Lélio sorriu. Estando na primeira fila, podia esclarecer o fato. O cão dormia recostado ao estrado. Ao ouvir a voz de Cornélio, acordou. Helvídio não gostou da frase. Se o cão dormia, não podia ouvir a voz de Cornélio. Seja como for — continuou Lélio — , olhou para a platéia, teve medo e meteu o rabo entre as pernas.

Terêncio levou as mãos aos olhos: estou ficando cego.

Muito sério, Lélio imitou o cão. Saiu pé ante pé pelo corredor e mansamente desapareceu.

Lívio e Júlia retiravam-se, saídos de outro grupinho. Passaram por Terêncio, Helvídio e Lélio, deram boa-noite e pararam. Lívio se voltou para os três amigos. Vocês viram o vexame desta noite?

Lamentável, horrível, inexplicável. Como trazer uma criança para a palestra de Cornélio Basso?!

Nervosa, Júlia arrastou Lívio para o grupo. De quem será filho esse pobre menino? Helvídio parecia horrorizado, embora sorrisse. Afinal, o vulto visto por todos mudava de figura a cada momento.

Aproximou-se deles um rapaz. Disse chamar-se Torquato Basso. Lívida, Júlia recuou. O moço gargalhou. Se quisessem, chamassem-no Cornélio Gélio. Ou Terêncio Lucano. Ou Lélio Floro. Ou Helvídio Silvano. Afinal, o inconsciente só obedece ao princípio da dor. Os desejos inconscientes são modificados a cada momento e de acordo com a realidade exterior.

Pôs-se a gritar o estranho. Aterrorizados, os espectadores saíram em disparada pela rua.

Um cão pôs-se a latir diante do anfiteatro.

 


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:56 PM

Batismo de fogo

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Belmiro sempre foi um menino bom. Nunca se deixou contaminar pelas mazelas da invasão, onde vivia com a mãe. Porque o pai, não. Este sim. Sujeito mala que se deixou envolver pelos negócios nebulosos dos traficantes e morreu cedo em condições suspeitas.

E, de boa índole que era, jurou pra mãe que com ele haveria de ser diferente. Jamais sujaria as mãos com as podridões do mundo em que seu pai se meteu até o pescoço. Haveria de estudar, pegar uma carreira honesta e decente. Ganhar a vida sem fazer mal a ninguém. Quem sabe um dia poderia bater no peito com justificado orgulho e dizer: tive tudo pra me perder na vida, mas aqui estou, honrado, honesto e feliz, para desmentir a todos esses que justificam suas mazelas pelas agruras da rua.

A mãe compartilhava desse sonho. Era questão de tempo: subir daquele buraco embrejado, sair da muvuca e ir morar numa casa de conjunto ou num apartamento de bairro decente. A duras penas mantinha o pequeno Belmiro na escola, só estudando, sem trabalhar, sem ir para a esquina onde pudesse dar curso a atividades ruinosas.

Belmiro escolhia os amigos. Optava sempre por aqueles que também alimentavam sonhos de engrenar na vida, mudar de sorte, encontrar um outro patamar, um jeito de viver e usufruir das coisas boas que a vida oferece, mas pede muita dedicação, firmeza e sacrifício em troca. Assim, um de seus raros amigos era o Toninho Zebu, junto com quem ia à escola, fazia tarefas de casa e descolou as primeiras minas. Um verdadeiro brother.

Ele estava firmemente determinado a seguir o figurino das pessoas de bem, daquelas que trilham pelo bom caminho sem se importar se há tempestade, se há cantos de sereia, se há tentações quase irresistíveis. Quando chegou a hora de trabalhar, Belmiro subiu pra cidade e bateu de porta em porta.

Semeou currículos a vento como as plantas jogam seus polens na primavera. Depois de meses, nenhuma resposta positiva. Foi quando restou a oportunidade de prestar concurso para o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar.

Belmiro nunca pensou em ser polícia, muito menos do BOE. Porque eles é que são chamados quando a situação entorna o caldo. Belmiro não era medroso, mas não queria ganhar a vida usando de coragem violenta.

Pela contingência da vida, fez a inscrição, e passou na prova. Comeu o pão que o diabo amassou naqueles treinamentos escrotos. Envenenou a índole o quanto pôde. Jurou defender a corporação contra quem quer que fosse. Jurou matar bandido como se mata rato no ninho ou se pisa em barata.

Ontem foi o batismo de fogo do novo oficial do BOE. Sua missão era, num bacorejo trivial, quando o comandante apontasse o dedo para um suspeito aleatório, Belmiro lhe aplicaria uma saraivada de balas. Simples assim. Foi então que o comandante apontou o dedo.  Justo para Toninho Zebu. Seu brother. 

 


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POR EM 06/10/2008 ÀS 07:34 PM

Vou ser herói Maria

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Transtornado, o homem recusava abrir a porta do elevador. Se do lado de fora estivesse um tigre à sua espreita? Vários tigres? Um horror! E tremia todo. Não conseguia nem sequer se manter em pé. Melhor sentar-se. E esperar, esperar, esperar. Passaria toda a noite, e quantas noites fosse preciso passar, dentro do elevador. Não, morreria de inanição e tédio. E se o tigre, os tigres abrissem a porta? De manhã os vizinhos, sua mulher só encontrariam alguns ossos. Nunca saberiam como e por que sumira tão misteriosamente. A ossada poderia ser de outro. Talvez de um cachorro grande. Nunca de um homem, dele. Não havia canibais na cidade. Nenhuma notícia deles.

Sossegou, buscou uma brecha na porta, olhos e ouvidos de caçador. Nenhum sinal de tigre. O bicho não chegara àquelas alturas. Com certeza continuava na rua.

Abriu um pouquinho a porta. Puxou-a para si. Melhor não confiar em nada. Felino é bicho traiçoeiro. Empurrou de novo a porta. E, de um pulo, lançou-se contra a porta do apartamento. Socorro, Maria, socorro! Do outro lado gritaram espere, espere. Até abrirem a porta o tigre o devoraria. Bateu com força as mãos na porta. Deu outro pulo e caiu no meio da sala. Bêbado, sem-vergonha, desgraçado. Fechassem a porta logo. O tigre podia entrar.

Não, não havia bebido nada? E o que era aquilo então? Ficara maluco de vez? Maluco é a mãe. Mais um minuto, e nunca mais o teriam visto. Comido, co-mi-do por um tigre, Dona Maria. Ela se pôs a rir.

Riso de deboche. Depois gargalhou. As crianças também riram. O pai delirava? Ergueu-se do chão, ainda aflito. Prestassem atenção, muita atenção. Havia um tigre na rua. Debaixo do prédio. A mulher riu de novo. Não risse. Se não acreditasse e quisesse virar comida de tigre, abrisse a porta e descesse. As crianças já não riam e correram para a mãe.

Na televisão o locutor falava de crises, abacaxis e pepinos. Alta do trigo. O homem correu a apertar o botão do aparelho. Nada de barulho. O tigre poderia se irritar. De onde surgiu esse tigre, homem? Sei lá. Deve ter vindo da África. Não, pai, ele fugiu do circo. Deu na televisão. Mentira, gritou o outro filho. O tigre estava doente e teve alta. Então é mais perigoso ainda. Tigre ferido é uma fera.

Maria deu um gritinho, as crianças se puseram a chorar. O homem criou coragem — foi trancar a porta já trancada. Arrastou os sofás para a porta. Onde estava o revólver? Não tinham revólver nenhum. Só os de brinquedo. Então buscassem as facas, todas as facas. Se o tigre se atrevesse a entrar, ele o esfolaria. Vou ser herói, Maria.E apagou as luzes.

 


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