revista bula
POR EM 13/04/2012 ÀS 04:38 PM

Rio + 20 % (por fora)

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Se o mundo não acabar até lá, acontece em agosto, mês de cachorro doido, o Rio + 20 % (por fora), o maior conclave mundial secreto de celerados que se tem notícia desde que roubaram os pregos com os quais o nazareno foi crucificado. Hilários relatórios da história — boletins de ocorrência centenários registrados em papiros — dão conta que um fariseu inescrupuloso subtraiu e vendeu a 20 moedas cada prego utilizado na crucificação do messias. O manto sagrado, como é de conhecimento público, ficou mesmo com Richard Burton (confira tudo no velho filme “O Manto Sagrado”, de Henry Coster, 1953 D.C.)

Esta atrevida e marginal conferência da OMU — Organização dos Mafiosos Unidos — reunirá os mais simpáticos, comunicativos e bem relacionados larápios do colarinho branco de todo o planeta, desde que eles não estejam presos até aquela data ou ocupando cargos eletivos que garantam aos mesmos imunidade parlamentar e fórum privilegiado. Aos amigos, as benesses; aos inimigos, o rigor da lei. Lembram-se?

Não por acaso, o Brasil — terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente — foi escolhido como esconderijo, ou melhor, como cativeiro-sede para receber a legião de vigaristas insaciáveis. Ladrõezinhos metidos a besta, os preconceituosos mentores da conferência e dos crimes organizados vetaram a participação dos seus pares irrisórios: os malandros pé-de-chinelo. Ou seja, os infiltrados ali presentes não vão se deparar com batedores de carteiras, ladrões de galinha, e outros profissionais medíocres no ofício de tomar o que não lhes pertence. Se Deus (Deusdete, advogado criminalista porreta) e os habeas corpus assim o permitirem, são esperados no Brasil — terra de samba e pandeiro do mulato inzoneiro — milhares de picaretas oriundos de várias facções.


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POR EM 12/04/2012 ÀS 06:37 PM

Uma câmera na mão e outra porcaria no Youtube

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O homem mais irritado do mundo, Jack Rebney ficou conhecido assim após se tornar um dos primeiros virais — vídeos que se espalham rapidamente pela internet  de que temos notícia. Nele, Jack, um vendedor da empresa americana Winnebago Industries, aparece xingando a equipe e praguejando contra tudo e todos enquanto supostamente deveria gravar uma propaganda para a empresa.

A história virou um documentário, “Winnebago Man” (2010), no qual o jovem diretor  Ben Steinbeur sai à procura de Jack, agora já um senhor, para saber seu paradeiro e o que o levou a gravar  o vídeo tão irritado daquela forma. Quando  Jack é encontrado somos apresentados à mesma figura inconformada, mas de um carisma irresistível. Jack é aclamado por uma legião de fãs e se surpreende ao saber de sua fama, para ele repentina. A internet criava assim mais um personagem, para muitos uma lenda, mas se analisarmos mais de perto, uma pessoa comum como qualquer um de nós.

Quem frequenta as redes sociais e já tem a vida on-line tão ativa quanto à off-line, convive quase que diariamente com pessoas que aparecem no YouTube e se tornam famosas, queridas ou odiadas repentinamente. A história de Jack Rebney, porém, é um pouco diferente. Ele entrou para o roll da fama  na internet porque seu carisma o levou até lá. Hoje a maioria dos vídeos não são espontâneos. Pessoas fazem malabarismos contorcionistas para conseguirem visibilidade na rede.  Querem ser vistas, amadas ou odiadas, não importa. É como se o anonimato fosse ultrajante. A internet deixou a televisão para trás e se tornou a grande vitrine dos dias atuais. 


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POR EM 12/04/2012 ÀS 02:25 PM

E se a vida tivesse fundo musical...

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Vida boa é de personagem. Antes que os fatos aconteçam, já tem uma musiquinha ao fundo, dando a dica do que vem pela frente. A vida da gente é um tanto mais precária se comparada com a dos personagens de filmes e novelas. 

Como seria a vida real se cada um de nós fosse portador de um ouvido invulgar para ouvir a música que toca em surdina, enquanto as coisas se preparam para acontecer? E se a audição não se restringisse exclusivamente à nossa música, mas pudéssemos sondar o futuro imediato dos outros e os outros também pudessem nos olhar com a percepção daquilo que nossa música prenuncia? 

A gente ia pela rua e avistava uma gata esplendorosa. E ela avistava a gente. Bastava sintonizar no som desse avistamento recíproco. Se tocasse uma música de protesto, um rap contra a polícia, nem precisaria tentar. Não teria rolado a química que autoriza uma aproximação proveitosa. Mas digamos que tocasse uma balada romântica, uma música clássica das cenas de amor. Um “Tema de Lara”, por exemplo, do filme “Dr. Jivago”. Aí, sim, era só investir com capricho e determinação que o resultado seria seguramente favorável, sem essas batalhas de tentativas e erros, que tanto nos aborrecem pela vida. Se rolasse um “Ai, se eu te pego”, ou outro hit do sertanejo universitário, seria só uma ventura, um rala e rola eventual e nada mais. A trilha sonora da vida real não serviria apenas para as conquistas amorosas. Sua utilidade se estenderia a todas as circunstâncias da vida. Você, no meio da noite erma, vai passando por uma avenida de luzes precárias. De repente vem vindo em direção contrária um grupo de rapazes, falando gíria e gingando o corpo e você se liga na trilha sonora. 


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POR EM 10/04/2012 ÀS 08:09 PM

Jeito de capital

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Meus poucos e eventuais leitores, muitas vezes contingentes, não devem saber que não moro no Rio de Janeiro. Assim é a vida: somos escolhidos com muito maior frequência do que escolhemos. Moro numa pequena cidade do interior de São Paulo, depois de ter respirado o ar de muitas cidades de diversos estados do Brasil. 

Esclarecido esse ponto da maior importância para o desenvolvimento do assunto em pauta, passemos ao que interessa. 

O Rio de Janeiro perdeu a condição de capital política do Brasil, com a inauguração de Brasília. As futricas ininterruptas a que temos assistido foram cheirar mal no planalto, lá onde a brisa morna não é gentil, e a terra, em se plantando, não dá de tudo. O Rio de Janeiro continua lindo, alô, alô, seu Chacrinha! 

Usufruindo de meu direito a ir e vir, como reza com grande humor nossa Constituição, também algumas vezes na vida fui me sentir capitalista, mas na antiga capital. 

E lá, fazendo minha caminhada diária pela pista do aterro do Flamengo, a impressão que tive foi a de que o Rio pode ter perdido para Brasília o poder político, mas a Cidade Maravilhosa continua sendo a capital da nação. O charme de síntese da nacionalidade, isso ninguém lhe tira. As muitas etnias que nos formam lá estavam. Peles e cabelos de todos os tipos. Feições indiáticas, representando o Brasil Central; olhos azuis vindos do Sul; o moreno da Europa Meridional, afro-descentes (bantos e sudaneses) e até o tipo oriental a gente vai encontrando pela calçada onde todos querem desfilar.  Além disso, o Rio é um verdadeiro monumento histórico ao vivo e a cores. 


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POR EM 06/04/2012 ÀS 06:02 PM

Tomando sopa com a Oprah Winfrey

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Fui enviado a Abadiânia pela Revista Bula a fim de conhecer de perto o trabalho de João de Deus, um fazendeiro cheio de filhos que se tornara guru naquela comunidade, e que supostamente curava doentes desenganados pela medicina tradicional. 

Fiquei motivado com a missão. Embora incrédulo — não me custava nada —, eu poderia reivindicar algum tipo de passe, magia ou unguento, algo que efetivamente fizesse brotar cabelos na minha cabeça, embora a calvície incomodasse muito menos do que a minha insegurança e ceticismo. Afinal, eu também era um desenganado. Um desenganado menor, mas, um desenganado. Aderir às perucas ou à legião de seguidores e serviçais de João de Deus não estava nos meus planos. 

O movimento no local era intenso. Naquele dia, em particular, alguém comentou que o ambiente estava ainda mais agitado que o habitual, por conta da presença de uma mulher negra, uma celebridade norte-americana que fazia uma visita. Olhando assim de longe vi que uma crioula simpática assistia ao transe de João, que enfiava o dedo fura-bolo num buraco cavado no lombo de uma mulher idosa. “A velha sofre de artrose, depressão e dores terríveis”, um curioso me relatou. A não ser pela velhice, pela artrose e pelas dores terríveis, eu até que me identifiquei com aquela moribunda. 

À primeira vista, pensei que a mulher negra fosse a cantora Whitney Houston, mas ela tinha morrido de overdose há poucos dias, em Los Angeles. Muita pretensão a minha, achar que a cantora faria uma aparição mediúnica pública em tão pouco tempo. Michelle Obama? Não. A Primeira Dama dos Estados Unidos não viria a Goiás sem que eu ficasse sabendo. Desde o meu encontro secreto com seu marido Barack, no Central Park (lembram-se que contei a estória aqui mesmo na Revista Bula?), em Nova York, nós ficamos bastante próximos, assim de trocar emails pelo menos três vezes por semana. Até parecia Michelle, ma belle, mas não era.  


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POR EM 04/04/2012 ÀS 06:31 PM

Jargões profissionais

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Há muito não me via tanto tempo preso à frente da televisão vendo jogo de futebol. Imagino que haja uma boa razão para isso, mas que não preciso confessar aqui. Não me agrada muito ser “corneteado”. É assim que se diz?

A gente passa de um canal para outro e parece que não saiu do anterior. Os narradores futebolísticos devem ter feito o pacto da uniformidade. As questões de estilo, raras exceções, são periféricas: não afetam a estrutura da narração. Os poucos bordões existentes não fazem lá grande diferença. Mas o que mais me impressiona é o jargão. Interessantíssimo. Daria um dicionário de expressões futebolísticas, se é que alguém já não andou fazendo isso. 

Não sei se você, meu leitor apaixonado pelo esporte dos ingleses, já observou: um locutor esportivo jamais diz que um jogador machucou-se. Se se pergunta a um jovem (e os jovens são as principais vítimas das precariedades linguísticas, justamente por serem jovens) o que significa “contundido”, ele, mesmo antes de piscar, já terá respondido que se trata de jogador de futebol machucado. Tal é a força do chavão, que dá um sentido específico à palavra. Ninguém mais se contunde: só jogador de futebol.  Outra expressão universalizada é “valorizar a posse da bola”. Um dia alguém de muito prestígio no meio terá usado a expressão, que acabava de criar. Bastou. Hoje, não há mais narrador de futebol que, vendo a bola ficar naquele tico-tico irritante, esquerda, direita, esquerda, direita, sem sair disso, alega que os jogadores estão valorizando a posse da bola. Pode ser medo, covardia, falta de opção, criatividade embotada, pode ser qualquer coisa, eles vão sempre alegar que é certo tipo de valorização. E a expressão, que se iniciou como uma metáfora, meio pobre, vá lá, bem cedo transformou-se numa catacrese.   


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POR EM 30/03/2012 ÀS 09:19 PM

Elvis não morreu. Chico Anysio e o boi também não

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Só a comédia — além da boa música, é claro  poderá salvar a humanidade. Nenhum credo, nem o amor-da-boca-pra-fora, nem as competições esportivas (atividades saudáveis que quase sempre geram graus exagerados de rivalidade), nem o avanço colossal da ciência, nem a preservação da floresta amazônica, nem os argumentos redentores dos argutos gurus, nem todo o aparato militar dos tiranos que desejam conquistar o mundo, nem os raios tratores dos alienígenas, nem a loucura coletiva, nada disto terá a mesma capacidade que a comédia. O riso poderá cicatrizar feridas, resgatar as almas aprisionadas nos abismos existenciais, recuperar a fé do Homem pelo Homem. 

Assoberbada pelos percalços da vida, Marta esbofeteia a cara da mãe repetidas vezes, enquanto enfia comida fria com rivotril em sua boca. Juízo corrompido pela doença de Alzheimer, é preciso urgentemente sedar a idosa mentecapta, afinal, a vida urge lá fora (sofre Marta, em pensamentos pragmáticos). Como numa fábula, a idosa peleja no seu mundo particular onde ninguém daquele casebre pregado no morro penetra, muito menos, compreende e tolera. Nos últimos meses, a pobre senhora tornou-se uma estranha no ninho, como atestaria o cineasta Stanley Kubrick. Quanto mais surra a mãe (ei, Marta... não se bate assim na face de ninguém...), mais Marta se irrita, pois a senil criatura não sente dor, e também não sente amor, nem raiva, nem fome, nem vontade de morrer. A mulher simplesmente é e, em sendo, vai ficando, vai maquinando o absurdo em sua mente perturbada, sustentada male-male naquele cortiço pra lá de caótico. 


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POR EM 29/03/2012 ÀS 06:43 PM

Informação e encantamento

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Nunca entendi a razão por que se juntam pessoas de grupos os mais heterogêneos para ouvir falar de assuntos com alguma especificidade, ou seja, de conhecimento não corriqueiro. Naquela noite fui incumbido de discorrer sobre linguagem literária, assunto que se leva alguns anos estudando para se ter pálida ideia, mas que muitos promotores de eventos culturais supõem passível de ser destrinchado em uma hora, uma hora e meia. E pra qualquer plateia. 

Isso tem ocorrido na minha vida e com bastante frequência. Como o público sai depois de uma palestra dessas eu não sei, quanto a mim, saio suando, com vontade de morrer, mas sem coragem para o ato final. 

Uma dessas ocasiões me deixou marcado. Bastante gente na plateia, para glória e honra dos promotores e angústia do palestrante, que, com cara de pateta, olhava de um lado para o outro tentando descobrir qual o padrão de linguagem a ser empregado. Apresentações e agradecimentos, lá estava eu de microfone na mão ainda enrolando com alguma graça para conquistar o público, até que não deu mais para segurar e o assunto foi enfrentado. A certa altura, ocorreu a lembrança de que alguns exemplos sempre ajudam, pois dão concretude a conceitos por vezes não familiares. Por isso, chamei a atenção da plateia para o que faria: dois enunciados diferentes.  


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POR EM 23/03/2012 ÀS 08:40 PM

Vaca da Cow Parade vai parar no brejo

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Consta nos autos das fofocas familiares que o primo Chiquinho fora pego em flagrante fazendo amor (?!) de olhinhos fechados e tudo o mais que se tem direito em matéria de afetividade, com uma égua cupimzeira — eis o codinome emprestado às fêmeas equinas mansinhas que serviam (e ainda o fazem, possivelmente) aos intercursos sexuais de homens adolescentes e adultos pelo interiorzão do Brasil. 

Ante a cena inusitada, a molecada riu à beça da cara de sonso que fazia o primo, debochou dos uivos do lascivo, mas alguns fizeram fila na garupa da égua para se aproveitarem da indolência do pobre animal. Ao invés de moedas ou beijinhos, os moleques pagavam Margarida com suculentas espigas de milho. 

Parece um preâmbulo vulgar demais para se utilizar numa crônica. E é mesmo. Assim como tantas outras atitudes vulgares bem próprias dos seres humanos, como atropelar um ciclista bóia-fria no acostamento de uma autoestrada usando uma Mercedes, e ficar reclamando dos arranhões na lataria enquanto o sujeito agoniza no asfalto. Só rico mesmo para ser tão espirituoso numa hora desta... A mania de encostar quadrúpedes em cupins para de suas genitálias tirar proveito sexual tem o nome de Zoofilia ou Bestialismo. A prática era muito corriqueira nas fazendas e rincões, numa época em que a população que morava no campo prevalecia, antes, portanto, do êxodo rural que forçou a mudança de hábitos. Uma vez na “cidade grande”, se não havia éguas mansas cupimzeiras com quem namorar, que os homens se valessem então do ofício das profissionais do baixo meretrício, redutos nos quais que as espigas de milho não eram aceitas como moeda corrente. Nada mais justo, ora bolas. 


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POR EM 22/03/2012 ÀS 07:51 PM

Kony 2012: o nocivo e inconsequente ativismo de sofá

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Quem não gostaria de fazer parte de uma iniciativa mundial (quase) sem sair do sofá para colocar na cadeia um dos maiores genocidas do século XXI?

Pois é isto que milhões de pessoas estão fazendo ao ajudar na viralização do vídeo da ONG Invisible Children que busca dar fama ao sanguinário líder do Exército de Resistência do Senhor (Lord's Resistance Army) de Uganda, Joseph Kony.

A campanha intitulada "Kony 2012" agregou milhares de pessoas que, sem sair do seu lugar, buscam pressionar o governo dos EUA a enviar tropas para capturar ou ao menos auxiliar na prisão de Kony.

 A ONG basicamente nasce da iniciativa de um rapaz que, abismado e revoltado com a violência em Uganda perpetrada por Joseph Kony e pelo LRA, resolve agir.

O problema do chamado "slacktivism", ou "militância de sofá" parece o mais óbvio. Cria a ideia de que não só para este caso, mas para qualquer outro, basta assinar petições e gritar nas redes sociais que é possível mudar o mundo. De fato, em alguns casos a militância on-line pode resolver problemas, mas questões de geopolítica mundial precisam de muito mais do que um esforço igual ao que muitos fazem para reclamar de uma empresa que presta um serviço ruim. Não basta sentar, apertar um botão e esperar que o mundo mude. Mas acredito que essa discussão seja a menos importante de todas, especialmente quando nos deparamos com um problema que não é isolado e cuja solução não é simples.


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