revista bula
POR EM 07/05/2012 ÀS 09:50 PM

Finalmente o frio

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Que me perdoem os leitores se exulto, quase sozinho, com a chegada do frio. Meu amigo Adamastor, que veio do Cabo da Boa Esperança, no sul da África, fica escandalizado com minhas preferências. É que o Sol, este astro rei (caramba! quando é que vamos deixar de ser monarquistas?) torna-se menos agressivo, seus raios nos acariciam em lugar de arranhar-nos. As tardes, menores e mais encolhidas, parecem convidar para conversas menos estridentes, para aquele tipo de prosa em que não se tem pressa de chegar ao fim. Duas cadeiras na varanda, um bom vinho em taças pequenas, e a conversa esticada apenas pelo gosto da troca.

O clima frio exige recolhimento e conduz à reflexão. As longas noites são invadidas pelo estudo, pela leitura, porque o silêncio é companheiro do frio assim como o barulho o é do calor. O mundo exterior mais reduzido estimula o exercício da imaginação. Portas e janelas fechas forçam-nos o olhar para o interior.

E não nos esqueçamos da elegância. Tenho visto, mesmo nos dias mais frios, muita gente com as pernas nuas despejadas para fora dessas bermudas coloridamente ridículas que se usam hoje em dia em qualquer estação, em todos os lugares. As pessoas reclamam do frio, se queixam, mas não abandonam o padrão da roupa sumária, do corpo exposto como se o sol substituísse nossas proteções. O Oswald de Andrade queria que o índio desvestisse o português, estão lembrados? Mas o Oswald de Andrade era primitivista, por isso queria ver-nos sem roupa, esse traço de nossa herança europeia. Claro que sua metáfora referia-se à cultura, entretanto serve muito bem para outro sentido, que são os dias de calor. Elegância, meu caro, para os dias de frio, é o sobretudo, o cachecol, a echarpe de seda por dentro da camisa. O sapato em lugar do chinelinho de dedo.


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POR EM 06/05/2012 ÀS 12:41 PM

Tudo o que aprendi sobre os 90 anos da minha avó

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A juventude imprime nas pessoas a arrogância de se acharem capazes de fazer um discurso sobre alguém que já viveu 90 anos. Esse é um exemplo: Entre o dia em que nasceu e a tarde desde domingo especial em família, o sol já se levantou para acordar Zenaide 32.875 vezes. Ela superou em vários anos a longevidade de seus avós, seus pais, seus dez irmãos e seu marido.

Zenaide nasceu dois meses depois da Semana de Arte Moderna de 1922, antes de as casas terem telefone e televisão. Jamais aprendeu a nadar ou a dirigir pelo simples fato de ser mulher, mas não fugiu das aventuras que suas netas repetem até hoje, como as corridas de cavalo pelas fazendas de Minas Gerais. Ela apostava com o irmão Zezé, a caminho da casa das amigas dela que ele queria cortejar.

Quem vê essa senhora de fala mansa talvez não saiba quantas cestas ela já fez na quadra de basquete do colégio em que estudou em Franca. Depois do ginásio, Zenaide foi estudar em São Sebastião do Paraíso, na escola normal, e nessa idade aprendeu em aula particular algumas das habilidades que a fizeram equipar tantas casas com bordados e crochês dos bazares da igreja.

A idade avançada faz com que ela mesma não se lembre dos detalhes, mas a sensação geral é de satisfação. "Enquanto pude, fiz tudo o que quis" é a conclusão desta matriarca que iniciou a construção da própria família ainda na adolescência, em partidas de batalha naval com um certo Joaquim, que tinha família em Patrocínio Paulista e Ibiraci.


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POR EM 04/05/2012 ÀS 08:39 PM

Morte: um fenômeno irritante

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Por ser ofício invulgar, segurar em alça de caixão, conduzir inanimados definitivos para as catacumbas não deveria jamais se prestar ao regozijo de puxa-sacos e dos baba-ovos. Mas acontece. Eu sei que acontece. Dependendo da importância do defunto, seja ela patrimonial, cultural ou política — principalmente, neste último caso — os aproveitadores de acotovelam para conduzir o pobre diabo pra dentro do buraco. Se pudesse, se o coisa-ruim me acenasse o  seu tridente da escuridão da terra, eu sim os empurraria todos para o vazio da cova.

Sucedeu que o sujeito apagou aos 93 anos de idade, apesar dos cigarros de palha, da aguardente e carne de lata. Viveu pra dedéu e o povo da região garantia: era, sim, um homem de bem. Nasceu, cresceu, casou e procriou na roça, no mesmo casarão antigo em que seu pai e o pai do seu pai também nasceram, viveram e sumiram. Naquelas bandas, nunca se ouviu um só fato que o desabonasse. Ao contrário, era tido e havido como justo e correto, “apesar de namorador e aficionado pela pinga na sua mocidade”. O povão maledicente sempre cavouca, pesquisa ou inventa algum deslize no qual se arvorar para denegrir, nem que seja um pouquinho, a reputação de quem quer que seja. Maldadezinhas básicas. Coisas de ser humano. Pois bem, acontece que o velho foi pego por uma gripe e terminou adoecendo profundamente. A moléstia evoluiu para uma pneumonia dupla (é assim que se diz vulgarmente quando a infecção atinge ambos os pulmões), que avançou para a tal infecção generalizada. Daí, vocês já sabem: o bicho pega, fica difícil escapulir da senhora da foice.


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POR EM 01/05/2012 ÀS 05:53 PM

Vergonha na cara

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Será que é isso que nos falta? Esse jeito calhorda de rir de tudo, de fazer piada com tudo, de não levar nada a sério, isso tudo seria falta de vergonha na cara? 

O brasileiro lê no jornal que dos seis mil presos pela polícia federal em dois anos nenhum continua na cadeia. Todos eles roubaram, indiscutivelmente, e muito mais do que a galinha do vizinho. O que acontece com eles? Estão por aí, flanando com o sossego que nos falta, a nós, que perdemos o sono se não conseguimos mais pagar as contas rigorosamente em dia. E como reage o público? O brasileiro ri, porque alguém, que não gosta de perder tempo, inventa uma piada sobre o assunto. Pronto, estamos todos de alma lavada. O riso quase sempre nos dá uma sensação de superioridade ou dela resulta. Então, toca rir porque segundo um ditado popular, que deve ter nascido aqui, nesta terra de Santa Cruz, “é melhor rir do que chorar”. Um ditado importante, uma vez que serve de suporte para todo livro de autoajuda. Lembro-me então daquele ministro chinês (se não me engano da agricultura). Lembro-me de sua expressão aguardando o veredicto dos juízes.  Mas antes de ser mal interpretado, declaro-me solenemente contra a pena de morte.  O ministro chinês olhava para os juízes como quem se despede da vida. Uma expressão de vergonha pela má vida que levou. Qual seu crime? Aproveitou-se do cargo para enfiar a mão no dinheiro público. Foi condenado à morte. 


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POR EM 30/04/2012 ÀS 11:31 PM

Nem tudo o que é sólido desmancha no ar

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O ouro que bandeirantes, escravos e aventureiros extraíram de Goiás, Minas e Mato-Grosso, no século 18, foi repassado quase que em sua totalidade à Inglaterra, por força de um tratado que incluía a proteção militar a Portugal e suas caravelas ao redor do mundo. O aporte financeiro do ouro possibilitou à Inglaterra disparar a Revolução Industrial, bancando os custos da mudança de uma produção de bases artesanais por meio das associações de ofício para a produção em escala, tendo como força motriz a máquina a vapor. Vários países detinham o conhecimento para detonar a Revolução Industrial. Dentre eles a França, a Holanda, a Alemanha. Mas foi a Inglaterra quem amealhou os recursos suficientes para a grande virada na economia. Abriu assim as cortinas para o capitalismo contemporâneo. 

Hoje a economia global passa por crises. No entanto, o ouro continua a jorrar para certas empresas. Agora o ouro da Terra é a economia capilar, da computação em nuvem, das empresas pontocom. Conseguem sugar microgotas de sangue de economias e pessoas combalidas em todo o mundo, por meio das redes sociais. Empresas saem do zero a bilhões de dólares num prazo em que, no Brasil, mal daria para se tirar o CNPJ e o alvará de localização. Os recursos excedentes das empresas de computação em nuvem estão prestes a dar uma nova e espetacular guinada na economia. Engraçado que é um salto duplo carpado paradoxal: ao mesmo tempo para frente e para trás. Sócios do Google, do PayPal, da Microsoft e outros executivos megamonetizados de segmentos correlatos como o cineasta James Cameron (de “Titanic” e “Avatar”) fundaram uma empresa de mineração, saindo do virtual para o real. Não de uma mineração de cavoucar a terra e coar cascalho com peneiras e bateias. Isto não acresceria nenhum charme às suas personalidades já um tanto fulgurantes. Deixam isso para empreendedores mais toscos, de países emergentes, como Eike Batista.


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POR EM 28/04/2012 ÀS 03:01 PM

O centenário de Nelson Rodrigues

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O Brasil comemora o centenário de nascimento de Nelson Rodrigues. Num tempo de onda moralista, o jornalista e dramaturgo surpreende pela genialidade de suas peças e crônicas 

 

Nos tempos de uma poderosa tsunami moralista, na crença de que uma sociedade dos puros é possível e que já existe fora do Brasil, Nelson Rodrigues é essencial. Por isso vale a pena conhecer sua obra e, mesmo, sua vida — menos insípida do que se imagina. É do balaco-escracho a biografia “O Anjo Pornográfico — A Vida de Nelson Rodrigues” (Companhia das Letras, 457 páginas), do jornalista e escritor Ruy Castro. Se outros biógrafos são “frios” e pudicos, como o brasilianista John F. W. Dulles, ao narrar a história do político, jornalista e escritor Carlos Lacerda, Ruy Castro é expansivo e nada ortodoxo ao contar a vida do maior dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, morto aos 68 anos, em 1990, de trombose e insuficiência cardíaca, respiratória e circulatória. Além da biografia, o estudioso organizou parte da obra do cronista e romancista para a Companhia das Letras. Ao ser lançada, em 1992, foi saudada por Otto Lara Resende, Paulo Francis e Carlos Heitor Cony como uma obra-prima. Sempre exagerado (como ignorar a biografia de Lima Barreto, por Francisco de Assis Barbosa, e a de Assis Chateaubriand, por Fernando Morais?) mas parcialmente verdadeiro , Francis escreveu: “A biografia moderna, sem eufemismos, nasce no Brasil com este livro”. Otto, grande amigo de Nelson, notou escorregões, mínimos, e disse que é uma biografia exemplar. 


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POR EM 27/04/2012 ÀS 11:12 AM

40 sugestões de nomes infames para duplas sertanejas fadadas ao fracasso

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É como diriam São Francisco de Assis, Bruna Surfistinha e Os Anões do Orçamento (num país de escândalos diuturnos, será que alguém ainda se lembra deste bando de engravatados?): “É dando que se recebe”. Mesmo não sendo santo, ex-prostituta ou deputado corrupto, proporcionarei aos leitores desta crônica, sem qualquer ônus ou favorecimento financeiro, e com o espírito absolutamente franciscano, dicas incríveis de pseudônimos para duplas de cantores (?!) sertanejos (?!).

Abandonado à própria sorte, ceifado de qualquer nesga inspiratória relevante e inteligente, a mim ocorreu redigir um texto de linhagem conspiratória e, quem sabe, até mesmo risível (se não, desprezível). Eu pretendia bolar, concatenar, gastar tempo, cumprir obrigações legais e satisfações morais junto ao editor, garantindo um texto, arrancando sangue da pedra.

Então, num rompante de apelação, enumerei codinomes implausíveis para duplas de cantores sertanejos com gel nos cabelos, criaturas anônimas interessadíssimas no estrelato a qualquer custo, na riqueza e na respeitabilidade que a fama proporciona, ainda que a suposta celebridade seja uma besta quadrada, um redondíssimo zero à esquerda do ponto de vista cultural-intelectual. É claro: para que o sucesso venha a rodo neste prostituído universo da música comercial, fundamental será que se evite, sobretudo, acatar a lista abaixo. Ela é poço de cinismo e sarcasmo. 


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POR EM 25/04/2012 ÀS 11:10 PM

Vocação de brasileiro

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Estou cada vez mais convencido de que somos um povo cuja principal vocação é a pobreza. Nelson Rodrigues dizia que temos complexo de vira-lata. Mas o assunto dele era outro. E não adianta resmungar, dizendo que tem muito dinheiro. A maior pobreza não tem nada a ver com economia. Apesar de que, em muitos aspectos, seja filha desta. Legítima ou adotiva, suas relações são familiares. 

Vocês já repararam o que faz uma mulher pobre quando não aguenta mais olhar sua sala? Ainda não? Primeiro ela vai ao marido e, gritando, exige que ele arranje dinheiro, seja de onde for, porque ela não aguenta mais olhar aquela sala. Três anos, entendeu? Três anos olhando para a cara da mesma sala é castigo que ninguém merece. Ela chora, ameaça voltar para a casa da mamãe, mas, depois de algumas carícias, relaxa e dorme.

No dia seguinte, o marido sai para o trabalho madrugada ainda. Ela o espera ansiosa o dia todo. Os programas do rádio perdem uma ouvinte, que não consegue se concentrar em nada. Não ouve, não canta, não ri. À noite ele se chega com o nariz escorregando no chão e se confessa imensamente cansado. Só depois de muita insistência da mulher, informa que a situação está difícil, que não pode arriscar perder o emprego, e que, por fim, nem pensar em dinheiro. Ela senta: os olhos nas mãos, as mãos no regaço e assim fica até a hora de dormir. No fim de semana os dois se atracam com os móveis existentes e ao cabo de uma hora a sala é outra. Os móveis foram todos mudados de lugar.


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POR EM 20/04/2012 ÀS 07:04 PM

Meu querido mafioso padrinho de casamento

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Enquanto mirava pelo vão da cela a lua dependurada no céu estrelado, Sepúlveda Embornal — mais conhecido na raissoçaite como “Nhambuzinho na Capanga” — pensava no pai que fora sepultado pela manhã. E ele ali: preso, sem que ao menos pudesse prestar ao velhote — que foi quem começou todo aquele emaranhado de negócios lícitos e escusos super bem sucedidos — uma derradeira homenagem, enquanto a urna de pau brasil cravejada com penduricalhos de ouro descia no vazio da cova, ao som de “Carinhoso”, tocado magistralmente por um trio de cordas.

Abatido por um desgosto profundo que fez explodir um aneurisma no meio da gelatina cerebral, o barão teve morte súbita ao tomar ciência que o filho fora capturado, acusado de tráfico internacional de órgãos humanos e outros crimes menores deveras corriqueiros como rinhas de galo, compra de votos para correligionários, tráfico de influência nos vários poderes da república dos bananas, desmatamento da floresta amazônica para comercialização ilegal de madeira, destruição do cerrado pra fazer carvão e criar nelores, dentre otras cositas más.

O esquema era o seguinte: raptar e executar menores de rua, de preferência aqueles viciados que perambulavam pelas várias cracolândias do país, além da estripação dos mesmos e contrabando das vísceras. “No futuro, a história vai reconhecer o meu papel: estou prestando um bem imensurável à nação, ao retirar do convívio social estes jovens degenerados ”, lamentava Nhambuzinho em suas reflexões neonazistas. 


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POR EM 18/04/2012 ÀS 10:36 PM

Um dia, um autógrafo

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Jorge AmadoEu não sabia o que era ser adolescente, naquele tempo. E era um. Também não sabia que o Brasil era o país do carnaval nem onde ficava a Bahia, da qual sabia apenas o nome da capital, Salvador, e seu adjetivo gentílico — soteropolitano. Coisas que a escola nos obrigava a decorar e que o tempo vai preenchendo com significados. No já extinto Colégio Ruy Barbosa, de Porto Alegre, vivíamos de sonhos, cerveja e literatura. Foi o tempo em que me tornei frequentador renitente da Livraria Globo, na rua da Praia. Sentava num dos corredores que havia entre as altas estantes de livros e lia orelhas e contracapas com zelo e método de um beneditino. Um dia uma daquelas estantes me jogou nas mãos uma capa estranha, de Clóvis Graciano, e me fez ler uma orelha mais estranha ainda, falando de um Brasil diferente do meu (paradisíaco, naquela idade), enfim, dizendo umas coisas que a princípio me assustaram. Não consegui sair da livraria, naquela distante manhã, sem levar comigo “O País do Carnaval”, da Editora Martins. Depois do primeiro, tive de ler todos. Com a voracidade de quem acaba de descobrir as cores do mundo. Eu estava tomado, confuso, assustado, perplexo. Mas então é assim, a gente pode escrever estas coisas todas, sobre gente com a nossa cara, sobre cidade com a cara da nossa, sobre um Brasil muito mais real do que aquele com que nos entopem nas escolas? Na medida em que devorava os livros de Jorge Amado, aumentava o deslumbramento, a paixão, que por fim explodiram numa certeza: —  Eu vou ser escritor, foi o que disse quando um dia cheguei em casa. Ninguém riu, nem talvez tenha acreditado. Era tido então, senão até hoje, como um tipo meio desajustado, desses que não devem ser levados muito a sério. 


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