revista bula
POR EM 06/06/2012 ÀS 03:45 PM

Uma brisa gentil

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Não me lembro do tempo que faz, mas pouco tenho certeza de que não é. Estávamos a mangueira e eu dando água às plantas do jardim (naquele tempo era eu quem tomava conta do jardim) quando uma brisa um tanto gentil passou por nós. Passou também pelos ciprestes, e os quatro sacudiram-se saudando a brisa. Então observei os ciprestes e aborrecido pensei que estavam mais ou menos da mesma altura da semana anterior. O mais alto, de dois metros, foi o que mais se inclinou na saudação. Estava a ponto de ficar irritado com tanta morosidade quando tropecei num balde cheio de água e tomei um banho involuntário. 

Minha pressa lembrou-me de uma história contada pelo Adamastor, meu escudeiro importado do Sul da África e que já teve boas relações com o Luís. Qual Luís? Ora, ora, aquele Vaz de Camões, que registrou a historio do Adamastor em “Os Lusíadas”. Voltando ao Adamastor, ele me contou que um amigo seu, texano daqueles de chapéu, foi visitar a Inglaterra. Não muito longe de Londres conheceu um castelo e ficou deslumbrado. O palácio, impondo-se aos prédios menores, o parque, com seus gramados e jardins imensos, tudo era perfeito. 

De volta ao Texas, depois de ter conversado longamente com o dono do castelo, durante um chã ao ar livre, contratou um arquiteto e um agrônomo e os mandou para a Europa. Copiassem tudo, até os mínimos detalhes. Suas ordens foram cumpridas, e o texano reproduziu nos EUA o castelo que conhecera no velho mundo. Até a inclinação da colina, suas ondulações, tudo foi copiado. 


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POR EM 04/06/2012 ÀS 10:22 PM

A ética da estética

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Escultura de Gunther von HagensJá tratei desse assunto alhures (Revista Filosofia Ciência & Vida, ed. Escala), mas volto a ele por conta do anunciado fechamento do Lixão de Gamacho (o aterro sanitário Jardim Gamacho, em Duque de Caxias, RJ, o maior da América latina), retratado no documentário “Lixo Extraordinário”, do artista brasileiro radicado nos EUA, Vik Muniz. 

Entre os extras da caixa da Versátil para “Decálogo” do diretor polonês Krysztof  Kieslowski, há uma entrevista dele a um grupo de jornalistas poloneses muito interessante. Respondendo a uma pergunta a respeito de sua decisão de abandonar os documentários e se voltar exclusivamente pra ficção, Kieslowski pondera que tal decisão se deu por ter percebido ser impossível realizar documentários sem se envolver com os sujeitos do lado de lá da câmera. Uma situação que se configurava um dilema ético que, pra ele, tornou-se insuportável, o que o fez optar por evitá-lo. 

Situação idêntica aconteceu com os realizadores de “Lixo Extraordinário”. Estes são registrados conversando sobre a mudança que estavam provocando nas vidas de seus protagonistas. Num primeiro momento, ficaram surpresos com a atitude positiva, orgulhosa (no bom sentido) e otimista dos catadores entrevistados. Acostumaram-se com isso. Mas num segundo momento, à medida em que esses saíam de sua rotina para ajudar no projeto de Vik, realizando, portanto, algo “mais nobre” e podendo vislumbrar até uma melhora de vida, começam a revelar seus verdadeiros sentimentos em relação à sua atividade: não queriam voltar pra ela. Afinal, a intervenção dos documentaristas estava sendo boa ou má? Seu projeto até poderia resultar em ganhos pra comunidade e pra associação dos catadores, mas poderia acontecer que não mudasse (individualmente) a vida de ninguém. Se Kieslowski visse o filme, certamente diria: “Eu não avisei?” 


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POR EM 01/06/2012 ÀS 06:40 PM

Quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro

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Ali estava ele sentado à frente de seus pares na Câmara Comum dos Iguais. Magro como o salário de cortador de cana, cabisbaixo como um cachorro que acaba de ser admoestado pelo dono, desamparado como quem perde um pênalti, ele ouvia o relatório prolixo do Excelentíssimo Relator de Relatos Mirabolantes da CPI (Comissão Palhaçamentar de Incrédulos). Na mira dos colegas, ele era o alvo perfeito. Apesar de combalido pela insônia e a visceral inapetência das últimas semanas, em que denúncias profundas escorraçavam a sua pessoa, o sujeito parecia um boi-de-piranha perfeito.

Acuado como um porco prestes a ser sangrado, o acusado Membro da Câmara Comum dos Iguais sentia que o embate era desigual, algo do tipo “uma coisa orquestrada para fritá-lo em nome da verdade”. Nas entrevistas, muitos Confrades mentiam que seria preciso cortar a própria carne da instituição, salvar a imagem da casa frente aos olhos de Deus, dos jornalistas e da opinião pública.

Enquanto ouvia a longa fala do Excelentíssimo Relator de Relatos Mirabolantes, ele encarava com muita mágoa a plateia feroz de engravatados, seus ex-parceiros de conhavos e cafezinhos no subsolo. Do banco dos réus podia enxergar a todos, inclusive um Confrade Federal que comprara grande parte dos votos no seu curral eleitoral, através de doações ilegais de combustíveis e vale-motéis. Notou a presença do colega do Estado de Distâncias do Norte, eleito com milhares de votos daquele povo miserável e semi-analfabeto, à custa de ameaças de paus-mandados armados com mutchacos e motosserras. Outro companheiro da Câmara Comum dos Iguais mirava-o com desprezo. Logo ele, ex-pastor-pederasta da Igreja Universal da Pimenta do Reino, supostamente envolvido em bacanais pedófilos num apartamento oficial cedido pelo governo, bancado pelo contribuinte. 


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POR EM 31/05/2012 ÀS 02:21 PM

Vadias, putas: E a liberdade da mulher?

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Foto: Cláudio MacielNão é fácil ser mulher. Na verdade, nunca foi fácil. E não é preciso ser uma — eu não sou — para saber disso, basta conhecer um pouco de história e, enfim, observar o mundo. Um homem sem camisa está apenas com calor, uma mulher sem camisa, se em público, é uma vadia. De objeto de desejo (notem bem o “objeto”) à puta em um pulo, a depender do contexto ou do interlocutor, mas jamais algo natural.

Elas já foram bruxas, já foram incapazes de votar, de andar sozinhas (na Arábia Saudita ainda são pouco melhores que cães, e isto porque quero ver encontrar um cão por lá, os Árabes não são seus maiores fãs), de pensar... Meros objetos (de novo) para o prazer masculino.

Prazer mesmo elas não sentem.  Os dez segundos até o garanhão chegar ao gozo, se não forem suficientes para a mulher, azar o dela. E nem pensar em se masturbar para compensar, é pecado. Mulher que pensa é um perigo, a que cura é bruxa, a que enfrenta a adversidade e luta para ser alguma coisa é... inaceitável!

As mulheres nunca foram relevantes na história, salvo exceções. Não por não serem capazes, pelo contrário, mas por serem impedidas de viver livremente e, quando o faziam, a história buscava apagá-las. O pior de tudo isto é que não falo de um passado distante, mas do século 21, de hoje. E não apenas da Arábia saudita e semelhantes, mas em grande parte do Brasil. Com o crescimento do fanatismo e alcance de igrejas (neo)pentecostais, o silêncio governamental, o aumento do conservadorismo da população vemos episódios de brutal violência contra a mulher e contra sua liberdade — sem contar com o aumento assustador da homofobia, que também vitima mulheres, mas isto é assunto para outro artigo.


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POR EM 29/05/2012 ÀS 10:09 PM

Uma cena banal

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Não sou do tipo que sente prazer em bater pernas nos corredores de supermercado. Nem física tampouco intelectualmente isso me dá algum tipo de satisfação. É uma das obrigações mais aborrecidas de que fujo sempre que posso. E posso quase sempre. Apesar disso, e por puro espírito de solidariedade, eventualmente acompanho minha mulher às compras. Não faz mal que ela se queixe do meu mau humor, se conseguimos, juntos, reduzir pela metade o tempo perdido entre aqueles corredores gigantescos que ameaçam o salário anão. Parêntese: sou bom na escolha de frutas mercê de minha infância entre sombras de pomares.

Pois foi na saída, no caixa de um supermercado, que minha mulher, empurrando nosso carrinho abarrotado, entrava no brete dos suplícios quando notou a chegada de uma jovem com um repolho na mão direita e um pé de alface na esquerda. Educada no respeito aos semelhantes, a Roseli ofereceu, com um sorriso nos lábios, a dianteira à senhorita das verduras. Eu vinha chegando com o barbeador que havia esquecido e parei observando a cena. Era uma cena banal de urbanismo e civilidade, mas fiquei encantado com o gesto que já esperava de minha esposa.

Quem não esperava tal gesto era a jovem, que, a princípio, e quase irritada, não entendeu o convite, depois passou agradecendo, atrapalhou-se na hora de pagar porque não parava de olhar para trás. Agradecendo sempre. Seu sorriso era de quem acabava de ver uma ave rara, de plumagens longas e vivamente coloridas. Foram segundos, apenas, que ela usou de nosso tempo. Posso ter piscado três, quatro vezes antes de começar o trabalho que me toca sempre: colocar as mercadorias sobre aquela esteira. 


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POR EM 25/05/2012 ÀS 07:17 PM

Todo marombeiro ignóbil será castigado

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Alguns amigos garantem que me pareço fisicamente com o cantor Robin Gibb, um dos Bee Gees, falecido recentemente por conta de um câncer intestinal. Considerando que sou fã do trio, e o texto a seguir se trata de uma espécie de dossiê a respeito deste cronista que vos escreve, decidi utilizar a foto de Robin neste espaço como uma forma de tributo. Ele começou uma piada. Eu continuo.

Após a publicação do texto “MMA: bate que eu gosto” — por mim psicografado, a partir do fantasma de Gandhi mais uma garrafa de tequila  (Calma, leitor. É só mais um chiste: a culpa pela opinião é toda minha...) choveram, trovejaram na redação desta revista mensagens viris dos alfa-dominantes, declarações anti-crísticas, truculentas, verborrágicas, biliares, todas elas desabonando este franzino cronista. Coisas do tipo “quem, afinal, este fedaputa pensa que é” ou “este escritor viado não entende nada do assunto”.

Após uma mega-filtragem franciscana engendrada pelo editor que, por sinal, para a minha mais incompleta decepção (sempre se pode esperar outras surpresas desagradáveis dos amigos), é fã vitaminado dos embates de luta livre, apenas as mensagens raivosas que não continham ofensas cavernosas foram publicadas na coluna “Comentários dos leitores”. As demais infâmias e difamações, ao contrário do que diria um astuto advogado, estão armazenadas no porão de todo esquecimento.


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POR EM 19/05/2012 ÀS 07:48 PM

Uma coisa inútil

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Alguém pode me dizer qual é a utilidade do amor? Até hoje ninguém me convenceu. Ele, o amor, é inteiramente inútil. Como a vida. Não tem utilidade. Ter filhos, amigos, tudo tão inútil como a arte. Uma ideia, esta da inutilidade, que me parece ter comparecido em algum escrito de Kant. Na Crítica da Razão Prática? Não sei. E essa ignorância em assuntos filosóficos me dá coceira no corpo todo. Bem, se não foi o Kant alguém deve ter dito isso, e juro que não fui o inventor.

Penso nessas coisas quando tenho de ouvir umas pessoas dizendo que literatura é uma coisa inútil. Sou obrigado a concordar. Se amigo e filho têm utilidade não são mais amigo e filho, passando à categoria de instrumento. Enfim, servem para alguma coisa.

Apesar disso, continuo lendo, e cada vez com maior paixão. E continuo vivo nem sei pra quê, pois se a vida também é inútil. Essa é uma afirmação perigosa, em alguns sentidos letal, pois há pessoas que não se interessam por coisa alguma que não tenha utilidade.

Pois bem, nem todos tiveram o prazer de ler “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto. Aquele final fabuloso, em que o mestre carpina não consegue justificar por que continuar vivo. “.../mas se responder não pude/à pergunta que fazia,/ela, a vida, a respondeu/ com sua presença viva.” Tinha acabado de nascer um menino.


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POR EM 18/05/2012 ÀS 11:17 AM

MMA: bate que eu gosto

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Cabeçada. Dedo no olho. Mordida. Puxões nos cabelos. Beliscões. Cócegas no sovaco. Arranhaduras. Cusparada no rosto. Chute no escroto. Murro no escroto. Mordidas no escroto. Qualquer tipo de ataque contra os preciosos escrotos. Golpear os rins utilizando os calcanhares. Enfiar o dedo no ânus, nas narinas, nos ouvidos, ou qualquer outro tipo orifício, tais como cortes e lacerações. É proibido enfiar o dedo na ferida, literalmente.

Telefone (técnica de tortura muito utilizada pelos antigos regimes militares, que consiste em palmadas simultâneas nas orelhas). Porrada na coluna vertebral. Pancada na nuca. Cotovelada desferida de cima para baixo. Atacar a garganta. Chutar a cabeça do adversário como se fosse uma bola de futebol, enquanto ele estiver rendido na lona. Joelhada na cabeça, se o sujeito estiver prostrado. Arremessar o adversário para fora do ringue, como num desenho animado.

Segurar o inimigo pelas ceroulas. Utilizar linguagem imprópria ou abusiva no ringue (O que seria tão impróprio e abusivo: “Tô pegando sua mulher”? “Vem no colinho do papai”? “Deus não existe”? “Você é amigo do Carlinhos Cachoeira”? “Seu pênis é menor que o meu”?). Passar na superfície do corpo gosmas e melecas escorregadias. Imitar um bagre ensaboado. Atacar o adversário nos intervalos. Desistir do combate. Acovardar-se. Fingir lesão. Fingir compaixão. Jogar a toalha durante a luta. Cair na lona de joelhos, estender os dedinhos indicadores para o céu e agradecer a Deus por ter destroçado o adversário.


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POR EM 14/05/2012 ÀS 09:52 PM

Utopia

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Muitas vezes tenho encontrado a qualificação de fulano ou beltrano como utópico. E isso de maneira pejorativa. Utópico como defeito, adjetivo que condena o pensamento de uma pessoa. Isso acaba mexendo com essa mania de procurar o sentido exato das palavras, mania que teima em não me abandonar. A maioria das pessoas usa as palavras em acepções tão disparatadas que provocam ambiguidades prejudiciais ao verdadeiro sentido pretendido. São famosos os casos de duplo sentido que levaram a algum tipo de desastre. 

Outro dia, por exemplo, ouvi um caminhoneiro atacar um advogado, com quem estava irritado, chamando-o de ignorante. Pelo comportamento geral (e Deus me livre de menosprezar o caminhoneiro como ser humano), o vituperador não teria mais do que três ou quatro anos de escola. Ora, ignorante, segundo o Aurélio, é a pessoa que não tem instrução, que não sabe nada ou sabe pouco. E a pessoa que xingou tanto não sabia o que falava que não sabia o significado da palavra. Só pelo contexto era possível entender que ele não estava querendo significar a falta de conhecimento do advogado. Mesmo assim, parecia muito contente com o que havia dito. Tenho consciência de que a língua não está lá dentro do dicionário, engessada e pura. Ela está na boca do povo, que a usa e transforma. Em gramática histórica não se aprende que são as crianças e os adultos incultos os que, por ignorância, transformam a língua? Noctem não se transformou em noite nos escritos de eruditos. Isso aconteceu na boca dos falantes de menor cultura. 


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POR EM 11/05/2012 ÀS 04:07 PM

Deus embarca pessoas em helicópteros que explodem

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Quando se tem de cara a morte, o ser humano é capaz de comportamentos os mais extremos, como esmagar a garganta de um agressor potencial, rir em sinal de desespero, desfalecer, ou tentar parar as balas com as próprias mãos.

Acostumados ao serviço digno e sujo de verificar carniças humanas, os peritos criminais bem sabem como são corriqueiras as mãos destrocadas por projéteis nas vítimas de execução, à queima roupa, por arma de fogo. Quanta miséria... É muita ingenuidade da vítima crer na compaixão extemporânea de um facínora ou na eficácia de um escudo tão vulnerável quanto as próprias mãos, feitas de pele e ossículos.

Dizer o que se oferece dizível, repetir apenas o repetível, propalar comentários insensatos parece ser uma das normas àquelas pessoas tomadas pelo trauma psíquico e pela profunda crise existencial. No jornal que leio há uma entrevista emocionada de um detetive que escapara por pouco de morrer na queda de um helicóptero. O acidente, contudo, ceifou a vida de sete dos seus desafortunados companheiros de trabalho.

“Deus me tirou daquela aeronave na noite de ontem”, ele comemorou com os repórteres, ao justificar que não embarcara com os demais por conta de “incidentes de última hora”, alguma coisa do tipo “terminar minha declaração de imposto de renda” ou “deixar o carro da esposa na revisão na manhã seguinte“. Baseado nesta assertiva de quem acaba de escapulir de um mergulho na imensidão do nada, deduz-se que o Mentor do Universo selecionara, colocara outras tantas pessoas desavisadas no interior daquela máquina mortífera, por puro capricho, por simples merecimento das vítimas escolhidas a dedo, ou por meio de um planejamento morticida-ressuscitatório absolutamente incompreensível à mente humana, para não dizer inaceitável. Ora, declarações como aquelas são só coisas impensadas que dizemos a esmo, como “eu te amarei para sempre, até que a morte nos separe”, por exemplo.


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