revista bula
POR EM 17/05/2008 ÀS 12:42 PM

Garrafadas, arruda e alecrim

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Muito antes daquele filme“Forrest Gunp” com o brilhante ator Tom Hanks já se sabia que o mundo é, de fato, dos imbecis. Ocupam a terra de cabo a rabo.
 
São sempre meio bonzinhos, dissimulados, cordatos, humildes, familiares, agradam às maiorias pela sua imensa capacidade de aceitação, concordância e sorriso idiota congelado no rosto. Mas também podem ser arrogantes e cruéis quando querem ou quando se sentem fortes, amparados por seus conhecimentos de leis, de matérias outras que regem comunidades ou quando têm dinheiro ou palanque. Imbecis são os seres mais ecléticos do planeta e podem ser encontrados desde as maiores cidades do mundo como Nova York ou México ou as menores passando por praias paradisíacas, escritórios bem sucedidos, segundos cadernos de todos os jornais que tratam de cultura e amenidades, literatura, música, teatro, cinema e coisas afins ou nas mesas dos bares tomando uma inocente cerveja. 
 
Afinal, é bom repetir, imbecis são sempre as maiorias e têm perfeita convicção de que o mundo é deles já que estão em todos os paises e em todas as eras do planeta. 
 
Sempre provocaram muitos estragos na humanidade e livros e livros foram escritos para contar feitos históricos causados por essas formigas infiltradas no globo terrestre. 
 
Seus raios de ação vão desde o cotidiano, passando pelas guerras, os debates do que chamam grandes temas até as maiores inutilidades que, tratadas por eles, parecem coisas relevantes para a vida, mas não passam do que seu nome sugere: inutilidades. 
 
Sim, imbecis adoram inutilidades como debates intermináveis sobre quem é melhor que quem na literatura ou nos esportes ou conferências com nomes pomposos do tipo as “Influências da arquitetura colonial holandesa sobre os mocambos do Recife” ou “Como se tornar um grande homem em dez lições edificantes enquanto saboreia pão com maionese” ou ainda “Don Quixote, o sexo e as utopias modernas”, etc...
 
Essas conferências que estão muito na moda atualmente estão repletas de imbecis que pagam alto preço pra se sentirem inseridos no mundo e discípulos do espertinho conferencista da hora. Leia nos jornais os temas oferecidos, são infinitos e, via de regra, atrai imbecis em massa, têm sobre eles um poder incontestável. 
 
Imbecis pensam ser ilustrados ou correm atrás de ilustrações para exibir nas rodas. Olhe pro lado e vai identificar quase todos eles. Podem estar incorporados àquela secretariazinha que fala gerúndico, a linguagem da moda até o chefe dela que é figura notável nas homenagens das colunas sociais eletrônicas. Estão muito bem representados nos programas de amenidades da TV cultural de Goiás; pode ser aquele marido que cumpre suas funções conjugais todas as quartas e sábados para manter vivo seu casamento e seguir os preceitos do “até que a morte nos separe” que prometeram numa igreja ou num cartório. Ouço dizer que transam muito mal, mas isso não se pode provar.
 
Um imbecil também costuma aparecer disfarçado de grande literato assinando livros e colunas jornalísticas que servem de modelos a outros imbecis e são alvo de elogios nas seções de cartas dos leitores. As academias de letras estão cheias deles, arrotando cultura e erudição, meio que cheirando a naftalina.
 
Intelectuais provincianos são sempre imbecis.  Quer saber? Imbecis podem até ser governadores, presidentes de fundações culturais, já que no Brasil se vê de tudo e ninguém se espanta mais com nada.
 
As grandes empresas de pesquisa revelam índices altíssimos pra alguns imbecis e, naturalmente, só são pesquisados imbecis que com seus votos elegeram o outro. Assim fica tudo em casa mesmo, como dizem. 
 
Há que se tomar muito cuidado com imbecis em cargos de poder, ficam perigosos por se acharem escolhidos dos deuses e são capazes de cometer arrogâncias impensáveis sempre aplaudidos pelo séqüito que costuma segui-los. Grande séqüito é bom dizer, porque adoram puxa-sacos atrás deles todo o tempo incensando-os de forma convicta.
 
As Assembléias Legislativas e as Câmaras de Vereadores estão abarrotadas deles como de resto quase todo o Congresso Nacional.  Fazem muito bem o papel de capachos, limpa-trilhos e vaselina.
 
Nas artes em geral podemos observá-los com mais nitidez: por exemplo, imbecis detestam teatro de qualidade e são eles que fazem a festa de outros imbecis que lotam teatros em todas as cidades com esses espetáculozinhos caçadores de níqueis - sentem uma atração irresistível por comediazinhas tolas. Têm um riso fácil, naturalmente.
 
Mas costumam mesmo entrar em Teatros quando neles tem alguma cerimônia ou alguma homenagem a outro imbecil e, justiça seja feita, adoram freqüentar solenidades do tipo formaturas ou entrega de prêmios-aí estão no seu habitat.
 
Fogem, felizmente fogem de espetáculos com algum conteúdo e são capazes de alavancar a carreira e a conta bancária de qualquer pseudoartista imbecil que não exige deles mais que o riso fácil e superficial a que estão habituados.
 
No cinema a grande maioria dos filmes é feita pensando neles - não gostam de se sentir fora de moda, afinal. Poemas escritos por imbecis são reconhecidos com uma mera passada de olhos, faça o teste. Se forem poemas eróticos, então, são capazes de brochar o mais potente dos cidadãos. Também gostam de escrever sobre vultos de suas cidades de origem e são mestres em prestar homenagens a outros imbecis mortos.
 
Praticamente todo mundo convive com eles diariamente nas TVs, nas revistas, nos jornais, nos caixas de supermercados, nas universidades, nos consultórios, comemorando aniversários nas mesas das churrascarias – estão espalhados por aí e parecem sempre felizes, parecem sempre ter dado certo. 
 
Posso apostar que você conhece muitos, é ou não é? Michel Foucault dizia que só eles conseguem ser felizes num mundo tão caótico e turbulento porque sua convicta imbecilidade os protege dos problemas e das dores universais. Imbecis nunca se suicidam, pode prestar atenção.
 
Desconfio que o reino dos céus se houver mesmo céu, também é deles porque fazem por onde ganhá-lo, são sempre muito religiosos.
 
Não adianta esquivar-se de imbecis, multiplicam-se e se materializam como espíritos de escravos africanos nos terreiros de umbanda. Cada um deve neutralizá-los à sua maneira se não quiser morrer de irritação, tédio e mediocridade. Se você é um livre pensador e minoria no mundo tente alguma coisa que salve sua pele da influência pegajosa e daninha deles, o mal que causam normalmente é insidioso e dissimulado, fique atento.
 
Dizem os antigos que uma certa dose de agressividade saudável ou garrafadas de curandeiros e até ramos de alecrim e arruda ajudam a mantê-los afastados, mas acho mesmo que o que funciona é deixar de lê-los, ouvi-los, conviver e conversar com eles e, principalmente, deixar de freqüentar lugares que eles freqüentam. 
 
Conheço muita gente que tem conseguido mantê-los nos seus escaninhos assim. Experimente. Por via das dúvidas comece por mim não lendo esse artigo. 

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POR EM 06/05/2008 ÀS 06:16 PM

Yêda Schmaltz

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Dia 10 de maio faz cinco anos que deixou esse eito de mundo e foi embora a poeta, escritora, professora e artista plástica Yêda Schmaltz. A morte de uma poeta vai além da perda. Presto uma homenagem ao talento de uma mulher que foi exemplo para mim e uma geração de poetas e pessoas que gostam e apreciam a poesia e a literatura em geral.  Yêda era a criatividade em pessoa e nos legou uma obra espetacular, recheada de esplendorosa magia e alentadora da nossa necessidade de transformar, criando, destruindo, reconstruindo, metamorfoseando nossa existência.

Yêda era também uma emérita agitadora cultural e não descansava, intuindo coisas, matutando ações, angariando espaços para a divulgação das artes de uma forma geral e ocupando espaços que pudessem contribuir para que os poetas e escritores divulgassem seus trabalhos, sempre os recebendo com sorrisos e incentivos. Pode até ser porque ela morreu que eu estou aqui contando essas loas, mas acho que não apenas. Certo que a memória dela me é muito presente e cara e me regozijo, mas aquela mulher era um turbilhão. Fique claro que turbilhão aqui é no sentido poético, sendo de livre interpretação, no entanto. Ela é uma pessoa para ser lembrada sempre e nunca morrerá enquanto sua criação literária viver em mim e naqueles que gostam de poesia.
 
Eu abri este espaço para falar da saudade e da poesia dela, da qual sou um apaixonado. Para nosso deleite, catei trechos que sintetizam um pouco do que quero dizer de uma vasta bibliografia, onde constam mais de 20 livros publicados e quase trinta participações em antologias. Quero mostrar um pouquinho da poesia dela, que é tão grande e intensa.
 
9d - (uma anarquia) do livro "Ecos"  - 1996
 
Eu amo todo dia
e toda noite
 e não durmo repetindo
te amo te amo te amo.
 
Vesti tua imagem na pele,
sou a sozinha que
mais tem companhia:
tua lembrança forte
na minha cama
e toda a noite
e todo o dia eu amo,
coisa mais perigosa,
flor desfeita, rosa
não desabrochada.
 
Eu estou desacordada
de madrugada, chorando
que te amo te amo te amo,
imaginando que estás
neste momento mesmo
amando outra pessoa
e nem lembrando que eu existo,
escrevo poesia e prosa.
Amar é isto. Uma anarquia.
Mas que dor gostosa. 

 

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POR EM 02/05/2008 ÀS 11:00 AM

Sexo explícito

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A burrice do mundo chega a ser asfixiante para quem pensa, para os que necessitam de outro tipo de oxigênio além do que está contido na atmosfera, para os humanistas que ainda acreditam que o homem é um ser superior capaz de honrar a inteligência.
 
Tudo confirma a assertiva de Antonin Artaud, o louco, morto num hospício qualquer da França nas primeiras décadas do século XX: “A literatura está esvaziada. Não existe mais nada nem ninguém, a alma é insana, não existe mais amor, nem ódio. Não existe mais nem mesmo aquela inquietação que penetra no vazio dos ossos, só existe uma enorme satisfação de inertes almas bovinas, escravas da estupidez que as oprime e com a qual copulam sem parar, noite e dia...”. Impossível não concordar com ele no desespero contra uma vida conduzida por “um bando de criaturas insípidas que querem nos impor seu ódio à grandeza humana, seu amor pela estupidez burguesa” 
 
Vivemos num mundo que apenas sobrevive a cada dia que passa. Perdemos os critérios e parâmetros críticos para avaliar qualquer coisa, já que tudo parece abaixo da crítica e qualquer um e qualquer coisa pode ser alvo do ódio e da inveja dependendo do estado de espírito e do inconsciente do invejoso acusador.
 
Na literatura e no jornalismo o que escrever que tenha importância, possa ser compreendido e eleve o espírito dos leitores? Escritores e jornalistas também estão subjugados à mediocridade geral do mundo, fica difícil produzir literatura superior quando as regras da pasmaceira atingem a todos. Na música a quantidade de bobagens produzidas com sete notas supera o pouco que vale ouvir e ocupa os espaços nos veículos de comunicação de massa, basta ligar o rádio, a TV ou percorrer as gôndolas de uma discoteca. O melhor nesta área no Brasil ainda é o que se fez nos anos 70/80, nossos ídolos ainda são os mesmos, parafraseando um compositor popular.
 
Mas pode-se sempre recorrer aos clássicos conforme o gosto pessoal.
 
No teatro espalhou-se a peste das comédias ligeiras como única possibilidade de atrair o público; o teatro não é mais um lugar aonde se vai para se ver refletido no palco, com todos os conteúdos da alma humana expostos através dos temas que os grandes gênios da dramaturgia ousaram tocar. Agora só vale rir de si mesmo e da sua própria incapacidade para encarar a vida, os relacionamentos, as idiossincrasias. Nem há mais idiossincrasias, tudo foi igualado, há um só critério para observar o mundo, quem escapa dele é taxado de inadequado, excêntrico ou inconveniente. E ainda existem os tipinhos pigmeus culturais que adoram uma discussão sobre picuinhas particulares, fofocas de repartição pública e que sabem como ninguém baixar o nível de qualquer coisa que não esteja de acordo com suas ideiazinhas medíocres. Por conta deles é que o mundo não caminha mesmo. O melhor é ignorá-los, deixá-los fuçar sozinhos nos porões que conhecem bem.
 
Há anos, décadas, não há mais clima para a criação de grandes movimentos culturais ou alguma revolução que nos conduza a novas idéias sobre os velhos temas – qualquer coisa nova, frágil e incipiente é imediatamente absorvida pela cultura de massa e vendida nas butiques como modismo, não dura mais que uma estação.
 
Até nas doutrinas esta ordem é seguida à risca. Católicos mascam os mesmos versículos há séculos e as novas igrejas se resumem em repetir e esmerilhar as mesmas palavras, com a diferença que sugerem que o paraíso pode ser comprado com dinheiro e ações concretas, caso agradem a Deus. Não há mais grandes pregadores como Dom Helder Câmara que trazia novas luzes ao velho evangelho e renovava as esperanças do povo através da compreensão do papel social do homem no universo. Frasistas como Nélson Rodrigues, Rubem Braga ou Darcy Ribeiro, espécies de alter-ego do povo brasileiro, capazes de apreender e conduzir comportamentos sociais desapareceram subjugados pelos discursos vazios e dissimulados de políticos demagogos, burros e oportunistas.
Ô mundinho mais ou menos, hein, leitor?
 
No entanto, mais que nunca é preciso alimentar e manter o bom humor acima disso tudo e garimpar o que de bom as coisas da cultura ainda oferecem; criar como se sua criação fosse evoluir o mundo um pouco mais; trabalhar para agregar homens e ideais num único diapasão; repensar e refazer caminhos conhecidos e acomodados.
 
Se você é daqueles que ainda sentem prazer em ler um bom livro, ouvir música de qualidade, conversar sobre temas que enriquecem e respeitam sua inteligência, assistir um espetáculo que arrepia os pelos do braço, ver um filme que se aprofunda na alma humana e correlatos e afins, então vai ter de recorrer a coisas que, aceleradamente, vão sendo consideradas dinossáuricas. E, o que é pior, vai ter de se comportar como aquele personagem grego que saía com uma lanterna na mão procurando um único homem honesto. A diferença é que não vai ter o trabalho de procurar homens honestos, cada vez mais raros. Vai precisar encontrar verdadeiros fósseis-vivos, aquelas pessoas que ainda têm prazer nesse borogodó fora de moda que é pensar e correr o risco de serem chamadas de passadistas, caretas, antigas, utópicas, sonhadoras, etc...
 
É o seu caso?
 
Agüente firme e vá em frente, vale a pena. 
     
PS: Esse título acima é pura provocação.     
Uma armadilha pra chamar atenção, atrair certo tipo de leitor e levá-lo a ler e,     
se for o caso, refletir sobre as idéias do artigo.     
Tomara que a armadilha funcione.     
Sexo é uma palavra mágica, né? Atrai sempre.     
Mais ainda quando é explícito.     
Sinal dos tempos. 

 

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POR EM 23/04/2008 ÀS 08:35 AM

O grito de Nietsche

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Carreira vai, carreira vem... Quantos se dão bem nas carreiras, embora sejam uns quartas-feiras... Outros vivem às carreiras, a driblar a lei e a polícia, por terem feito bandalheiras. De repente, não mais que de repente, tendo se formado em Direito, por absoluta falta de opção a que, por mérito se habilitasse (já que não tem padrinhos importantes) Simplício entrou, por concurso, para a Policia Civil. Mesmo sabendo que neste ofício de viver a arapongar malfeitos alheios, viveria jodido pero contente, a refocilar no excremento da miséria humana.
 
Quanto ao curso, que o chateou na sua parte prática - a do carrascal das leis e prolegômenos propiciadores da Justiça sem Direito, ou de Direito sem Justiça, propiciou, no início ( dito básico) poder de-morar na filosofia, a parte não árida e até mesmo inspiradora a dar boas vindas (e falsas boas notícias) aos futuros operadores da ciência de querelar em torno de perlengas, destemperos e desinteligências do animal humano, sempre em guerra com os outros, assim como de si mesmo é o maior inimigo: o mais perigoso animal a ser temido.
     
Pacifista e incapaz de machucar uma mosca, cedo deu adeus às ilusões de que é possível ser filósofo e poeta exercendo o difícil ofício de pedir deferimento a juiz togado peticionando para dirimir e solucionar demandas em torno do ego/ismo humano, sempre às voltas com lides ligadas a posse , uso e usufruto de pessoas, corpos humanos, alentados ou miseráveis patrimônios.
     
De todos os colegas de turma fora, sem dúvida, o mais "avoado", ou "lunático", no sentido de estar sempre a ler e comentar obras da filosofia clássica ocidental - partindo de Pitágoras, Demócrito, Heráclito, passando por Platão, Sócrates (com suas idéias sobre a construção da sociedade perfeita a partir do cidadão perfeito), e chegando até os aforismos de Nietsche, os que mais falaram alto à sua sensibilidade. Não saia de sua boca a sabedoria pré-socrática de Demócrito: Por convenção é o quente, por convenção é o frio. Mas, na realidade, só existem os átomos e o vazio... na verdade, nada compreendemos, pois a realidade jaz no que é profundo". Riam dele e de Demócrito os levianos e os superficiais da Faculdade, que eram quase todos.
        
Todos, ao vê-lo comentar as frases cortantes de "Ecce Homo", ou de "Assim falava Zaratustra", ou da filosofia socrática, comentavam, á boca pequena: "Só sei que este caboclo, se ainda não pirou, cedo ou tarde vai surtar, e feio". Ele mesmo chegou a escutar rumores neste sentido, mas não ligava, atribuindo o fato ao preconceito que os ignaros dedicam a quem, mais minimamente, dedique-se a cultivar um pensamento menos ligado ás rasuras do individualismo estreito, tão somente afeito a assuntos prosaicos, de satisfação dos desejos de consumo, à orla do que de verdade importa na existência humana: o contato com a essência, o Eu Verdadeiro, que não se realiza no que é vazio ou efêmero.
        
Uma tal criatura não teria o menor futuro como operador do direito - eis o que diziam os seus colegas pragmáticos - pensamento compartilhado também pelos professores, muitos dos quais haviam atingido os mais altos postos nas várias carreiras jurídicas, sendo juizes, ou até desembargadores, todos de "caráter impoluto e sem jaça", como dizem uns dos outros (sem ter a menor fé na verdade do que falam): vivendo, não obstante a pompa e a circunstância da pose flatulenta de eminências, vidinhas sofridas e estressadas, pois que obrigados a trabalhar como mouros, para dar conta da mordomia em que viviam parentes e aderentes agregados ao seus muitos salários.
          
Futuro ele não teve mesmo, uma vez que, desacorçoado de tanto levar pau em concursos para delegado, promotor, juiz de Direito, e o escambau, acabou por não se dar mal em um concurso para agente de polícia. Coisa muito menor do que suas ambições haviam aspirado, mas fazer o que? As contas chegando, encavaladas, a família cobrando com ferocidade, a acusá-lo de ser um eterno desempregado crônico, concurseiro contumaz (e mal sucedido em todos, andava com a auto-estima mais por baixo do que girabrequim de sapo).
        
Quem não tem cão, caça com gato, Já que o destino lhe foi infausto, e não lhe permitiu dar o grito de Nietsche nas altas esferas da magistratura, seria apenas mais um barnabé juramentado, a gemer e lamuriar-se, ganhando mal pra cachorro, e comendo o pão que o diabo enjeitou, no vil ofício de investigar sem punir pequenos ou horríveis crimes perpetrados por cidadãos acima e abaixo de qualquer suspeita. Ser araponga do governo pareceu-lhe um destino bem inferior àquele que almejara, em seus esforços por aprender, de modo maximizado, os altos e relevantes preceitos filosóficos da ciência do Direito.
        
Que animal mais insensato e voraz é o Homem: sempre a pensar que ser feliz é conseguir coisas. Sempre a desejar chegar em outro lugar. Nunca contente em ser o que é, e em estar onde está. Sempre a fazer uma coisa para alcançar outra. Que, quando é atingida, revela não ser a coisa ambicionada. Sempre a querer encontrar o futuro naquela parte do passado (ou da ilusão da memória) em que pensa ter sido feliz. Sem ao menos poder deter o tempo do relógio, ainda quer rebobinar o filme do infinito - que só pode ser visto no presente ativo, de quando estamos verdadeiramente vivos!
        
Quantos não vivem a sonhar delícias, e têm visões do paraíso em que viverão, quando se formarem, quando passarem naquele concurso, ou quando ficarem podres de ricos? No mais das vezes, as pessoas colocam pedras, verdadeiras pedreiras, entre o momento de viver (o eterno presente) e a vida que idealizam em sonhos! Quando estão prestes a atingir aquilo a que aspiram, tomam outro desvio. E o fazem por terem medo de serem felizes, ou porque lhes falta a paixão de viver o sonho que vivem a idealizar. Tudo isto Simplício pensava, enquanto devorava como traça o pensamento profético de Zaratustra, que lhe ardia nas veias como um fogo vivo. 
 
O comportamento de Simplício no trabalho, ou no convívio com os colegas, era visto como estranho, próprio de pessoa que se sente inadequada, ou deslocada do ambiente e do círculo em que vive. Isto não obstante o esforço que fazia no sentido de fazer tudo igual ao que os colegas faziam, sendo uma peça anônima e invisível de uma engrenagem gigantesca, da qual não tinha compreensão nem domínio - e que, por sua vez, não estava nem aí para ele, e suas idéias contaminadas por abstratas lucubrações filosóficas, resquícios de embolorados humanismos de fundo ao mesmo tempo marxista e existencialista. 
 
Seus discursos sobre a prática social do humanismo integral, em todos os âmbitos da sociedade caíram por terra (ou mostraram ser apenas discursos de lunático) quando certo dia, em uma operação de rotina, ele discutiu com um cidadão, mero passante, passando a agredi-lo ferozmente, a poder de cassetete e cabo de revólver - um em cada mão, a desferir golpes violentos contra a vítima indefesa e inocente de qualquer culpa. Detido, foi difícil segurá-lo, já que espumava pela boca, em espasmos de loucura, talvez como Nietsche, seu ídolo, deu adeus à lucidez, entrando em loucura total, ao ver um homem espancar violentamente o cavalo atrelado a uma carroça.
        
"O guarda civil não quer/a roupa no quarador/". Sempre há um dia em que o guarda dá o grito de Nietsche. Em um dia ensolarado, bem na "hora espandongada do almoço", Simplício deu o seu grito primal, quem sabe se em situação-limite! Berro insano, seguido de um acesso de violência tamanha, de inesperada selvageria, que até hoje ressoa, entre seus colegas de trabalho, ou talvez dentro dele mesmo, que desde então de uma vez por todas endoidou - afastado do "poder de polícia", expropriado de sua arma e distintivo, hoje vive meio que no vazio de não saber para que veio ao mundo - teria vindo para tornar-se um burocrata do aparelho estatal, como veio a se tornar, ou, sendo corda no abismo, não conseguiu ultrapassar o abismo que separa o homem do Super-Homem? Ninguém poderia afirmar com autoridade... nem mesmo os psiquiatras que o tratam, precisando talvez eles próprios de um "sossega leão" ou de uma reforçada camisa de força...

 

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POR EM 10/04/2008 ÀS 03:14 PM

Devoções de Dona Dalva

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 Pequeno e jocoso tratado do espiritismo         

Mulher sofrida, de alma calejada, e que já passara por tantas peripécias na vida, como ela mesma dizia, nem por isso esmorecia na luta pela sobrevivência. Mesmo com todas as vicissitudes, ainda que despojada de seus bens, enfrentava as situações adversas; saía a campo com o seu espírito de luta, buscava recursos, trazia soluções. E nada a impedia de dedicar boa parte da vida a praticar a caridade, ajudar os semelhantes.
           
Azuis, os olhos pareciam clarear a penumbra e as teias de aranhas no coração de cada um, como se ali vasculhassem velhos papéis, por isso não deixavam de causar um certo incômodo. Assim, com os olhos agudos feito facho de lanterna, Dona Dalva penetrava o interior das pessoas, ia dizendo tudo que havia dentro delas. Mexia com o passado, arrancava segredos, jogava as verdades todas pra fora. Pessoas havia que se envergonhavam, e umas que choravam, mas Dona Dalva compreendia e punha consolo. Benzia, dava passes mediúnicos, dava conselhos, ensinava simpatias, passava remédios e pregava o Evangelho Segundo o Espiritismo, a doutrina codificada por Allan Kardec. Foi indo, enveredou-se por caminhos que só levavam às encruzilhadas da fé e das crendices, superstições e desconfiança. Deu de misturar joio ao trigo kardecista, por assim dizer, num misto de centro espírita e terreiro de umbanda. Foi indo e veio vindo até o fim da vida de idas e vindas. Por onde a vida vai e se esvai, é no tempo e nas intempéries de seus caminhos que ela vai se esvaindo, até que vai indo e não vai mais. Volta e meia, a vida vai e não volta pra contar como é que foi. Às voltas consigo mesma, de si mesma se perde numa de suas voltas. Tantas as voltas que o mundo dá em torno do sol, que nem se sabe a quantas uma vida anda. Foi meio assim que Dona Dalva se perdeu no emaranhado das devoções, no cipoal de sua fé. Foi indo pelas sendas do kardecismo, enveredou-se por um desvio e acabou nuns terreiros umbandistas, indo-se de “aparelho” (médium) do kardecismo a “cavalo” da umbanda, ora servindo de “cambão” pra preto velho, ora se deixando “tomar” por entidades ruins, espíritos truculentos, desses que chegam bufando e escoiceando feito bode. E tome marafo, amiúde uma cachaça da pior espécie, e tome fedorentas baforadas de charuto barato ou cigarro de fumo igualmente ordinário, “macaia legítimo”, na irônica expressão de alguns. Velas pretas e vermelhas — uma vez Flamengo, sempre Flamengo — sobre as linhas de giz das simbologias; o cinco-salomão dentro de um círculo, e flechas, espadas e pequenas estrelas ao redor do cinco-salomão. Pontos de invocação aos espíritos desencarnados, pretos-velhos bonachões e outras entidades, se dando que também baixasse no terreiro algum “encosto”, espírito mau ou apenas atribulado, inconformado com a desencarnação e ainda apegado às coisas terrenas; espírito de pouca luz, em estado de choro e tristes gemidos, podendo que ali fosse chamado a fim de ser consolado e doutrinado; ou ainda, sem ser chamado, viesse de intrometido ou por conta própria um exu a mando da quimbanda, o lado negro do espiritismo, o baixo espiritismo, calcado em rituais de sangue, bruxaria, satanismo, a magia negra, enfim. Arruaceiro dos brabos, ali com os seus cascos, criador de casos e dotado de força bruta, um “esprito” desses dá muita canseira aos médiuns, assim como enfrentar um bêbado brigão, botando pra quebrar no bar da esquina de suas estripulias. De resto, a velha peleja do bem contra o mal, se bem que há males que vêm pra bem, embora nem sempre o bem seja o melhor que se tem. Também o Diabo não é tão feio como se pinta, como dizem, e até já existe a expressão “doce pimenta”, corroborando o velho ditado de que pimenta no curió dos outros é refresco. Tudo é relativo, diria Einstein, cuja Teoria da Relatividade tem sido questionada, variando-se o prisma conforme o movimento ou ponto de vista. E tem esse negócio de tudo que é ruim ser culpa do Diabo. Esse maniqueísmo do bem e do mal. Já pensou se o mal acaba? O que seria do bem? Só poderia ser o bem absoluto, a ir-se pela doutrina do persa Mani — donde maniqueísmo — ou Manes, lá no século III. Outra margem é supor que, se o Diabo morrer, Deus fecha o boteco. E vai viver de quê, aqui na Terra? Nesse caso, os guardiões dos rebanhos, presumidos representantes de Deus neste mundo, irão plantar batatas — o maná da gleba prometida pela reforma agrária —, para alimentar os famintos que assolam a face da Terra.          
         
O Diabo, o Diabo, o Diabo. Os pactuados afirmam que o cabra até que é um bom sujeito e prazerosa companhia, bom violeiro, bom jogador de sinuca e de truco, chegado numa pinguinha de engenho, ou pinga de alambique, e mulherengo que só ele, manhoso, molemolengo, todo cheio de dengos e chamegos por um rabo de saia, tão certo quanto ferrenho numa queda-de-braço, batuta numa briga e ligeiro num rabo-de-arraia, golpe traumatizante em que o capoeirista apóia as mãos no solo, gira o corpo sobre a cabeça e procura atingir com os calcanhares a cabeça do adversário. E se o adversário segura um dos pés do capoeirista, este usa a mão do inimigo como ponto de apoio para o rabo-de-arraia com um pé só. Dá pra encarar-se um demônio desses? Então vai lá e vê se encara.
         
Das coisas hilárias que se contam, uma delas é que Mané Preguiça, da turma de pinguços do naipe de Zé Bolacha e Bunda Murcha, foi ao terreiro de umbanda — aonde, na verdade, ia em busca do marafo dos pretos velhos —, e disse pro “guia” que estava com a vida atrapalhada, por causa de algum “encosto”. Recebeu a inesperada e exata resposta de que ele estava era precisando de caçar serviço e deixar de viver encostado nos outros. 
         
Dezembro de 1847. Coisas estranhas ocorrem na casa da família Fox — John Fox, sua mulher e as duas filhas mais novas, Margaret, de quatorze anos, e Kate, de doze anos —, em Hydesville, condado de Wayne, no Estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Fenômenos de casa assombrada, que deram origem ao Espiritismo, a partir das investigações realizadas por Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, ilustre pedagogo francês, médico e discípulo de Pestalozzi. Anos depois, Margaret e Kate confessaram à imprensa que tudo não passara de uma farsa e que não podiam mais viver com aquilo — o segredo, o peso na consciência e o sentimento de culpa —, e que se sentiam bastante arrependidas pelo que fizeram, obrigadas pela irmã mais velha. Por fim, pediram perdão às pessoas, por tê-las enganado. Na época dos fenômenos paranormais, que atraíram muitas pessoas à casa da família, e por causa deles, os Fox foram acusados de bruxaria e tiveram que se refugiar na casa da terceira filha, a mais velha, que morava em Rochester.
         
Codificado, mais tarde, por Kardec — antes da confissão de fraude das irmãs Fox —, o Espiritismo sustenta a existência de um mundo invisível, dissemina a tese da reencarnação dos espíritos e de estágios de aperfeiçoamento espiritual na Terra. No plano terreno — pois há o plano celestial —, a doutrina espírita difunde o Evangelho e se pauta pelos princípios humanitários, com a prática da caridade: Fé, Esperança e Caridade, o seu lema. Esperança é a última que morre, podendo que morra logo de saída, dada a sua mania de sempre sair na frente. O kardecismo, ou espiritismo kardecista, repassa o ensinamento da purificação: “Limpai o corpo e o espírito, como se limpa, por fora e por dentro, o copo e o prato”. Diante da assertiva de que a fé, mesmo do tamanhozinho de um grão de mostarda, remove montanhas, Dona Dalva pegava-se com todos os espíritos de luz, entre eles Eurípedes Barsanulfo, Bezerra de Menezes, Batuíra, André Luiz e Dr. Fritz. Pras bandas da umbanda, ia-se de apego pelo ícone de Zé Pelintra, um preto todo de branco — terno, chapéu e sapatos, típicos do antigo malandro carioca —, a cujo espírito ela servia de “cavalo”. Mas ela pegava pra valer mesmo era com o Divino Pai Eterno e a Santa Maria Madalena. Na verdade, pegava com Deus e tudo que era santo. Ao deitar-se para dormir, rezava assim: “Com Deus eu me deito, com Deus eu me levanto, com a graça de Deus e do Divino Espírito Santo”. Pela manhã, fazia a oração de São Bartolomeu, guardador de casas contra todo mal, sobretudo o roubo, além de protetor das mulheres na hora do parto. Pedia também a proteção de Santo Expedito, o santo das causas perdidas ou impossíveis. Conta-se dele, como se conta de todos os santos, uma história interessante: fora ele comandante da XI Legião Romana e, certo dia, tocado pela graça do Espírito Santo, decidiu converter-se. Surge-lhe, então, o espírito do mal sob a forma de um corvo, gritando: “Cras! Cras!” — palavra latina que significa “amanhã”. Mas Expedito não queria adiar sua conversão, por isso matou e esmagou o corvo, gritando por sua vez: “Hodie!” — hoje. Não é por menos ser ele invocado pra resolução de problemas urgentes e de difícil solução. O mais que se conta, e aqui falto de maiores detalhes, é que o convertido Expedito foi vítima da ira do imperador Deoclesiano, sendo sangrado até morrer e então decapitado.
        
 Dona Dalva tinha lá os seus oratórios e colocava pinga num dedal, pra adular Santo Onofre ao fazer-lhe pedidos, ou já como recompensa pelas graças obtidas; caso contrário, enterrava o santo — a pequenina imagem — de cabeça pra baixo, avisando-o que só o desenterraria quando ele cuidasse de suas obrigações e atendesse-lhe aos tais pedidos. Devota por demais, festejava os Santos Reis, a 6 de janeiro, e os três santos juninos, cujas datas, 13, 24 e 29, serviam-lhe de dezenas para uma fezinha no jogo do bicho, ou de uma possível milhar em frações lotéricas. Fechava o ano com o presépio de Natal, seguido pelo “Réveillon de pobre” — dizia com resignada ironia —, saudando o Ano Novo com um vinho tinto de má qualidade e sardinha enlatada, igualmente ordinária.         
         
Em outros tempos, Dona Dalva levara uma vida melhor, mas foi perdendo tudo pelas demandas da vida e terminou pobre, quase na miséria absoluta, vivendo da caridade alheia, ela que tanto já fizera pelos outros. O espiritismo, ela mesma dizia, não traz riqueza material — embora se possa dele sobreviver, como em outras religiões, algumas até, diga-se de passagem, primando pela descarada extorsão financeira ou de bens alheios, jóias, imóveis, automóveis, via de hipnose coletiva ou de lavagem cerebral que atinge as raias do fanatismo e a impunidade criminal, sob o manto constitucional da liberdade de credo, que, aliás, deveria ser revista, sob certos aspectos, no âmbito nocivo de suas práticas. Pobre Dona Dalva! Temerosa por sua casa construída em beira de córrego — invasão de área pública —, temia e esperava sempre pela tromba-d’água na cheia de São José, a 19 de março, mas não arredava pé de sua precária propriedade, pois era só o que tinha de seu, por direito adquirido de terceiro e pago com o dinheiro de seu suor, como enfatizava, alegando ainda os gastos feitos para ampliação da casa e outros benefícios, como instalação de água e luz, portanto pagando taxas e também o imposto predial. De resto, mesmo ali com a casa sendo alvo de enchentes, e constantemente perseguida por fiscais da prefeitura e do Estado, Dona Dalva fincava o pé e sempre se valia puxando pela lei de usucapião, desta forma protelando as perseguições, e para tanto gastando, sem poder, com advogados. Arraigada no sincretismo de sua religiosidade, por ocasião da Festa do Divino, em julho, partia a pé para as romarias. Na Festa de Nossa Senhora do Rosário — a santa dos pretos —, ou das Congadas, ia ver a santa e os pretos com suas danças e sedas coloridas. Outro santo de sua devoção era Sebastião, já nas trovoadas e chuvas de janeiro — “trovoadas de São Sebastião”, diziam os antigos —, aquelas que precediam o dia 20. E uma de suas santas preferidas era a protetora dos olhos, Santa Luzia, a 13 de dezembro, dia de banharem-se as vistas com água e alecrim ou aquela veludosa “plantinha de Santa Luzia”, deixados, de véspera, numa vasilha d´água, pra que a santa os santificasse e lhes desse o poder preventivo aos males da visão. As crianças sempre curiosas com aquele par de olhos azuis que a santa trazia num prato.
         
Abaixo de Deus, só Jesus era rei. Ainda assim, a polivalente Dona Dalva entrava em rodas de Pombagira, como também beijava a barra do estrelado vestido de Iemanjá e, nas causas de maior embaraço, recorria aos préstimos de Sete Flechas e do poderoso Tranca Rua, já que São Jorge Guerreiro, a 23 de abril, andava ocupado com o dragão na lua, senão campeando famigerados exus ou envolvido com os orixás nos candomblés da Bahia, e sabe-se lá se num rodopio de capoeira, vez que na Bahia basta um berimbau pra uma rasteira baiana, e qualquer coisa parecida com tambor pra começo de carnaval. Dizem que em noites de candomblé uma tal de cabocla Jupira é recebida por médium do sexo feminino, daí escolhe um dos homens e o leva a um quarto, pra fazer sexo com ele — quanto privilégio! Não se tem notícia de que Dona Dalva pegasse com a sensual Jupira, mas a cabocla Jacira era uma de suas tantas invocações. De permeio com Allan Kardec, ou de um transe a outro, havia o ritual umbandista de mãos dadas, formando uma corrente, e o punhal apontado pra lua; suscetível aos arrepios aquele que se deixasse envolver pela atmosfera do momento. E vá-se entender uma mulher como Dona Dalva: kardecista, umbandista e católica. Justificava-se afirmando que, assim como os homens se assemelham perante o Pai Celestial, todas as religiões são iguais em nome de Deus. Contudo, não escondia sua intolerância para com os Crentes, embora lhes tenha algumas vezes visitado a igreja e até deixado que a mergulhassem nas águas de um simbólico rio Jordão!
         
Na casa de Dona Dalva, certas sessões espíritas pontuavam-se por práticas burlescas e até um pouco de farsa, perceptível ao freqüentador atento ou mínima e necessariamente cético para então perceber, senão que ele próprio se dando ao jogo do fingimento, ou ainda, tomado pelo transe e sentindo-o arrefecer, mantendo-o de modo forçado. Por certo enganasse a alguns, mas não a outro igualmente atento, a não ser que um e outro fizessem por manter-se a farsa, mantida a cumplicidade. Lavem-se as mãos e leve-se Pilatos ao banco dos réus.
         
Bom mesmo, pros meninos que acompanhavam os pais nas sessões espíritas, era a incorporação dos gêmeos Cosme e Damião; os médiuns sentados no chão e, com a fala dengosa das crianças, pedindo brinquedos, guaraná e balinhas, exigindo que os meninos presentes brincassem com eles e compartilhassem balas e refrigerante. Uma festa, e uma graça aquelas entidades gêmeas, em corpo de gente adulta, arremedando o comportamento infantil, fazendo beicinho, emburrando e dando birra.
        
 “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas”, admoestação do Evangelho que amiúde se repetia ali nos trabalhos do Centro. Já em suas horas de instrução solitária, além das obras de Kardec, Dona Dalva lia A Cruz de Caravaca, o Livro de São Cipriano com capa de alumínio e, sob o argumento de que se deve conhecer as armas e malefícios do inimigo, folheava também o Livro Negro de São Cipriano, voltado para os feitiços. Costurando-se a boca de um sapo com o retrato da pessoa lá dentro, é o mesmo que costurar perereca de mulher puladeira de cerca. Isso não está no livro, é apenas um exercício ou excesso de imaginação aqui do autor; mas sabe-se que, a exemplo da galinha preta, não se descarta o sapo nas práticas de feitiçarias, tão certo quanto costurar-se na boca de um cavalo morto o nome da pessoa a quem se deseja o mal ou mesmo a morte. Também era certo que Dona Dalva sabia das coisas, tais como as orações de São Marcos Manso e São Marcos Bravo, além do Credo de trás pra frente e outras artimanhas ou invencionices. “Senhor, faça de mim um instrumento da vossa paz”, da oração de São Francisco de Assis, estava sempre em seus lábios, talvez pelo fato de ter sido uma mulher contraditória, caridosa por um lado e por outro muito conflituosa com os outros e consigo mesma, vítima de uma pilha de nervos. Quando não estava fazendo nada, jogava pedras nos entes queridos, mas queria bem a todos, não mais a este nem menos àquele, como fazia questão de ressaltar; caridosa e amorosa a seu modo, criava os filhos dos outros, pois ela mesma não podia concebê-los, em virtude de um “útero infantil”, ou útero virado, vá se saber. Gostava de agradar às crianças e tratar bem aos animais, acolhendo-os em sua casa, sempre cheia de meninos, gatos e cães. No dia de Cosme e Damião, 27 de setembro — fala-se em datas gêmeas, 26 e 27 —, promovia a festa de doces e bolos pra meninada, e de sete em sete anos, pelas graças concedidas por Deus num momento periclitante da saúde, cumpria a promessa de alimentar sete cachorros, colocando diante de cada um deles o prato de comida farta.
         
Pra não faltarem as coisas em casa — nem comida, nem dinheiro, nem saúde —, atirava ao fogo um punhado de grãos de arroz e feijão, açúcar e café, farinha de mandioca e cascas de alho e cebola. Pra purificar a casa dos maus fluidos, provindos do mau-olhado, da inveja ou olho-gordo, acendia incenso, defumador Indiano ou Pai Jacó. Na sexta-feira, botava para feder um chifre queimado — e não é que era até agradável? —, fumegando todos os cômodos da casa e, assim, afugentando de seu lar os espíritos malignos e outros flagelos que andam pela face da Terra. Um banho de descarrego, à base de ervas, livrava a pessoa de todas as urucubacas e de suas próprias inhacas, bodum, cecê ou catinga de sovaco, que o mais se curava à custa de taca com raminho de arruda ou de alfavaca, tudo rimando em aca e banhando-se com álcool e arnica.
         
Dona Dalva era “doutora”, conforme se gabava, meio que brincando, meio que se levando a sério. Dizia que Allan Kardec, professor ginasial de Lyon (França) e ordenador do Espiritismo, fora um médico e ela achava que também deveria ter estudado medicina e se tornado uma doutora de verdade. Outra hora, dizia que bom seria se fosse advogada, afeita que era aos argumentos em defesa de causas alheias ou advogando em causa própria. Já como doutora não precisava de nenhuma ferramenta pra realizar operações; ao contrário de outros médiuns, não enfiava bisturi, tesoura ou pinça no olho ou nos bofes de ninguém; operava apenas com os toques e os passes das mãos mediúnicas, a chamada operação espiritual, sem a sangria de cortes ou a traumática supuração de repulsivos tumores. Antes, havia o ritual de um corpo médico, por assim dizer, em torno do paciente; os médiuns compenetrados e serenos com as palavras e movimentos. O cenário lembrava mesmo uma sala de operações num hospital, mas dava a impressão de estar-se numa outra dimensão da realidade. “Para tudo é preciso preparação de espírito”, segundo Exupéry —, e os preparativos dos médiuns pareciam, com efeito, espiritualmente sintonizados. Ninguém menos do que o doutor Eurípedes Barsanulfo, ou então Dr. Fritz, via de orações e profunda concentração dos médiuns, descia no recinto para realizar a cirurgia. Curioso era que, mesmo estando de olhos fechados, ajudando a firmar a corrente, a gente podia até senti-los, a modo de vê-los em seus preparativos, calçando luvas, como fazem os médicos antes de uma operação. Isso era mesmo curioso, uma vez que luvas ali não existiam; então eram vistas por uma sugestão da mente concentrada, como se ali acompanhasse todos os movimentos. E com aquelas operações espirituais, acredite se quiser, havia quem se dissesse realmente curado.
         
Dona Dalva também fazia revelação do paradeiro de pessoa desaparecida ou de objeto perdido, dinheiro, jóias, retrato ou peça íntima de alguém, desconfiado de que a fotografia ou a peça fora roubada pra se fazer feitiço, tão comuns que eram, naquele tempo, as mandingas de encruzilhada, onde não faltavam a farofa de galinha preta e a garrafa de pinga ou cerveja, das quais faziam bom proveito os boêmios que, às seis da manhã, retornavam de farras etílicas, de porres homéricos, das sem-vergonhices nos cabarés da vida. Havia todo um preparativo pra realizar-se a revelação: Dona Dalva jejuava, tomava um banho de ervas, se vestia de branco e se fechava sozinha num quarto já purificado pela limpeza; alvura de nuvens no céu, ou de capuchos de algodão ao sol, os lençóis e fronhas sobre os quais ela então se deitava e se concentrava de olhos fechados, certamente depois de invocar São Longuinho, da Seção de Achados e Perdidos dos Correios e Telégrafos. Alguma coisa sempre se encontrava naquelas revelações, ainda que não fosse o objeto perdido ou a pessoa procurada; no mínimo, não se logrando os fins pretendidos pela revelação, obtinham-se as palavras de consolo, consolidadas pelo poder de Nossa Senhora da Consolação.
         
Os remédios, Dona Dalva receitava-os sempre naturais: ervas, raízes, sementes e pétalas de rosa. Curava toda sorte de mazelas deste mundo velho, e descobria até ouro enterrado e perdido nos cafundós do tempo — na verdade, de suas noturnas empreitadas pelas fazendas, à procura de supostas tachas cheias de moedas de ouro, e cavando-se a terra segundo suas mediúnicas orientações, houve notícia de terem encontrado apenas uma alça de tacho. Desmanchava feitiço, revelava o paradeiro de objeto roubado, fazia voltar marido malandro e fugido, reatava namoro rompido, recomeçava o acabado. Também lia a sorte, traçava o baralho, pedia o corte, desfiava a vida, o amor e a morte. As rimas vinham nos dizeres dos volantes que Dona Dalva mandava imprimir e espalhar pela cidade, tomando por certo que a propaganda é a alma do negócio; mas este, no seu caso, não ia lá muito bem. O texto rimado partiu de um certo João Ribeiro, pernambucano e poeta de cordel que freqüentava o centro espírita. Dona Dalva gostava de poesia, dizia que poesia fazia falta a este mundo atribulado. Pegava muito com Nosso Senhor dos Passos, pra ele guiar os passos incertos do mundo, e com Nossa Senhora das Candeias, pra ela alumiar os caminhos e livrar a vida de todos os perigos.         
         
Escorada na premissa de que não cai uma só folha sem que Deus seja servido, e na crença de que Deus não tem nenhum filho a perder, rogava por todos, amigos e inimigos, e mesmo pelos bichos brutos e danados. Mas ai de quem a pegasse de pá virada, em fases mênstruas, nos famigerados dias de tensão pré-menstrual, ou já menstruada, e mais tarde ao calor da menopausa, que ela então tinha os seus avessos, sua Lua Negra, seu lado Lilith, o mito arcaico e obscuro, e dava retorno com reza braba, espalhava a peste por toda parte. Bolhazinha de nada virava pênfigo, fogo-selvagem; coceirinha fútil degenerava em ferida, abria-se em carne viva; galinha poedeira logo sofria de oveiro caído, galo tinha gogo, pintinho ficava cego de um olho com verrugas; recém-nascido variava pra zarolho ou perigava do umbigo; mulher casada dava doideira, botava a roupa na cabeça, mostrando as vergonhas; homens de cara feia derivavam pra lobisomens; beatas ficavam histéricas, se atirando pra cima do padre e gritando Eu quero! Eu quero!, que nem um bando de quero-queros alvoraçados. Numa dessas fases negras, a praga pegou até um bobo, coitado: mordeu a língua e ficou ga-ga-gago.
         
Resta dizer que, em dias benéficos, Dona Dalva foi também parteira de mão cheia, ajudou muitas mulheres a parir e aumentar o berreiro da vida.
         
Um dia, carcomida pelos males da idade — cheia de dores e diuturnos gemidos octogenários —, Dona Dalva desencarnou-se deste mundo. Dias depois, seu espírito incorporou-se num médium, só pra repetir, como em vida tantas vezes repetira, que a vida é um livro aberto, que a melhor escola do mundo é o mundo mesmo e que ninguém sabe o que perde senão depois de perdido. Por fim, disse que o mundo é uma ilusão, e que Deus é Deus. Daí se despediu e se foi para sempre.

 

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POR EM 20/03/2008 ÀS 09:41 AM

Putas da minha vida

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Nunca me deixei impressionar pelo fato de que a zona boêmia, tanto ou mais que o engenho de açúcar, (em seu moer e coar como canas colônias de vidas escravas) é uma máquina de viciar e gastar gente. Por muito tempo andei querendo encontrar quem eu sou nos labirintos da perdição. É comum ver-se, nos puteiros, mulheres velhas, decrépitas, com uma pele só rugas, de pouco mais de quarenta anos. Obrigadas, pelas cafetinas, a beber a noite inteira, enquanto copulam até vinte vezes por dia, com a sucessão de maus tratos, as surras que recebem do cafetão e dos meganhas, as brigas, a insegurança, o medo e a permanente violência, e pelo fato de estarem sujeitas a contrair todos tipos de doenças venéreas, com poucos anos de "profissão", viram mulambos humanos. 

Não por outro motivo que os coronéis d´antanho, assim como os oligarcas contemporãneos dão preferência às mocinhas, recém-chegadas no ofício. É que cedo perderão o viço da pele, o brilho dos olhos, o brilho da vida, que em tais criaturas se esvai com velocidade espantosa. Nos bordéis de antigamente, (que hoje os há mais sofisticados e, com o aumento da concorrência, hoje é difícil saber quem está no ofício só por gostar do meretrício, ou quem nele mergulhou de cabeça, pra valer), em poucos anos a mocinha dadeira virava velha rameira, tão sôfrega e selvagemente lhe era sugados o viço e a seiva da juventude.
 
Conheci uma prostituta tão velha e decrépita que parecia a chaga viva da humana ruína, exposta ao escárnio do público. Tinha um corpo e um rosto destruídos, apesar de seus pouco mais de quarenta anos. Era impossível determinar, com a ponta de uma agulha, um lugar de seu rosto onde não houvessem rugas. Era, em verdade, um inventário de rugas, como rios do desespero, em seu rosto destroçado.
 
Maracujá de gaveta perdia para ela. A velha noviça, feia, de uma fealdade inescondível e absoluta, era a prova, em carne viva, de que não existe chinelo sem dono, e nem sandália que seja impedida de ir a salão de festa, pois arranjava fregueses, entre os iniciantes, os tímidos, os paupérrimos e os que eram, como ela, extraordinariamente horrendos e despojados de todo e qualquer atrativo físico. Atendia pelo codinome de Dolores, e foi com muita dor que, acometida de câncer, veio a falecer no puteiro, depois de pungentes e doloridos anos de sofrimento (não tinha ninguém de seu, que pudesse tirá-la da "casa da sordidez").  

Morreu ali, à míngua medicina (que eu nada a ajudaria), mas não lhe faltou o amor e o companheirismo das outras "mulheres de vida alegre". Apodreceu, ao pé do leito mortuário de seu imenso desamparo. Só, e abandonada, como uma fruta que, cansada de madurar para nada, apodreceu, encroou, e virou fóssil vegetal. Morreu como viveu - sem ter um cã a quem pudesse acarinhar ou de quem algum afago recebesse. Viveu e padeceu no cemitério de gritos do câncer, e no viver foi como uma fruta a apodrecer, sem que ninguém sequer a contemplasse, na árvore ou na fruteira, com olhos de família, ou desejo de amante. 
 
Foram anos seguidos de lenta e dolorosa agonia. Dolores morria devagar, embora fosse desejo e (não lhe faltou a solidariedade das companheiras), que não a atiraram "no olho da rua", como chegou a ser sugerido, nem por piedade de eutanásia apressaram seu desenlace. sua despedida das solidões da carne foi lenta e dolorosa. Pedia, aos gritos, que a morte lhe chegasse como uma graça e dádiva terminal de quem viveu sem saber, ao menos em breves instantes, o que é ser amado e feliz, em sua existência vivida sob o signo de tânatos, ainda que por vocação de ofício tenha entregado seus dias aos gritos e sussurros do sexo pago.
 
A morte instalara suas teias sobre as vísceras de Dolores, mas Dolores não se decidia a morrer de fato e de direito. Morria em vida - e, lentamente, como uma fruta que amadurece, e a mão de Deus ou dos homens não tem a piedade de estender, para colher seu gesto inaugural de ternura - seu terminal desejo de entrega à juventude da vida, começou a desidratar e a reverdecer, como sucede às pessoas ficam encroadas, como frutas mal amadas, depois que de suas vidas e almas se extraiu todo suco e toda essência que nelas pudessem ter existido um dia.
 
De seu corpo, que apodrecia em vida, exposto à curiosidade pública, como se fosse de uma espécie muito rara, exalava um fedor adocicado, como o que exalam as fartas mangas abandonadas, que viram lama ao pé das fruteiras. Seus gemidos se misturavam com os gritos e sussurros das putas que gozavam (ou fingiam gozar), pois é sabido que as profissionais do amor só gozam e só aceitam ser beijadas na boca pelos "queridos" - e assim a vida se mostrava trágica e desesperada como é: quem ali entrasse para transar o sexo pago, ou quem apenas se entregava ao convívio seresteiro com a boêmia, e ficasse na sala, a ouvir e a cantarolas músicas de Nelson Gonçalves e Carlos Gardel, ouvindo gemidos vindos do quarto, não podia identificar se eram gemidos da dor de morrer em vida, ou se eram produzidos pela máquina de esfolar e fazer gozar pessoas mortalmente vivas, e tristes e solitárias. 
 
Toda vez que ouço, nas vozes embriagadas, e violões enluarados, "A volta do boêmio", na voz de Nelson Gonçalves, dardejam nos meus ouvidos, como sinos da agonia, os gemidos de Dolores, a prostituta mais velha, mais feia, e a mais sofrida já existida ou por existir, nas "casas de luz vermelha" da Campininha das Flores: "Boemia/ aqui me tens de regresso/ e suplicando te peço/ a minha nova inscrição/. Voltei/ pra rever os amigos que um dia/ eu deixei a chorar de alegria/ me acompanha o meu violão...". Então entendo porque as putas e os boêmios voltam sempre, a procurar, sedentos, os sítios do perigo e da perdição . Agora entendo as putas e os criminosos, que mesmo depois de haverem escapado ao perigo e à indignidade dos crimes que fizeram, quando a adrenalina retoma os níveis normais, escravos de forças magnéticas e poderosas, sempre voltam ao local do crime.
 
Um poderoso magnetismo, ou quem sabe o fascínio pela queda, e a sede de mergulhar na vertigem, fez que retornassem ao puteiro mulheres que encontraram companheiros, filhos, e o pacato e burguês "lar doce lar", que abandonaram, em dia de luciférica lucidez, reencontrando a perdição de que jamais se libertaram. E só quando amei tive olhos e ouvidos capazes de ouvir e entender estrelas. E só quando, na solidão do outro, de meu abissal desamparo me libertei, pude entender o que dizia o boêmio, quando cantava sua alegria vital, por haver de novo encontrado o caminho da perdição: "Fiz de tudo o que eu podia/ e de tudo o que eu fazia/ não me arrependo/ e te juro que faria/ tudo de novo/".
  
Dolores, seus gemidos e ais, e suas dores demais. Havia a pedra da solidão, em seu caminho. E a pedra de Sísifo, que ela carregou até o último gemido- suspiro, foi a de ter sido estrangeira para os outros, e para si mesma, em seu quarto, na casa em que morria, em seu pais, e no triste planeta terráqueo. Dolores nunca mais esqueceria do acontecimento da dor, na vida de suas retinas tão fatigadas. "O que é pior? Uma puta que vive de se entregar, ou uma puta que nunca se entrega?".
                                                
 
P.S. De putas, deputados e outras lambanças
 
               
Fêmeas fatais têm sido o abismo de celebridades políticas. Quanto mais estonteantes as beldades, mais perigos trazem em potencial. O rigor do método doidivano tem encontrado a perdição cartesiana em combates de coxas e lascívias de bocas - inconfessáveis ao público externo que paga a conta do banquete em que mulheres para 400 talheres são convocadas aos doze trabalhos de Eros.  
           
De um modo geral, sempre foi assim: a começar por Afrodite , passando por Cleópatra, guerreiros deram seus reinos (ou seus cavalos) por uma noite com suas belas putas. Poetas nefelibatas entram em delírios de loucura pura. Bill Clinton fuma o charuto cubano da luxúria americana com uma estagiária (Mônica amorosa e dadivosa) e quase perde o comando da pátria de Tio Sam.
           
No Brasil, um Itamar deslumbrado empunha o cetro público de sua lascívia senil, ao ver os pelos púbicos da vedete, na festa da carne em que todos os pudores se perdem. Outros farão filhos por fora - que vão estudar no estrangeiro, para não arranjarem pampeiro no chão brasileiro. Na presidência do congresso dos agachados o varão Renan Galheiros (fazendeiro do ar, de gado simbólico, para mutretas de lesa-fisco) moverá céus e terra para não faltarem abundantes alimentos à amante nutriz. Não dispensará os serviços de um gerente de empreiteira, para não faltar mamadeira à infante que pôs no mundo fora do seio da sagrada família.
           
Enquanto caem as estrelas dos pais da pátria, tidos e havidos como sendo acima de qualquer suspeita, resplandece o brilho das dadivosas, que desfilam triunfalmente por todas as mídias. Escrevem livros, lançam-se na vida pública (como esta já não fosse a sua) - dão consultorias sobre combates de coxas, e tornam-se, da noite para o dia, celebridades milionárias, a quem se trata com venerando respeito. As mais proletárias da mais antiga das profissões limitam-se a lançar griffes espúrias, em alusão irônica à perseguição petista à Daslu. Sem contar que Goiás comparece como líder no ranking dos Estados exportadores de putas. Daí reproduzir a pergunta feitas linhas acima, no conto-verdade inserido em meu livro Memorial do medo: o que é pior, a puta que se entrega, ou a puta que não se entrega nunca?
           
Se considerarmos que muitas santas mães de família são prostitutas de seus maridos, uma pergunta se alevanta: uma santa mulher pode ser uma puta putana, ao costurar para dentro? Outra insiste em falar: por que o ser mulher de vida alegre e airada há de ser uma desfeita, se dá aos homens o amor faltante em seu mundo? Por isto há de se preferir a vida alegre de alguém que assuma o respiro da vida, do que a solidão compadecida de si, da senhora "acima de qualquer suspeita", que sai com o senador, por um punhado de dólares, e uma gorda pensão alimentícia - a outra e a mesma que, no altar de sua hipocrisia, reza as trezentos e cinqüenta Ave-Marias de suas sublimes vilanias.  

 

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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:26 PM

Vida vazia

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Reencontrei um amigo que há tempos eu não via. Cabisbaixo, abatido, fisicamente deplorável, o sujeito, que é médico dos bons, daqueles à moda antiga, profissional que olha dentro dos olhos dos pacientes em busca de pistas, das chaves dos mistérios, que se preocupa mais com o doente do que com a doença, confessou andava desanimado e até depressivo por causa da condição atual da prática médica. Reclamou do excesso de trabalho, da má remuneração, da insegurança profissional, da desconfiança mútua entre médicos e pacientes. Para emendar, contou-me uma estória ocorrida com um seu colega de trabalho, também doutor, e que agora reproduzo, é claro, camuflando os nomes, azeitando o enredo, fermentando a verdade, inventando um bocadinho, aproveitando ao máximo a gostosura de um episódio real e deveras curioso. Em tempos de relação médico-paciente moribunda, o fato espelha bem esta condição. Foi mais ou menos assim que a coisa se deu...


Belinda, de linda mesmo, tinha de resto apenas o nome. Nos seus tempos de juventude e glória, foi muito cortejada e cobiçada pelos homens. Musa inspiradora de punhetas e noites mal dormidas. Escolheu para marido um burguês elegante, porém, tosco e de caráter menor, filho de um fazendeiro muito rico, criador de gado, ofício que hoje em dia muitos denominam empresário rural, que é para dar mais glamour, como se a roça não prescindisse disto. Não importa. O noivo nadava, ou melhor, cavalgava em dinheiro. Dizia-se, inclusive, à boca miúda, que o camarada limpava-se com cédulas de cinqüenta. Atraída pelo dote do mancebo, Belinda entregou-se ao mesmo de corpo e alma (muito mais corpo do que alma). Fisgou o ricaço e garantiu a aposentadoria aos vinte e poucos anos de idade. Até que tinha alguma afeição pelo moço, mas gostava muito mais do dinheiro e da mordomia que ele proporcionava. O rude garanhão desposou a donzela, pois a pressão familiar se avolumava. Ele não poderia romper os trinta anos sem contrair matrimônio. Naquela época, solteirões estavam fadados à maledicência da sociedade. Escravo das aparências, ele desposaria, sim, a fogosa virgem, mas não abandonaria as amantes, raparigas e até moçoilos modernos com mentes e meatos descolados, provenientes da capital e de outras metrópoles. Movido pela química desinibida da maconha, o rapaz encontrava nos iguais e nos opostos território propício para a vazão de taras e estripulias sexuais as mais bizarras.


Ao contrário das previsões paroquiais, o casamento não durou até que a morte os separasse. Advogados mal intencionados e bem remunerados cuidaram da tarefa com desprendimento e competência. O tempo, infalível a todo ser que respira, não se apiedou de Belinda. Aos quarenta anos, o seu tão cobiçado corpo havia deteriorado além da conta, às custas de três gravidezes, do sedentarismo e da gula. Sentindo-se feia e infeliz, ela buscou na ciência e no charlatanismo a cura para as suas dores e frustrações. Usou e abusou dos cremes, fórmulas milagrosas, agulhas, dietas de A a Z, garrafadas e simpatias antipáticas, porém, valiosíssimas para os desesperados.

Até que um dia, Belinda cismou de procurar um ginecologista para fazer uma desnecessária cirurgia vaginal, a fim de corrigir um inexistente defeito na sua pouco usada fenda genital, uma suposta rotura que a fazia se sentir “larga” na hora do vamos-ver, embora estivesse abstinente desde a separação do marido. Para se ver livre da insistência da paciente, o doutor acabou cedendo e, mesmo sem precisão, aplicou dois ou três nozinhos cirúrgicos em seu períneo, deixando o que já era muito bom melhor ainda. O ato cirúrgico foi o início de um calvário para o desavisado médico.

Logo após a cirurgia, ainda no período de convalescença imediata, a mulher foi tomada de um surto psicótico que criou um verdadeiro alvoroço dentro do hospital. Sabe-se lá como, a mulher fez entrar na enfermaria dezenas de revistas pornográficas, recortou algumas páginas e as pregou nas paredes, formando um mosaico libertino que ninguém aprovou. Como se não bastasse tamanha esquisitice, a pobre diaba ficava o tempo inteiro mirando a vulva com um espelho de mão, desaprovando o resultado final. Desacostumadas à insanidade, as enfermeiras da maternidade entraram em parafuso. O renomado ginecologista foi chamado às pressas para resolver a encrenca. Nem com a interferência de um psiquiatra, a coisa teve conserto. Para alívio de todos a paciente recebeu alta hospitalar e se mandou com uma revistaria toda embaixo dos braços e muita bravata pelos corredores mal iluminados.


Durante várias semanas, a mentecapta visitou a clínica do cirurgião para lhe dizer poucas e boas, insultos e verborragia impossíveis de serem citados nestas linhas. Prepotente, a mulher prometeu processar o médico, mandá-lo para a cadeia, destruir sua reputação por aquelas bandas, arrancar dele bastante dinheiro (de preferência, tudo), ainda que às custas de fórceps e chantagem. Apavorado, o doutor catou a família e sumiu da cidade. Com doido não se brinca. Melhor dar tempo ao tempo.


Mergulhada em loucura, a mulher desembestou num comportamento para lá de inconveniente, masturbando-se em locais públicos, vestindo-se de maneira claramente imprópria e vulgar, utilizando palavreado chulo, incomodando qualquer ser humano que por ela cruzasse, fosse ele adulto, criança, parente ou estranho. Sua derradeira aventura foi deitar-se com um catador de papéis e de tranqueiras que perambulava pela cidade. Fizeram do matagal de um lote baldio a cama mais perfeita para a conjunção carnal. Foi ali mesmo que o andarilho estreou a vagina seminova da criatura e a liquidou com mãos de unhas encardidas. Analfabeto, despreparado para crimes perfeitos, o sujeito foi rapidamente capturado pela polícia e jogado numa masmorra moderna chamada cadeia. Aliás, pelo que descreveu Dante Alighieri em sua Divina Comédia, os presídios brasileiros estão mais para sucursais do inferno. Difícil acreditar que um ser humano saia daquele purgatório recuperado de seus males e pronto para reingressar na sociedade. O povo, entretanto, não dá a mínima. Bandido tem mais é que sofrer...


Enfim, a extinção de Belinda deixou mais leve o cotidiano de todos naquele lugarejo, fazendo com que a vida retomasse o seu curso natural e hipócrita. A sua morte, portanto, foi de pouca ou nenhuma valia praquela gente. É assim mesmo que acontece nas tragédias, até que uma delas nos bate à porta sem pedir licença. Daí é chorar, implorar pela justiça dos homens e botar a culpa em Deus. Afinal, não foi Ele quem quis assim?!


 


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POR EM 10/03/2008 ÀS 09:36 AM

Anhangüera: herói ou vilão?

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Não dá para se fazer uma avaliação dos empreendimentos realizados por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, sob a luz da conjuntura atual. Para avaliar esse ícone da História de Goiás, com o mínimo de justiça, é preciso, primeiramente, situá-lo no contexto do segundo quartel do século 18, no auge do período colonial.

Havia uma ordem mundial, cuja sustentação era o sistema colonial vigente. Havia um pacto que, simplificando, funcionava assim: A colônia (no caso Brasil, Goiás) entrava com a matéria prima, basicamente ouro e produtos agrícolas. Em troca a metrópole promovia a integração dentro de uma ordem econômica nacional e internacional e dava, sobretudo, proteção contra invasores estrangeiros.

Pelo Tratado de Tordesilhas de 1494, das terras descobertas na América do Sul, só era de Portugal o que ficasse a leste dessa linha, que ia do Rio de Janeiro à foz do Parnaíba, entre Piauí e Maranhão. Mas o tratado foi sendo derruído pela ação dos bandeirantes, que ignoravam a divisória e iam adentrando os sertões. Não fosse a ação desses homens intrépidos, o Brasil teria hoje mais ou menos um décimo de sua extensão territorial. Goiás mesmo seria resultante da colonização espanhola. Talvez a gente não fosse um estado-membro, mas estado um soberano, assim como Paraguai, Bolívia, Honduras, Nicarágua.

O historiador Afonso Taunay considera o Anhangüera como um dos mais brilhantes servidores da Coroa Portuguesa de todos os tempos. Foi destemido, realizador, operante e honesto (coisas que tanto nos carecem hoje em dia). Sua bandeira que descobriu as minas dos Goyazes foi extremamente arriscada, mas muito bem sucedida. Pelos feitos extraordinários, a Coroa o premiou com o pedágio dos rios, de São Paulo até Goiás, com faixas de terras às margens da estrada, além de tê-lo nomeado o primeiro superintendente das minas.

Na prática, Anhangüera foi o nosso primeiro governador, enfeixando nas mãos o executivo, o legislativo e o judiciário (não há que taxá-lo de ditador, pois só meio século mais tarde é que Montesquieu conceberia o sistema de separação de poderes). Apesar das dificuldades e de todo tipo de carências, implementou a mineração com eficácia, descobriu novas frentes de ouro e diamante, atendendo aos anseios da Coroa, como um administrador diligente.

Seu sucesso despertou ira invejosa em outros políticos. Nessa disputa de bens e poderes, Anhangüera foi covardemente prejudicado. Primeiramente lhe afanaram as passagens dos rios, que eram uma fonte considerável de renda. Depois lhe tomaram as terras. Na tentativa de recuperar seus bens, recorreu à justiça portuguesa. Seu sobrinho Bento Paes, advogado, morreu afogado em Lisboa, quando atuava no processo. Seu genro João Leite (que dá nome a um dos rios que serve Goiânia) foi assassinado por um integrante de sua comitiva, a caminho de Lisboa, para onde ia atuar no processo.
 
Anhangüera foi rebaixado a comandante das forças (que não existiam).  Em 1739, o novo governador, vendo a injustiça que sofria e a penúria por que passava, lhe concedeu uma arrouba de ouro como antecipação de seus direitos. E em sua homenagem chamou o distrito de Santana (fundado por Anhangüera) de Vila-Boa (Bueno do castelhano). E esta foi a primeira capital do Estado.

Mas Anhangüera parece ser mesmo um herói fatal. Dado a sofrer perseguições até séculos depois de sua morte. Não é de ver que agora há políticos, não sei se por ignorância ou má-fé, que lhe atribuem estupros de índias e outros crimes hediondos e querem derrubar sua estátua do centro da cidade?  

 


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POR EM 04/03/2008 ÀS 11:20 PM

Publicidade e arte: tão perto, tão longe

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Se uma palavra pode definir o mundo publicitário, creio que é esnobismo. É que a publicidade é a cara do mundo, digo, do capitalismo, digo, o lado rico, endinheirado, do capitalismo. Talvez não pudesse ser de outro jeito, para quem, profissionalmente, precisa conhecer a alma do sistema, para vendê-la. São irmãos siameses, mercado e publicidade: só existe esta em função daquele. Acabou o mercado, acabou a publicidade – a que vende de tudo, é claro: inclusive a imagem de um homem, se preciso. A arte, não: existe desde sempre; existirá sempre. O Arquipélago Gulag sobreviveu a Stálin. Mc Donald`s, entretanto, não pisou a Rússia antes de Gorbatchov. Não antes, portanto, que houvesse mercado. 

Talvez pudéssemos dizer que a publicidade é a irmã pobre, da arte, embora ela é que tenha aparência aristocrática. A irmã que anseia pelos atributos da arte, mas que não pode ser arte. Não é sua condição existencial. Salvo raras exceções – Matisse, Jorge Guillén etc -, arte normalmente é revolta, antipatia, asco, nojo, repulsa – a publicidade, embora se vista de arte (pois está sempre no encalço da estética, fetichista) não pode nunca se dar o luxo de ser do contra. É o oposto: o espelho da ordem. Precisa iludir. Precisa maquiar, adornar, não despir. Quem fala a verdade sobre a nossa condição é Francis Bacon: as vísceras da espécie. A publicidade, não: se limita a ser o pacote, a superfície, a aparência: é Roberto Justus (não o homem, mas o arquétipo). Arte é arte; publicidade, artifício.

A arte é operação gratuita, e talvez por isso é revestida de uma aura superior. A publicidade, não: pragmática, tem preço. Só se manifesta se lhe pagam bem. Talvez por isso tenha sempre aquela cara. Aquém do além.

A intenção da arte não é vender, nunca. Encontra comprador sem procurar. Não corre atrás, orgulhosa. A publicidade, pelo contrário, só existe em função do mercado: vende tudo. Humilde e humilhada, se vê na obrigação de correr atrás, qual ambulante qualquer. A arte é única; a publicidade, vária. Só existe um Nu descendo a escada, mas podem existir quantos anúncios se desejar, de uma campanha. Publicidade é equipe; arte, solidão. Não adianta falar no grupo tal: arte é, por excelência, solidão. Procure o Vinicius de Morais pra saber.  E favor não confundir arte com indústria cultural, que é, por exemplo, o forte do mercado fonográfico e Romero Brito.

O capitalismo odeia solidão, embora a promova sistematicamente. A arte é, muitas vezes melancólica; já a publicidade é, necessariamente, gregária, sempre alegre e extrovertida. Suspeito que seja uma fórmula de sucesso, uma embalagem: ou o profissional age assim ou, no dizer do outro, está demitido! O capitalismo é tribal; a arte, Ralph Waldo Emerson – apóstolo do individualismo. Curiosamente, as grandes causas contam com a abnegação dos artistas. O individualismo destes flerta amiúde com a solidariedade e com o ser; o do publicitário pode não ser menos solidário, mas anseia primeiro, e antes de tudo, pelo ter. O publicitário é um homem, no mínimo, simpático ao consumo, e de alto padrão.

Enfim, não fosse porque se veste bem - muito bem -, a publicidade não iludiria ninguém. É útil e necessária, ao capitalismo. A arte – seu suplício de Tântalo - ao homem. 

 


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