revista bula
POR EM 17/11/2008 ÀS 04:30 PM

Uma república de bananas?

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Quando assistimos, ao vivo e a cores, a forma humilhante e degradante como os países europeus deportam os milhares de brasileiros que lá procuram abrigo e emprego, percebemos o quando são injustos e ingratos.

Todos sabemos como foram construídas as bases do desenvolvimento europeu. Às custas do saque e do confisco das riquezas surrupiadas de nós outros, os países colonizados.

Não bastasse a histórica pirataria, quando – nos séculos XIX e XX – viram-se diante da necessidade de exportar sua mão de obra excedente, fomos nós que recebemos milhares e milhares de famílias e trabalhadores desempregados.

De modo que deveriam receber os brasileiros que para lá emigram com pompa e circunstância, com tapetes vermelhos e fogos de artifício.

Mas qual?!, jamais farão isso; seria mais fácil encontrar uma cédula de três reais.

E por duas razões simples. A primeira é porque está na gênese da colônia tratar os colonizados como ralé e escravos. E, não há aqui nenhum exagero, os europeus ainda acreditam que não passamos de mazombos bobinhos.

A outra razão é que temos uma diplomacia medíocre, regada a regalias, nababos e uísque 12 anos, que - qual os colonizadores - acreditam que não passamos de uma república de bananas que deve eterna reverência aos cult das metrópoles.

Em outros lugares as coisas são diferentes.

O governo do Peru, por exemplo, tomou uma importante decisão: vai processar a Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que roubou milhares de artefatos do famoso sítio arqueológico de Machu Picchu.

Machu Picchu é uma antiga cidade inca – data do século XV - cujas ruínas foram descobertas por Hiram Bingham, acadêmico de Yale.

O explorador norte americano achou que não teria nada de mais levar para os EUA mais de 45 mil peças peruanas e assim procedeu. Dentre o acervo roubado constam peças de cerâmica, tecidos e jóias que foram levadas a título de empréstimo e nunca mais devolvidas.
 
Não se sabe ao certo se o governo do Peru levará adiante o processo, ou se trata de estratégia para forçar a instituição de pesquisa norte americana a devolver o que jamais lhe pertenceu.  

O fato é que lá, o governo se movimenta. Já por aqui...


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POR EM 10/11/2008 ÀS 05:44 PM

Sociedade dos mortos vivos

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Em nosso tempo de fascinantes e perigosas e vertiginosas virtualidades, a infelicidade escolhida cresce, em proporções de pandemia. Pensamentos distorcidos geram emoções negativas, que se justificam e projetam medos, culpas e conflitos. O ego se fortalece no sofrimento, uma vez que permanece em errância interminável. Assim justifica e reforça o seu ressentimento contra a realidade.

Quanto mais uma pessoa sofre por viver de mentiras, mais se opõe à verdade. Pois esta é a cegueira em que o ego se obstina. "Não existe nada de bom nem de mau. O pensamento é que o torna assim". Do mesmo modo, só é capaz de enxergar a beleza quem a cultiva em si. O universo não existe senão como percepção da consciência que o projeta, a partir dos sentidos. "O resto é silêncio" - de um mistério incognoscível às limitações da mente.

O descontentamento e a inapetência de existir em bem estar de viver é o passo fatídico que damos, levando-nos a viver sob a atmosfera de uma infelicidade de segundo plano. Que está sempre ali, a pautar nossos pensamentos, emoções e atitudes. Este descompasso de ser cria um desencantar-se com o viver, a ponto de fazer pessoas existirem no vácuo em que se tornaram, à falta de paixão e motivos que lhes dêem contentamento.

Por escamotear e esconder de nós mesmos o negativismo que nos faz viver em oposição à natural e pulsante alegria da Vida, nos tornamos prisioneiros daquilo que negamos. Esta infelicidade, colocada em segundo plano, como se sendo a nossa sombra negada, nos torna prisioneiros do monstro interior, que escondemos no escaninho. Ao tornar-se crônica, esta infelicidade introjetada passa a moldar nossa alma, fazendo que nos tornemos criaturas cronicamente inviáveis — insuportáveis aos outros e a nós mesmos.

A sombra vem, muitas vezes, nas asas de uma melancolia lírica, numa "nice", como tristeza artística, propícia a construir canções e poesias, mas pode involuir para a depressão de nos fazer esquecer quem somos. Já a solidão sábia pode nos fazer identificar com a parte do Ser que é grande.

Na Idade Média, temidos eram os leprosos. Depois, colocaram todos os estranhos e diferentes nos asilos —muitas vezes dirigidos por alienistas aloprados. Simão Bacamarte e seus sócios que o digam. Quanto aos depressivos, por seu alto poder de contágio, foram colocados na lista dos perigosos a serem evitados. Quanto aos poetas e artistas, são tolerados, enquanto se mostrem inofensivos.

"Num momento cultural como o nosso, em que a objetividade é valorizada em detrimento da subjetividade, que é tratada como uma percepção inferior, dado não poder ser explicada racionalmente, uma parcela enorme dos sintomas patológicos, tais como depressão, ansiedade, histeria e pânico deriva desta falha", observa o astrólogo Oscar Quiroga. Ou da perigosa tendência da sociedade dos mortos vivos, que leva as pessoas a ser verem como máquinas que podem ser ligadas e desligadas arbitrariamente, em horários previamente estipulados.

Daí que, vivendo na mesma casa planetária (a Mãe Gaia), na mesma casa ou cidade, os doentes de alma não se reconheçam como enfermos, porque a sua doença passou o padrão de "normalidade" que pode se chamar de normose. Assim vivem e pensam os normóides cronicamente inviáveis. Por serem incapazes de cometer o crime de serem cidadãos perfeitos, como cidadãos desumanos em sua humanidade, entram passam a ser benfeitores e beneficiários da mediocracia.

Assim tristezas sombrias se achegam, podendo trocar de identidade, sem que elas mesmas percebam quem traz mensagens da morte, ou quem chega a trazer a energia da vida. Para não tomar uma pela outra, em um erro que pode ser fatal, precisamos nos manter em guarda. Não como quem se resguarda atrás de uma falsa segurança, enclausurada em si mesma e armada até os dentes, mas como quem, por ser inocente, renuncia a todo ataque e a toda defesa.

Postar-se perante o fluir da vida como quem agradece e confia — talvez seja a maneira possível de inundar-se da Paz que vem da Graça. E nisto se compraz o Ser comovido pelo milagre de estar vivo. Este som de estar vivo nos traz à lembrança o frescor da água de chafariz, que vem do fundo fofo da mata. Uma vez percebido, inunda a vertigem dos dias de uma paz que ultrapassa todo entendimento.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 03:36 PM

Viva os negões!

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Acho que este 2008 deve ser dedicado aos negões, aí incluídas as neguinhas, porque essa nossa língua provoca. É uma disgrama. Cocei o dedo para falar desse assunto, até que os fatos me provocaram e o preconceito não me atrai. Que não venham com ignorância! Muita gente vai ficar chateada comigo, mas não me furto em dizer que senti uma pontinha de alegria com a vitória do negão Lewis Hamilton no campeonato mundial de Fórmula Um. O negão inglês está correndo muito e não deveria ser injustiçado pelo segundo ano consecutivo.

Deixo o patriotismo de lado, apesar de achar o Felipe Massa um sujeito bom e com grandes simpatia e empatia.

O Hamilton merecia, e a Ferrari ajudou, mas não sou muito ligado nesse troço de corrida. Gosto da largada, da chegada e das batidas. Sou sádico, quem nem a maioria, mesmo que ela não admita, mas falo a verdade. Os negões estão mandando ver e eu estou adorando, rindo na cara dos que disfarçam e dos que admitem o preconceito. A coisa está melhorando. Acho que os negões, neguinhos, negonas e neguinhas dão um tempero especial para a cultura do mundo. O Brasil só é o Brasil legal, alegre, gostoso, risonho e animado por causa dos negões e da mistura. Não há coisa melhor do que uma mistura para fazer  o caldo mais gostoso. Eu vivo misturando e vivo para misturar. Sem mistura não dá.

Agora vem o negão lá dos states, o Barack Hussein Obama. Ganhou uma disputa ferrenha para a presidência dos Estados Unidos, país onde há 40 anos negro era considerado mercadoria e espécie de categoria inferior. Americanos do Norte têm lá suas feladaputagens, mas desta vez eles obraram tão bem, que até eu passei a vê-los com olhos melhores e torcer para que o trabalho do negão Obama dê certo.  Por isso estou concluindo que 2008 é o ano dos negões e estou adorando essa coisa. Como diz meu filho Virgílio, tá ficando sinistro. Sinistro agora é sinônimo de coisa boa. O mundo tá dimudado. A coisa tá ficando preta, melhorando,  para nossa alegria e satisfação. Por isso, dou um viva aos negões. E meu pé africano se regozija. Viva o Gari Negro Jobs!

Os negões melhoraram o Brasil. Nem imagino nosso país sem eles. Acho, no entanto, que seria um país muito insosso. Concordo com o negão Lázaro Ramos, conterrâneo, quando diz que os negros foram vendidos em um mercado branco. E  esse mercado branco, capitalista e ganancioso, é que está levando o mundo à bancarrota.

Com os insumos da ganância, eles fabricaram essa crise que o mundo está vivendo, mas já combinaram de diminuir os juros, ou seja, diminuir os ganhos e a sanha gananciosa por mais dinheiro, para tentar amenizar o estrago.

Depois, aí é outra história, se sobrar alguém. Esta crise tem um lado interessante e um trágico: o interessante é que os ricos ficarão um pouco menos ricos, porque já ganharam muito e se dispõem a deixar de ganhar um pouco mais em função do equilíbrio e da estabilidade capitalista; o trágico é que muito pobre vai acabar perdendo o emprego.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 02:10 PM

Lavoisier: muito mais que cem anos

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Antoine-Laurent Lavoisier nasceu em 26/08/1743 e teve uma educação refinada com forte tendência cientificista.

Ele era um CDF como se diz por aí. Um jovem amigo lhe escrevera, ainda em 1762, preocupado com sua enorme dedicação à ciência: “É melhor ter mais um ano na terra do que cem anos na memória dos homens”.

Com 22 anos passou a ser o postulante mais jovem da condição de adjunto da Academia Real de Ciências. Mas o título de membro só viria três anos depois (1768) com trabalhos sobre a água, “o agente favorito da natureza”. Apesar disto, seu primeiro trabalho publicado foi sobre a gipsita (gesso natural), já que um de seus maiores interesses na época era geologia e o estudo das substâncias minerais.

Nesta época, entrou para um consórcio privado que coletava impostos para o governo e passou a ser inspetor itinerante. Durante suas viagens realizava estudos pelas cidades principalmente com a água. Ele ainda tinha outros negócios que começaram com a fortuna herdada da mãe e seus amigos cientistas temiam que isto, apesar de deixá-lo mais rico, dificultasse seu trabalho. Porém um matemático objetou: “Melhor pra gente. Os jantares que nos oferecerá serão bem melhores”.

Os contatos e a desenvoltura de Lavoisier dentro do governo cresciam e seu principal laboratório foi instalado no arsenal de armas de Paris em 1775, já que ele passara a exercer o cargo de diretor científico da Administração Real da Pólvora.

Pois bem, a comunidade científica da época acreditava que a água poderia ser transformada em terra, porque a água que evaporava de uma panela deixava sempre para trás um resíduo sólido. Lavoisier demonstrou, com um experimento simples (seguidas destilações num recipiente de vidro fechado), que o resíduo era material que havia se desagregado do próprio vidro, levando literalmente por terra a chamada idéia da transmudação da água (transformação da água em terra).

Mas este não foi o principal experimento de Lavoisier. Como ainda estavam na “protoquímica” os cientistas acreditavam num tal flogisto, uma substância que existiria em toda matéria que pegava fogo (por exemplo, a madeira era considerada cheia de flogisto e cinzas), incluindo alguns gases que poderiam ser mais “flogisticados” que outros.

Com base na literatura corrente, em especial nos trabalhos de Priestley, que jantara com ele, e Scheele, que lhe mandara uma carta falando de suas descobertas, Lavoisier confirmou que a queima do fósforo deixava a substância mais pesada. Queimando estanho notou que o peso só se alterava quando ele abria o recipiente, isto é, talvez a substância absorvesse algum “tipo de ar” (a palavra gás ainda não empregada). Ao aquecer óxido de mercúrio, Lavoisier notou que este se transformava novamente em mercúrio com perda de parte do peso para um gás respirável.

Desta forma, num sistema fechado, ele aqueceu quase um quilo de mercúrio e viu depois de 10 dias a formação de uma camada vermelha, o óxido, cuja quantidade, coincidia com a redução da quantidade de ar do recipiente. O gás restante apagava uma vela rapidamente. Depois, separando e aquecendo o óxido fez, a operação inversa e retornou o mercúrio ao seu estado inicial, ao mesmo tempo que liberou um gás que permitia que a vela continuasse acesa.

Em 1777 Lavoisier leu seu trabalho para a Academia Real Francesa e pôde aplicar a navalha de Ockham: entre duas hipóteses para explicar algo, escolha a mais simples. Não havia necessidade do flogisto e o gás absorvido ou eliminado recebeu o nome de oxigênio (oxy, em grego significa, ácido). Quando o oxigênio estava totalmente queimado restava o irrespirável e não inflamável nitrogênio, que Lavoisier chamava de azote, uma palavra francesa que significa "impróprio para manter a vida".

Claro que algo mais profundo para a ciência foi lindamente descrito neste experimento: a lei da conservação das massas, ou seja, a matéria pode ser transformada, mas não criada nem destruída, pois a conta do coletor de impostos tem que bater no final.

Por este cargo no governo, por seu título de nobreza e apesar de serviços prestados a ciência e ao povo francês (escreveu um estudo estatístico clássico sobre a economia agrícola do país), foi condenado, junto com outros, pelo Tribunal Revolucionário. Lavoisier ainda tentou protelar a sentença para poder terminar alguns experimentos, mas o juiz respondeu: “A República não precisa de cientistas”. Foi executado no mesmo dia (08/05/1793).

É famosa a frase de seu amigo, o matemático Lagrange, sobre este episódio: “Custou-lhes apenas um instante para cortar aquela cabeça, e cem anos podem não produzir outra igual”. Realmente não produziram, Sr. Lagrange.

Lavoisier estará eternamente na memória dos homens e diferente do que pensara seu amigo em 1762, ele não morrera por causa de sua devoção à ciência, mas justamente por causa daquilo que a ciência combate: a ignorância, a arrogância e a politicagem, que foram disfarçadas na revolução francesa de liberdade, igualdade e fraternidade.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 11:32 AM

O mundo já era

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Sob uma enorme tenda branca armada para a missa campal, os pais, familiares e convidados espremiam-se, suavam em bicas e reclamavam do calor. Quem seria o responsável pelas altas temperaturas daqueles dias? Reclamar: eis um dos nossos talentos natos. Não bastasse o mormaço, o padre que conduzia a cerimônia, apesar de jovem e novato no ofício, também reclamava e repreendia os presentes, cobrando assiduidade e compromisso com a santa igreja. Nós funcionamos muito à base da pressão, da ameaça e do medo.

Estratégias de céu e inferno. Até para não delongar mais o evento, todos concordaram com o padre mocinho opressor e prometeram dedicação, envolvimento e presença nas missas dominicais a partir daquele dia. Sim, senhor. Com toda certeza.

Dentre tantas crianças angelicamente trajadas com mantos brancos e coroas de flores, lá estava Júlia, na grandeza de seus dez anos de idade. No seu rosto alvo desenharam-se rubras roséolas, resultado do calor e da dilatação das veias. “E então, que sabor tem a hóstia, filha?” eu perguntei. “É meio sem graça. Tem gosto de papel”, ela brincou e sorriu como de praxe. Sorte nossa o padre não ter ouvido...
 
O ambiente quente e abafado incomodava ao extremo, distraía. Impaciente, um tanto desatento aos rituais da Primeira Comunhão daquele grupo de crianças, minha mente foi invadida pela imagem da menina de nove anos assassinada em Curitiba. Compará-la com Júlia foi sofrido e inevitável. Fiquei sabendo do crime através dos noticiários. Seu corpo fora encontrado dentro de uma mala (de novo, uma mala assombrando nossas vidas...), embaixo da escadaria de uma rodoviária, e apresentava sinais de esganadura e violência sexual, segundo relatos da polícia. Ofício de besta fera. Não se pode imaginar que o criminoso seja um demente qualquer tratável com remédios, lobotomia ou eletro-choque. Mais respeito com os mentecaptos, por favor! Os doidos não escondem os seus atos. Ao contrário, quando se tornam violentos nos labirintos da paranóia e da alucinação, deixam provas cabais, não se ocupam com a mentira e com as artimanhas para esconder a gravidade dos seus erros. Loucos não pertencem mais a este mundo, o que não deixa de seu uma enorme vantagem para eles.

A ignorância me aborrece. O que leva um adulto a ludibriar uma criança pelas ruas da cidade, capturá-la e cometer covarde violência física, obtendo, além disso, prazer sexual com o sofrimento e com a morte? Há muito tempo tenho declarado o meu apreço e admiração aos bichos, animais de comportamento previsível, compreensível e aceitável. Dos bípedes pensantes, ando por demais descrente.

Exemplos de vocação para a violência e a maldade, como o cometido contra esta menina de nove anos, tendem a cair logo no esquecimento. Em breve, um crime ainda mais hediondo e cruel será noticiado pela imprensa, fazendo com que a audiência suba a níveis ainda mais altos, e nos esqueçamos dos horrores pregressos, das crianças atiradas pelas janelas dos prédios ou arrastadas sobre o asfalto da cidade.

Talvez, o fenômeno de banalização da violência se deva à velocidade da informação em nossos dias. Hoje, ficamos sabendo de tudo que ocorre em todos os cantos do planeta, as coisas boas e as coisas ruins, graças ao alcance da televisão e da internet. A maldade sempre permeou a mente das pessoas. Basta ler a história da humanidade. A diferença fundamental é que hoje dispomos da informação ágil, imediata, sem censuras. Basta clicarmos no mouse do computador ou ligarmos a TV. A barbárie está bem ali, vívida na nossa frente. Matanças, abusos, estupros e torturas existem desde que deixamos de ser macacos e passamos a pensar. Quando teria acontecido esta trágica transformação?!

O que me parece relevante e vergonhoso é que, apesar de dotados da tecnologia, das facilidades da vida moderna e do conhecimento adquirido ao longo de tantos séculos, persistimos imersos na estupidez e na mais completa ignorância. A despeito do legado de erros e acertos dos nossos ancestrais, continuamos criaturas ávidas, cruéis, individualistas ao extremo, animais meticulosamente absortos na mentira para o benefício próprio ou do seu clã. Para mim, já deu o que tinha que dar: este mundo já era.


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POR EM 04/11/2008 ÀS 09:33 AM

Um Deus que não sabe dançar

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Fico matutando sobre o que pretendem os evangélicos ao mergulhar na política? Agradar a Deus certamente não é, Deus, há séculos, é desagradado suficientemente por católicos, fanáticos islâmicos que praticam barbaridades em seu nome e outras seitas que até induzem seus seguidores ao suicídio para chegar até Ele mais depressa, não deve se sentir muito glorificado com essa invenção humana chamada política.

Sem perceber, pouco a pouco, fomos tomando conhecimento que os evangélicos deixaram de ser apenas um segmento e agora, cada vez mais, pleiteiam o pódio político, já não lhes bastam os púlpitos das suas igrejas, querem mais, querem nos representar, misturam religião com política. Nessas eleições eles ganharam ainda mais espaço aqui em Goiânia e no Brasil – todos com aquelas caras gordinhas e rosadas de menino-criado-com-a-avó que eles têm.

Pura aparência porque são mesmo umas águias ambiciosas ágeis como setas em direção ao seu alvo.

Têm conseguido o que querem.

No Rio de Janeiro assisti agora na campanha eleitoral a exposição de idéias do bispo candidato a prefeito e fiquei assustado com a moralidade retrógrada, a falta de graça, a ausência de sensualidade e humor, a tentativa subliminar de impor regras, as regras em que ele acredita. Destila burrice pelos poros e nisso não difere em nada dos seus pares do País inteiro. Um jornalista perguntou que livros ele lia no momento e ele só conseguiu citar o óbvio: a bíblia.

Fosse prefeito do Rio de Janeiro e os cariocas acabariam concordando com o filósofo alemão Nietzsche que “só acreditaria num deus que soubesse dançar”. O do tal bispo carioca não sabe e ele tentaria, com certeza, impor ao povo a rigidez com que encara a vida.

Mas, com todo seu discurso moralista, dançou há dois anos na CPI do mensalão. Ele e outro bispo, seu braço direito foram comprovadamente beneficiários do dinheiro sujo e um deles foi cassado, chorou diante das câmeras de TV, negou tudo, mas teve de voltar ao púlpito de sua igreja. Seus fiéis podem ter perdoado seus roubos, mas não viram a cor do dinheiro que ele conseguiu com seu cargo político.

Aqui há pouco tempo os jornais deram conta de que um deputado da Assembléia Legislativa de Goiás foi indiciado por peculato e esteve envolvido, segundo a polícia, com repasses de dinheiro a funcionários fantasmas todos nomeados por ele mesmo e organizados por seu irmão pastor de uma igreja.

Muitos fiéis da Igreja recebiam dinheiro do povo através de salários da Assembléia Legislativa e repassavam ao tal pastor.

Misteriosamente abafaram o caso, mas eu não estou inventando nada, são dados colhidos nos jornais que já foram comprovados pela polícia. Roubos e falcatruas já não assustam mais ninguém no país, o que ainda provoca apreensão e indignação é essa associação entre política e religião.

Esses senhores criadores e seguidores das novas igrejas conseguem amealhar grandes fortunas usando o nome de Jesus e a boa fé de ignorantes facilmente cegados pela rigidez das doutrinas e a promessa de privilégios divinos conforme o dízimo que pagam.

Penso que o leitor sabe que igrejas são isentas de pagamento de impostos.

Não entendo. Como também não entendo por que alguns jornais do país não permitem que se toque nesse assunto. Passa da hora de se mexer nesse vespeiro como já mexemos em tantos outros para separar os zangões das abelhas.

Religião é uma coisa, política é outra.

No Brasil ficou comum misturar uma e outra é usar a primeira para camuflar as falcatruas da segunda.

A história das civilizações comprova que sempre que os homens misturaram política e religião o resultado foi catastrófico.

Salazar, o violento ditador que subjugou Portugal, governava respaldado pela Opus Dei, entidade da igreja católica que ainda hoje representa o que há de mais conservador, hipócrita e atrasado no mundo.

Da mesma maneira o general franco, carrasco da Espanha, se orgulhava de, entre um assassinato e outro, ser visto piedosamente assistindo a missas solenes na catedral de Madri.

Ambos, ao misturar política e religião conseguiram camuflar seus roubos e assassinatos sem que ninguém pudesse censurá-los ou levá-los a julgamento – afinal, eram religiosos e supostamente tementes a Deus, se escondiam atrás Dele.

Não tocar nesse assunto, não escrever sobre ele dá aos evangélicos uma blindagem supostamente religiosa que lhes permite fazer o que querem quando ingressam nessa arte terrena que é a política.

Por que são diferentes quando cometem os mesmos erros que qualquer um? Falar dos maus e ladrões não significa que nas igrejas, quaisquer igrejas, não existam os honestos, os que lá estão porque, por algum motivo, precisam se sentir próximos de Deus.

Os canalhas, sim, usam o nome de um deus que não sabe dançar, se escondem atrás dele que é bem diferente do Deus alegre e generoso que, mesmo também não sabendo dançar, é respeitado e glorificado pelos honestos e os de boa fé desde sempre.

Porque afinal, para muitos, Deus é apenas uma projeção da mente de cada homem e cada um o reflete segundo sua imagem e semelhança.

O meu adora dançar.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:42 PM

Arrependimento não mata

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Estas coisas costumam acontecer com quem de vez em quando desentoca e sai pelo mundo cumprindo seu destino. Por diversos motivos, tenho saído da toca ultimamente, estando, portanto, sujeito a chuvas e trovoadas.

Numa dessas saídas (isso aconteceu em setembro deste ano tenebroso de 2008) descobri que arrependimento, desmentindo a língua de muitas comadres que andam por aí, não mata.

Uma repartição pública estadual precisou de meus serviços em uma cidade do interior de São Paulo e resolveu encarregar-se do meu transporte. Na hora marcada, sem atraso de um só minuto, o motorista anunciou-se pela campainha e cinco minutos depois já estávamos na estrada. Foram os cinco minutos em que um olha disfarçadamente a cara do outro para avaliar seu caráter e descobrir sua índole.

Meia hora de viagem e já éramos amigos de infância. É meu jeito, porque acredito no mal só como um bem que falhou (e tem falhado muito ultimamente). Por isso tenho a tendência a considerar, em princípio, a humanidade toda formada por amigos potenciais.

Algumas horas mais tarde, e para não faltar com a verdade, já tarde da noite, chegamos a nosso destino. Tínhamos o endereço do hotel onde havia uma reserva em meu nome. O preenchimento da ficha (o check in, pois vai-se tornando muito reles falar na língua de Camões) pouco demorou. Enquanto me ocupava da identificação, percebi o motorista ao telefone. Ele estava suando e com um ar desolado.

Não havia mais vagas na cidade. Um evento, que nem me lembro de que tipo, havia lotado a cidade de forasteiros. Perguntei-lhe se a empresa para a qual trabalha não havia providenciado uma reserva e fui informado de que ele mesmo deveria tê-lo feito, mas havia esquecido.

O motorista estava com uma cara muito próxima do mais sentido choro. Então, segurando as lágrimas, disse-me que teria de dormir dentro do automóvel. E isso me comoveu. Enfim, ajudou o bell-boy (Perceberam  por que tenho dito que sofremos uma invasão consentida?) a subir com as malas até meu quarto. Quando vi pela porta aberta, as duas camas de solteiro com suas colchas lisas e as belas dobras que as camareiras fazem como ninguém sabe fazer, hesitei. Meu amigo de infância esperava dormir dentro do carro, com as pernas encolhidas, o pescoço torto, o barulho do entorno. Ele me olhou e senti que seu olhar era de esperança.

Não precisei oferecer uma segunda vez. Ele só me perguntou qual das duas eu preferia e jogou-se com o total de seu peso sobre a outra. Tudo bem, avisei, mas não estranhe se me vir trabalhando até tarde, que este é um hábito antigo.

Casualmente a viagem me havia exaurido de boas idéias e resolvi dormir cedo. Resolvi, porque não dormi. Cansado como deveria estar, o motorista dormiu em menos de três minutos. Não se haviam passado dez quando fui acordado por seu ronco. Levantei-me, fiz barulho arrastando os chinelos no piso, tossi, pigarreei, por fim, puxei um de seus pés. Ele serenou.

Deitei novamente e já estava assistindo à abertura das portas celestiais quando um trovão, vindo da cama ao lado, me fez pular na minha. Arrastei os chinelos, tomei água, abri a torneira do banheiro, pigarreei, tossi, assoviei uma valsinha das poucas que conheço até arrancar-lhe de cima a colcha com que se cobrira.
Passei a noite sem dormir ou dormindo muito mal e em fatias.

De manhã, ele se levantou faceiro, lampeiro e pensou que estivesse me acordando ao pronunciar meu nome. Eu estava apenas com os olhos fechados, vivendo de tanto arrependimento.  


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:19 PM

Borboleta de plástico

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As novas gerações convivem com o plástico de forma tão natural como se ele fosse um elemento primitivo da natureza, sempre fazendo parte da vida do homem, como o fogo, a água a terra e o ar.

Mas o pessoal da minha geração, que mal passa do meio século de existência, sabe que somos mais velhos que o plástico. Mais velhos pelo menos que o uso corrente do plástico.

Me lembro bem da primeira vez que vi algum artefato do miraculoso produto. Era no final dos anos 50.  Meu primo Londino voltara de uma viagem a Iporá e de lá trouxera um pente de bolso que, num esforço cuidadoso, fazia um aro, topando as pontas. É claro que o proprietário do novel objeto não deixava a gente pôr a mão. Era só ele que realizava o prodígio, nos deixando pensar que o pente era de chifre ou de pau e que de repente o Londino tinha virado mágico.

Foi meu pai que o desmascarou, revelando que um amigo seu, o afamado sanfoneiro Zé do Dimas, que andava tocando por todo o país acompanhando duplas sertanejas, já lhe mostrara um pente daqueles, e que o tal produto tinha o enigmático nome de “matéria plástica”.

Meu segundo contato com o dito material foi um pouco mais traumático. No ano seguinte, meu pai voltava do giro da Folia de Reis, no início de janeiro, e trouxe um pedaço de pano de plástico. Do mesmo que era usado para proteger os instrumentos da chuva. Disse que o pano era para estender como uma tolda acima do meu catre, para proteger-me das goteiras, que eram abundantes na palhoça mal vedada.

Apesar das boas intenções de meu pai, o bendito toldo quase me leva a pro além. Na primeira chuva forte depois de instalado, minha mãe acendeu a lamparina para conferir a eficácia do artefato. Inavisadamente, deixou a labareda lamber a beira a barrado. Foi o bastante para que a chama se espalhasse rapidamente. Minha mãe mal teve tempo de me subtrair do incêndio. A palhoça só não queimou inteira porque a chuva, como bombeiro natural, evitou a pior.

Acho que a primeira e frustrada tentativa de usar o plástico em calçados foi no início dos anos 60. Comparado com os de couro era bem barato. Comprei um par de sapatos preto. Na hora que experimentei, com o plástico esticando, não percebi que estava apertado. Mas depois de um mês de uso, além do queimor sem tanto, ele me criou um calo crônico em forma de calando ao longo da sola de meu pé, que ainda ostento, mais de 40 anos depois.

Minha tia Francelina, na mesma ocasião, comprou umas sandalinhas pretas, enfeitadas por uma borboleta amarela por cima. Isso a deixou envaidecida. Mas na primeira vez que foi à escola com a novidade, ela rasgou em pleno recreio, deixando-a constrangida. Até com vontade de suspender os estudos.

Outro dia, andando pelos monturos do quintal da velha casa de meu avô, eis que me deparo com uma das borboletas amarelas das sandálias de minha tia. Estava íntegra, colorida, quase a ponto de voar. Com força bastante para abrir uma janela em minha alma para um mundo terno, cheio de nostalgias e recordações. 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:19 PM

A ciência: Deus ou o Diabo?

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Quem acompanha esta coluna já sabe que não sou aquele crítico sempre preocupado com os últimos lançamentos das editoras. Agora, por exemplo, acabei de ler “A ciência: Deus ou Diabo?” (Editora Unesp, 2001), uma série de entrevistas com cientistas (franceses e americanos) feita por Guitta Pessis-Pasternak, uma jornalista que também já escreveu outras obras do mesmo gênero como “Do caos à inteligência artificial”.

Guitta é exemplar. Por incrível que pareça ela lê, ou pelo menos passa a impressão de ter lido, os artigos e livros dos seus entrevistados, gente como Feyerabend (historiador da ciência), J.P. Changeux (neurobiologista), Ilya Prigogine (químico, estudioso do tempo), dentre outros de primeiro time.

Ao entrevistar o médico Jacques Ruffié e depois de discutir sobre sexualidade, a fragilidade das “raças puras” (evolutivamente mais vulneráveis que as miscigenadas)  e o fato inconteste que faz centenas de milhares ou mesmo milhões de anos que não há variação significativa na espécie humana, pergunta-lhe: “Para o senhor, a sexualidade é o motor fundamental de toda socialização, ainda que já tenha sido dito que ‘Marx explica a sociedade pelo ventre e Freud pelo baixo-ventre’?” A resposta é, digamos, científica: “Tanto um como outro escreveram em uma época em que se conhecia mal a genética humana....não existe sociedades em grupos assexuados, pois ela [a sexualidade] obriga ao encontro....”.

Ainda sobre assunto correlato, ao entrevistar Étienne-Émile Baulieu (especialista em hormônios) o leva a explicar aos leitores que as colaborações imprescindíveis do cientista Gregory Pincus para a invenção da pílula contraceptiva vieram de uma demanda feminista: “Não é espantoso que Pincus tenha trabalhado no aperfeiçoamento dessa milagrosa molécula por solicitação de uma célebre feminista americana?” e Baulieu torna-se didático: “Isto deveria fazer sonhar aqueles que desejam que as necessidades sociais guiem as pesquisas (...) mas é uma exceção. (...) Pincus fez avançar sua pesquisa graças a Margareth Sanger, fundadora do planejamento familiar americano, e à Sra. Catherine McCormick, que ofereceu apoio financeiro (...) e praticamente exigiram a aplicação de seus conhecimentos na condição feminina”.

O livro tem pontos fracos, principalmente em três ou quatro entrevistas, que só têm uma pergunta cada e o entrevistado praticamente escreve um artigo sobre o assunto.

Mas isto é o de menos quando nos deparamos com a entrevista do neurofisiologista Berthoz. A primeira pergunta é perfeita: “Quais mecanismos biológicos foram otimizados no curso da evolução a fim de que o cérebro pudesse, graças à sua memória, predizer o futuro, antecipar as conseqüências da ação?” E ele: “Fausto diz, ‘No início era o verbo’, depois se corrige, ‘No início era ação’. Atribuímos demasiado valor a linguagem em detrimento da ação, do corpo sensível (...) as espécies que venceram a prova da seleção natural souberam ganhar alguns milésimos de segundo para capturar uma presa, ou escapar de um predador (...)”.

E ela continua: “A percepção [do cérebro] seria relativa a uma ação direcionada a um objetivo?” com Berthoz sendo claro: “(...) A percepção do sapo é uma decisão adaptada a um objetivo: comer e não ser comido! Enfim, a própria percepção é a simulação da ação, dizia Janet: ‘Perceber uma poltrona é imaginar os movimentos que seriam necessários para que se nela possa sentar’ e Poincaré: ‘Localizar um ponto no espaço é imaginar o movimento que seria necessário para atingi-lo’ (...)”.

Sobre o título, ela deve ter apreciado a entrevista-artigo de Luc Ferry (filósofo), dá só uma olhadinha:  “(...) duas atitudes contraditórias dividem o monopólio do discurso midiático sobre a ciência: uma consiste em diabolizá-la e outra em divinizá-la (...) na última o cientista seria um gênio cheio de aptidões, mas aptidão não é garantia de sabedoria (...)”.

A epígrafe é ótima para jornalistas e cientistas: “Qual é a tua busca?: perceber a mão de Deus. Qual é o teu medo?: acariciar a cauda do Diabo.” (Hubert Curien).


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:58 PM

Os Coen são bons, McCarthy, não

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No country for old men, um livro sofrível de Cormac McCarthy, originou o mais sofrível ainda filme (aqui no Brasil intitulado) Onde os Fracos Não Têm Vez. Que, inacreditavelmente, papou o Oscar de melhor filme, além de direção pros irmãos Coen, de ator coadjuvante pro Javier Barden e de  melhor roteiro adaptado. Ao contrário do que muita gente boa diz, o filme não é uma adaptação fiel do livro. É uma pioração fiel, isso sim. No country for old men começa bem, vai bem até ali pela metade ou dois terços inicias. Depois descamba. McCarthy ficou com preguiça, perdeu a paciência, a inspiração, sei lá. Conseguiu a proeza de empobrecer o que parecia ser uma linda mistura de entretenimento com enriquecimento intelectual. Em outras palavras, uma boa estória, recheada de boa filosofia. Uma boa estória que faz pensar. Desgraçadamente, não manteve firme o leme até o destino. A “boa estória” se transformou em uma apressada e desconexa costura de pontos soltos. A filosofia descambou pro piegas.

Luiz Carlos Zanin, em seu blog, critica positivamente o filme. Acerta no que diz respeito à parte filosófica, mas se equivoca ao considerá-lo “não-acabado”. Transcrevo aqui o último parágrafo:

Talvez frustre aqueles que esperam finais fechados, roteiros com todas as pontas amarradas e diálogos explicativos. Não. Essa tragédia moral chamada Onde os Fracos Não Têm Vez mantém-se aberta até o final. Nos acompanha após a sessão e permanece conosco. Produzindo ainda efeitos, pedindo compreensão e apaziguamento. Mesmo que saibamos, como o xerife Bell, que os filmes e os sonhos apenas sugerem e são pontos de luz, nunca lições terminadas e definitivas.

Zanin está errado. Onde os fracos não têm vez não é “não-acabado” (no sentido tchekhoviano da palavra). É, sim, malacabado, mal-costurado. Tanto o livro, quanto o filme. Mas o filme mais ainda. O terço final, que no livro é preguiçosamente mal-feito, no filme é apressadamente pior-feito.

A verdade é que os Coen ganharam esse Oscar por que a Academia deve estar com vergonha de nunca tê-los premiado pra valer (eles só haviam recebido um Oscar por melhor roteiro original por Fargo). Não só o próprio Fargo, mas O Homem que Não Estava Lá, Barton Fink, Miller’s crossing, etc, são filmes excepcionais que mereciam uma baciada de prêmios da Academia. Esse que receberam agora foi, portanto, uma espécie de “Oscar pelo conjunto da obra”, não declarado.

Mas agora podem me confrontar: então tá, já que o filme dos Coen não merecia, quem, então? Boa pergunta.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias deveria ter estado entre os indicados pra melhor filme estrageiro. E deveria ter vencido.

Berlim 2008

Independente de qualquer discussão que caiba fazer a respeito do suposto facismo encravado em Tropa de Elite, fico feliz por ele ter ganho o prêmio principal no Festival de Berlim 2008. Primeiro por ser brasileiro (dá licença?!). Mas também, e principalmente, por ser um ótimo filme. Vai colado aí embaixo um artigo meu sobre o filme , publicado no jornal O Popular de 09-11-2007.

Estética sem ética

Logo no começo de O Poderoso Chefão há uma cena em que um pai angustiado implora a Don Vito Corleone (Marlon Brando) que mate o rapaz que havia estuprado sua filha. A Justiça, acusava o pai, havia sido por demais condescendente. Don Corleone hesita em concordar, deixando-nos, o pai e a platéia, mais angustiados ainda. Queremos sangue. Queremos morte violenta aos estupradores. Finalmente, para nosso alívio, o magnânimo Don aquiesce. E com isso temos a primeira das inúmeras vezes, nas três partes que compõem a saga dos Corleone, em que torcemos com todas as forças para o... crime organizado.

Ao final de Crimes e Pecados, o vilão, um médico oftalmologista canalha, se safa, e o mocinho, um cineasta idealista, se dá muito mal. Acusado de ter invertido a “moral da história” de Crime e Castigo de Dostoiévski (livro em que fora inspirado) e realizado um filme cínico, Woody Allen se defendeu: não era cínico, mas, sim, realista.

Os exemplos são muitos, mas fiquemos com esses e vamos direto ao ponto: é possível desgrudar a ética da estética? (Sim, esse é mais um artigo sobre Tropa de Elite). É justo submeter uma obra de arte ao crivo do juízo moral? Ou, por outra, é possível não submeter uma obra de arte ao crivo do juízo moral? E, em se o fazendo, é justo atribuir-lhe nota melhor ou pior a partir desse juízo?

Submetemos uma obra de arte ao nosso julgamento ético tanto quanto estético, queiramos ou não. É automático, quase medular. O que nos leva a outra questão: sendo automático o julgamento, não o será o veredicto. Em outras palavras, o que é mau eticamente, não necessariamente o será esteticamente. Podendo ser, até mesmo, o contrário. O que faz de O Poderoso Chefão e Crimes e Pecados filmes brilhantes é justamente o que têm de mais “condenável”. Já o famoso Epílogo que Dostoiévski colocou em Crime e Castigo, salvando a alma de Raskolnikov, empobreceu consideravelmente uma obra de arte genial.

O que me traz, finalmente, a Tropa de Elite. Não se trata apenas de gostar da forma, da produção caprichada, das interpretações magistrais (particularmente de Wagner Moura, o capitão Nascimento, redimindo-o da pateticamente caricata atuação em Ó Paí, ó). O que Tropa de Elite tem de melhor é justamente o que tem de mais condenável. O sentimento catártico-justiceiro do espectador quando vê a elite da tropa torturar e matar traficantes e maus policiais.

Em arte, convenhamos, a transgressão é bem mais charmosa do que a correção. Cabe formular matematicamente: o prazer estético de uma obra de arte é inversamente proporcional a sua postura ética. Até aí tudo bem. O problema é o que vem depois. É preciso discernimento, espírito crítico para não nos deixarmos inebriar pelo charme da incorreção. Senão saímos todos de uma sessão de Tropa de Elite no ponto pra formar nossas próprias milícias.

P.S.: Proibido Proibir é um filme nacional lançado em 2006 que tem muitos pontos em comum com Tropa de Elite. Vale conferir. 

 


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