revista bula
POR EM 25/11/2008 ÀS 09:45 AM

Adaptação , versão, inspiração

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No último FestCine Goiânia, o escritor Miguel Jorge coordenou uma mesa redonda sobre as relações entre o cinema e a literatura, da qual participamos, entre outros, eu e o professor Heleno Godoy. Na ocasião, o professor Heleno ficou bravo comigo (e com razão), por ter achado que eu distorci suas palavras. De fato, por absoluta incompetência minha, deixei passar essa impressão mesmo. Vai aqui uma segunda tentativa para me fazer entender.

O professor Heleno apresentou algumas regras norteadoras de uma adaptação cinematográfica de uma obra literária. Não me lembro exatamente de suas palavras, de forma que não as tentarei reproduzir aqui. Acho que posso, no entanto e sem muito risco de distorcê-las novamente, resumi-las numa palavra essencial: fidelidade.

Será tanto melhor uma adaptação cinematográfica, quanto mais fiel for à obra literária que lhe deu origem. Até esse ponto, embora não tenha parecido à época, nós, o professor e eu, concordamos. Concordamos também os demais literatos presentes (na mesa e na platéia) e eu, já que, pelo que me pareceu, a opinião esmagadoramente predominante era em favor da boa e bem-comportada (fiel) adaptação. O que não é uma surpresa, já que a perspectiva é a de um estudioso de literatura, não de um cineasta.

Que fique claro, então: também acho que uma boa adaptação é uma adaptação fiel. O problema vem depois. O professor Heleno acertou em cheio quando disse, espantado com meu atrevimento, que eu associo algo negativo à adaptação. Exatamente.

Concordar que uma adaptação seja boa se for fiel, não significa considerar uma adaptação uma boa coisa. Do ponto de vista cinematográfico, não é. Ora, já que estamos tratando das relações entre literatura e cinema, é preciso nos posicionar criticamente também. Não apenas constatar fria e objetivamente. E, embora eu não seja um cineasta, mas apenas um estudioso da filosofia do cinema (e escritor muito do mais ou menos), digo, com todas as letras: quanto mais fiel um filme for, pior ele é. Mais medíocre. Mais escravo. E me atrevo: mais filosoficamente pobre. Um filme escravo do livro que o motivou (uso “motivou” para caber tanto as adaptações, quanto as versões e inspirações) é um filme absolutamente vazio. Está fadado a ser um resumozinho do livro. E só.

À medida que vai se afastando do livro que o motivou (admitindo-se que não se trate de filme de encomenda), mais chances de ser rico (filosoficamente) ele tem. Claro, pode se distanciar tanto a ponto de nem sequer versão ser, e ainda assim ser pobre e medíocre. Mas, pelo menos, tentou. O que nunca se pode dizer a respeito das adaptações fiéis. Estas estão destinadas ao fogo eterno da danação medíocre.

Hora de clarear os termos: peço (imploro!) ao leitor que me conceda o benefício de significar as palavras a meu jeito. Vamos lá: por “adaptação” entenderemos o filme fiel ao livro (o cachorrinho da literatura). Por “versão”, o infiel, ma non troppo (o gato da literatura). Por “inspiração”, o completamente infiel (uma rameira tresloucada e absolutamente não confiável).

Para me ajudar, citarei os exemplos de que me venho valendo em outras ocasiões (na última Abralic, na Revista Bula e em minha coluna na revista Ciência & Vida Filosofia número 23): Dostoiévski. Não se passa incólume pela leitura de “Crime e Castigo”, “Os irmãos Karamazov” e “Memórias do Subsolo”, entre outros de seus livros. Um cineasta que os lê, já pensa logo em levá-los à telona. Mas de que forma?

Ivan Pyriev é autor, talvez, da adaptação mais ‘adaptação’ (mais fiel) de uma obra de Dostoiévski. Seu “Idiota” (embora termine antes do final, pois ele tencionava fazer cada parte do livro, mas ficou na primeira) é o livro em filme. Já “O Idiota” de Kurosawa é mais uma versão, com alguns pequenos toques de criatividade e contextualização (bem diferente de suas versões para “Macbeth” – “Trono manchado de sangue” – e “Rei Lear” – “Ran”, que são versões um pouco mais ousadas e portanto mais ricas). Também esse foi o caso de “Noites brancas”, de Visconti, e “Os Possessos”, de Wajda, versões bem-comportadas, mais próximas de adaptações mesmo.

Passamos, então, a duas versões que, embora ainda cabendo na categoria “versões”, por serem menos comportadas, são muito mais interessantes cinematograficamente (e filosoficamente, embora esse não seja o lugar nem a hora apropriados para eu me estender nessa tese mais complicada de desenvolver). São elas “Nina”, de Heitor Dhalia, e “Notas do subterrâneo”, de Gary Walkow. Em “Nina”, a protagonista (primeira traição: é A protagonista, e não O protagonista!) passa o tempo todo contemplando a idéia de matar a velha senhoria, mas só o faz ao final e... escapa da punição (oh, que traição!, como Dhalia se atreveu!). Já as “Notas do subterrâneo” de Walkow, não só contextualizam para a modernidade (o diário é em forma de fita de vídeo), mas acentuam a pusilanimidade do protagonista a níveis que certamente não eram o que Dostoiévski pretendia (que atrevimento!).

Então... vem “Crimes e pecados”, de Woody Allen. Nem vou discorrer muito sobre o filme, já que fico chato quando falo de Woody. Além do mais, estou escrevendo um livro inteiro sobre o assunto (um dia sai!) e não cabe aqui tudo o que penso dele (quando sair, por favor, comprem e leiam o diabo do livro). Apenas digo que não é, nem de longe, uma versão, o que dirá uma adaptação de “Crime e Castigo”. É quase uma subversão. Não está escrito em lugar algum dos créditos, e nem Woody faz muita menção especificamente a “Crime e Castigo” em suas entrevistas (menciona sua óbvia influência dos “autores russos”, eventualmente especificando Dostoiévski e Tchékhov). O número de “traições” ao livro é imenso e, ainda assim, a inspiração salta aos olhos. E é um dos filmes mais filosoficamente ricos que você terá a oportunidade de assistir.

Espero ter feito meu ponto mais claro. Ou não.

 


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POR EM 24/11/2008 ÀS 09:53 PM

Itinerário da cegueira

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Há uma cegueira que enxerga. Oftalmo nenhum pode curá-la, pois tal enfermidade é de natureza psíquica. E cresce em proporções de pandemia. Por vezes assume a forma de consumismo compulsivo, voragem famélica pantagruélica que leva ao impulso ceco de comprar, adquirir, acumular tudo: coisas de que não se precisa, personas/pessoas para consumo rápido e descarte idem. Criaturas humanas acometidas por tal deformação adquirida (com o tempo torna-se congênita, e assim as novas gerações já nascem cronicamente inviáveis.  

Tal como no ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a cegueira branca que enxerga é coletiva, com imenso poder de contágio: leva suas vítimas a se arrostarem como vencedores e bem sucedidos, sendo em verdade vencidos, por conseguirem a façanha de viver de modo contrário às leis naturais. Assim, de tanto viver contra o princípio da realidade, tornam-se personas o tempo todo mascaradas, assumindo a couraça muscular do caráter, que as transforma em pessoas irreais.    

"Tudo é uma ponta do mistério. Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo". (João Guimarães Rosa). Manoel Trás-os-montes, amanheceu vendo tudo noturno, como é da lei de quem, habituado a enxergar no escuro, amanhece vendo o nada - o mar leitoso, de infernal brancura, o que é diferente da cegueira que costumam ter os outros cegos da cidade - os que têm vistas capazes de ver tudo, mas não percebem sequer um lampejo do que vem de ser a real verdade da vida.  

Cego entre cegos, no átimo de um instante fugaz passou a ser discriminado, por estar mais cego do que os outros cegos (que são todos) da cidade. Cego total, imensamente imerso nas trevas, podia enxergar a matéria da memória, ou o que sua imaginação, a vida anterior, e o rio de pensamentos lhe sugeriam, ao passo que os cegos condutores de cegos, apopléticos de tanto ter e buscar o Ter e o poder a qualquer custo, são a própria escuridão da alma, exilada de seu centro.
            
Como vive um cego, a não ser tentando segurar o vácuo do nada escuro e insondável, em que se encontra exilado? O que é um espelho, senão a superfície mágica, a refletir a face visível da irrealidade? Quem É, e com que nome pode ser chamado Aquele que ama sem apego, e não conhece o sentimento do medo? Quem é o monstro que encaramos no espelho, às horas mortas da noite, quando ronda a sombra insone da nossa alma? Quando alguém morria, nossos antigos viravam os espelhos contra a parede, por entender que através deles o tempo muda de direção e velocidade. Ou talvez porque os espelhos sejam torres do silêncio, e através deles podemos acessar eternidades.
 
O tempo, em muitos trechos, é sempre tranquilo, escreveu Guimarães Rosa. E eu acrescento: nós é que nos agitamos, feito palhaços tragicômicos. Por nove meses, no cosmo do corpo, viajamos, como argonautas do nada. Vagindo e chorando chegamos ao porto da vida, como sabendo os sofrimentos que nos esperam, neste palco de tolos.  Mais mascarado que um farricoco é quem se finge de vivo, estando morto. Superou os limites do homem não quem desconheceu o sentimento do medo, mas quem o enfrentou, e o venceu.   
 
"Não podemos viver sem sermos maus. A maldade é o pólo oposto da bondade. Uma não pode existir sem que a outra existe. Somos bons porque somos maus. Se os bons são vítimas inermes da maldade, não é porque a bondade não tem potência. O mal sempre triunfa onde os bons não aprendem a ser astutos como as serpentes. "Como Satã antes da Queda, os que são maus por natureza aprenderam a odiar a própria natureza da bondade". (Josephine Hart).  
                                                           
 


                                 

Não sei dizer de qual fraqueza veio nascer minha maldade. Em que flanco do Ser fui tão ferido que me vi fadado a viver armado, em meio ao medo de invisíveis perigos? Bem sei que minha maldade existe, e me acompanha como sombra, ou lençol de escuridão acesa. Em perpetrar pequenas maldades, nos fazemos operários das sombras do mal. E o fazemos fingindo inocência, mas com astúcia de peçonhentas serpentes. E assim vamos sugando as almas de quem se entrega à nossa velha avidez.  

Não é meu intento garatujar, nestes cadernos mofados, uma teoria da maldade. Talvez só consiga, em nesgas de nuvens de amargas ou picarescas lembranças, provar a mim mesmo que, em perfídias cotidianas no seio imaculado da as(n)grada família, fazemos acordos secretos com os demônios, que em sua escuridão de ser, oram por nós, e nos vigiam, para que não venhamos a nos perder nos caminhos da hipocrisia sacripanta.

Todos vivemos, trabalhamos, fazemos sexo, vamos aos templos, às convenções de caridade, buscamos os bares e estádios, para esquecer ou nos dis-trair da infelicidade crônica - e sempre estamos usando nossas máscaras cotidianas. Vivemos em sociedades de mascarados, somos atores de uma tragicomédia bufa em que todos desempenham seus papéis. No palco de todos da vida passamos os dias a oprimir e sufocar uns aos outros, a pretexto de amá-los e protegê-los.  

De todas as solidões que nos angustiam, a mais terrível é a sensação de não pertencimento, ou a certeza de que não pertencemos a ninguém, e pior ainda: não pertencemos a nós mesmos. Tal exílio é sem retorno. E dói, como ferida viva, ou como um dente cujo nervo se encontra exposto. Clarice Lispector foi uma dessas criaturas exiladas desde a infância, em sua própria solidão. Era misteriosa e simples, como as coisas essenciais.

Dizia que somos todos mascarados. E a máscara que usamos é o disfarce da imagem auto-idealizada, que construímos como forma de evitar a infelicidade. Não há como separar a máscara que escolhemos usar, como estratégia de sobrevivência, e o Eu Idealizado - eles são uma só e a mesma coisa,  destinada a fingir que somos o que não chegamos a ser. Mas esqueci de acrescentar que não é fácil escolher as máscaras que usamos, e os papéis que desempenhamos.  

Quase sempre permitimos que outros façam isto por nós, e assim fazendo moldem o nosso rosto para o mundo. Clarice Lispector reconhecia: "Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa É".  

Viver usando máscaras destrói a uns, enquanto a outros propicia sucesso nos negócios, no amor, na vida em família e em sociedade. Conta-se que certo dia o rosto de um rapaz deu defeito, e ele levou na oficina mecânica, para consertar. Para não sair pelas ruas sem cabeça, o homem deu-lhe uma máscara. A partir disto, sua vida foi um sucesso. Recebeu e aceitou propostas milionárias, foi eleito senador, ganhou muito dinheiro, passou a atrair as mais belas beldades, sempre desfrutando de alto conceito e prestígio "na melhor sociedade". Passado o tempo estipulado, recebeu o telefonema do mecânico, que o concitou a ir buscar seu rosto verdadeiro, devolvendo a máscara que estava a suar. Negativo. O homem bem sucedido preferiu passar o resto de sua vida como um sucesso mascarado.           

Em que profundezas da noite da alma nasceram, no tempo dos assassinos, os demônios da maldade? Em que insondáveis sofrimentos vão buscar sua crueldade os assassinos da inocência? "Não temais o mal". Assim falou Quem nos ensinou o Amor.  Mas como não temer a sombra da maldade, a crescer como praga em nossa natureza infernal? P.S. A pior cegueira é aquela, branca e estranha, que nem José Saramago viu, em seu ensaio sobre a ilucidez de Ser que se abate sobre uma cidade: a que faz as pessoas enxergarem sem ver. A mesma de que ele demonstra padecer, em seu esquerdismo infantil, que o faz ver o paraíso perdido em seu ideal dogmático de sociedade perfeita, que para ele é o comunismo que vê no indivíduo e na diferença inimigos a serem assassinados.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:54 PM

Será?

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Se fôssemos inteligentes de fato, investiríamos todo o dinheiro, tempo e trabalho que temos a oferecer à sociedade na educação e na cultura.

Ou exigiríamos isso dos governantes.

Tudo o mais, saúde, segurança, crianças nas ruas, produtividade e riquezas, tudo seria mera conseqüência que um povo educado e culto trataria de produzir naturalmente. Há provas disso em outros países.  Educar não é apenas alfabetizar, oferecer comida, disponibilizar salas, etc...é muito mais profundo e depende diretamente da cultura de quem nos governa, nos representa, e é responsável pela área durante certo tempo. Precisaríamos de uma lei ideológica-apartidária sobre a Educação, isto é, que não dependesse dos governos, já que são todos cíclicos, passageiros.  

Educar seria um fértil projeto a ser executado como prioridade em longo prazo, elaborado por homens e mulheres de comprovado saber, obrigatoriamente seguido por qualquer governo.

Não é assunto que muda de rumo conforme o partido no poder, retomando tudo do zero, anulando metas traçados pelo anterior. Cada governo leva meses, à vezes anos para “tomar pé da situação”, e a Educação, matéria da sensibilidade e inteligência é quase sempre gerida por pequenos homens e mulheres culturalmente limitados.

Nada do que disse é novidade, era a grande meta de um dos maiores educadores do País: Paulo Freire. Educação e Cultura só podem caminhar e se desenvolver juntas. Educadores deveriam ter acesso a ela, tê-la como matéria importante do seu currículo educacional porque não há cultura sem Educação e vive-versa.

Há um certo aspecto da cultura que nós chamamos folclore, manifestações de festas populares, atividades para-teatrais como as cavalhadas e congadas que, por darem votos, são apoiadas e freqüentadas por políticos.  Ninguém mais se ilude, estão pouco interessados na arte que o povo produz, mas nos votos dele. Afinal, cultura popular reúne massa, palavra mágica que atiça a ambição de qualquer político. Claro que devemos preservar a história e as tradições que desenvolvemos espontaneamente ao longo dos anos, são nossa trajetória, mas devem ter cuidados redobrados quando são apoiadas – costumam aliciá-las e pervertê-las.

Como resolver esse teorema?

Educação e Cultura juntas descortinam soluções para muitos problemas – mas os governantes as querem? Todos eles anunciam a Educação como prioridade.

Mas o que é cultura? Ninguém sabe, é matéria etérea e fugaz, variável e diferente em cada recanto.  Talvez o melhor seja defini-la pelo que ela não é: aquele intelectual chato e antiorgástico que sabe citar de cor frases de grandes autores; o idiota cheio de títulos e diplomas na parede; os merdalhões  amargos que confundem criticar com falar mal;  os que têm as maiores bibliotecas enfeitando paredes decoradas com lombadas coloridas mas que nunca abriram os livros;  os que sempre encontram desculpas por não terem visto uma obra de arte; os freqüentadores assíduos e festeiros dos lançamentos de livros e vernisages , papa-coquetéis enfeitados de cultos; os freqüentadores  eventuais que só vão ao teatro quando tem algum nome que já viu na TV; escritores medíocres que ocupam cargos de direção de entidades culturais; carreiristas políticos que sempre dão um jeito de serem nomeados para áreas culturais; os tiradores de casquinha em fotos com artistas e intelectuais famosos; os limitados homofóbicos que acham que cultura é coisa de veado;  os que confundem diversão com riso , nunca com o prazer da beleza e do pensar; os donos-da-verdade que não sabem nem de si mesmos; os vomitadores de regras estabelecidas e velhíssimas...

Felizmente nada disso é cultura.

Cultura é alguma coisa próxima da verdadeira e prazerosa sensação de que você está apto a discernir o que é bom do que é ruim. Não porque algum jornal ou publicidade da TV lhe disse, não porque leu uma regra em algum livro de receitas de como ser culto, mas apto por ser capaz de juntar as pedras de tudo o que foi aprendendo pela vida afora, até o quebra-cabeça fazer sentido espiritual – cultura é coisa de evolução de espírito. 

Só boa leitura, bons espetáculos, filmes, músicas, boas conversas e tantos bons etcs...podem criar cultura.  

A escola tem papel fundamental nisso – educar é ensinar as crianças a serem leis de si mesmas a desenvolverem e elevarem a personalidade e autoestima e a serem dependentes de si mesmas. Coisas tão vitais como a matemática, o português, a geografia. Educar é fazer com que as especulações da alma sejam cercadas de estímulos geradores da cultura.  

Mas como tudo isso são meras especulações, deixo ao leitor a tarefa de pensar sobre o assunto e decidir como terminaria esse artigo.

Posso botar pilha na lanterna com uma informação preciosa que acabo de ler numa publicação da UNESCO: todas as crianças e adolescentes que têm acesso a atividades culturais associadas às educacionais desenvolvem maiores potenciais, mais personalidade própria e, conseqüentemente, menos violência, menos drogas, menos mediocridade – as grandes enfermidades sociais do nosso tempo.  

Educação e Cultura é que fazem um País decente que um dia, ainda acredito, faremos.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:54 PM

Incompletude, ainda incompleta

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É velha a piada, mas vale à pena recordar. Dois físicos estavam voando de balão (gastando dinheiro do CNPq) estudando a forma das nuvens, quando se perderam (típico...) e foram cair num campo deserto muito distante do ponto de pouso. Um homem flanava por ali. Os físicos mais que depressa: “Por favor, meu senhor, sabe onde estamos?”. O caminhante respondeu após intermináveis trinta minutos: “Num balão”. Um dos físicos perguntou-lhe: “O senhor é matemático, não é?”, no que o homem indagou: “Sou. Como você sabe?”. O físico não o perdoou: “Bem, o senhor demorou pra responder; deu uma resposta exata e por último, mas não menos importante, sua resposta não serve pra nada!”.

Pra que serve a matemática? Bem, se for utilizada para alguma coisa, os matemáticos mais puros lhe dirão que não é mais matemática, podendo ser contabilidade, economia, biomatemática, porém, não é mais matemática, aquele assunto de que tratam os matemáticos (“puros”) que têm sempre a sensação de estar descobrindo verdades objetivas pela razão, e não apenas construindo sistemas.

Este papo entre matemáticos é tão sério que a missão do “Instituto de Assuntos Avançados” fundado em 1930 por Abraham Flexner em Princeton, com 30 milhões de dólares doados por magnatas do varejo americano, era dedicar-se única e exclusivamente “a utilidade do conhecimento inútil”. Isto é, Flexner só contrataria cientistas cujos instrumentos seriam lápis e papel. Para se ter uma idéia de como isto era realmente levado ao pé da letra, quando o húngaro John von Neumann começou a construir o computador neste Instituto, foi criticado dentro do departamento por “estar no lugar errado”. Quando morreu, o protótipo do computador foi mandado discretamente para a Universidade de Princeton, já que sua construção era muito prática e, talvez, um tanto quanto trivial (!).

Platão deu asas a importância da matemática que, segundo ele, nos serviria de modelo na busca pela beleza da verdade adquirida única e exclusivamente através da razão pura. Rebeca Goldstein (profissão: matemática) afirma em “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia das Letras, 242p.) que Platão nos convida para a razão apaixonada ou o êxtase supremo na procura pelo Belo abstrato, sem os defeitos mundanos. Em outras palavras, o filósofo quer que nos apaixonemos platonicamente.

Um destes eternos enamorados da verdade platônica foi Kurt Gödel, nascido em 1906 em Brno, que hoje pertence a República Tcheca, mas no início do século XX era parte do império dos Habsburgo. É muito provável que o leitor nunca tenha ouvido falar desta cidade, mas foi ali, num mosteiro agostiniano, que Gregor Mendel realizou seus experimentos com ervilhas e descobriu as leis da dominância e recessividade. De qualquer forma, a herança genética da cidade foi também mexer no DNA da matemática.

Gödel foi para Viena com 18 anos de idade para estudar na Universidade. Esta mesma Viena, do período entre guerras, era a capital intelectual do planeta ou ainda “o laboratório de pesquisa de destruição do mundo”, nas palavras do ácido jornalista da época Karl Kraus, um lingüista radical, para quem “falar e pensar são a mesma coisa” e que tinha grande influência sobre os pensantes-falantes dos famosos Cafés vienenses. No início, Gödel fora atraído pela física e a teoria das cores do “cientista” Johann W. Goethe, depois pela matemática e teoria dos conjuntos, mas apaixonou-se perdidamente ao deixar-se atrair pelo caminho da lógica. Ainda hoje é considerado o maior lógico desde Aristóteles (paixão, literalmente, à toda prova...).  

Goldstein “demonstra” que é impossível saber qual foi o momento iluminado de Gödel, mas através daquilo que chama de “especulação esclarecida” conta que o jovem tímido participou assiduamente (embora a influência possa não ter ocorrido) das reuniões do Círculo de Viena, que congregava os principais pensadores de então: Moritz Schlick (organizador das reuniões), Rudolf Carnap (orientado de Max Planck), Otto Neurath (economista que empurrava as reuniões para o assunto de política), e, entre outros, o matemático Hans Hahn que introduziu ao Círculo as idéias de G. Frege e Bertrand Russel (com aulas sobre a principal obra de ambos, o Principia Mathematica) e convidou seu orientado Gödel a participar das reuniões.

O Círculo de Viena defendia o positivismo lógico, falando em nome da precisão e do progresso associado às ciências. Eles deixaram claro que o fato de algumas perguntas permanecerem irrespondíveis (Deus existe?), não é problema de nossa ignorância, mas sim pelo fato da questão não fazer sentido, já que ela não é suscetível à medição ou ao procedimento empírico.

Apesar das reuniões serem concorridas, a ponto de ninguém entrar sem convite (Karl Popper, por exemplo, suou para conseguir o seu) a personagem mais influente do Círculo não aparecia por lá: Ludwig Wittgenstein. Mas isto a gente comenta a semana que vem.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:49 PM

Fico feliz por te ver assim tão triste

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“A minha vida está se desmoronando, e as pessoas estão se divertindo muito com isto. Mas eu não perco a dignidade. Continuo trabalhando.” Li esta declaração de uma jovem atriz brasileira que anda metida numa série de problemas pessoais, fartamente explorados pela mídia. Lembrei-me do que disse o cantor e compositor John Lennon, numa fase da sua vida em que nada parecia dar certo: “Ninguém o ama quando você está por baixo e por fora”.

Não é preciso ser filósofo nem antropólogo para teorizar a respeito do viver e do fenecer. Até mesmo os crápulas, nas suas ínfimas pausas de maledicência, devem fazê-lo. John fez parte da cultura pop em sua época, deu o seu recado e nos legou boa música e mensagens humanitárias que muitos menosprezam ou insistem em não captar. Quando foi baleado na porta do Dakota Hotel, o ex-beatle pagou com a própria vida o preço pela incompreensão e pela intolerância.   

Com vocação para a inveja e a crueldade, nós crescemos interessados nos revezes uns dos outros. Não foi assim na infância? Nos embates e estripulias com os vizinhos de rua? Nas disputas disfarçadas e humilhações dentro nas escolas? Zombamos do menino quatro-olhos, da menina dentuça, dos gorduchos e dos orelhas-de-abano. Insistimos nas troças até fazer chorar. Sorrimos do sofrimento alheio com semblantes apalermados, comemorando, intimamente ou de forma indisfarçável, o mal que recaía sobre terceiros. Em matéria de maldade, somos bons demais da conta.

O espetáculo da dor e do fracasso presta-se ao regozijo de muitos. Não é por acaso que as revistas que publicam os escândalos dos famosos vendem aos borbotões, enriquecendo seus editores, alvoroçando a energúmena massa. O febril interesse pelas tragédias é surpreendente, mórbido, digno da imersão de psicólogos e demais estudiosos da mente e do comportamento humanos. Para a maioria de nós é prazeroso assistir às autodestruições. Um cantor viciado. Uma atriz alcoólatra. Um pastor pedófilo. Habitantes do fundo do poço. Palhaços que somos gostamos mesmo é de ver o circo pegar fogo.

 Durante a vida crescemos adestrados sob padrões e regras, a fim de nos adaptarmos à convivência social sadia e, digamos, normal. Há muitos vieses. Aprendemos a valorizar o supérfluo como se ele fora o essencial. Com aguçados cinco sentidos, reparamos em defeitos e imperfeições aos quais nos julgamos imunes. Valorizamos com tal exagero as aparências que a vida vai ficando assim superficial e sem sentido. Apegados aos bens materiais, tocamos a vida como se fosse uma viola faltando algumas cordas. O som fere os ouvidos, no entanto, acreditamos fazer um concerto e tanto.

A frivolidade e a devoção ao dinheiro são ensinadas dentro e fora dos lares, por pais ausentes e as maravilhas da tecnologia, naquele esforço colossal para suportar a desunida família e manter as aparências. Não é à toa que a filantropia é ofício de uns poucos abnegados. Gastar o próprio tempo ajudando estranhos parece pouco atrativo. Muitos, julgando-se baluartes da benevolência e do desprendimento, desprendem sim algumas moedas nas mãos miseráveis dos mendigos e pedintes que lotam as portas das igrejas e os semáforos das cidades. Entregamos as quirelas por piedade ou por medo?

Para se sentirem melhores, alguns cidadãos abonados fazem doações vultosas às entidades carentes, como se elas carecessem apenas de dinheiro. Os milionários fanfarrões, que garantem preferir o anonimato, salpicam sobre os desafortunados as migalhas de seus quinhões, ao invés de “desperdiçarem tempo” ouvindo, dando atenção sincera, ensinando, aprendendo a viver.

Nas minhas divagações de escritor, e nas incursões silenciosas de um ser vivente, eu me esforço para entender a condição humana no planeta. Tudo parece uma equação complexa e sem um fim que a justifique, aquela mesma sensação que me afligia nas aulas de física e matemática da infância. O professor, criatura boníssima das mais injustiçadas no Brasil, acabava dando uma forcinha e chegávamos a um resultado. A conta era exata e sempre fechava. Mas agora é diferente. Meu antigo professor já nem existe mais, senão em fotografias e na memória dos seus familiares, amigos e ex-alunos, como eu. Quem vai então se apiedar de mim e revelar uma valiosa dica?


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:35 PM

Deus e os ovos no porta-malas

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As atitudes de rebeldia foram chegando com a adolescência, devagar, quase que imperceptivelmente. Uma roupa mais corajosa hoje, uma resposta mais dura amanhã, um gesto mais abusado, um prego na língua ou um tatoo nas cadeiras depois. Atitudes que os pais jogavam na conta das inquietações da idade. Um indicador seguro era o boletim da escola, que mantinha níveis aceitáveis para o histórico da família.

Mas quando Analisa descobriu que havia a noite e que na noite havia a balada e que na balada havia... Aí, sim.

Caiu num deslumbre endiabrado. Acabou o tempo para a escola e a família. Passava o dia na internet, alimentando comunidades, atualizando o blog, combinando com a galera sobre a balada que empreenderiam à noite. Duas coisas a tiravam do computador: baladas e compras. Adquiria os modelitos de grife, cada vez mais arrasantes, tanto pelo preço, quanto pela extravagância. Eram, como se diz, roupas de andar pelado.  

E no embalo, de balada em balada, Analisa foi selecionando um grupo maneiro de amigos irados. O tititi que rolava é que ela pertencia mesmo a uma galera da pesada.

No dia em que visitou seu blog, a mãe levou um choque e teve de ser internada. Logo na primeira página estava lá sua filinha querida, sensualmente despachando uma fila enorme de marmanjos mal-encarados, numa seção coletiva de beijos na boca.

Nas páginas seguintes desfilava uma alegoria de horrores. Analisa, com uma malícia medonha, se apresenta fazendo roleta-russa com um revólver prateado. Na seguinte, puxando um brau. Depois, cafungando um carreirão de cocaína sobre um espelho ordinário, desses com moldura cor de cenoura. Na próxima, braço na chincha, recebendo na veia uma dose cavalar de outra droga qualquer.

Mas quando a mãe entrou na área pornô, caiu desmaiada, logo ao ver um piercing animal trespassado nas partes. Nem chegou a ver as orgias tipo hardcore que a pequena fazia e jogava na rede, daquelas de deixar Calígula rodopiando na catacumba.

Quando a mãe se recuperou do choque, juntou-se com outros familiares e orelhou a filha e a internou numa clínica de drogados, ou de malucos, não sei.

Semanas depois, quando finalmente teve alta, a turma já estava esperando Analisa para o retorno à mesma vida de antes. A mãe desesperou-se, mas antes que o marido e outros parentes chegassem para ajudá-la na operação de impedimento, a filha pegou o carro da mãe na garagem, pôs a galera pra dentro e acionou o portão para novamente mergulhar no mundo.

Sem mais a fazer, a mãe entrega ao sobrenatural: vai com Deus, minha filha.

- O carro já tá cheio, mãe. Se Deus quiser ir, só se for no porta-malas.

 Aquela noite Analisa bateu o carro. E bateu feio. Todos morreram. Ficaram irreconhecíveis nos destroços.

Mas, no que sobrou do porta-malas, a mãe encontrou uma cartela de ovos, esquecida ali na última compra. Por incrível que pareça, estavam intactos. A mãe acha que foi um capricho de Deus.  


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POR EM 21/11/2008 ÀS 10:32 PM

O primo do Elvis Presley

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Se não sabeis, contarei: quase cheguei a ser primo do Elvis Presley. Ou podia ter sido, se tivesse acreditado em um primo lunático. Ou melhor: como fui morto por sua morte, despojado que fui de um desejável parentesco com ele. Num dia antigo e triste, de minha vida desolada, em que eu me encontrava (e me perdia) nas ruas, amargo como a bile, a vende doces para as pessoas, eu tive um primo que me roubava os únicos míseros centavos que ia embolsando, à medida em que vendia ameixas para uns sacanas de uns mecânicos.
 
O que mais me desesperava, no sacana do meu primo, não era o fato de o cara me roubar, sistematicamente, todos os dias, utilizando estratégicas fantásticas e diversas. De tal acostumado a ser roubado, eu já saia contabilizando as perdas & danos, já conformado em levar uma surra homérica - a sova diária - que minha mãe me aplicava, pelo crime de me deixar roubar diariamente, assim me fazendo cúmplice de primo-ladrão.
 
O que mais me atazanava era ouvir do primo, antes ou depois de ser roubado, que ele era primo do Elvis Presley, que o rei do rock mandava para ele roupa de ouro, sapatos de ouro, guitarra de ouro, tudo de ouro dezoito. Tornara-se um Midas suburbano, na periferia do capitalismo. O mentiroso contumaz mentia e roubava de maneira inapelável e não evitável, contra toda vigilância e toda lógica, como se tivesse parte com o demônio. Vendíamos ameixas, pelas ruas da Campininha das flores.
 
Era descuidar, piscar um olho, e lá ia, lépida e solerte, a sua mão sorrateira surrupiava de meu bolso a grana minguada, que teria de levar à minha mãe. Como quase nunca a levava (pois que era levada pelo safardana, à socapa e à sorrelfa, o couro descia em meu lombo, enquanto ele ficava olhando, com falsa piedade.   

Eu era tão cretino que jamais o peguei em flagrante botando a mão na minha grana, nunca pedi para ver a roupa de ouro, que o Elvis Presley todo mês lhe mandava e, o que é ainda mais grotesco: sendo primo do primo do Elvis Presley, era de se prever (e de se querer) que o rei do rock, dono de quase tudo no mundo, (inclusive de uma fome pantagruélica, que o levou deste vale de tele-lágrimas), - era de se esperar que o Elvis, sendo primo do meu querido algoz e primo, fosse também meu primo, meu parente, por indestrutíveis  laços de sangue. Sentindo o peso de chumbo da menos valia, eu me sentia um deserdado.

Jamais me ocorreu - embora não acreditasse muito nele, perguntar porque sendo por que sendo ele primo do Elvis, por que eu também não o seria, se eu era primo dele. Seguia ele contando suas papiatas e lorotas, enquanto o tempo foi passando, e o Elvis saindo da moda - dito de outro modo: enquanto o rei do rock ia passando, trocado por uns cabeludos ingleses, que jovens do mundo inteiro amavam histericamente, como já tinham amado os Rolling Stones.

Foi o meu primo crescendo e eu também, trocando de fantasias e ilusões. Quanto ao rei do rock propriamente dito, não se conformava em ser esquecido: passou a comer sanduíches desbragadamente, à guisa de compensação, uma vez que se transformara em página virada da história. Junto à sanduichama que mandava para a pança, seguiam pílulas perigosas, de efeito antidepressivo, dadas por um médico mui amigo. Resultado do imbróglio: bateu com as botas, esticou as canelas, degringolou o topete, foi de encontro ao Cujo.

A esta altura, as roupas de ouro de tolo, que o Elvis mandava a seu primo brasilindio achavam-se enferrujadas, em um canto mofado. Não caberiam no figurino de um comum mortal. A guitarra de ouro que o rei do rock lhe mandara virou cama quentinha de ninhadas de ratos. O caso mais estúrdio deu-se, contudo, não com a decepção do meu primo, àquelas alturas já esquecido do primo-ídolo, e já idolatrando os Beatles, os novos reis do pedaço e das estranjas.

É que o cachorro do Elvis Presley, inconformado com a morte de seu dono, perguntou ao psicanalista: por que alguém se mata, se comida não lhe falta? Na verdade, tão cheia estava que nela não caberia nem mais um sanduíche ou guloseima. Nem o doutor psi, nem lacanianos ou reicheanos que vieram depois puderam responder à indagação cachorral.

Por que o Elvis se matou, se comida era o que mais havia em sua formidável mansão, dotada de mil quartos translumbrantes, e salas de café, de chá e de chocolate? No céu, para onde deve ter ido quando chegou o seu tempo de deixar este vale de telelágrimas, o cachorro do Elvis Presley ainda nos late com sua metafísica indagação cachorral: por que o meu dono se matou, se a geladeira estava cheia?


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POR EM 17/11/2008 ÀS 05:34 PM

O caminho para Galápagos

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Em julho e agosto deste ano, a Bula publicou vários artigos meus falando de Galápagos, por onde estive viajando. Como muito amigos andam me perguntando como montamos nossa viagem para Galápagos, quanto gastamos, se compensou etc…então vou dar algumas dicas de turista não-acidental, pois foi nessa condição que fomos para lá.

1 – Para chegar em Quito no Equador, tem-se que necessariamente passar por Lima no Peru e fazer uma escala de umas 5 horas nesta cidade. Fomos com a Companhia TACA que, inclusive é peruana e o nosso vôo saiu de Congonhas às 06:00h da manhã, o que não é fácil. A mesma Companhia nos levou até o Equador. Quem tem milhas da TAM pode ir apenas até Lima;

2 – Todos os pacotes turísticos prontos que procuramos para ir ao Equador-Galápagos enfatizavam muito mais os passeios no continente do que no arquipélago. A Adriana então teve que investigar na Internet e fez muitos contatos com esta agência de viagens que nos ajudou bastante: SURTREK - Tour Operator http://www.surtrek.com/. Nesta página você clica em “contato” e escreve a eles dizendo que tipo de passeio você gostaria de fazer (caprichem no espanhol ou no inglês);

3 – Para chegar à Galápagos é necessário comprar uma espécie de visto e a agência de viagens normalmente faz isto. O preço é $50,00 (se você tiver passaporte não sul-americano, então você paga $100,00). A mesma agência pode  comprar sua passagem de avião de Quitos para Galápagos (lembre-se que o arquipélago fica à 900 km do continente), pois é mais difícil comprar aqui no Brasil;

4 - Nós reservamos um hotel nas Galápagos (http://www.redmangrove.com/), na cidade de Porto Ayora (ilha de Santa Cruz). É a melhor cidade do arquipélago (não é a capital), onde está a Estação de Pesquisa Charles Darwin. Há boas lojas, restaurantes e um sistema honesto de táxis. As atrações são: um pequeno passeio de barco em torno da ilha (4 horas), a Estação de Pesquisa (4 horas de visita são suficientes), algumas praias (inclusive para surf); algumas fazendas que criam tartarugas gigantes e à noite, se tiver pique, dá pra sair pros bares e restaurantes (preços razoáveis, $15-25 dólares por refeição).

5 – Para visitar as outras ilhas em tours de apenas um dia, você tem que ir a uma das inúmeras pequenas agências de viagem em Porto Ayora e fazer as suas reservas. Normalmente os hotéis fazem isto também, mas sai um pouco mais caro. Não deixe para última hora, que você pode ficar sem passeio. O ideal é agendar todos os passeios no primeiro dia. Importante: não há outro modo de conhecer as ilhas sem estes passeios (Observação: estas agências só recebem em dinheiro, isto é, dólar);

6 -  Todas as visitas às ilhas têm o seguinte modelo: primeiro, uma caminhada na ilha com guias, segundo um mergulho-livre ao redor da ilha, em locais amenos. A água é gelada, mas vale muito a pena, pois a fauna marinha é maravilhosa;

7 – Uma boa sugestão para quem tem mais dinheiro é pegar um navio ou catamarã para um Cruzeiro (nem sempre os navios são muito grandes). A vantagem é que neles você viaja durante a noite e quando acorda pela manhã, já está nas ilhas. Veja, por exemplo, http://www.tiptopfleet.com/ cuja experiência neste tipo de passeio vem desde 1969! Eles têm até um guia de campo, pra você anotar o que viu nas visitas, etc...Do contrário, fará como nós: terá que viajar de duas a duas horas e meia para chegar as outras ilhas (na volta se gasta o mesmo tempo). Para evitar enjôos, não exagere no café da manhã;

8- Quanto ao preços, vou indicar aqui o valor para duas pessoas, lembrando que para alguns casos, como, por exemplo, hotéis nem sempre o preço para uma pessoa é metade do valor de duas (também não coloquei aqui nossos gastos com a visita ao vulcão Cotopaxi). Os valores estão todos em dólares, pois a turbulência atual nos obriga a voltar ao padrão dólar.

1 - Passagem São Paulo-Quito-São Paulo: $1.863,89 (duas pessoas);
2 - Sete noites no Red Mangrove Galápagos Lodge, na ilha de Santa Cruz: $1.469,92;
3 - Passagem Galápagos-Quito-Galápagos e hotel em Quito (pois não dava pra dormir no minúsculo aeroporto de Quito, além do que queríamos conhecer as maravilhosas igrejas da Capital do Equador): $1.800,00;
4 - Cinco Passeios nas ilhas Galápagos: $1.080,00;
5 - Gastos com refeições, presentes e livros: $800,00 (de $35,00-$50,00 é o preço de um jantar pra duas pessoas);
6 – Gorjetas (total): $100,00.
7 - Taxa de embarque no aeroporto de Quito na nossa volta: $80,00 (um absurdo!!!);

Tudo isto, dá uns $7.000,00 dólares/duas pessoas. Sinceramente se você é biólogo ou gosta da natureza e/ou ainda dá importância para lugares marcantes para a ciência mundial, o valor não é tão alto. Lembre-se que é uma viagem para fazer quando você estiver já maduro profissionalmente, pois assim você a aproveita melhor.

É incrível como brasileiro tem mania de só tirar férias na praia, de papo pro ar, bebendo cerveja (argh!!!). Que tal aproveitar estes períodos da nossa vida para aprender mais sobre a natureza e o mundo? Como se diz por aí, praticar o “ócio criativo”. O mundo é muito maior do que ficar olhando o mar de Ubatuba ou da Bahia (não que eu não goste disto também, mas diversão com conhecimento é ainda melhor).

Tem outra coisa. Um grande amigo meu disse-me que não vai a Galápagos porque acha errado passear nestes lugares, onde os bichos deveriam ser deixados em paz. Não concordo nem um pouco com ele. A questão é que se Galápagos perder seus turistas, o que farão seus mais de 20 mil moradores? Pois é, aquela tartaruga que vale muito quando está viva, passará a só ter valor se estiver morta. Qualquer dia destes voltarei a este tema....

Boa viagem.


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:41 PM

E se fosse pela última vez

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Às vezes, sexo é assunto engraçado. Não vou dizer que seja gozado, até para evitar duplo sentido, safadeza nas entrelinhas. Tenho o hábito de ler os jornais por inteiro, exceto os encartes promocionais que só propagam o consumismo e alimentam o lixo. É a chamada leitura dinâmica, em que os olhos e a mente pescam nas manchetes os assuntos que interessam. Nem sei por que cargas d’água vasculho até os classificados. Talvez o faça na ingênua esperança de ali encontrar um rumo na vida, o lenitivo à minha angústia, as respostas às questões mais inquietantes da existência. Sei lá.

Outro dia vi um anúncio curioso num jornal de menor expressão, onde havia a foto de uma modelo nua com uma bolota vermelha no meio das pernas (um providencial tapa sexo da gráfica...) e os seguintes dizeres em negrito: “Sexo ao vivo com a participação do público”. Ingênuo como um adolescente virgem num bordel, fiquei especulando que tal participação teria o público num “show” de sexo explícito. Aplausos e palavras de incentivo? Ovação ou afagos nos ovos? Trombadas testiculares? Palavrório de baixo calão? O despejo de vaselina sobre um casal performático? Cuspir, emprestar saliva aos coitos? Arriar as próprias calças  e esperar a sua vez? Sexo com revezamento? Orgia com pessoas estranhas que parecem assim tão familiares? Fiquei intrigado com o anúncio, mas, nem por um instante desejei conhecer a espelunca.

Sexo, vital e fisiológico como beber água ou defecar, pode ser dramático. Há alguns dias acompanhei um amigo que seria submetido à extirpação da próstata, importante órgão da genitália masculina, e que tem papel fundamental da função sexual e na micção. De acordo com o médico, a cirurgia poderia deixar seqüelas, como impotência sexual (30% dos casos) ou incontinência urinária (5% de chance). O câncer até que não preocupava tanto, mas a possibilidade de nunca mais enxergar o próprio pênis ereto quase o fez desistir do procedimento e se deixar corroer pelo tumor. Transou com a namorada na véspera, pensando que talvez fosse pela última vez.

Sem imaginar uma forma mais eficaz para consolá-lo, eu arrisquei uma anedota. Ora, amigo, havia outras formas de se obter prazer sexual na vida. Afinal de contas, sobravam a ele os dez dedos das mãos, outra dezena nos pés, a língua e, em último caso, na bacia das almas, o próprio ânus. Ele gargalhou como a concordar com a piada, e foi levado pela enfermeira bonita que ele nem pôs reparo. A cirurgia teve total êxito.

Sexo, para muitas pessoas, não faz mais nenhum sentido. Foi Dona Matilde quem me contou. Outro dia ela chegou a sua casa de supetão e flagrou a neta rebolando pelada defronte a tela de um computador. A octogenária senhorinha, ao contrário da moçoila, não perdeu o rebolado e a repreendeu: “que bobagem é esta, criatura?”. A moça ficou constrangida, catou as roupas esparramadas pelo assoalho, e justificou que se tratava de um presente para o namorado que viajara para a Austrália. Dona Matilde, que não entende nada de internet e informática, achou tudo aquilo muito besta, sem serventia, e ficou se perguntando se compensava a moça ficar rebolando nua na frente de uma máquina por causa de um homem que talvez nem mais voltasse para o Brasil, ou mesmo já estivesse se ocupando com as mulheres australianas. Com a chegada da senilidade, chegam o reumatismo e a teimosia, mas também, a sapiência.

Sexo vira arma nos afazeres infames dos estupradores e adultos que abusam de crianças. Na maioria das vezes, os algozes são os próprios pais, parentes ou amigos da família que se aproveitam da confiança dos menores para impetrar o horror. Êxtase e prazer de um lado, sofrimento e lembranças abjetas do outro. Quanto mal pode um ser humano infligir à vida de alguém? Parece algo ilimitado. São estórias terríveis muitas vezes escondidas durante existências inteiras. Dramas jamais revelados, senão em desabafos sobre os divãs (àqueles poucos que podem bancar o próprio tratamento), ou nos leitos de morte, no apagar das luzes, nas confissões chocantes, nas derradeiras palavras, no último suspiro, uma chance final para se revelar a verdade antes que o coração pare e a vida suma para sempre. Assim como a dor há tempos ocultada.


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:40 PM

De salto alto

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Quando se está dentro do avião e ele levanta vôo é bom ficar com o nariz colado no vidro da janela observando a lenta subida aos céus. Em poucos minutos o homem, a casa do homem, as ruas do homem, os carros do homem...tudo isso vai se distanciando, ficando pequenininho até que a gente se dá conta de que o bichinho que se acha tão importante não passa mesmo de um pequeno verme circulando lá embaixo. Com poucos metros acima ele fica invisível, coitado, basta subir 5 mil metros e ele perde imediatamente tudo isso que o faz pensar que é imprescindível na rotação do planeta terra.

A verdade é que não contamos nada para o universo: nossas alegrias ou nossas dores não afetam em nada o movimento do mundo no grande espaço cósmico.

Não posso imaginar que haja um momento mais propício que esse para meditar sobre a vida que é quando ela mais parece assumir sua verdadeira dimensão.

Assim, desprovidos da presunção de sermos únicos, grandes, poderosos podemos atinar e encarar uma realidade oposta. O que talvez nos ajude a perceber isso seja também a fragilidade com que nos encontramos dentro daquela geringonça voadora, antinatural, precária – somos obrigados a entregar-nos ao fato de que nenhum controle podemos exercer sobre o vôo e o controle é uma das ferramentas do homem para se sentir seguro num universo absolutamente inseguro, ele imagina estar de plena posse dos comandos e a ferro-e-fogo controla na maior parte do tempo e se reveste de uma autoridade que nunca possuiu.

Controlamos para garantir nosso papel de donos do mundo, mas, felizmente, não conhecemos nem nosso próprio universo particular e quando se perde a possibilidade de controlar é que se cai na real – nosso poder é desmentido pelos fatos, pelas coisas, pelos acontecimentos.

Não exercemos nenhuma ascendência de fato sobre nada.

No entanto, quando perdemos o controle e estamos mais frágeis é que somos mais bonitos. Quando dormimos, por exemplo: uma pessoa que dorme profundamente adquire uma aura de encantamento difícil de definir e aí, sim, fica até impossível imaginar que pode ser também má.

Um assassino tem a mesma placidez quando dorme que um bebê de um ano.

Pertence a outro plano, o da pureza do sono, do inconsciente onírico que pode levá-lo a reinos desconhecidos onde ele poderá ser melhor, não controlar nem seu inconsciente, assumir-se como de fato é.

Homens poderosos são feios, pode observar, são como águias atentas e vigilantes, jamais parecem relaxados e seus sorrisos mais parecem esgares musculares que a representação metafórica de uma felicidade interior. É ela que gera o sorriso.

Mas um sorriso pode ser também produzido conscientemente mexendo alguns músculos como o desenho caricato faz com a figura real: ela pode ser identificada no traço do desenho, mas não capta a alma de quem é caricaturado.

A fragilidade é da sina do homem e tão certa quanto a morte – podemos fingir poder e força, podemos até infundir temor, mas nos sabemos frágeis.

A área cultural, a arte em geral está repleta de homens frágeis, lúdicos, meio meninos, carentes de elogios e que, por isso mesmo, tiveram o privilégio de entrar em contato direto com os deuses da criação, porque eles concedem o privilégio, mas não aceitam competição. Homens que se acreditam poderosos são competitivos, num embate com a força dos deuses perdem sempre e o castigo pela perda nessa luta inglória é a insensibilidade, a visão estreita para as belas coisas do universo, a rigidez de princípios, as tensões, o jeito desajeitado de viver, a insanidade de correr atrás de coisas falsas e a tristeza de pautar suas vidas pela força do hábito que a eles foi imposto.

Gente frágil, criativa, alegre e sem esse desejo de poder como são os artistas é que se aventura nos meandros da vida e descobre ângulos novos que nem de longe podem ser percebidos pelos tristes – são aqueles que sinalizam sobre como a vida pode ser divertida, descomplicada quando assumimos nossa pequenez diante dela.

Quando desce do salto alto é que o homem se dá conta de que perante a grandeza do universo só lhe resta fazer reverência ou se harmonizar.

Nem o dinheiro nem o poder político podem conferir-lhe grandeza.

Parafraseio Whitman: “Grande é a vida – é real e mística!

Grande é a morte – certa como a vida!”

E acrescento: grande é o pequeno homem que sabe avaliar sua dimensão diante do grande universo e fica feliz com ela.

Há mais delícias em ser frágil que ser poderoso.


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