revista bula
POR EM 26/06/2012 ÀS 11:24 PM

Ivan Lessa: o James Joyce que não deu certo

publicado em

Ivan LessaOs críticos americanos, mais do que os leitores comuns, estão sempre à espera do Grande Romance, assim como alguns portugueses esperaram, pelo menos durante alguns anos, a volta de D. Sebastião. Os americanos às vezes se esquecem que o Grande Romance, ao estilo, digamos, de “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, talvez já tenha sido escrito tanto por Herman Melville, Nathaniel Hawthorne e Henry James quanto por F. Scott Fitzgerald, William Faulkner, Ralph Ellison, Saul Bellow e, quem sabe, Philip Roth. Talvez por John Up­dike, Thomas Pynchon ou Don DeLillo. O Brasil copia a moda americana e está sempre à procura do novo Guimarães Rosa — urbano ou mesmo rural. Durante anos, rindo do país, uma certa patota do Rio de Janeiro, com algum eco em São Paulo, espalhou a fofoca de que Ivan Lessa escreveria o Grande Romance brasileiro. Ivan Lessa se tornou uma espécie de Lula da Silva do jornalismo — aquele sujeito do qual se esperava uma obra notável.

Ivan Lessa morreu há pouco, aos 77 anos, e o que realmente deixou para avaliação dos críticos não-patoteiros? Quase nada. Artiguetes de jornal, crônicas de ocasião e opiniões que pareciam dizer muito quando, na verdade, revelavam quase nada. O jornalista e quase-escritor era um artista da insinuação. Talvez se esperasse dele que fosse, além de um James Joyce patropi, um Guillermo Cabrera Infante ou um Thomas Pynchon. É possível que — ao modo do cubano Cabrera Infante e do americano Pynchon, que transformaram (o segundo ainda transforma) a cultura pop de seus países em alta literatura — tivesse mesmo o “domínio” da cultura popular (música, por exemplo) do país entre as décadas de 1930 e 1960. O problema é que, para um escritor, não basta ter informações e escrever bem.


leia mais...
POR EM 25/06/2012 ÀS 11:40 PM

Um sorriso emoldurado

publicado em

A foto é um instante eternizado de ausências. O recorte de um momento para ser dividido com quem não participou da celebração ou do luto por motivos importantes, mesquinhos ou corriqueiros. Uma viagem, doença, trabalho ou até mesmo porque ainda não nos conhecia ou preferia esquecer. De qualquer forma, a revelação de um genuíno altruísmo e também a acusação venenosa de vingança: não estávamos lá.

É impossível descobrir o desenrolar e o prelúdio do ápice. Ficamos restritos àquele fragmento congelado de tempo. O vestido branco eternamente imaculado, os lábios vermelhos emoldurando o sorriso de comercial, enquanto a renda nos braços esconde com o trançado translúcido dos fios a pele exposta no decote das costas. Olhando com mais atenção, talvez uma solitária pinta no emaranhado de pixels. 

No mais, apenas dúvidas. Talvez o vestido tenha manchado com o vinho, o batom borrado com o beijo e as costas arranhadas pelas unhas. O registro é a perpetuação de um instante em uma vida efêmera e muito mais rica, mas o suficiente para despertar certezas nos protagonistas e interrogações na audiência.


leia mais...
POR EM 24/06/2012 ÀS 05:16 PM

Um mar de lama

publicado em

Apesar da infâmia cometida no título (os clichês continuam infames?) somos, em geral, um povo alegre e feliz. Adamastor, meu amigo psico-sociólogo, afirma que somos assim por vocação. Uma coisa que ninguém nos ensinou, nem percebemos que somos. Alguns povos estão sempre reclamando, não se contentam com nada, qualquer coisinha, como apropriação indébita da poupança nacional, lá estão eles nas ruas, protestando, enfrentando a polícia, pedindo a cabeça de seus governantes. Eles detestam a paz. Mas voltando aos profundos conhecimentos do Adamastor, podemos dizer que são vocacionados, esses povos, para a infelicidade. São muito provavelmente leitores do Schopenhauer.

Vocês já repararam como somos risonhos? No carnaval, então, aparecemos todos com os lábios abertos e levemente repuxados para as laterais do rosto, o que pode ser traduzido como sorriso. Cantamos, e como cantamos, balançando os antebraços pra cima e pra baixo, os indicadores apontados para o céu.

Estamos tão acostumados com lama que ninguém mais reage.

GetúlioVargas, ex-ditador e ex-presidente dos brasileiros, não chegou a ter notícia de nosso fairplay, qualquer coisa assim como laissez faire, laissez passer. Pior para ele, que descobriu um mar de lama nos subterrâneos do Catete e de vergonha optou pelo suicídio. E olha que o Getúlio nem era chinês. Por que lá, me conta o Adamastor, obrigação de corrupto descoberto é cometer o suicídio. Uma coisa de civilização milenar. Nós, coitados de nós, mal passamos dos quinhentos anos de história.


leia mais...
POR EM 22/06/2012 ÀS 11:23 AM

Paul McCartney comemora 70 anos e toca Raul

publicado em

Consta que, aos 16 anos de idade, o ainda incógnito Paul McCartney compôs “When I’m sixty four” (Quando eu estiver com sessenta e quatro). Na letra da canção, um angustiado jovem amante pergunta à namorada se ela ainda o amará na velhice, quando ele perder os cabelos, e se ela ainda precisará dele, e se o alimentará quando ele estiver com sessenta e quatro anos de idade.

O que levaria um adolescente sopitando testosterona pelos poros a escrever uma letra com uma temática tão adulta? Eu credito o fato à genialidade de Paul, que certamente foi arrebatado por uma daquelas inspirações que invadem a cachola do artista, não o deixando em paz até que o processo de criação esteja totalmente concluído. Certamente, o clima inóspito de Liverpool contribuiu para inspirar o apaixonado mancebo.

Nesta semana, Paul McCartney completou 70 anos. A data foi comemorada em família, com a presença de uns poucos amigos escolhidos a dedo. Apesar do honroso e delicado convite (recebi pelo sedex inglês o novo CD de Paul, “Kisses on the bottom”, com dedicatória e tudo o mais, além do indispensável alerta “please, confirm your presence by June 15”), eu não pude comparecer ao evento porque na mesma data tinha combinado com um maluco de assistir ao documentário “O Início, o Fim e o Meio”, a respeito do ícone do rock brasileiro, Raul Seixas, que também faz aniversário em junho.


leia mais...
POR EM 21/06/2012 ÀS 05:08 PM

Meu encontro com Bud Spencer

publicado em

Colunista  relata seu encontro com o ator Bud Spencer, famoso pelos filmes de faroeste ao lado de Terence Hill

Encontrei-o apenas uma vez. Foi em San José, Costa Rica. Eu acabara de regressar ao hotel. Tinha passado a noite com amigos ao pé do vulcão Arenal para ver, na escuridão, o espetáculo do magma incandescente deslizando pela encosta da montanha.

Era no meio da tarde. Sob San José, apesar da altura, pairava um mormaço. Estávamos sedentos e ansiávamos por um copo d’água. Ninguém na recepção. Nenhuma viva alma no enorme hall. O bar, oposto à recepção, fechado. De um dos corredores ouço um murmúrio, vozes, pessoas falando. Vejo uma porta aberta que dava para um enorme salão. Aproximo-me. Muita gente. Garçons portando bandejas com bebidas, sucos, vinhos, uísque e água. Uma recepção, pensei. Ouvi alguns conversando em espanhol, outros em inglês e, ainda outros, em italiano. Num grupo de homens, no meio do salão, vejo um deles de costas para mim, baixo, gordo, pescoço curto, nuca de touro e um copo d’água na mão esquerda. Com a mão direita gesticulava à italiana. Conheço este camarada de algum lugar, pensei. Nesse momento o homem gira o seu pesado corpanzil de forma que me foi possível vê-lo de perfil. Reconheci-o.

Me lembrei-me que há anos havia lido ou alguém me falara, que o homem, além de sua atual profissão, estudara Direito. Que era poliglota e que falava inclusive português. Queria testá-lo, queria saber se o homem realmente dominava o idioma de Camões. A­proximei-me dele. Dei-lhe uma palmada nas costas. O copo de água em sua mão estremeceu. Virou-se para mim.  


leia mais...
POR EM 21/06/2012 ÀS 04:53 PM

O aborto e a institucionalização do homicídio

publicado em

Os Estados Unidos da América, país mais rico e desenvolvido do nosso planeta, permite a prática do aborto na maioria de seus Estados. “In God, we Trust”, o mesmo Deus que estabeleceu em seu quinto mandamento “Não Matarás. Um erro grosseiro, no entanto, é conectar a defesa ao direito à vida com a religião. A religião por si só já possui paradoxos demasiados para serem resolvidos. A questão da vida não é e não pode ser tratada como um paradoxo. Esse direito deve ser defendido em todas as instâncias do conhecimento porque ele é o único elo que nos une como seres humanos e que nos impede de recairmos nos nossos desejos mais recônditos de barbárie.

O que é a vida para você caro leitor? Como você definiria a existência de um novo ser? Presumo que você esteja em um momento de descanso ao se deparar com esse texto e não queira parar para pensar nessas coisas. O mundo anda muito corrido. Existem coisas mais importantes a fazer, ou quiçá mais prazerosas como bisbilhotar o Facebook do amigo do trabalho, assistir ao noticiário cochilando no sofá, tomar umas e outras com os amigos. Mas veja bem caro leitor, isso tudo só faz sentido, ou só é possível porque você está vivo. Será que não seria interessante parar por um instante para pensar naqueles que não terão oportunidade de fazer essas coisas tão prazerosas simplesmente porque não viverão? 


leia mais...
POR EM 18/06/2012 ÀS 12:41 PM

Um olhar severo

publicado em

Em uma crônica deste mesmo espaço, coisa de alguns anos atrás, comentei quanto tenho aprendido sobre o ser humano pela observação dos animais. Meu amigo Adamastor, o gigante, maliciosamente outro dia disse que tem aprendido muito sobre os animais pela observação dos seres humanos. Mas o Adamastor, quando se pensa irônico, na verdade, torna-se sarcástico. Não importa a direção, qualquer que ela seja, temos de admitir o quanto nos parecemos, todos nós, os habitantes deste planeta. O carbono que o diga.  

Aqui em casa, temos um vaso pendurado na parede da garagem, e nele plantamos duas mudas de tostão, cujos cordões com suas pequenas e gorduchas folhas hoje caem em volta do vaso como uma cachoeira. Pois foi aí que o casal de coleirinhas resolveu construir seu lar. 

Depois de criada a primeira dupla do novel casal (criação em que tive certa participação, modesta, mas efetiva), eles voltaram a ocupar sua casa para repetir a ação que lhes dá continuidade. Primeira constatação: eles sempre criam dois filhotes a cada ninhada, sem jamais enfrentar problemas de espaço em sua habitação. Lá estão, já, dois belos filhotes, com os bicos levantados e abertos toda vez que me aproximo. Não consigo imaginar qual a semelhança entre mim e sua mãe para que me confundam desta maneira. Mas isso não vem ao caso, pois não quero meter-me nas idiossincrasias de meros filhotes. Nesta história quem me interessa é a própria genitora, ou melhor, seu comportamento de passarinha.  


leia mais...
POR EM 15/06/2012 ÀS 03:51 PM

Calma, palhaços: a vida é um circo

publicado em

— Metade dos juízes acha que é Deus; a outra metade tem certeza disto.

Todos os presentes naquele respeitável recinto, exceto o magistrado, riram à beça do inusitado comentário feito pelo réu. A atitude seria mesmo muito risível, não fosse aquele um julgamento da maior relevância, envolvendo um palhaço de bufê para festas infantis que, supostamente, matara de susto uma velhota de oitenta e nove anos, ao estourar um balão de aniversário ao seu pé de ouvido.

— Mas aquela senhora nem escutava mesmo muito bem.

O juiz ficou mais rubro que a escarlate bandeira do MST e ameaçou retirar o acusado imediatamente do tribunal, caso ele se manifestasse novamente sem a sua devida autorização.

— O juiz é mulherzinha! Olhem a saia dele! (na verdade, a indumentária, apesar de lembrar muito uma saia, era uma toga). O réu comediante cantarolou aquelas bobagens levando o público a quase se urinar de tanto dar gargalhadas. Parecia um bando de pastores dividindo o dízimo dos fiéis.


leia mais...
POR EM 09/06/2012 ÀS 09:16 PM

Um pobre diabo

publicado em

Já nem me lembro de meu primeiro celular. Faz muito tempo. Lembro-me de ter resistido à primeira onda, invicto. Não me deixo levar por modismos. Uma das cunhadas, algum tempo depois, chegou contando que, na estrada, quebrou uma roda do carro. Meia hora mais tarde seu marido chegou com um borracheiro, um macaco e uma roda nova com pneu novo. O que podia ter demorado o dia todo, com todos os inconvenientes conhecidos de quem costuma trafegar pelas rodovias, demorou cerca de quarenta e cinco minutos, pouco mais, graças ao celular. 

Mercê dessa história, eu, que passava grande parte de meu tempo nas estradas, não tive mais dúvida: comprei meu primeiro tijolão. Pois nem assim consegui quebrar uma roda do carro. Pra falar a verdade, nem um simples furinho num pneu eu consegui nos tempos em que me arriscava pelas estradas todos os dias. 

Hoje ando bem menos, mas o celular tornou-se um hábito da cintura. Não gosto de me sentir nu. 

O indigitado, entretanto, de uns tempos para cá tem sido o agente de minha humilhação. Quando estou no aeroporto, no shopping ou em qualquer outro lugar público, fico observando como as pessoas normais usam sem parar o aparelhinho. Eles sempre têm alguém para quem ligar ou de quem receber ligação. O tempo todo. Os discretos, escondem a boca com a mão e falam baixinho, mas não param. Outros, menos discretos, levantam o braço livre, desnudam suas intimidades em público, dão espetáculo. Uns não conseguem parar de andar. Tropeçam nas crianças, pisam nos pés da gente, sem parar de gritar. Vão e voltam o tempo todo, muito agitados.  


leia mais...
POR EM 08/06/2012 ÀS 08:47 PM

Fique você sabendo que o Céu não existe

publicado em

 

“Se tem uma coisa da qual eu desgosto a cada dia é gente”, disse o meu interlocutor, claramente emotivo, visivelmente afetado pela bile, supostamente obnubilado pelo coquetel de drogas despejadas dentro da sua veia pela equipe médica. Para muitos uma falácia, ele dizia aquilo como uma espécie de válvula de escape. Fazia um desabafo dos mais crus e primitivos, enquanto o médico repetia a aferição dos níveis pressóricos que até agorinha mesmo encontravam-se às tampas. O sangue ferveu por conta de um entrevero com um funcionário da sua empresa. Saiu do fórum direto para a enfermaria.

“Vou começar do início”, ele disse redundante. Contou que o sujeito batera à sua porta com uma mão na frente e outra atrás, que é como se diz quando se está na pindaíba, na quebradeira, no sufoco, na pior das situações do ponto de vista financeiro. Mesmo sem possuir referências seguras do estranho que reivindicava emprego pelo amor de Deus, ele julgou que havia sinceridade e o contratou. “Pensei comigo: bandido não procura emprego formal...”, admitiu o erro de julgamento, sem se lembrar que gangsteres, deputados e outros meliantes trabalham de sol a sol para se garantirem.

Com o apagão de mão de obra por que passa o país, não poderia dar-se ao luxo de tantas exigências burocráticas. Então, catou o sujeito que há três dias não comia. O homem devorou um prato de comida como se fora o último da sua vida. Fazia dó, pois o novato faminto fungava, lacrimejava os olhos, fazia pausas enquanto mastigava, levantava as mãos para o alto e orava: “Deus lhe pague, Deus lhe pague”.


leia mais...
‹ Primeiro  < 3 4 5 6 7 8 9 10 11 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2019 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br
wilder morais
renovatio