revista bula
POR EM 09/12/2008 ÀS 11:31 PM

A formal mais vil de educar

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O latim nos brindou com o termo “scientia”, ciência, que poderia, no seu sentido mais exato, ser traduzido como um conjunto de conclusões certas e coerentes sobre determinado objeto.

Mais precisamente, ciência pode ser tida como o ramo de conhecimento sistematizado como campo de estudo ou observação e classificação dos fatos atinentes a um determinado grupo de fenômenos ensejando a formulação das leis gerais que os regem. Já ciências exatas são somente as que admitem princípios, conseqüências e fatos rigorosamente demonstráveis.

Nossas escolas precisam repassar esse ensinamento – tão elementar! - aos economistas.   

Não poucos burocratas acreditam que a economia seja uma ciência exata, propagando e a vendendo como se de fato fosse. Neste contexto, bastaria encerrar a sociedade num pedestal de fórmulas e pressupostos matemáticos e os problemas do mundo teriam dia, hora e local para se diluírem em infinitas e eficazes soluções. O que vale e importa são as equações em sua perfeição matemática, os relatórios em sua peremptória exatidão. Quanto às prioridades da sociedade, às necessidades da nação, quanto aos críticos que defendem o desenvolvimento sustentável como conseqüência dos investimentos em educação ... oras, oras, raios que os partam!!!

E por acreditarem nesta aleivosia não sentem pingo sequer de remorso quando se deparam com a realidade de que o governo brasileiro, de forma insana e irresponsável, gasta em juros mais de 8 vezes o que aplica em educação.

A informação é do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – instituição de pesquisas e estudos do Ministério do Planejamento, e se refere aos gastos do governo com pagamento de juros do endividamento público, contemplando o período que se estende de 2000 a 2007. Neste período, os gastos com pagamento de juros totalizaram R$ 1,268 trilhão, enquanto os valores investidos em educação se limitaram a R$ 149,9 bilhões. Traduzindo em miúdos, o governo brasileiro torrou na agiotagem e na ciranda financeira do pagamento de juros 8,5 vezes o dinheiro investido em educação no mesmo período.

O próprio IPEA, em nota oficial, critica e procura ensinar o governo do qual é apêndice: (...) além de o gasto com juros ser "improdutivo, pois não gera emprego e tampouco contribui para ampliar o rendimento dos trabalhadores", também colabora para a concentração de renda.

Tanto quanto a educação, também a saúde é vítima desta perversa inversão de valores e prioridades: o total despendido com o pagamento de juros supera, em muito, o que foi destinado à saúde, meros R$ 310,9 bilhões.

A situação é por demais grave e aviltante: ainda que somemos todos os recursos despendidos pelo governo com saúde, educação e investimento, não conseguimos alcançar a metade do volume destinado ao pagamento dos juros. A mais terrífica realidade é que, quando totalizamos os gastos da União com saúde, educação e investimento, chegamos tão somente a 43,8% do total das despesas com juros.

Antes da eclosão da atual crise econômica mundial, os bancos e instituições financeiras exultavam com os lucros estratosféricos obtidos exercício após exercício, ano sim e o outro também; lucros auferidos em grande parte, agora todos sabemos, da forma mais vil e abominável, exaurindo a saúde e a educação da nação, corroendo nossas esperanças, comprometendo nossas perspectivas por dias melhores. Agora que a crise se acentuou, Brasília presta novas carícias e favores ao sistema bancário, cobrindo-o de generosidades com os recursos do tesouro, que a rigor, pertencem ao conjunto da sociedade.

Quanto à educação, à saúde, ao desenvolvimento sustentável da nação, ao povo, ... oras, oras, raios que os partam!!!

A metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo são criações originais de Antônio Carlos dos Santos.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:50 PM

O relatório Ayres Brito

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Na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) que visa impedir as pesquisas com células-tronco embrionárias, o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito teve uma atuação impecável.  Nesta que é uma das ações mais importantes que já ocorreram na história da Suprema Corte, Ayres Brito foi diligente em tudo. Pela primeira vez o STF valeu-se do instrumento de representação popular chamado Audiência Pública, para colher as mais representativas opiniões sobre o assunto. Ainda não houve a decisão final, mas o relatório do ministro é uma peça que vale a pela de ser lida até como obra literária. Não bastassem a qualidade técnica, o embasamento científico, a articulação lógica dos assuntos, o texto foi composto num estilo elegante, claro e cativador, digno das melhores peças literárias. Leia alguns trechos do relatório, que tem 72 laudas, e confirme.   

 
 
Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Brito
 
Excertos: artigos 29, 30, 31

Não estou a ajuizar senão isto: a potencialidade de algo para se tornar pessoa humana já é meritória o bastante para acobertá-lo, infraconstitucionalmente, contra tentativas esdrúxulas, levianas ou frívolas de obstar sua natural continuidade fisiológica. Mas as três realidades não se confundem: o embrião é o embrião, o feto é o feto e a pessoa humana é a pessoa humana. Esta não se antecipa à metamorfose dos outros dois organismos. É o produto final dessa metamorfose. O sufixo grego “meta” a significar, aqui, u’a mudança tal de estado que implica um ir além de si mesmo para se tornar um outro ser. Tal como se dá entre a planta e a semente, a chuva e a nuvem, a borboleta e a crisálida, a crisálida e a lagarta (e ninguém afirma que a semente já seja a planta, a nuvem, a chuva, a lagarta, a crisálida, a crisálida, a borboleta). O elemento anterior como que tendo de se imolar para o nascimento do posterior. Donde não existir pessoa humana embrionária, mas embrião de pessoa humana, passando necessariamente por essa entidade a que chamamos “feto”. Este e o embrião a merecer tutela infraconstitucional, por derivação da tutela que a própria Constituição dispensa à pessoa humana propriamente dita.
 
Essa pessoa humana, agora sim, que tanto é parte do todo social quanto um todo à parte. Parte de algo e um algo à parte. Um microcosmo, então, a se pôr como “a medida de todas as coisas”, na sempre atual proposição filosófica de Protágoras (485/410 a.C.) e a servir de inspiração para os compositores brasileiros Tom-Zé e Ana Carolina afirmarem que “O homem é sozinho a casa da humanidade”. E Fernando Pessoa dizer, no imortal poema “TABACARIA”:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo”.
 
Por este visual das coisas, não se nega queo início da vida humana só pode coincidir com o preciso instante da fecundação de um óvulo feminino por um espermatozóide masculino. Um gameta masculino (com seus 23 cromossomos) a se fundir com um gameta feminino (também portador de igual número de cromossomos) para a formação da unitária célula em que o zigoto consiste. Tal como se dá com a desconcertante aritmética do amor: um mais um, igual a um, segundo figuração que se atribui à inspirada pena de Jean Paul Sartre.
 
Não pode ser diferente. Não há outra matéria-prima da vida humana ou diverso modo pelo qual esse tipo de vida animal possa começar, já em virtude de um intercurso sexual, já em virtude de um ensaio ou cultura em laboratório. Afinal, o zigoto enquanto primeira fase do embrião humano é isso mesmo: o germe de todas as demais células do hominídeo (por isso que na sua fase de partida é chamado de “célula-ovo” ou “célula-mãe”, em português, e de “célula-madre”, em castelhano). Realidade seminal que encerra o nosso mais rudimentar ou originário ponto de partida. Sem embargo, esse insubstituível início de vida é uma realidade distinta daquela constitutiva da pessoa física ou natural; não por efeito de uma unânime ou sequer majoritária convicção metafísica (esfera cognitiva em que o assunto parece condenado à aporia ou indecidibilidade), mas porque assim é que preceitua o Ordenamento Jurídico Brasileiro. Convenhamos: Deus fecunda a madrugada para o parto diário do sol, mas nem a madrugada é o sol, nem o sol é a madrugada. Não há processo judicial contencioso sem um pedido inicial de prolação de sentença ou acórdão, mas nenhum acórdão ou sentença judicial se confunde com aquele originário pedido. Cada coisa tem o seu momento ou a sua etapa de ser exclusivamente ela, no âmbito de um processo que o Direito pode valorar por um modo tal que o respectivo clímax (no caso, a pessoa humana) apareça como substante em si mesmo. Espécie de efeito sem causa, normativamente falando, ou positivação de uma fundamental dicotomia entre dois planos de realidade: o da vida humana intra-uterina e o da vida para além dos escaninhos do útero materno, tudo perfeitamente de acordo com a festejada proposição kelseniana de que o Direito tem a propriedade de construir suas próprias realidades. 

clique para ler o relaório integralmente

 


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POR EM 01/12/2008 ÀS 07:36 PM

Sei não

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Pra que servem intelectuais? Conheço alguns que são capazes de promover debates e discussões sobre a nacionalidade de Adão e Eva, seus temas são geralmente inúteis e não ajudam o mundo, nem a inteligência do mundo, apenas alimentam o ego dos debatedores e preservam seus empregos

Sei não...será que não será a poesia que poderá nos salvar da enfermidade da violência no dia-dia? Não sei, mas tenho pensado muito nisso e feito experiências de só ler poesia por longos períodos pra observar como reage meu organismo – tenho andado menos tenso.

Sei não, mas fico tenso em seguida quando desconfio que não temos mais salvação nesta outra violência a da pequena política que se faz no Brasil e especialmente em Goiás onde só os medíocres é que quase sempre se sobressaem e se elegem e pra confirmar é só dar uma espiada na assembléia e na câmara; sei não, mas acho que o George Orwell tinha razão já em 1949 quando previu que seríamos uma sociedade apática, submissa e indolente – atirou no macaco acertou na onça; sei não, mas tenho pensado e Deus permita que eu esteja errado, mas não parece haver nenhum sinal no horizonte que sugira mudanças; não sei, mas duvido que alguém discorde que somos governados por um homem lúgubre, lento, sem carisma, sem brilho e que fica ali no palácio apenas contando os dias pra ir embora – sonolento; sei não, mas acho que esse governo aí tem consciência de tudo isso acima e de como atrasa a vida deste Estado e não sabe o que fazer; não sei, mas basta dar uma espiada em dois secretários, o de comunicação e o da cultura, que nos foram impostos pra entender o governo que nos governa e o porque da certeza de que nada vai dar certo até que tudo se revire de novo com outra eleição – ou não; eu não sei, mas vejo que cada vez mais ainda permanece em certos meios tidos como de elite aquela visão provinciana de colônia do império que assolou o Brasil inteiro e ainda assola alguns – todos se contentam em admirar seu próprio umbigo, é só acessar a TBC Cultura que de cultura não tem nada; sei lá, mas sempre que ligo a TV me pergunto pela enésima vez pra que ela serve: se for pra fazer a massa se hipnotizar ouvindo histórias não seria melhor que a massa lesse romances e prosa em geral? As histórias da TV são sempre e eternamente as mesmas que o Shakespeare contou em Romeu e Julieta – cópias pobrinhas, verdade; sei não, mas cada vez que releio Antonin Artaud mais concordo com ele: as pessoas são idiotas, a literatura está esvaziada, a alma é insana, não existe mais amor nem ódio, tudo é amorfo, todos os corpos estão saciados, as consciências resignadas, só existe uma enorme satisfação consumista de inertes almas bovinas, escravas da estupidez que as oprime...; sei não, sei que é duro concordar com isso, chega a doer, mas não há nada que o desminta; também não sei pra onde caminhamos nas relações afetivas que de afetivas não têm mais nada, meros contatos frios e esporádicos e meras confusões entre o que é ter amigos e ter colegas; sei não, mas acredito que quanto menos tempo de vida se tem pra viver menos temos tempo a perder, o instante que passa, passa definitivamente e  estamos desperdiçando preciosas horas, ricos minutos, dias plenos, meses inteiros, muitos anos despendidos com mediocridades, pequenas sensações, livros ruins, músicas horríveis, conversas idiotas, preocupações tolas, invejas destrutivas, ócio pouco criativo, amores equivocados, sexo lambão, amigos-da-onça...; sei não, mas acho que o Artaud podia dizer tudo porque nunca foi um intelectual; e, sei não, o que será que significa hoje um intelectual?

Pra que servem intelectuais? Conheço alguns que são capazes de promover debates e discussões sobre a nacionalidade de Adão e Eva, seus temas são geralmente inúteis e não ajudam o mundo, nem a inteligência do mundo, apenas alimentam o ego dos debatedores e preservam seus empregos; não sei, mas às vezes paro pra imaginar o que seremos daqui alguns poucos anos e descubro que nada pressupõe grandeza num futuro próximo - seremos resultados certos do que plantamos hoje; não sei, mas desconfio que quem quer qualidade nas artes, nas letras, na cultura em geral que evolui o espírito tem sempre de recorrer às manifestações mais antigas – há 30 anos tudo isso era maior que quase tudo que produzimos hoje: política, teatro, música, idéias, livros, dança, reflexões, filosofia, artes plásticas, pode prestar atenção; não sei, mas tenho percebido que estamos todos perdendo o medo de aranhas, escorpiões, cobras, feras selvagens, doenças incuráveis, fenômenos brutais da natureza – o grande medo do homem é do homem mesmo, somos todas essas catástrofes juntas e a qualquer momento podemos nos confrontar com elas num único homem; é, não sei não, mas tô achando melhor parar de refletir esses pensamentos caóticos  antes que a doença do século ataque a quem escreve e aos que o lêem – a depressão; não sei, mas vou tentar diminuir o impacto de tais achômetros lendo Pablo Neruda e ouvindo Jan Garbarek à meia luz e os leitores que encontrem seus alívios naquilo que lhes parecer melhor porque, sei não, mas muitas vezes pensar dói sim.


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POR EM 01/12/2008 ÀS 07:10 PM

Nossos demônios no escaninho

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"Na verdade, a única coisa errada com o mundo é o Homem". (C.G. Jung). Difícil apontar o que no ser humano mais o aniquila: se o seu medo da morte, ou o seu medo da vida. Do mesmo modo, não é fácil saber qual dos dois movimentos é o mais destrutivo. O que deixa as pessoas tão cheias de medo são os monstros que elas próprias inventam, sustentam e depois rejeitam, como se nada tivessem a ver com  elas. Quanto mais negam, rejeitam e projetam os demônios de sua invenção, mais terrível será o inferno em que vivem - e mais em personas pérfidas e sinistras se tornarão.  

A projeção da sombra (o atribuir a outrem sentimentos e emoções desagradáveis ou inferiores, que nos pertencem) é o recurso do método adotado de modo automático, por todos os povos ditos civilizados. C.G. Jung considera ser natural que a pessoa queira se libertar dessa inferioridade: ela quer saltar sobre a própria sombra. "A maneira mais direta de fazê-lo é colocar tudo o que seja escuro, inferior e palpável nos outros".
          
A sombra que rejeitamos em nós é projetada na direção de pessoas, grupos étnicos e religiosos, ideologias e preferências sexuais. A negação da sombra assinala o limite máximo de realidade que podemos suportar. Para T.S. Eliot, insuspeito poeta, "A humanidade não agüenta muita realidade". Dito de outro modo: a mente humana não suporta encarar a sua própria sombra. E, à medida em que a nega, mais a fortalece. Ao trancar seus monstros interiores no escaninho, transforma-os em Franksteins terríveis e mortíferos.

Wilhelm Reich pergunta por que quase ninguém conhece os nomes dos verdadeiros benfeitores da humanidade, enquanto "qualquer criança conhece os nomes dos generais e da praga política". Para ele, a resposta para a questão de haverem mais estátuas em homenagem a heróis guerreiros do que para lembrar os feitos dos heróis da paz está em que "As ciências da natureza estão constantemente introduzindo na consciência do homem que ele é, fundamentalmente, um verme no universo. O arauto da praga política está constantemente repisando o fato de que o homem não é um animal, mas sim um "zoom politikon", ou seja, um não-animal, um defensor dos valores, um ser moral.
           
"Ah! Quantos males foram perpetrados pela filosofia platônica do Estado! Está bastante claro o motivo pelo qual o Homem se interessa mais pelos políticos do que pelos cientistas da natureza: o homem não quer que lhe recordem o fato de que ele é, fundamentalmente, um animal sexual. Ele não quer ser um animal", assinala W. Reich. O recurso automático de quem não quer assumir sua sombra é projetá-la sobres outros - reforcemos tal verdade. Daí o perigo que representam os puritanos e os moralistas fanáticos. Quanto mais reprimidos, mais devassos e cínicos se tornam.

O bode expiatório é a encarnação da estratégia humana de projeção da inferioridade ou fissura psíquica ou moral que não quer admitir em si mesmo. Nós projetamos para que outros sejam responsabilizados por nossos pensamentos perversos, transformados em atos amorais e hediondos. Assim, quando um bandido ou criminoso é apanhado pela polícia, muitos respiram, aliviados pelo fato de que escaparam por enquanto.

O analista junguiano Edward C. Whitmont enfatiza que, se quisermos enfrentar o desafio do mal no mundo, precisamos assumir nossas responsabilidades em termos individuais: "Precisamos reconhecer a objetividade arquetípica do mal  como um aspecto terrível, dotado de força sagrada, que inclui a destruição e o apodrecimento, e não só o crescimento e a maturação. Então poderemos nos relacionar com nossos semelhantes como vítimas, tanto quanto nós, e não como nossos bodes expiatórios".
          
O bode expiatório existe (ou é criado) para que possa expiar as culpas e pecados da sociedade, de uma pessoa que se oculta, ou de nós próprios. Assim, o outro será sempre o culpado por tudo de ruim e nefasto que nos acontece. Exemplo simbólico de tal mecanismo infantil (presente até mesmo entre crianças) é a folclórica malhação do Judas. Erich Neumann sintetizou a visão junguiana da sombra que negamos: "A sombra é o outro lado. É a expressão da minha própria imperfeição e da minha natureza terrena: o negativo que é incompatível com os valores absolutos, ou seja, o horror da passagem da vida e do conhecimento da morte".

Enquanto existir alguém que possa ser culpado pelos pecados da tribo ou de um indivíduo, é certo que não faltarão escribas e fariseus, sepulcros caiados da hipocrisia religiosa, a apontar o dedo acusatório. Assim o pecador que se esconde de sua sombra estará a salvo. No mais das vezes, os que acusam e inventam culpados para as desgraças coletivas ou individuais estão a ocupar altos cargos na política, tornando-se senhores das guerras (vide o patético terrorista de Estado, senhor da guerra e da morte chamado Bush). 


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POR EM 01/12/2008 ÀS 07:07 PM

Passo em falso

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Coletivamente, será sempre possível demonstrar, através de gráficos coloridos e relatórios vistosos, que o erro se reduziu a um algarismo insignificante – um efêmero traço – quando cotejado com o sem número de ocorrências exitosas. Mas para as pessoas próximas, emocionalmente envolvidas, o que a estatística reduz à insignificância pode representar numa tragédia gigantesca, irreparável, de efeitos devastadores

O erro é mais facilmente admitido em alguns setores que em outros. O erro de uma criança impacta, quando muito, sua roda de amigos, parentes e vizinhos. O de um empresário, no máximo, sua esfera de influência. Já o erro promovido por um político ou servidor público pode até mesmo comprometer os destinos de uma nação.

Há aqueles intencionais, os meramente ocasionais e incidentais, mas, infelizmente, não há pra onde correr: para a espécie humana, o erro é inexorável, e está sempre a nos espreitar nas esquinas. O que resta à parte responsável da humanidade é cuidar para que as possibilidades de ocorrência se reduzam ao extremo. E manter a incidência de erros sob controle, em estado vegetativo, numa margem administrável não é tarefa das mais fáceis; e exige investimentos pesados, sobretudo em educação. 

Por mais eficaz que seja a ação para aproximar a margem de erro de zero, quando ocorrer, a polêmica estará estabelecida, ainda que no plano da individualidade. Explico.

Qual a margem de erro admissível para o médico que deixa o recém-nascido escorregar das mãos, fazendo com que o bebê estatele a cabecinha no chão duro da sala de parto? Para os pais da criança, com certeza, nenhuma!

Coletivamente, será sempre possível demonstrar, através de gráficos coloridos e relatórios vistosos, que o erro se reduziu a um algarismo insignificante – um efêmero traço – quando cotejado com o sem número de ocorrências exitosas. Mas para as pessoas próximas, emocionalmente envolvidas, o que a estatística reduz à insignificância pode representar numa tragédia gigantesca, irreparável, de efeitos devastadores. A relatividade em ação: quando um mesmo episódio é insignificante para alguns e irreparável para outros.

A polícia é sempre um prato cheio quando queremos discutir forças e fragilidades, virtuosidades e deficiências.  

Os policiais geralmente são levados a trabalhar no limite. Diuturnamente arriscam a própria vida, e como o salário mal dá para o gasto, são obrigados a recorrer a bicos e improvisos. Apesar do cenário adverso, cotidianamente praticam nobres ações de solidariedade humana que deveriam merecer o reconhecimento da sociedade. Por força das circunstâncias, não raro utilizam as viaturas policiais como ambulâncias, fazem às vezes de parteiros; de aconselhadores que evitam suicídios; de professores que, nas escolas, alertam alunos para os perigos das drogas e das más companhias.  E quantos bandidos são retirados das ruas, quantos crimes e delitos impedem que acorram? Mas basta um passo em falso e...

Sobretudo nos estados onde a politicagem grassa, a polícia erra e muito. Porque falta salário, faltam viaturas e equipamentos, faltam investimentos em educação, faltam diretrizes e políticas públicas adequadas. E nessas circunstâncias, os erros são mera conseqüência da irresponsabilidade governamental.

Resultam dessa irresponsabilidade casos grotescos como o que vitimou o pequeno João Roberto Soares, de apenas três anos. No dia 06 de junho deste ano, policiais militares do Rio de Janeiro perseguiam um veículo suspeito. No meio do caminho confundiram um carro com o veículo dos bandidos e dispararam 17 tiros. No carro confundido estava a mãe, Alessandra, e seus dois filhos. Um deles, João Roberto Soares, de três anos, morreu com um tiro na cabeça.

Cerca de um mês depois, Luiz Carlos Soares da Costa, administrador de empresas, 35 anos, foi feito refém por um assaltante na zona norte do Rio de Janeiro. O bandido entrou em seu Siena, obrigando Luiz a passar para o banco de passageiros. Desconfiada, a polícia passou a perseguir o veículo. Segundo relataram os policiais, ao se aproximarem do Siena, o bandido, de 18 anos, disparou contra a viatura, obrigando-os ao revide, com o que acertaram dez tiros no Siena, três dos quais mataram Luís, a vítima. O bandido levou um tiro no abdome, foi socorrido e sobreviveu.

Mas mesmo onde se valoriza o planejamento e se busca a eficácia, os erros acontecem. E erros crassos. Como exemplifica o caso Jean Charles.

A polícia britânica é uma das que mais investem na formação de seus policiais. É a típica polícia de primeiro mundo. Veículos e equipamentos de ultima geração, e investimentos abundantes em formação e capacitação profissional. Fazendo assim remetem a margem de erro às proximidades de zero, mas não conseguem se manter incólumes a ele.

Como aceitar que uma das polícias mais modernas e eficazes do planeta cometa um erro tão primário e ignóbil como o que levou à morte de Jean Charles. Confundido com um terrorista, em 2.005, o brasileiro foi estupidamente executado no metrô de Londres.

Segundo depoimento colhido recentemente de um agente da Scotland Yard, o jovem eletricista poderia ter sido abordado e detido sem problemas antes de a polícia ter feito os disparos fatais na estação de Stockwell, sul de Londres, na manhã fatídica de 22 de julho.

Outro festival incompreensível de erros ocorreu recentemente, em Santo André, quando o país se viu hipnotizado diante dos aparelhos de televisão: a tragédia que culminou na morte de Eloá.

Toda a operação policial foi executada pelo Grupo de Ações Táticas Especiais da polícia de São Paulo. O GATE de São Paulo é uma referência quando se trata de eficácia policial. Em uma década de operações promovidas pelo Grupo, há o registro de apenas duas vítimas, Eloá e uma outra.

Apenas neste ano, o GATE realizou 18 ações, salvando 47 cidadãos brasileiros. São números que atestam qualidade da polícia paulista; mas o festival de besteiras perpetradas no caso Eloá demonstram, de maneira cabal, que investimentos em treinamento, capacitação, educação devem ser atividades diuturnas em qualquer setor da atividade humana, em qualquer instituição, seja militar ou não, esteja ela num elevado nível de sustentabilidade e eficácia ou não.

Se não conseguimos eliminar, de todo, o erro de nossas vidas, com a educação de qualidade podemos manter a margem bem próxima a zero, num ponto em que a dor, para a coletividade, se torna um pouco mais suportável.


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POR EM 01/12/2008 ÀS 06:08 PM

Temores submersos

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O que mais ficou submerso no dilúvio que se abateu sobre o Estado de Santa Catarina, além dos cadáveres de animais e pessoas, dos móveis, carros e utensílios? O que mais a água e a lama encobriram além da matéria viva, dos erros e dos acertos, dos sonhos dos flagelados?

Assisti recentemente ao “Ensaio sobre a cegueira”, um filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago. Aconteceu de novo: gostei mais do livro que do filme. Suspeito que esta sensação seja freqüente quando assistimos aos filmes baseados em obras literárias.  

Após a sessão, na saída do cinema, notei que muitos acharam o filme agressivo, deprimente, nojento, um completo exagero, enfim. Associações de deficientes visuais em várias partes do mundo manifestaram indignação com a trama, supostamente preconceituosa com os cegos. A película gerou tolas polêmicas. Quase sempre é assim: muitas pessoas se limitam a discutir e polemizar a superfície, o invólucro, caindo na armadilha do viés, divagando no vácuo, deixando de captar a essência.

No Vale do Itajaí, em Santa Catarina, câmeras e lentes registraram o caos provocado pela chuva além da conta. No conforto e na secura da minha sala de estar, dá para imaginar (e temer) o sofrimento de quem teve a casa invadida ou devastada pelos turbilhões de água. O drama é, sem dúvida, maior para os moradores dos bairros pobres, que não têm onde se refugiar, não têm parentes importantes e vivem no interior (eu furtando versos do compositor cearense Belchior). Eles não possuem reservas bancárias, nem guardam dinheiro dentro dos colchões agora encharcados pela chuva. Choram, rezam, lamentam, aguardam adjutório dos governos e de Deus.

A imprensa flagrou, por outro lado, os saques perpetrados pelos desabrigados ao comércio local. A multidão não visava apenas à água potável, roupas e alimentos. Muitos surrupiavam televisores, aparelhos de som e outros eletrodomésticos que, dentro daquele contexto dantesco, certamente não teriam a menor valia. Faltam energia elétrica e água potável. Alguns também penam com a falta da fé no poder público e na divindade.

A comparação foi imediata: aquelas cenas remeteram-me, imediatamente, ao surreal filme de Fernando Meirelles. Uma coisa puxa outra: lembrei também da literatura fantástica do pouco reverenciado escritor goiano José J. Veiga, no seu inesquecível “A hora dos ruminantes”. A estória do livro é igualmente dramática e aterrorizadora. Estimulado ao extremo, passei a ruminar pensamentos hipotéticos...

De que forma cada um de nós reagiria à desordem e à anarquia? As tragédias impostas pelas guerras e pelos fenômenos naturais (chuvas, terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis) colocam em teste definitivo o comportamento humano. Arruína a calma da gente imaginar como nos comportaríamos sob tais circunstâncias.
Quão rígidos seriam os nossos escrúpulos frente à fome, à sede, ao frio ou à grave desesperança no futuro?

Quantos de nós, alcunhados cidadãos de bem, roubariam ou feririam mortalmente para garantir sobrevida aos filhos e a si mesmo? Qual o meu, o seu limite? Quantos buscariam na morte o alento para os sofrimentos físico e moral? Quem mataria por amor ou misericórdia?

Ler os livros de Saramago e Veiga, assistir aos filmes de Meirelles e outros bons cineastas, tudo mexe com o imaginário das pessoas. Alguns preferem não fazê-lo, com medo dos pensamentos decrépitos. Muitas vezes pensamos coisas horríveis em nossas mentes que mais parecem masmorras. O cérebro humano, elo entre o viver e o desaparecer, é mesmo um órgão misterioso, indomável. Felizes daqueles que passam pela vida sem sucumbir às dúvidas existenciais.

O cenário apavorador do “Ensaio sobre a cegueira”, apesar de fictício, parece uma ameaça em nossos calcanhares. Basta reparar nos danos proporcionados pela humanidade ao meio ambiente. Temperaturas globais crescentes, calotas de gelo derretidas, chuvas demais ou de menos, escassez água potável, racionamento de comida...

Recomenda-se não menosprezar o potencial virulento do ser humano. Tomara que as tragédias inventadas pela literatura e pelo cinema jamais vivifiquem. Afinal de contas, estamos muito mal acostumados aos finais felizes.


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POR EM 01/12/2008 ÀS 06:04 PM

Terceiro mundo

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Ontem, depois de um susto, entendi por que somos chamados de terceiro-mundistas.

Peguei a estrada, como faço diariamente, e vinha sossegado, sem vontade nenhuma de provar que sou rápido no volante. Pelo retrovisor, percebi que um automóvel se aproximava em alta velocidade, mas já estou acostumado com isso e me mantive na pista da direita para não atrapalhar o tráfego. Às vezes também tenho pressa e detesto quando alguém faz de tudo para que eu chegue a meu destino atrasado. Meu falecido pai repetia com aquela seriedade com que deitava para fora suas verdades: não se faz aos outros o que não se quer que os outros nos façam. Por falar nisso, os pais de hoje não transmitem mais preceitos morais? Caramba, e onde é que os adolescentes vão aprender seus valores?

Mas voltando a nosso assunto. Assim que fui ultrapassado pelo candidato a Fitipaldi (ninguém mais se lembra dele, portanto pode-se substituir seu nome pelo do Felipe Massa, pode ser?), alguém jogou uma lata vazia de cerveja pela janela do bólido que passou a meu lado, quase me arrastando pelo deslocamento do ar, coisa assim de furacão, um tenebroso fenômeno da natureza. Uma lata de cerveja, sem dúvida nenhuma. A velocidade significava uma urgência qualquer? Mais fácil acreditar que era, a velocidade, estimulada pelo álcool. Enfim, a vida de algumas pessoas não vale nada mesmo.

Depois do susto (a latinha chegou a bater no pára-brisa do meu carro) veio a luz. Nós temos o hábito de jogar nosso lixo onde estivermos: no estádio, no salão, no teatro, no parque, na rua. Não escolhemos lugar onde deixar as marcas de nossa passagem. Eu já tive um gato, quando criança. É invejável a delicadeza com que sua patinha dianteira arrasta a terra para cobrir a cova onde esconde seu excremento. Você, leitor eventual e único, entende agora o que pretendo dizer com inveja aos animais?

Lembro-me de uma dessas copas de futebol que acontecem por aí, se não estou enganado, de quatro em quatro anos. A televisão mostrou um grupo de japoneses que torcia, gritava, aplaudia, ou seja, torcia. Eles acabaram aderindo ao esporte das multidões. Terminado o jogo, cada um pegou seu saquinho de lixo, que trazia pendurado à cintura, juntou a sujeira que fizera, e, ao irem-se embora, o lugar ocupado estava tão limpo como antes do jogo. E isso me provoca uma reflexão: nem só os gatos, por seu asseio, merecem nossa inveja. E então pensei: se eles, os japoneses, podem, por que não podemos também?

Meu amigo Adamastor, o catastrófico, me diz que não podemos porque a maioria do povo gosta mesmo é do lixo. E eu ainda não tenho opinião formada sobre o assunto.


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POR EM 01/12/2008 ÀS 05:16 PM

Flagelados da chuva

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Chovia. Chovia. Como chovia! Como se a chuva quisesse apagar a memória de um clima ameno, quando era possível viver confortavelmente naquele recanto de vale. Agora o rio era mar, a rua era rio e a enxurrada derrubava tudo feito horda de bárbaros enfurecidos. Estávamos num dilúvio sem arca.

Em suspenso, como se amparando apenas nos mútuos apoios, a gente se acotovelava sobre os móveis mais altos, dentro da casa, dentro do mundo, fora da proteção civil, clamando pelos céus. E chovia, como se a chuva agora fosse o dom natural do tempo.

Pela fresta da janela vi quando veio uma onda, desgarrada do cimo da serra em busca do Vale do Rio Itajaí. Nossa casa, pobre casa! – não haveria de resistir àquela vergasta. Num berro de alerta mobilizei minhas forças e minha família. Num átimo saltamos dentro da chuva rumo a um local mais seguro. Antes que alcançássemos o morrote ali nas cercanias, a onda nos pegou. Nossa casa desceu moída.

Fomos arrastados pelo turbilhão. O rugir das águas sujas se misturava aos nossos gritos desesperados. Fomos ancorados por uma pedra abaixo. Minha mãe já não requeria cuidados: estava morta. Meus filhos estavam escoriados, mas alertas e prontos para se defenderem, até a cima dos limites de suas forças. Minha mulher, coitada, grávida de oito meses, parece que teve antecipadas as dores do parto.

Deixando minha mãe para trás, começamos a empreender nova caminhada rumo à área menos vulnerável. Demos apenas alguns passos transversais, – passos difíceis, atolados, escorregadios.  Foi quando vi que nova onda descia em nossa direção. Meu coração desabalou, mas não era possível imprimir maior velocidade em nossa fuga.

A onda agora era mais densa, quase um barro é que era. Como um azorrague, ela nos bateu sem piedade. Gritei por Deus. Minha mão escapou da mão de minha mulher. Minha mulher, com nosso filho dentro e nosso casal de filhos de fora, foram arrastados como se fossem detritos na fúria das ladeiras. Surfei a onda de barro como um surfista improvisado. A onda amainou-se muitos metros abaixo.

Pude perceber que minha família ainda se debatia e lutava pela vida, tentando erguer-se do visgo da terra. Comecei a cavar com as unhas, com as forças do desespero. Cheguei até descobrir o rostinho de minha filha, que deu um grito de sinal de vida.

Aí, sem que eu visse, é que veio a terceira onda. O arremate da tragédia. Um carregamento de terra que desamarrou-se da encosta e veio deslizando furiosamente, recobrindo tudo o que as ondas anteriores haviam colocado por terra.

Minha família ficou soterrada. Eu, como estava mais na superfície, fui empurrado aos trambolhões. E não vi mais nada. Só vi quando já estava aqui neste quarto de hospital. Dizem que, por um milagre, fui salvo por um bombeiro.  

Eu só sei que tinha planos, eu tinha sonhos para meus filhos e minha mulher amada, o amor da minha vida. A gente já havia comprado roupinhas para o filho que ia nascer. Escolhido o nome. Ia ter o nome do avô. Agora nem sei...    


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POR EM 01/12/2008 ÀS 05:12 PM

Incompletude, agora completa

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(...continuando)

Kurt Gödel participava das reuniões do Círculo de Viena mas decididamente não compartilhava com a maior parte das idéias positivistas ali discutidas. Wittgenstein era influente em tal Círculo, apesar de não aparecer por lá e, quando aparecia, não dava a mínima atenção ao que os outros falavam, preferindo ler, de frente pra parede e em voz alta, o poeta indiano Tagore (“a flecha durante o vôo grita: ‘sou livre, livre..’. Ledo engano, seu destino está traçado pela pontaria do arqueiro.”).

Rebeca Goldstein em seu “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia. das Letras 242p.) mostra que os dois cérebros não poderiam ser mais díspares. Wittgenstein era o ator do grande drama do gênio: cheio de tiques e manias, como bater na testa para despertar um insight filosófico, e sempre transpassando seu padrão de busca da verdade absoluta para o cotidiano. Por exemplo, ao visitar uma amiga que sofrera a retirada das amígdalas e lhe dissera que estava se sentindo um cachorro atropelado, ele respondera: “Você não sabe como se sente um cão que foi atropelado”.  Como se percebe, Wittgenstein precisava ler muito mais poesia.

No quesito comportamento, Gödel ficava no outro canto da sala de Viena: ele simplesmente nunca falava nada no Círculo, preferindo menear com a cabeça suas discordâncias, concordâncias ou desconfianças. Além disso, no final da vida deixou claro que suas maiores influências tinham sido Gomperz e Furtwängler, e que o Círculo e Wittgenstein não o influenciaram em nada. Mas não se sabe ao certo se há um pouquinho de ressentimento nesta afirmação pois Wittgenstein, na análise de outros matemáticos, não entendeu e por isto deu de ombros aos teoremas de Gödel. Para alguns, o conhecimento de lógica matemática de Wittgenstein não valia um vintém, “pois sabia muito pouco à respeito e o que sabia estava confinado à linha de produtos de G.Frege-B. Russell” Mas afinal, o que Gödel disse em seu teorema da incompletude?

A matemática é, desde Platão, uma área certa e inatacável (“a mais rigorosa de todas as disciplinas”), cujo conhecimento pode ser comprovado. Mas de onde vem a fonte desta certeza matemática? Na verdade, as provas partem de conclusões de outras provas e, a partir delas, deduzem conclusões adicionais. Tudo isto vale para um determinado sistema axiomático (axiomas são as verdades básicas do sistema, intuitivamente óbvios que não precisam de provas), e seus teoremas resultantes da aplicação de regras de inferência.

Há então a necessidade de eliminar a intuição que pode ser ardilosa e nos levar a maus caminhos, mostrando que às vezes o axioma pode ser refutado. O surgimento da geometria não–euclideana (sim, isto existe...) é um dos melhores exemplos disto, e que levou um de seus descobridores, J. Bolyai (1802-1860) a dizer: “...do Nada criei um estranho mundo novo”.

Os sistemas axiomáticos visam proporcionar um padrão máximo de certeza com regras claras a ponto de serem mecânicas e computáveis. A isto dá-se o nome de formalização, isto é, eliminando as intuições, os sistemas formais seriam completamente adequados à prática da matemática, como a um jogo de xadrez, sujeito a determinadas regras que constituem em si, toda a sua própria verdade. Este formalismo já havia sido declarado no manifesto dos positivistas: “O homem é a medida de todas as coisas...criamos nossos sistemas formais e a matemática inteira decorre deles”.

Aí veio o revolucionário “kuhniano” Gödel com seu primeiro teorema da incompletude: “se um sistema formal S da aritmética é consistente, então é possível construir uma proposição que chamaremos de G, verdadeira mas não comprovável naquele sistema. Assim, se S é consistente, G é verdadeira e não dedutível. Trivialmente, se S é consistente, então G é verdadeira.” (Goldstein, p. 137). Isto ajudou Gödel em seu segundo teorema da incompletude: é impossível provar formalmente a consistência de um sistema de aritmética dentro daquele sistema de aritmética.

O formalismo tinha virado um castelo de cartas, seu maior defensor e organizador,o grande matemático Hilbert, ficou enfurecido com a prova de Gödel de que existem proposições aritméticas verdadeiras e que não são comprováveis. Mas Hilbert sabia, mais que ninguém que uma prova, é uma prova, é uma prova....

Além de estar na fronteira do conhecido com o desconhecido, os teoremas de Gödel quase alcançavam a auto-contradição. Para entender melhor, vejamos o paradoxo do mentiroso: o cretense Epimênides disse: “Todos os cretenses são mentirosos”. Dá pra acreditar nele? E que tal: “Esta própria sentença é falsa”. Ela só é verdadeira se e somente se for falsa. Para Gödel isto se tornara em algo como: “Esta própria sentença, apesar de verdadeira, não é dedutível dentro deste sistema”. Portanto, o sistema formal é inconsistente ou incompleto.

A prova matemática de Gödel para este teorema já foi mais de uma vez comparada a literatura de Franz Kafka, ou mesmo ao universo de Alice no País das Maravilhas onde os próprios significados se transformam, mas no entanto, tudo segue a mais rigorosa lógica “kafkiana”: o indivíduo transforma-se numa barata, mas o mundo de sua família continua o mesmo.

É incrível que apesar de dizer que “passava por cima da prova de Gödel..” Wittgenstein, na interpretação de Goldstein, também tinha sua própria prova da incompletude, quando afirmava em seu confuso “Tractatus” que os sistemas lingüísticos não conseguiriam exaurir toda a realidade não matemática: “Existem, de fato, coisas que não podem ser expressas em palavras. Elas se fazem manifestas. Elas são o que é místico”.

Não é à toa que Gödel, tinha como autor preferido Leibniz e, como ele, acreditava que alguma versão da prova ontológica da existência de Deus seria válida. Uma vez Gödel afirmou que só faltava-lhe um passo para tentar deduzir, da definição de Deus, a existência de Deus. Como a maioria de seus trabalhos esse também não foi publicado, mas é um tema interessante para um romance policial. Da mesma forma, seu trabalho sobre relatividade, que Einstein tinha especial apreço, e que mostrava que poderíamos viajar no tempo, é material farto para uma obra de ficção científica.


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POR EM 25/11/2008 ÀS 09:53 AM

A falência do racismo. E só

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A eleição de Barack Obama deve ser festejada, sim, mas apenas como ato simbólico de uma falência: o racismo. Não que ele tenha sumido, mas foi vencido, está em baixa. E só
 

Que desde já me perdoem todos os otimistas de todos os matizes, mas não entro mais nesta, de esperar as mudanças, de contar com as transformações que farão do planeta Terra um lugar menos irrespirável. Já vi esse filme, e até mais de uma vez. Nova-mente otimista, me consideraria apenas tolo.

Se você percebeu que estou falando da eleição de Barack Obama para o governo dos Estados Unidos, você é uma pessoa plugada, com sensibilidade bastante para se deixar penetrar pelo mundo e suas realidades. Acho que você vai entender meu ponto de vista.

Para que não haja desvios de interpretação, declaro desde já: não sou profeta, não quero ser profeta, não acredito em profecias. E nisso me saio melhor do que o padre Antônio Vieira, da Clavis Prophetarum, que se proclamava profeta. Não, se alguma coisa aprendi, e juro que aprendi muito pouco, foi na base da porrada, puro conhecimento empírico.

A eleição de Barack Obama deve ser festejada, sim, mas apenas como ato simbólico de uma falência: o racismo. Não que ele tenha sumido, mas foi vencido, está em baixa. E só. E não estou querendo dizer que nada vá mudar.

A política interna dos Estados Unidos muda a partir de janeiro. Haverá, de agora até o fim do mandato do presidente eleito, uma maior preocupação com a distribuição da renda, sobretudo no que diz respeito aos salários indiretos, como educação, saúde, seguridade social. E isso não é uma grande coisa? Claro que é, mas isso é o que mudaria com qualquer presidente do Partido Democrata. É sua diferença do Partido Republica-no. Aliás, diferença presente e bem clara em todos os discursos de campanha.

No mais, o vergalho continuará nas mãos do império até que ele deixe de o ser.

É muito fácil confundir governo com poder e imaginar que um presidente, por ter sido eleito, e por contar com o apoio da maioria da população, esteja investido de poder. Ele é pago para administrar, para fazer tudo para que a máquina funcione. Ora, os fal-cões não fugiram para as florestas. Estão lá, atentos, manobrando os executores de seus interesses. As companhias de petróleo, as grandes corporações econômico-financeiras, todos eles, se bem que meio machucados pelas besteiras que eles mesmos andaram fa-zendo, continuam com a mesma força que já detinham e não se creia (pois seria ingenuidade) que eles abdicaram do poder. Deram uma folguinha ao governo, mas não soltaram as rédeas do poder. 

Se alguma coisa mudar é porque o mundo mudou, é porque a lógica ditada pelo equilíbrio de forças mundial assim exigiu.

Não que me desagrade o Barack Obama presidente dos Estados Unidos, isso não. Pelo contrário, desde o início vi nele, muito mais do que em seu adversário, o perfil de um estadista. Mas a lógica do império continuará imperando, e isso até que os novos bárbaros invadam a nova Roma. Barack Obama não se parece a Rômulo Augusto, muito menos a Odoacro, que, em épocas remotas da história da humanidade, desmontaram ou participaram do desmonte do maior império que já existiu.


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