revista bula
POR EM 27/07/2012 ÀS 09:49 PM

E aí... comeu, cachorro? (como escrever textos idiotas)

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“A terra há de comer, já que eu não comi”
(Falcão, cantor, compositor e humorista cearense) 

Convalescendo em sua residência, Randal até que se sentia bem. Afinal, depois de inúmeras investidas, conseguira levar a secretária do chefe para um motel e fazer com ela um pouquinho do que os trezentos e quarenta e sete demais homens da fábrica também sonhavam em fazer, principalmente os casados, os muito tímidos e os incrivelmente religiosos. Vocês sabem, é bem difícil resistir aos aparentemente sensatos argumentos do diabo.

Ele era um vassalo dos mais comuns dentro do organograma administrativo da empresa, de tal forma que os galanteios cotidianos, quase sempre grosseiros (ele não podia ser mais direto), não chegavam a configurar um crime de “assédio moral” contra a moça. Cansada, convencida que fazer sexo com aquele sujeito do baixo escalão tornaria a sua vida mais divertida, topou a empreitada.

— Foi bom pra você, princesa? (perguntou, idiotamente, como se ele fosse o “rei do sexo sem fins reprodutivos”, falsamente interessado no bem estar da colega e se ela ouvira as harpas dos anjos ao final do eletrizante intercurso sexual).

— Foi diferente. Tô sentindo um prurido estranho entre as pernas.

— Putz! Você está com doença e não avisou, mulher?! Eu sou casado! Eu sou casado! (Randal apavorou-se mergulhado na sua descomunal e corriqueira ignorância)


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POR EM 24/07/2012 ÀS 10:37 PM

Por um triz

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A edição 990 da revista “Veja” de 26 de agosto de 1987 tem como capa o túmulo de Carlos Drummond de Andrade. “O adeus do poeta” era o título. Agosto é o mês do desgosto como dizem muitos. Foi neste mês que morreram Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Mas, o desgosto de Drummond naquele agosto de 1987 não se deveu à morte de algum estadista que construiu o Brasil moderno. Sua dor era mais íntima. Maria Julieta, sua filha única, perdia a batalha contra o câncer. A morte dela foi um baque para o poeta. A “Veja” mostrou a afinidade que o pai tinha com a filha e vice-versa. Um não queria ver a morte do outro. Mas, como este mundo é injusto, quis o destino que a filha fosse embora primeiro que o pai. “Isto não está certo, ela deveria ficar para fechar meus olhos!”, dizia o poeta para os amigos que foram ao Cemitério São João Batista. Doze dias depois da morte da filha, o coração do poeta não aguentou. Com quase 85 anos era a vez de Drummond ir embora para sempre e ficar ao lado da sua filha.

Treze anos depois da morte do poeta de Itabira eu estava no Rio de Janeiro. Desde que eu vira pela primeira vez a matéria da revista “Veja” sobre a morte de Drummond que eu tinha vontade de visitar seu túmulo. Em 2010 eu tive a oportunidade. O Cemitério São João Batista fica na divisa entre os bairros de Botafogo e Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. É cercado pelos morros Dona Marta e São João. Dali vê-se o Cristo Redentor. É como se o Filho de Deus guardasse os restos mortais dos que ali descansam inclusive o próprio Drummond que não queria orações e nem cruzes no seu túmulo.


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POR EM 20/07/2012 ÀS 11:49 PM

A imprescindível necessidade de se apontar sempre um culpado para tudo

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Nos velhos filmes americanos de drama ou suspense, quando um crime ocorria, quase sempre a culpa recaía sobre o mordomo. Ora, na história brasileira, salvo melhor juízo, jamais prevaleceu esta cultura das famílias abastadas acorrerem aos mordomos. No mais das vezes, uma governanta vinda do norte, de pele escura, pobre, semianalfabeta, e que trabalhava praticamente em regime escravo. Um subterfúgio muito utilizado no passado consistia em “pegar uma criança pra criar”, a fim de transformá-la na empregadinha da casa. Caridade ou pura má fé?

Voltando ao cinema, até que se provasse em contrário, a culpa era sempre do mordomo e ponto. Uma vez que a vida imita a arte, e muitos fazem questão de se omitirem o tempo inteiro, vivemos a perseguir mordomos invisíveis na brabeza do cotidiano. Quando falimos, quando pisamos na bola, a culpa é sempre de alguém, exceto de nós mesmos. Desde os deslizes mais simples e bestas, até tragédias horrendas, para o conforto da alma é imprescindível que alguém seja responsabilizado.

Passei as últimas férias com a família no litoral nordestino e posso afirmar a vocês que descansei mais que deputado federal. Foi uma maciota sem tamanho. Apesar do clássico desarranjo intestinal por causa do desacostume com o óleo de dendê e outras iguarias nordestinas, até que o pacote valeu em muito a pena. O contentamento só não foi pleno (e vocês sabem o quanto é espinhoso aos pais agradarem os seus tiranos filhos adolescentes) porque uma criança morreu afogada numa das gostosas piscinas do hotel.


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POR EM 18/07/2012 ÀS 10:22 PM

Meio-dia em Paris

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Comprei o penúltimo filme lançado de Woody Allen, assim como um tocador de blu-ray de 79 euros na Fnac, pois também o blu-ray tem essa divisão de mercado idiota dos DVDs (embora um pouco diferente) e fui assistir em meu apartamento no Orion Haussman, num dos prédios da Galeria Lafayette, em frente a Ópera Garnier. "Apertamento", na verdade. É indo a Paris que dá saudade do espaço nos EUA. E então minha antipatia pelo filme aumentou.

Meia-noite em Paris não é só uma vergonhosa concessão de Woody a quem se presta a lhe dar dinheiro pra filmar. É sobretudo uma propaganda enganosa. Os primeiros intermináveis cinco minutos mostram uma Paris que não existe. Ela está suja, feia, malcuidada, cheia de moradores de rua (a maioria do leste europeu, aparentemente) e, mesmo, violenta. Presenciamos, durante o mês de junho, cenas de violência no metrô (principalmente nos RER, que são maiores), algumas das quais, nos envolvendo diretamente. Mês de junho, por sinal, que mais parecia abril ou maio, cinza, frio, chuvoso. Ou seja, o oposto das imagens douradas pelo filtro de Woody.

Dito isso, devo confessar, adoro a cidade. Não tanto pela língua, que tem o defeito das latinas, uma gramática desnecessariamente complicada. Nem acho que mereça a fama de mais bonita, prefiro o som do alemão, acredite se quiser. Mas reconheço que o alemão é até pior, menos prático ainda do que as latinas. Bom mesmo é o inglês, que não é bonito, mas é facílimo.


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POR EM 18/07/2012 ÀS 09:48 PM

Um bruxo

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Era autodidata, o bruxo do Cosme Velho, mas como entendia da alma humana! Para usar a linguagem da era da tecnologia, ele tinha um entendimento de alta resolução do ser humano. É de se admirar que tivesse uma visão niilista, pessimista, da existência?

Tenho-me lembrado, ultimamente, com muita frequência de Machado de Assis. Sobretudo de seu conto “O Espelho”. As coisas acontecem em nossa volta e, como no conto do Monteiro Lobato, a realidade copia a ficção.   

Alguns dos leitores, infelizmente, não conhecem Machado de Assis, muito menos o conto aludido. Não é inútil, portanto, um resumo. O ideal, é claro, seria a leitura do conto, pois o conto é seu discurso, mas supondo que isso vá demorar a acontecer, ou que não aconteça jamais, não vejo outro recurso senão o resumo.

O narrador do conto, o protagonista Jacobina, desenvolve, em conversa com seus amigos, a teoria de que todos nós temos duas almas: uma interior e outra exterior. Como comprovação de sua teoria, conta a história de um jovem oficial do exército imperial brasileiro. (Técnica conhecida como mise en abyme). Em toda sua família, ninguém, até então, galgara tão alto a escala social. O jovem oficial é o orgulho e a esperança de redenção dos parentes. Só tira o uniforme para dormir.


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POR EM 13/07/2012 ÀS 08:39 PM

Quando eu morrer depositem as minhas cinzas no cinzeiro de um Camaro amarelo

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Não. Claro que não. Vocês bem o sabem e de nada adianta eu mentir. Minha história está mais para Kombi bege avariada com motor retificado, que Camaro amarelo. Um dia ainda lhes conto a respeito de uma odisseia, uma viagem de férias com profundas restrições orçamentárias que fiz com meus pais e irmãos, de Goiânia a Salvador, dentro de uma Kombi velha, percorrendo cerca de 600 quilômetros de estrada de terra entre as cidades de Barreiras e Alvorada do Norte.

Era muita poeira, calor, farofa de frango fria e medo do combustível acabar e se morrer de sede naquele sertão desértico. A Kombi  eu juro  além de automóvel, foi hotel da família por uma semana. O carro jamais parava, senão para o abastecimento. Urinava-se dentro da lata de Leite Ninho e o conteúdo era despejado pela janela. Pura verdade. Conto mais outro dia.

Porque o tema desta crônica não é férias, carro, motor, horse power e pistão. Vou escrever um pouquinho sobre música, o poder transformador da boa música. Dia 13 de julho comemora-se o Dia Mundial do Rock. A data escolhida remonta ao mega concerto Live Aid, organizado pelo músico irlandês Bob Geldof em 1985. O evento reuniu vários ícones da cena pop-roqueira daquela época, como Paul McCartney, Phil Collins, Fred Mercury e Eric Clapton. O principal objetivo do encontrão de bambambãs era angariar fundos para os famintos da Etiópia.


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POR EM 08/07/2012 ÀS 02:23 PM

Há dias que nem sei

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Havia questões familiares envolvidas em nossa decisão de fugir de São Paulo. Familiares algumas, sanitárias outras. A Capital já era, então (1987), uma cidade estressante. Trânsito, rumor, poluição, violência. A qualidade de vida despencava para patamares inaceitáveis. Vistas ardendo, sistema respiratório comprometido, o medo permanente. Era fácil intuir que se tratava de um processo irreversível.

Um dia, depois de um incidente de trânsito, finalmente decidimos: Aqui não se vive mais. Xingado sem ter culpa, jurei que passaria por cima daquele carro ali ao lado para esmagar sua ocupante. Há ofensas que não podem ser aceitas sem revide, talvez com alguma violência. Era o que eu pensava até o trânsito fluir novamente. Parti para cima sem muita agilidade porque meu carro era velho. Durante dez quilômetros a avenida 23 de Maio assistiu à nossa corrida imaginando tratar-se de alguma competição. Perdi de vista minha vítima e estacionei numa rua sossegada. Braços e pernas tremiam, meu coração dava pancadas nas paredes do meu peito, os olhos ardiam. Alguns minutos mais tarde a civilização começou a retornar. Foi para isso que vivi até hoje, que me preparei, que estudei? Virei fera? A ideia chegou trovejando nas asas de um relâmpago: aqui não fico mais.


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POR EM 06/07/2012 ÀS 01:18 PM

Deus perde a paciência e, finalmente, esclarece à humanidade o grande mistério da vida

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“Já estou de saco cheio com vocês”, foram com estas palavras de desabafo que Deus, finalmente, apareceu para esclarecer à humanidade o grande mistério da vida. Sim. Deus existe, meus caros. E creio que todos tenham acompanhado a sua inédita aparição por meio das rádios, jornais e televisão. Com o adjutório dos principais líderes religiosos do planeta, Deus convocou a imprensa mundial para uma entrevista única, definitiva e jamais sonhada nem mesmo pela mais crente criatura humana.

Valendo-se de vozes no meio da noite e visões oníricas, Deus requisitou aos seus multiplicadores de fé que arrebanhassem os mais renomados repórteres, âncoras televisivos, apresentadores de programas de auditório, além de líderes políticos de todas as nações, para uma esclarecedora entrevista coletiva que ocorreu, não por acaso, no Corcovado, aos pés do Cristo Redentor.


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POR EM 03/07/2012 ÀS 04:25 PM

Um libertário

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As crenças e valores mais gerais são formados pela sociedade. Como no folclore, ninguém sabe quem disse algo pela primeira vez. Mas isso um dia deve ter acontecido, pelo menos é a certeza a que nos induz o pensamento lógico. E, se nem tudo que se pode afirmar usando a estrutura lógica é verdadeiro, pelo menos neste caso não há por que discordar da afirmação. E se você, caro leitor, discorda, não vejo razão para que continue a leitura da crônica. 

A transmissão, a conservação e o reforço de crenças e valores, contudo, podem ser localizados. Grandes homens da história, muitos deles, foram e são estrelas-guia, cujo pensamento e/ou comportamento modelam nossa visão de mundo. Representam uma síntese do que a humanidade produziu.  

Na Grande Música, entre 1770 e 1826, existiu uma dessas personalidades que deixaram sua marca luminosa em nosso pensamento e também em nossa sensibilidade. Trata-se de Ludwig van Beethoven, alemão de origem holandesa, que nasceu na cidade de Bonn. Foi um dos maiores gênios do Romantismo musical (como de toda a história universal da música) e, sinfonias suas, como a "Quinta" e a "Nona", há mais de duzentos anos, são das músicas mais tocadas no mundo inteiro. Muito pouca gente do mundo civilizado desconhece aquelas quatro notas (três breves e uma longa) ou a melodia do coral da "Nona", An die Freude, de um poema schilleriano, uma das mais belas odes à alegria de toda a arte universal: o hino da amizade e da fraternidade. 


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POR EM 28/06/2012 ÀS 09:31 PM

11 coisas (ou pessoas) que você adoraria mandar para o inferno

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Existe uma clássica piada na qual um padre (ou pastor), durante uma pregação, pergunta aos presentes: "— Quem quer ir para o Céu?". Sem pestanejar, todos da manada levantam as mãos trêmulas para o alto, aprovando a ideia. "— E quem quer ir hoje?", insiste o líder. É claro: a massa dobra os cotovelos. Todo o mundo deseja ir para o Céu, mas ninguém quer morrer. Risível? Eu achei.

Mas nem sempre a lógica e a clareza parecem tão explícitas. Há vários anos um guru tresloucado chamado Jim Jones induziu centenas de seguidores a um suicídio coletivo (918 pessoas, de mamando a caducando), num dos episódios de fanatismo religioso mais estúpido que se tem notícia desde que Caim matou Abel a porretadas. Portanto, cuidado com líderes religiosos exaltados.

Mas este texto não foi escrito para enaltecer o Céu, e sim, lucubrar a respeito dos infernos nossos de cada dia. Falemos, então, desde ambiente enigmático e eternamente repelido pelo ser humano, até pelos crápulas mais desprezíveis. 

O que mais se encontram na internet são listas. Infindáveis listas de preferência. Os 10 mais. Os 30 menos. Os 50 piores. Os 69 mais picantes. Os 100 indispensáveis. Os 1000 essenciais. E por aí vai. Entrando nesta seara das listas com ranqueamentos descartáveis, fazendo alusão ao roqueiro Raul Seixas, "eu também vou ranquear". Conclamo os valorosos leitores a um exercício, uma dinâmica em grupo engendrada individualmente (?), nalgum lugar do ciberespaço, cada qual no seu quadrado.


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