revista bula
POR EM 05/09/2012 ÀS 09:43 PM

Por que eu e Ademir Luiz estamos certos e os comentadores da Bula e do facebook que discordam de nós não só estão errados, mas são também intelectual e moralmente inferiores

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“Seus respectivos públicos, que se colocam como adversários, já chegam convencidos.” (Ademir Luiz, em seu artigo “Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil”, aqui na Bula)


A edição de 18 de maio da revista “Science” traz um dossiê especial sobre conflitos humanos, apresentando os resultados de experimentos em diversas áreas das neurociências (as neurociências de verdade, não as de autoajuda) bastante interessantes e úteis para nos ajudar a entender a nós próprios.

Ajuda a entender, por exemplo, por que uma resenha que critique Woody Allen, ou um artigo que defenda que ele é melhor do que Dostoiévski, provocam reações iradas de leitores ofendidos, como se se tratasse de times de futebol ou insultos a membros da família. É bizarro que alguém que se diga “doutor em educação”, além de cometer erros crassos de português, revele-se preconceituoso, discriminador. Isso porque outrem critica um filme. É patético ler comentários que não se envergonhem de escancarar, senão a ignorância do assunto em questão, mas o próprio artigo que estão criticando. Digo ignorância do próprio artigo pois a maioria dos comentadores não se dá ao trabalho de ler. Lê o título, passa os olhos muitíssimo por cima e pronto. E isso não é típico de uma certa geração twitter, mas, sim, do ser humano, que é preguiçoso por natureza, portanto, desde sempre.


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POR EM 04/09/2012 ÀS 10:28 PM

Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil

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“Se sou um elitista? Sou, sempre fui e sempre serei. O julgamento da maioria está sempre errado. O único jeito de consertar a sociedade é a pau. É preciso manter a cultura, o que resta, acima da canaille”. 

(Paulo Francis)

No longínquo ano de 2008, foi publicada na edição de agosto da revista “Playboy”, estrelada pela atriz Carol Castro, uma curiosa entrevista com Paulo Coelho. A chamada de capa é intrigante: “Sou o intelectual brasileiro mais importante”. Sensacionalismo, mas nem tanto. No recheio da revista, o leitor fica conhecendo a fala completa do “Mago”: “Sem dúvida, sou o intelectual brasileiro mais importante. Mas não queria dizer isso porque pode parecer arrogância. Refaz a frase aí de uma maneira que eu não pareça arrogante”. De alguma forma, ainda que tangencialmente, Paulo Coelho, o mesmo homem capaz de afirmar que James Joyce é nocivo para literatura, demonstrou possuir alguma mínima consciência do absurdo de sua declaração.

Era e é inconcebível que ele seja sequer candidato ao título de intelectual brasileiro mais importante. Sua produção, embora composta de uma lista de best-sellers, é culturalmente desimportante. O Brasil já gerou pensadores dignos de figurar no primeiro escalão mundial, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Joaquim Nabuco, Mário Ferreira dos Santos, Euclides da Cunha. Também tivemos divulgadores de altíssimo nível, como o exportado Paulo Francis e o adotado Otto Maria Carpeaux. Dentre os vivos, a coroa é disputada por medalhões do porte de Antonio Candido, Ciro Flamarion Cardoso, Roberto Machado, Oscar Niemeyer e Ferreira Gullar. Autores de obras fundamentais, já integradas ao cânone.


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POR EM 31/08/2012 ÀS 08:54 PM

Sempre quis matar meu pai. Desde criancinha

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Nunca antes na história daquela delegacia (até quando ainda farei alusões em meus textos à retórica populista daquele nosso ex-presidente-metalúrgico?), o doutor delegado (malandros insistem em dizer “eu não fiz nada, doutor”) ouvira uma confissão tão lógica e simplista quanto aquela do rapagão. Era como se ele tão somente comentasse “vou matar aulas hoje”.

Pobre diabo. Àquela altura da vida, nem mesmo aulas poderia matar, uma vez que abandonara os bancos escolares (na verdade, fora abandonado por eles, pela constante falta de vagas na escola pública) ainda durante o Ensino Fundamental, atormentado pelos mapas geográficos incompreensíveis, as regras de três, os cálculos matemáticos, a fome e o comportamento destrutivo do pai.

Atualmente, vivia entretido mesmo era com o ócio, o uso contumaz de crack (engrossava as fileiras de viciados urbanos que muitos cidadãos prefeririam enfileirar num paredão e fuzilar) e a torcida organizada “Os Fanáticos Demônios”. Bom mesmo era comparecer ao estádio, urrar feito um primata, empurrar o time para dentro do adversário, aprontar quebradeira nos terminais de ônibus e trucidar qualquer safado vestido com camisetas dos times rivais. Especialista em miséria humana, o delegado supunha já tivesse visto de um tudo na sua carreira. Irmão que matava irmão. Crimes passionais. Latrocínios. Trairagens familiares seguidas de morte. Infanticídio. Raptos. Abortos clandestinos. Rupturas himenais forçadas. Torturas. Judiações. O supra-sumo do sadismo. A crueldade sem amarras. O Homem na pior acepção da palavra.


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POR EM 24/08/2012 ÀS 06:40 PM

Nunca antes na história deste prostíbulo

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A juventude compreende um período da vida deveras melindroso para o desenvolvimento psicossocial de um indivíduo. Quando se é jovem, nada parece impossível, inalcançável, nem mesmo os sonhos mais bestas. É fato: a mocidade está mais para poesia que prosa. Que o digam as musas e seus vates devotados. Houve uma época em que tive cabelos, e rimei muito amor com dor. Hoje, a lira foge dos meus pensamentos como o Tiago foge da cruz (Tiago é o meu vizinho ateu).

Há quase sempre muita energia vital para as atividades físicas, como esportes, pancadarias e sexo. Provocado pela efervescência dos hormônios, o cérebro juvenil funciona a mil por hora. Vive-se o apogeu da irreverência e do potencial criativo. Penando na adultícia, na chatice das encrencas cotidianas, gozando de irrisório élan, o máximo que conseguimos é enxergar, através do espelho retrovisor do tempo, o melhor de nós incrustado no passado longínquo. “Nossa... Éramos tão lindos e atirados...”. Dá até vontade de chorar ao idealizarmos fontes da eterna juventude. Por causa da impetuosidade, outra característica do mancebo é supor que já saiba tudo. Esta convicção de semideus torna-o arrogante por natureza. Tenho um dileto amigo que hoje trabalha como Juiz de Direito. Antes de adentrar a magistratura, penou, ao longo de três anos, como Delegado de Polícia no interiorzão do Estado. Naqueles idos ainda guardava uma cara de menino.


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POR EM 19/08/2012 ÀS 05:05 PM

Lista dos escritores mais ricos do mundo não tem escritores

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James PattersonA “Forbes” publicou  a lista dos escritores mais ricos do mundo. Não há nenhuma surpresa: não há escritores de verdade na relação da revista. (Escritores de verdade são aqueles que cobiçam a eternidade, como Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Laurence Sterne, Stendhal, Balzac, Flaubert, Nathaniel Hawthorne, Herman Melville, Machado de Assis, Eça de Queirós, Henry James, D. H. Lawrence,  James Joyce, Scott Fitzgerald, Faulkner, Thomas Mann, Graciliano Ramos, Carlo Emilio Gadda, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Lobo Antunes, entre muitos outros.) Os homens de letras citados pela “Forbes” são circunstanciais — surgem, ficam algum tempo na lista dos mais vendidos e, cinquenta anos depois (estou sendo generoso, aviso logo), ninguém mais sabe quem são eles. A literatura de mercado, para vender rapidamente, é assim mesmo. Sempre foi assim. Na época do francês Flaubert havia, é claro, muitos escritores populares — alguns faziam até mais sucesso do que ele, às vezes tido como obsceno, devido ao ruidoso processo provocado pelo romance “Madame Bovary”.

Hoje, assim como há indústrias de sabonete e cerveja, há azeitadas fábricas de autores e livros. Equipes talentosas, com um pé no jornalismo e na literatura de altíssima fofoca, escrevem livros, às vezes imensos, e fazem publicidade maciça. Vendem como água em dias quentes. James Patterson, se comparado a Proust e Joyce, deve ser tratado como analfabeto funcional. John Grisham, Ken Follett e Stephen King pertencem a um honroso quinto time da literatura mundial. Mesmo assim, não são grande coisa.


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POR EM 17/08/2012 ÀS 05:21 PM

Seja o primeiro a curtir isto

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Já notaram que uma das coisas com que as pessoas mais se excitam é dar notícia ruim? Contar desgraças é palpitante e, numa roda de conversas fiadas, faz enorme sucesso. Os olhinhos brilham. Todos esperam ouvi-lo.

As gestantes (coitadas!), por exemplo, passam todo o pré-natal tomando vitaminas, levando dedadas na vagina e ouvindo das comadres, parentes e estranhos causos de decessos obstétricos os mais dantescos do planeta.  Sempre aparece alguém com aquela estória do bebê que passou da hora e nasceu roxinho.

Na seara dos dramalhões, eu me atrevo em contar mais uma. Reuniu a família na sala e disse: “Gente, eu vou morrer em breve”. A filha adolescente, que manuseava um ismarte-fone, entretida em fofocas e intrigas virtuais, pausou os polegares, deixou cair o queixo, a parecer ainda mais abestalhada que o costumeiro.

O irmão mais velho, a princípio injuriado pela abrupta interrupção quando então dedicava uma punheta a Popozuda Mascarada da Laje no banheiro (“Vem logo, menino”, ralhou a mãe), expressou uma face estarrecida, a melhor de todas as faces estarrecidas da sua curta existência. A mãe, que tomava chá verde emagrecedor, ficou pálida, bambeou as mãos e derramou o líquido fumegante no colo obeso cultivado às custas de muita comilança desenfreada, sedentarismo e duas barrigadas. Demandava perder peso, melhorar o visual, já que o marido parecia deveras interessado nas mulheres da vizinhança, muitas delas bem mais jovens, bonitas e jamais enxertadas. Seu sexto sentido vivia a lhe trair, ao fantasiar aventuras do marido com amantes. Então sofria de toda insegurança de que era capaz.


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POR EM 10/08/2012 ÀS 08:31 PM

Vá ver se eu tô na esquina. Mas tome cuidado

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Por um instante, o jovem teve um desejo sincero de dar cabo do vil ali mesmo, no meio da rua, alvejá-lo na cabeça (teve tempo de se lembrar da famosa foto do vietcong sendo fuzilado a meio palmo em Saigon, 1968), descarregar um 38, crivar aquele corpo deseducado com balas e, por último, chutar a sua cabeça assim que tombasse no asfalto.

Notem: em brigas corporais, quando alguém deseja ferir definitivamente outro alguém, quando alguém que está possuído de ódio (seria o capeta, irmã?!) por outro alguém (aquilo a que denominamos, singelamente, da boca para fora, como “ódio mortal”), sempre visa a atingir a cabeça. Coisa de principiante, convenhamos. Cabeças são estruturas nobres, porém protegidas por arcabouço ósseo da maior dureza. Corações, não. Corações são órgãos moles, literalmente. Para matar mesmo há que se acertar em cheio o coração (lembro-me perfeitamente de meu pai detalhar este fato enquanto sangrávamos um porco com um canivete às vésperas do natal).

Mas o rapaz não possuía armas de fogo. Nem faca. Nem punhal. Nem um cabo de machado feito com guatambu (sabiam que muitos carregam dentro dos carros porretes de madeira para trucidar inimigos no trânsito?). Aliás, àquela altura da vida, além do pobre e escandaloso leitão de sua meninice, o máximo que conseguira matar foi uma aula de trigonometria, ao pular o muro da escola. Urinou nas pernas de tanto apanhar do pai com lasca de pneu de caminhão.


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POR EM 09/08/2012 ÀS 07:16 PM

Meio século sem William Faulkner

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O autor de “O Som e a Fúria” visitou São Paulo, em 1954, bebeu muito e, segundo a lenda, teria perguntado o que estava fazendo em Chicago

William Faulkner

William Faulkner morreu em julho de 1962. Ele tinha 64 anos e, em termos literários, parecia tão esgotado quanto Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Em 1954, esteve no Brasil, quase sempre bêbado. Certo dia, segundo uma das versões, teria perguntado: “O que estou fazendo em Chicago?” A história de sua visita ao Brasil, quatro anos depois de ter recebido o Nobel de Literatura, é contada, de modo romanceado, no livro “Dias de Faulkner (Imprensa Oficial, 124 páginas), de Antônio Dutra. Ao ser apresentado à escritora Lygia Fagundes Telles, apontada como “contista”, teria dito: “Se os seus contos forem tão bonitos quanto os seus olhos, a senhora certamente é uma grande escritora”. A autora do belo romance “As Meninas” disse que levou o criador de “Enquanto Agonizo” para ver cobras no Ins­tituto Butantã. “Segurava as cobras e gritava: ‘Sou um fazendeiro, um fazendeiro’. Ele chegou meio fora de órbita a São Paulo. Queria ver cobras e o Cruzeiro do Sul. Um dia, pegou-me pelo braço e apontou para o céu, querendo ver as estrelas. Ficou doido com essa história de Cruzeiro do Sul. E estava sempre com o cabelo molhado. Creio que se molhava para ficar desperto, devido ao excesso de álcool. Não era um homem bonito. Era baixo, mas tinha um rosto muito forte”, contou Lygia à “Folha de S. Paulo”. Queria mas não conseguiu visitar uma fazenda de café e Mato Grosso.


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POR EM 03/08/2012 ÀS 09:03 PM

Quem mata mais: o cinema, o cigarro ou estudantes de medicina ensandecidos?

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Quem mata mais: o cinema, o cigarro, estudantes de Medicina ensandecidos, a saudade, o répi-auer, a gripe A, o lado B dos vinis, o BHC, canções do tipo “Assim você me mata”, os alimentos transgênicos, os atentados homofóbicos aos transexuais, a gordura trans, o excesso de sal, o excesso de açúcar, o excesso de corrupção, a falta de vergonha na cara, a impunidade, as estradas brasileiras, a anorexia nervosa, a fome africana, a fome de grana dos mensaleiros do Petê, a sífilis, a endemia de maleita no Norte, a falta de limite dos adolescentes filhinhos-de-papai, a falta de educação, os tumores, os temores descabidos, os tremores de terra, os Estados Unidos da América, as ditaduras do século 21, a guerra civil na Síria, o derrame cerebral, o derrame de dinheiro surrupiado em paraísos fiscais nas Ilhas Cayman, a falta de saneamento básico, a hidrofobia, a sede de vingança, a seca no sertão nordestino, o desvio de verbas para o desvio das águas do Rio São Francisco, a raiva por pagar tantos impostos ao Governo sem a devida contrapartida, o voto nulo, o voto de confiança em políticos safardanas, o falso voto de castidade de estupradores psicóticos devolvidos ao convívio social pela Justiça, a injustiça, as torcidas organizadas, o crime organizado, a sociedade desorganizada, a Organização das Nações Unidas, o suicídio, o aborto clandestino, a hipocrisia social, as religiões, o SUS, Deus, os Homens? O título desta crônica é propositadamente provocativo. Mas não será a vivência humana neste planeta, da mesma forma, provocativa, impelindo-nos aos questionamentos mais pertinentes, às vezes dicotômicos, quais sejam a fé inarredável em Deus e a descrença na humanidade? A despeito de tanta revolução industrial, evolução científico-tecnológica, o ser humano tem ambições caninas e fareja o mal, ele tem vocação para as atrocidades. 


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POR EM 30/07/2012 ÀS 10:43 PM

Tudo outra vez

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E não me venham dizer que sou antidemocrático ou alienado, pois não é nada disso. Pelo menos numa opinião de que às vezes desconfio, mas mesmo assim respeito: a minha. Que a nossa democracia está muito longe da perfeição, me parece que não há necessidade de provar: isso é consensual. Ou deveria ser. Mas o que me caceteia, e muito, é a eleição, e eleição não é democracia. Pode ser um de seus instrumentos, mas não é o único. E o problema, em verdade, não é exatamente com a eleição, senão com sua propaganda — a forma como é feita. 

Sofro muito quando começam a passar aqueles caminhõezinhos com alto-falantes. Já não falo daqueles monstros que bombardeiam para todos os lados, atingindo céus e terra, e estremecendo  tanto a litosfera quanto nosso débil esqueleto. Não tenho notícia confiável de sua origem, mas é um negócio que vi pela primeira vez em noticiário sobre o carnaval da Bahia; uma invenção, enfim, para que em lugar nenhum do Brasil se tivesse sossego. Para mim basta o caminhãozinho. Não consigo pensar em mais nada com aquele negócio trovejando em meus ouvidos. Fecho portas e janelas, fecho a casa toda, e não consigo me ver livre do barulho. Então, eu, que amo o silêncio, a música suave, a voz ciciada, ligo a televisão ou o aparelho de som no máximo volume, apenas para selecionar o barulho. Continuo preferindo alguns em detrimento de outros.


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