Por que eu e Ademir Luiz estamos certos e os comentadores da Bula e do facebook que discordam de nós não só estão errados, mas são também intelectual e moralmente inferiores

“Seus respectivos públicos, que se colocam como adversários, já chegam convencidos.” (Ademir Luiz, em seu artigo “Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil”, aqui na Bula)
A edição de 18 de maio da revista “Science” traz um dossiê especial sobre conflitos humanos, apresentando os resultados de experimentos em diversas áreas das neurociências (as neurociências de verdade, não as de autoajuda) bastante interessantes e úteis para nos ajudar a entender a nós próprios.
Ajuda a entender, por exemplo, por que uma resenha que critique Woody Allen, ou um artigo que defenda que ele é melhor do que Dostoiévski, provocam reações iradas de leitores ofendidos, como se se tratasse de times de futebol ou insultos a membros da família. É bizarro que alguém que se diga “doutor em educação”, além de cometer erros crassos de português, revele-se preconceituoso, discriminador. Isso porque outrem critica um filme. É patético ler comentários que não se envergonhem de escancarar, senão a ignorância do assunto em questão, mas o próprio artigo que estão criticando. Digo “ignorância do próprio artigo” pois a maioria dos comentadores não se dá ao trabalho de ler. Lê o título, passa os olhos muitíssimo por cima e pronto. E isso não é típico de uma certa geração twitter, mas, sim, do ser humano, que é preguiçoso por natureza, portanto, desde sempre.
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Nunca antes na história daquela delegacia (até quando ainda farei alusões em meus textos à retórica populista daquele nosso ex-presidente-metalúrgico?), o doutor delegado (malandros insistem em dizer “eu não fiz nada, doutor”) ouvira uma confissão tão lógica e simplista quanto aquela do rapagão. Era como se ele tão somente comentasse “vou matar aulas hoje”.
A juventude compreende um período da vida deveras melindroso para o desenvolvimento psicossocial de um indivíduo. Quando se é jovem, nada parece impossível, inalcançável, nem mesmo os sonhos mais bestas. É fato: a mocidade está mais para poesia que prosa. Que o digam as musas e seus vates devotados. Houve uma época em que tive cabelos, e rimei muito amor com dor. Hoje, a lira foge dos meus pensamentos como o Tiago foge da cruz (Tiago é o meu vizinho ateu).
A “Forbes” publicou a lista dos escritores mais ricos do mundo. Não há nenhuma surpresa: não há escritores de verdade na relação da revista. (Escritores de verdade são aqueles que cobiçam a eternidade, como Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Laurence Sterne, Stendhal, Balzac, Flaubert, Nathaniel Hawthorne, Herman Melville, Machado de Assis, Eça de Queirós, Henry James, D. H. Lawrence, James Joyce, Scott Fitzgerald, Faulkner, Thomas Mann, Graciliano Ramos, Carlo Emilio Gadda, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Lobo Antunes, entre muitos outros.) Os homens de letras citados pela “Forbes” são circunstanciais — surgem, ficam algum tempo na lista dos mais vendidos e, cinquenta anos depois (estou sendo generoso, aviso logo), ninguém mais sabe quem são eles. A literatura de mercado, para vender rapidamente, é assim mesmo. Sempre foi assim. Na época do francês Flaubert havia, é claro, muitos escritores populares — alguns faziam até mais sucesso do que ele, às vezes tido como obsceno, devido ao ruidoso processo provocado pelo romance “Madame Bovary”.
Já notaram que uma das coisas com que as pessoas mais se excitam é dar notícia ruim? Contar desgraças é palpitante e, numa roda de conversas fiadas, faz enorme sucesso. Os olhinhos brilham. Todos esperam ouvi-lo.
Por um instante, o jovem teve um desejo sincero de dar cabo do vil ali mesmo, no meio da rua, alvejá-lo na cabeça (teve tempo de se lembrar da famosa foto do vietcong sendo fuzilado a meio palmo em Saigon, 1968), descarregar um 38, crivar aquele corpo deseducado com balas e, por último, chutar a sua cabeça assim que tombasse no asfalto.
Quem mata mais: o cinema, o cigarro, estudantes de Medicina ensandecidos, a saudade, o répi-auer, a gripe A, o lado B dos vinis, o BHC, canções do tipo “Assim você me mata”, os alimentos transgênicos, os atentados homofóbicos aos transexuais, a gordura trans, o excesso de sal, o excesso de açúcar, o excesso de corrupção, a falta de vergonha na cara, a impunidade, as estradas brasileiras, a anorexia nervosa, a fome africana, a fome de grana dos mensaleiros do Petê, a sífilis, a endemia de maleita no Norte, a falta de limite dos adolescentes filhinhos-de-papai, a falta de educação, os tumores, os temores descabidos, os tremores de terra, os Estados Unidos da América, as ditaduras do século 21, a guerra civil na Síria, o derrame cerebral, o derrame de dinheiro surrupiado em paraísos fiscais nas Ilhas Cayman, a falta de saneamento básico, a hidrofobia, a sede de vingança, a seca no sertão nordestino, o desvio de verbas para o desvio das águas do Rio São Francisco, a raiva por pagar tantos impostos ao Governo sem a devida contrapartida, o voto nulo, o voto de confiança em políticos safardanas, o falso voto de castidade de estupradores psicóticos devolvidos ao convívio social pela Justiça, a injustiça, as torcidas organizadas, o crime organizado, a sociedade desorganizada, a Organização das Nações Unidas, o suicídio, o aborto clandestino, a hipocrisia social, as religiões, o SUS, Deus, os Homens? O título desta crônica é propositadamente provocativo. Mas não será a vivência humana neste planeta, da mesma forma, provocativa, impelindo-nos aos questionamentos mais pertinentes, às vezes dicotômicos, quais sejam a fé inarredável em Deus e a descrença na humanidade? A despeito de tanta revolução industrial, evolução científico-tecnológica, o ser humano tem ambições caninas e fareja o mal, ele tem vocação para as atrocidades.
E não me venham dizer que sou antidemocrático ou alienado, pois não é nada disso. Pelo menos numa opinião de que às vezes desconfio, mas mesmo assim respeito: a minha. Que a nossa democracia está muito longe da perfeição, me parece que não há necessidade de provar: isso é consensual. Ou deveria ser. Mas o que me caceteia, e muito, é a eleição, e eleição não é democracia. Pode ser um de seus instrumentos, mas não é o único. E o problema, em verdade, não é exatamente com a eleição, senão com sua propaganda — a forma como é feita. 