revista bula
POR EM 21/10/2012 ÀS 08:49 PM

Sobre o direito de dizer merda

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Richard Millet

Você já ouviu falar em Richard Millet? Provavelmente não. Ele é (era, até há pouco) membro do comitê de leitura de uma das mais prestigiosas casas editoriais francesas, a Gallimard. Enfim, não é (era) pouca porcaria não. Mas Millet é também um escritor. E, ainda e sobretudo, um boçal. Um eminente, gigantesco, grotesco, escroto boçal.  Autor do panfleto de 18 páginas intitulado  "Eloge littéraire d'Anders Breivik" (não publicado pela Gallimard, diga-se), por meio do qual faz um "elogio" a Anders Breivik, "fruto tanto da ruína familiar, quanto da fratura ideológico-racial que a imigração extra-europeia introduziu na Europa". Mas quem é Anders Breivik, mesmo? Outro boçal, um norueguês que achou por bem matar um monte de gente em nome de sei lá o quê, já que não importa o que ele diga que o motivou, só tem charme para seus semelhantes na submentalidade — como Millet.


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POR EM 19/10/2012 ÀS 03:49 PM

Médico é que nem sal: branco, barato e se encontra em qualquer esquina

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“A Medicina não é melhor nem pior que as outras profissões. Só é diferente porque cuida da vida.” Li esta frase num periódico do Conselho Federal de Medicina (ou da Associação Médica Brasileira, não tenho certeza...), que finalmente resume tudo o que eu penso a respeito desta espinhosa, incompreendida e, várias vezes, usurpada atividade profissional. O autor da mesma é um velho médico nordestino, Celso Matias de Almeida, 84 anos, ex-professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Aposentado há mais de 15 anos, o octogenário doutor não abandonou o eito e passou a atender, voluntariamente, a comunidade pobre de Natal, cidade onde reside. Dentre tantas estórias inspiradoras, o Vovô do Estetoscópio (Por que não? Se a imprensa joga seus holofotes sobre a Vovó do Crack, por que não enaltecer um Vovô do Estetoscópio? A sua maneira, cada qual interfere como pode no caos cotidiano...) conta que duas aventuras, em especial, marcaram-no visceralmente.

Na primeira delas, quando ainda era solteiro, foi retirado às pressas de uma Festa de São João em Currais Novos — RN para acudir, montado no lombo de um burro, uma mulher que paria num sítio em local remoto do agreste. O parto melindroso foi conduzido à luz de velas e, como a própria chama, a campesina deu a luz a uma criança saudável. “Deus ajuda muito os médicos do interior”, ele comenta, a transpirar humildade.


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POR EM 13/10/2012 ÀS 02:25 PM

Trate logo de lavar este seu poema sujo

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Quando eu era criança, dentre tantos ofícios infantis curiosos, ficava observando as mãos do meu padrinho, um homem velho a quem amava desmesuradamente, enquanto ele e a esposa enchiam, com esmero, uma garrafa de Crush com suco de laranja, para que eu e os meus irmãos pensássemos fosse o famoso refrigerante da moda. Vocês sabem: quem não tem cão caça como gato.

“Quando eu crescer quero ter mãos assim...” — eu pensava ao acompanhar aquela fabulosa fraude doméstica, observando as suas mãos enrugadas e macias, com moitinhas de pelos sobre as falanges. “São mãos de médico, menino...” — explicava a madrinha, sem desgrudar os olhos da garrafa para que o pseudo-refrigerante não derramasse. Para agradar criança, tem gente que faz de tudo.

Finalmente eu cresci e constato agora o quanto estão também peludas as minhas falanges. Contudo, perdi em maciez para a dureza da adultidade. A vida é dura pra quem é mole. É o que dizem. E eu sou mole. No duro.

Acho que ando mais a flor da pele que o próprio Zeca Baleiro. São tantas as coisas que eu tinha a escrever que nem sei bem ao certo por onde começar. Então vou começar dizendo o quanto eu lamento despossuir a mesma alegria incontida de um menino a me oferecer esculturas de balões, no hall de um Posto de Saúde infestado com germes e pensamentos indóceis. “O desgraçado do médico está atrasado...” — reclama uma mulher gorda, cega de um olho.


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POR EM 08/10/2012 ÀS 08:07 PM

Mendigos enjaulados na China são mais obscenos do que nudez da arte

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Fabiano Mai­sonnave, correspondente da “Folha de S. Paulo” em Pequim, publicou uma reportagem, “Cidade chinesa enjaula mendigos na rua”, indicando que os “adeptos” de Mao Tsé-tung, o comunista que matou cerca de 70 milhões de pessoas, perverteram os princípios humanistas. A decisão de enjaular as pessoas foi da Prefeitura de Xinjian. Um funcionário público, que se identificou como Wan, disse candidamente: “Tivemos de considerar ambos os lados: o dos peregrinos [que vão ao tempo Xanshou, que tem 1.700 anos) e o dos mendigos. Há alguns mendigos falsos que apenas querem arrancar dinheiro dos peregrinos”. Teoricamente, o governo estaria protegendo mendigos e peregrinos. No microblog Weibo, os chineses criticaram duramente a prefeitura, o que prova que, apesar da censura e da pressão política, a sociedade chinesa mantém-se ligeiramente crítica.


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POR EM 05/10/2012 ÀS 09:11 PM

Aconteceu na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas

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Cornélio ganha a vida vigiando carros e pessoas na esquina da Pegasus com a Caralho-de-Asas. Teve a infância malograda já ao nascer, por acaso, de parto domiciliar bruto, desassistido, no conturbado seio familiar de degredados sociais. O pai era um viciado incorrigível ao ponto de beber a caubói copos de álcool combustível; a mãe, mulher analfabeta, parideira aidética de uma renca de filhos.

Sob o barraco de lona preta de um cômodo só, descobriu deste cedo o quanto o Homem estorvava os planos de Deus na construção de um mundo melhor. O mais incrível é que cria na divindade com a mesma convicção que um deputado acredita jamais será pego em escutas telefônicas comprometedoras.

Então, na prática, ele foi deseducado, adestrado na dureza insigne das ruas, na crueza dos seus pares igualmente miseráveis, resignados companheiros do abandono e da negligência social. Pode-se dizer que escapuliu por um milagre, um capricho do Pai, quem sabe, naquele cenário caótico a que muitos teimam chamar “família”.

Não. Aquilo não era uma família, uma célula da sociedade, conforme dizem os empolados. Na melhor das hipóteses, uma célula cancerosa que se replica independentemente, a despeito da lei, da ordem, do progresso, e dos aumentos substanciais do PIB. Poder-se-ia dizer aquilo era uma matilha de cães sarnentos entregues à própria sorte.


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POR EM 28/09/2012 ÀS 08:57 PM

Coluna antissocial do Prestes

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“Há homens que lutam um dia, e são bons. Há outros que lutam um ano, e são melhores. Há os que lutam muitos anos, e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, são os trogloditas do MMA”

(Prestes, colunista antissocial)

Pasárgada, sexta-feira, dia 28 de setembro de 2012.

O renomado cirurgião dentista Teotônio Brocca acaba de chegar de uma bocada em Toronto. Apesar do Rei do Boticão afirmar que estava fazendo um fellow em Boca do Lixo, comenta-se à boca miúda que o profissional, na verdade, acompanhava uma comitiva de deputados (e acompanhantes) em viagem oficial de férias àquele país, por conta do erário. Isto está cheirando mal...

Mal começaram as chuvas, os apagões na cidade já aconteceram, e o cavalo do carroceiro Zé Malaquias morreu fulminado por um raio. Para não desperdiçar tanta carne equina, Zé convidou a vizinhança para um churrasco às pressas em plena terça-feira. No dia seguinte, todos forjaram atestados médicos falsos e apresentaram aos respectivos departamentos pessoais.

Numa festa de aniversário regada a muita cerveja barata e baixarias, Tonho Frentista declarou a todos os presentes que engravidou sim a cunhada. Quando esta edição foi fechada o IML ainda fazia a assepsia do local, de tal sorte que não há informações precisas quanto a mortos e feridos. Igualmente ferida com a traição do marido, o ilibado Desembargador Braguilha, Dona Vulva e amigas partiram ontem para um cruzeiro pelo Caribe. Só para mulheres. Isto porque o cruzeiro dos cornos sai só na semana que vem. Não perca esta oportunidade.


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POR EM 21/09/2012 ÀS 09:38 PM

Tomai e fumai todos vós

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Botina. Dentadura. Óculos. Tratamento ortodôntico. Vale-transporte. Cesta básica. Emprego para um enteado. Gasolina no tanque. Um tanquinho de lavar roupas. Silicone para as mamas. Duas mãos de tinta. Ligadura das trompas. Uma cirurgia de hernia. Câmara de ar para o pneu da bicicleta. Créditos para o celular. Uma banda de leitoa. Aparelho para surdez. Um rolo de fumo. Perineoplastia. Dez sacos de cimento. Um puxadinho. Vestido de casamento. Custas de “adevogado”. Pedras de crack. Pedras de crack?! Sim, pedras de crack...

A estratégia de trocar votos por drogas é inédita, sensacional, uma verdadeira pérola do estratagema político criminal. Senão, vejamos (acompanhem só as engrenagens rangendo na mente de um meliante): imbuído de má fé, maquinando com capetas, comparsas e correligionários da ilicitude, o traficante seleciona um qualquer simpatizante da causa que possua ainda a “ficha limpa”, e ambos coadunam para que este último seja o candidato da região, a fim de — se eleito for — defender no parlamento os interesses do bando. Enquanto um bando de andorinhas voa de uma árvore (Por que será que essas aves atrevidas elegem a caótica atmosfera desta metrópole para desfilar os seus voos? Efeitos inevitáveis da expansão urbana ou pura provocação a este pobre diabo?), eu rumino a notícia da varanda de casa, mais uma vez surpreendido com a capacidade humana de fazer conchavos para o mal.


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POR EM 21/09/2012 ÀS 08:31 PM

Colunistas da Revista Bula entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2012

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Os escritores Edival Lourenço e Menalton Braff, colaboradores da Revista Bula, estão entre os 10 finalistas da categoria principal — Romance — do Prêmio Jabuti 2012.

Edival Lourenço, com “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, editora Hedra; e Menalton Braff com “Tapete de Silêncio”, editora Global.

Concorrem livros publicados no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2011. A lista dos finalistas traz nomes consagrados como Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca e Ana Maria Machado.


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POR EM 14/09/2012 ÀS 12:13 PM

Eu gosto de ler Paulo Coelho, de tomar injeção e de comer jiló

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"Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de sol" (Tom Jobim)

Eu gosto também de me resfriar com as chuvas de verão. Gosto da coriza, dos 40 graus de febre, de curtir ressaca brava e de preparar fumegantes chás de boldo. De amarga, já basta a vida? Ao contrário das seriemas e do resto da humanidade, eu gosto das cobras (porque, como eu, elas engolem sapos).

Eu gosto de votar em políticos que adesivam o meu carro com fotos, números e slogans, que encham semanalmente o tanque de gasolina, e que coloquem créditos no meu aparelho celular. Eu gosto de acordar bem cedo no domingo e votar no primeiro candidato cretino que me venha à mente. Bom mesmo é vender o voto. Eu gosto de desfazer planos para o futuro, entende?

Eu gosto de provocar indignação, de gerar dúvidas. Eu gosto de contrair matrimônio e dívidas. Eu gosto de adoecer só para ler as bulas de remédios. Eu gosto de atestados médicos. Eu gosto de remediar. Eu gosto de furar qualquer tipo de fila, desde que não sejam filas da puta, nem filas para as câmaras nazistas para extermínio. Eu gosto do atual salário mínimo. Eu gosto de levar susto. Eu gosto do atendimento do SUS. Eu gosto de hospitais, do cheiro do éter, de viajar na maionese, ser acometido por colônias de salmonelas e pensamentos inovadores. Eu gosto das dores do parto. 


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POR EM 07/09/2012 ÀS 04:06 PM

Profissão: poeta

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Mesmo após tantos anos sem escrever um verso sequer, os amigos escritores chamam-me poeta. Seria só fase ou o meu fuso mudou definitivamente? Uma vez poeta, sempre poeta? Estaria o mundo carecendo tanto assim da lira, ao ponto deste pelejante clã de escribas selarem os portões da rima com seus cadeados de crepom, a fim de demoverem da fuga este vate dissidente?

Nos dias atuais, declarar-se poeta é pior que se declarar culpado. E pior: quase ninguém acredita. Olham pro sujeito como se ele tivesse lepra. Não é lepra não, gente; é a letra, o verbo.

Conheci Antônio Carlos Piolho num jardim de inverno do Hospital das Clínicas, ocasião em que eu me graduava no curso de medicina e ele convalescia de uma fratura de pênis (Enverga, mas não quebra? Conversa fiada!), decorrente de uma desastrada tentativa de conjunção carnal com um travesti (desatento, ingênuo, louco, ele jurava fosse o sujeito “a mulher mais gata com a qual tivera feito amor nesta vida”), atrás de uma caçamba de entulhos na esquina da Rua Pegasus com a Caralho-de-Asas. Comovido com o acidente e o sofrimento do cliente (suponho que Piolho tampouco soubesse que o “impressionante encontro casual” tivesse um caráter claramente financeiro), Turíbio (era este o nome de batismo da travestida Melanie Madona) colocou-o dentro do velho Fiat 147 e tocou para o Pronto Socorro do HC. Nunca é tarde demais da noite para se operar caridades.


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