revista bula
POR EM 06/12/2012 ÀS 07:47 PM

Jorge Aragão, o dono do anel

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Faz semanas que eu não paro de pensar nisso. Não entrarei no mérito da qualidade musical, ou da questão de chamarem "de raiz" algo que não chega nem a caule do Samba. Mas o fato é que a música em questão é daquelas que todo mundo canta junto quando toca.

Mas uma dúvida me assola. Quando o barraco desabou, e o barco se perdeu porque o Jorge achou uma anel que tinha gravado "Só você e eu", a dor veio por ela ter deixado o anel que ele deu ou, ele achou um anel dado por outro cara? Contrariando o senso comum, eu acho que o "Eu" do anel não era o Jorge.

Pensem comigo: seria bastante mais desabador de barraco achar um anel gravado, que não tenha sido ele quem deu para a garota.

Numa leitura inicial a letra indica que ele foi traído, e que que o anel era um presente dele, que foi deixado para trás. Mas, vamos pensar um pouco amiguinhos.

É um homem que está sofrendo muito. Mas que está cantando para desabafar. Não é uma conversa com a moça que está acontecendo, visto que ele diz de cara que não quer falar, que vai telefonar quando puder porque ainda está sentindo muita dor. Quem nem shows tem feito, visto que a saudade não deixa, mas que assim que conseguir vai cantar sobre a dor de amor e coisa e tal.


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POR EM 30/11/2012 ÀS 08:21 PM

Tudo o que nós somos é poeira no vento

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Nunca fui muito adepto à prática humana corriqueira de se colocar nome de bicho em gente, e nome de gente em bicho. Fracos em criatividade, os índios, além de plagiarem a nomenclatura dos fenômenos da natureza (trovão, tempestade, peido, etc), sempre foram craques neste mister.

Atolados na lama da solidão — ou, ao contrário, despegados, sentindo-se felizes, livres e a salvo do restante da falida humanidade — muitos colocam nomes próprios até mesmo em samambaias. Há quem garanta seja possível se comunicar, em bom e alto tom, com as plantas. Não duvido. Tio Fidelmino, por sinal, conversava com árvores antes de ser diagnosticado com Alzheimer. Criado na roça, primo Anacleto, desavisado do iminente risco leguminoso, apaixonou-se por melancias após fazer amor com uma delas.

Eu suplico: não desistam deste texto. Ele melhorará, tenho fé. E mais: não riam! Debochar do amor é sinal de mediocridade. Quem, entre vocês, por exemplo, não terá utilizado o pegajoso tratamento “docinho de coco” ao se referir à pessoa amada? Eu, que pouquíssimo amo e amei, além de não ser diabético, ainda considero a alcunha deveras ridícula, além de hipercalórica. Da mesma forma, “moranguinho do agreste” soa mal pacas, sem falar no risco que se corre em, ao se comer da “fruta”, acabar intoxicado por agrotóxicos e ressentimentos. Eu confesso: ao saber da predileção do primo pela fruta rechonchuda, nunca mais consegui tomar suco de melancia.


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POR EM 24/11/2012 ÀS 11:27 AM

Para sempre Emmanuelle

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Faz-se pertinente e justíssimo o seguinte preâmbulo: o erotismo (ou a pornografia, sei lá, alguém aí, por favor, me acuda!) ficou mais brocha com a morte da atriz holandesa Sylvia Kristel. Corroída aos 60 anos de idade por um câncer de garganta, Sylvia gozou (sem trocadilhos, senhores!) de enorme popularidade em motéis, saunas, cinemas e banheiros domésticos do mundo inteiro, por conta da lasciva personagem Emmanuelle, diva da sacanagem cinematográfica nos anos 70. Ao concluir a redação desta crônica, haverei, sim, de render à musa das bolinações genitais vespertinas, um derradeiro e comovido tributo. Mãos à obra! Vamos ao texto, que o tempo urge...

Meretrício por meretrício, eu prefiro a companhia simplória da pseudo-universitária Emanuele (codinome abrasileirado, escrito faltando um “eme” e um “éle”). Mentira por mentira, eu escolho as enganações de Maria da Anunciação — a iletrada (e desletrada) Emanuele — cuja alcunha foi a ela imposta, ainda nos primórdios da prostituição na cidade de Pasárgada, ocasião em que, impulsionada pela condição miserável de vida, patrocinada pela mãe alcoólatra, contava 14 anos incompletos e 40 quilos mal pesados.

Não me condenem! Não me atirem as suas pedras! Não me tratem como a uma Madalena com um pênis entreaspernas. Conheci as lides alcoviteiras de Emanuele já na adultidade, no auge da sua tarimba profissional. Tenho lá também os meus lamentáveis e desprezíveis momentos de humanismo (muitas vezes, eu sofro de recaídas, esqueço que sou bicho, e me permito humanizar).


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POR EM 19/11/2012 ÀS 05:44 PM

Dosimetria, barracos e equívocos da lógica

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Quando estudante de Direito, confesso que muitas vezes quase me deprimi, por não conseguir entender direito as lições de dosimetria. Como é que se calcula de maneira justa e correta as penas para um réu, ou ter argumentos convincentes para contestar as penas estipulados por um juiz? Eu me perguntava. E não conseguia respostas. Saí do problema numa boa: evitei me arriscar na advocacia criminal.

Hoje vejo que sofri à-toa, pois mesmo os ministros do supremo, que são as maiores autoridades do poder judiciário, não sabem dosar as penas. E não os vejo se deprimirem por conta dessa, digamos, deficiência técnica. Quando muito batem cabeça, armam barracos, acusam os colegas de qualquer coisa que ninguém entende (eles falam em latim) e trocam gentilezas de estúpidos. Mas fica nisso mesmo. Nem uma excelência apeia de suas poses, nem rasga as vestes de super-heróis de gibi rodado em mimeógrafo.


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POR EM 16/11/2012 ÀS 08:53 PM

Segura na mão de Deus e vaia

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“O sujeito já era. Pode avisar a família.” Feito o diagnóstico, o doutor arrancou as luvas e foi atender outro paciente que bebera soda cáustica com campari, e agora vomitava feito o diabo (não se sabia ao certo se sangue, se bile ou se campari), incomodando a todo mundo, sem, contudo, dar um fim aos seus cruéis dilemas existenciais.

Um amigo de Azor (era este o nome do falecido) foi o primeiro a saber do óbito e a choramingar. Sem rodeios, sem classe, enxugou as lágrimas do narigão na manga da camisa e telefonou para a esposa do morto comunicando a tragédia tintim por tintim. Teve a impressão de ouvir gargalhadas do outro lado da linha (certamente, um equívoco seu), junto com ruídos de algum objeto se quebrando, quem sabe um vaso derrubado com o impacto do cotovelo e da notícia. Tem gente que até gosta do papel, mas, é péssimo dar as más notícias.

O velório foi mais rápido e animado que o habitual, com equipe carpideira, discursos inverídicos, a meninada aprontando correria pelos corredores, mulheres desfalecendo, a viúva sendo cobiçada pelos velhacos (entrada nos trinta, ela apetecia a libido da homarada), e piadistas incorrigíveis descontraindo os bastidores da dor. Funerais custam os olhos da cara, vocês sabem. Quiçá ainda pudéssemos enterrar os nossos queridos em covas rasas, embrulhados em lençóis limpos, à sombra dos carvalhos. Por causa de profundas restrições orçamentárias, o corpo de Azor foi colocado num caixão popularesco, o mais barato do mórbido portfólio oferecido pelos papa-defuntos, confeccionado com ripas de compensado recicladas a partir de caixotes de tomate. Para a sorte de Azor, esta particularidade salvaria a sua vida.


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POR EM 09/11/2012 ÀS 07:26 PM

A quem interessar possa, estou colocando o meu na reta

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Nestes tempos bicudos em que quase ninguém mais envia e recebe cartas, e que as únicas visitas que recebemos em casa são de oficiais de justiça e das equipes de combate à dengue, chegou-me pelo correio eletrônico uma longa e impressionante mensagem, uma espécie de manifesto redigido por um meu leitor desconhecido.

Ele clama que a mensagem seja replicada aos meus contatos, que é exatamente o que eu faço agora. Aliás, aqueles que não se sentirem de forma nenhuma feridos nos brios, bem que poderiam colaborar também com a divulgação do tal texto, o qual poderá representar uma baita oportunidade de negócio para muitos. Eis o texto, queridos leitores. Abre aspas:

Não. Não vou negar. Não farei como Pedro que, por três vezes, a despeito das advertências futurísticas do Nazareno, negou que o conhecesse aos truculentos soldados de Roma. Também não me arvorarei no cinismo populista de se negar mensalões: “Eu não sabia de nada...”, quá! Da mesma forma, não recorrerei à covardia de um caubói Bush, ao insistir que, sim, havia sim armas de destruição em massa mocosadas por Saddam Hussein no Iraque.


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POR EM 07/11/2012 ÀS 09:37 PM

Exercícios para devorar um carvalho

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Para não continuar morrendo de inveja das conferências fictícias de T. S. Eliot no livro de perfeição incontestável de Gonçalo M. Tavares, isolo uma frase do romance “As Vidas de Dubin”, do norte-americano Bernard Ma­lamud, para uma análise também fictícia, pois tudo que gira na esfera do teórico é imaterial. “Às vezes sentia-se como uma formiga pronta para devorar um carvalho.”

Bernard Malamud é mestre na inserção de silogismos poéticos de extrema sabedoria em suas narrativas. No entanto, nem tudo que é sábio carrega praticidade no mo­mento de aplicação nos atos de enfrentamento da realidade. A poesia e a sabedoria não existem para serem postas em execução na práxis. A poesia e a sabedoria existem para enlevar, engrandecer, deixar evidente que em algum mo­mento o indivíduo pode agir heroica e belamente.

Em minha análise, não vou ter em mente o personagem romanesco a que ela se refere, mas o homem enquanto ser presente na realidade, materializado, que atua, constrói e destrói, pois, o ato de devorar exige materialidade tanto do devorador quanto do elemento a ser consumido — exige presença e resistência corporal um frente ao outro. As águas devoram as margens. O mar devora o barco. O convidado devorou a galinha caipira. A mó tritura o grão. Avalio que é no mínimo estranho dizer — devorou o romance em três dias. Devorar é comer, é destroçar com ligeireza. E para comer um livro não são necessários três dias. Pode-se muito bem comê-lo em dez minutos; admitamos, então, que um livro possa ser devorado em meia-hora para não perder a elegância das boas maneiras à mesa e também para não prejudicar a digestão.


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POR EM 02/11/2012 ÀS 05:22 PM

Segredos jamais revelados da minha intimidade com as gêmeas siamesas Lucy e Sky

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Fotografia: Rui Aguiar / Umbigo Magazine“Jamais pensei que isto pudesse acontecer comigo, até que um dia...”. Conto erótico que se preze tem que ter esta frase como preâmbulo, o qual prepara os leitores punheteiros para uma estória picante, incrível que, sinceramente, pode acontecer a qualquer um, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer recôndito lugar deste planeta onde haja, ao menos, dois seres humanos presentes no recinto.

Vocês sabem: as oportunidades para o sexo casual se nos apresentam desta forma, conforme descrito com propriedade nos episódios reais ou inventados, a respeito de experiências sexuais impressionantes, inusitadas e inesquecíveis, ainda que nenhum protagonista jamais se submeta a um “mea culpa”, uma reflexão sincera do pós-love.

Muito menos são revelados os vacilos das incontáveis enfermidades sexualmente adquiridas, que vão desde um simples piolho sugando a genitália infecta até o vírus da AIDS e, pior que tudo, quase ninguém se gaba pelas gravidezes indesejadas. No fundo, no fundo, todos se julgam um bocado desejáveis (e espertos também). Mas o texto a seguir não se trata de um conto e, muito menos, é erótico. Lamento, profundamente (como a uma garganta), se decepcionei alguns tantos leitores ao criar falsas expectativas com o título espalhafatoso. Na verdade, eu prefiro as crônicas empata-fodas.


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POR EM 30/10/2012 ÀS 04:00 PM

O crime, as teorias e o sivirol

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Márcio Thomaz BastosQuem vem assistindo a essas audiências de julgamento do Mensalão (ou big monthly allowance, na versão livre do “New York Times”), no Supremo Tribunal Federal (STF), já terá constatado que os criminalistas medalhões desta pátria mãe gentil, data vênia, dormiram no ponto. E, tendo dormido feio, não criaram em tempo hábil uma teoria adequada para impedir que seus lustrosos clientes fossem passar uma temporada no inferno de uma colônia penal.

Teoria, sim. Pois pelo que parece, crime, mais do que uma questão de prática, é uma questão de teoria. Só depois da constituição de 1988, ou seja, após o retorno da normalidade democrática, quantos crimes já não foram praticados por figurões da república, envolvendo desvios de enormes somas de recursos públicos, por meios de formação de quadrilhas, subornos, peculatos, lavagem de dinheiro, evasão de divisas? Sem contar os crimes mais toscos como de falsidade ideológica ou pistolagem. E até agora, salvo raríssimas exceções, e neste momento a exceção que me ocorre é só a do caso Lalau, a justiça jamais conseguiu botar a mão nos malversadores de nossos recursos que, diga-se de passagem, seriam suficientes para a construção de um país prestável, se o erário não fosse dia após dia assaltado impunemente.


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POR EM 26/10/2012 ÀS 02:15 PM

Pergunte ao Poe

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Se viemos do pó, a ele haveremos de retornar, ainda que na forma de lama? Quem aspira a algo mais: os Homens ou o velho aspirador de pó Electrolux? Deus Misericordioso aprovaria um tiro de misericórdia com uma pistola de uso exclusivo das Forças Armadas? As cidades são mais que concreto armado? É possível ser amado até os dentes?

Com quantos pregos se crucifica um sonho? Por que os pesadelos só nos afligem à noite? Sonhar acordado é sintoma de loucura? Há mesmo que se chorar por um Mar Morto? O que se esperar de um carrasco que aprecia poesia? Teria Hitler beijado de língua?

O que, afinal de contas, existe por trás da grande mulher de um grande homem? Pode-se, com toda segurança, despachar o sexo frágil através de empresas aéreas? Seria muito arriscado voar no céu da sua boca? É lícito cobrar uma boquinha no governo? Habeas corpus é bom para prisão de ventre?

Eram os deuses autodidatas? São permitidas diarreias dentro de uma cápsula espacial? Como os astronautas batem punheta na gravidade zero? Num momento de pura distração, seria arriscado que mulheres astronautas engravidassem pelos poros? Pílulas do dia seguinte previnem também arrependimentos do dia seguinte? Por que dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade, pode parecer tão cruel? Há varizes em mentiras de pernas curtas? Há dúvida depois da morte? Há vida inteligente neste e noutros planetas? Por que não se tem um orgasmo sorrindo?


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