revista bula
POR EM 14/01/2013 ÀS 11:56 AM

Ouvidos de ouvir

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Há quem ouça a verdade ser dita pelas bocas das cacimbas, pelos ventos nas folhas de relva, pelos voos claudicantes dos pássaros e até pela borra de café em espirais no fundo da caneca.

Há quem ouça a verdade ser dita pelos lances de dados, pelos jogos de búzios, pelas pedras das runas e até pela disposição caótica dos detritos no estômago dos animais sacrificados.

Há quem ouça a verdade ser dita pelo rumor das salsas ardentes, pelos cortes das cartas do tarô, pelos imaginários signos do zodíaco e até mesmo pelos megafones famigerados de pregadores de intenções maliciosas.

Há quem ouça a verdade ser dita pela repetição incansável das ladainhas, pelos suores dos pais de santo, pelas pombas giras nos terreiros e até mesmo pelas imagens de culto em seus gestuais de gesso.

Há quem ouça a verdade ser dita pelos políticos nos palanques de comícios, pelos enxames de abelha nas tardes de setembro, pelos cupins de asas em revoadas antes da chuva e até pelo desabrochar das flores dos abricós de macaco.


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POR EM 11/01/2013 ÀS 07:07 PM

Enquanto a morte não vem, a gente se ocupa com ela

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Desde os 37 anos de idade, Omarzinho espera a morte a qualquer momento. Hoje, aos 79 — mais vivo que a minha lembrança de La Belle de Jour — ele aguarda, de uma hora para outra, o golpe fatal da senhora da foice. “Sinto que já estou com um pé na cova e outro na casca de banana”, ele dramatiza, com o mesmo par de olhos lacrimosos de outros tempos, ao repetir o presságio antigo.

Enquanto aguarda sentado pela chegada da morte, as catracas cerebrais de Omarzinho maquinam: todos aqueles anos que excederam ao seu trigésimo sétimo aniversário caíram-lhe como lambuja. Ou seja, ele já se considera um sobrevivente na prorrogação do jogo da vida, à mercê de um apito final do divino, do último sopro há tempos aguardado. Aguardou tão bem que se esqueceu de curtir a vida em plenitude. “Você sabe, eu sempre quis viajar pro exterior, conhecer Palma de Mallorca e tudo o mais”, ele lamenta, sem sequer ter conhecido Pasargada, quem dirá, a Espanha.

Gozando de saúde de ferro (inclusive, com as juntas do corpo bem enferrujadas), enquanto espera o passamento que há décadas lhe parece tão iminente, o aposentado Omarzinho já enterrou a esposa, dois dos sete filhos e um neto, criança afogada, por acaso, por puro azar, dentro dum balde d’água durante uma faxina caseira. “Morte de criança é um horror. Velho, não. Velho já está prontinho pra morrer. Eu estou pronto desde os 37, a idade em que o papai desencarnou”, ele filosofa, desencarnando os dentes com um palito, enquanto mata mais uma dose da caninha.


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POR EM 04/01/2013 ÀS 06:55 PM

Não há nada mais amargo neste mundo do que um homem que não acredita em nada

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“Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe”, 
personagem de Carlos Heitor Cony em “O Ventre” (1955)

Eu não acredito em trevo de quatro folhas. Eu não acredito em pés de coelho e mãos de vaca. Eu não acredito na redenção das falhas humanas. Eu não acredito que los hermanos quiquem la pelota em la cancha mejor do que nosotros. Eu não acredito que Maradona tenha colocado a mão na bola naquele gol contra os ingleses (argentinos juram que foi Deus). Eu não acredito que a mão inglesa nos leve a Roma, muito menos a um lugar melhor do que este aqui.

Eu não acredito que o cuspe de Carlos Heitor Cony tenha me atingido. Eu não acredito que caibam milhões de microrganismos numa só gota de saliva. Eu não acredito mais neste relacionamento: adeus. Eu não acredito que consiga dizer “eu amo todos vocês” num leito de morte. Eu não acredito que os laticínios coloquem soda cáustica no leite. Eu não acredito em jogos de azar, nem de sorte. Eu não acredito que uma cigana seja capaz de ler a mão de um velho sovina. Eu não acredito que exista um ponto G na vagina. Eu não acredito que engravidei aquela prima. Eu não acredito em ufologia, em parapsicologia, em fenomenologia, e em fair-play numa orgia. Eu não acredito na benção matrimonial de padres que nunca se casaram. Eu não acredito que a dança do acasalamento funcione entre os humanos. Eu não acredito que, a esta altura da carreira celibatária, o Padre John suavize o seu sotaque ianque ao esbravejar na homilia. Eu não acredito o Presidente Obama realmente transforme Guantámano num parque Disney.


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POR EM 28/12/2012 ÀS 10:53 PM

Lamentações de um crápula enquanto o dia não vem

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De vez em quando eu morro. As noites são quase todas assim: agitadas, pegajosas, mescladas com suor e desespero mesmo nos dias mais frios. Padeço dos piores pesadelos e eles se repetem. Os roteiros são parecidíssimos, cópias das cópias, mas não consigo me acostumar, muito menos, me afeiçoar a eles.

Sou duro feito diamante, mas eu sofro. Tenho cá minhas fraquezas. A morte me visita, de repente, travestida em nuances abjetas, detestáveis, escabrosas. Faca na barriga, veneno no cálice, ar injetado na veia, arame na traqueia, afogamento numa bacia sanitária, estilete na jugular, disparos nas têmporas à queima roupa, queimado vivo com querosene, linchamento com porretes.

Noite sim, noite não, eu morro. Eu e a foice, enfim, sós, para a minha mais completa miséria. Ressuscito aliviado assim que os primeiros raios de sol fincam o escuro do quarto. Sinto-me mais isolado e desolado que a cadela Baleia nos quintais de Graciliano Ramos em "Vidas Secas". Aliás, eu, assim como as folhas e os dias, estou secando a olhos vistos. Já perdi treze quilos, uns trezentos amigos e quase toda a parentalha. Se minha mãe não tivesse morrido de desgosto enquanto eu estava foragido e ocultado em Pasargada, seria a única a me adular, a oferecer o seu colo caquético para eu recostar a cabeça.


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POR EM 22/12/2012 ÀS 01:32 PM

E se Deus jogasse a toalha?

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E se o louco for você, e não o resto do mundo? E se as pessoas não tivessem mais medo dos malucos? E se ninguém jamais teve coragem de lhe contar toda a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade? E se os seus medos forem adotivos? E se a verdade o libertasse, como previsto nos textos sagrados, o que você faria com ela: escreveria um livro, plantaria bananeiras no meio da rua, teria um filho com uma prostituta?

E se Papai Noel ficasse gagá e esquecesse os presentes? E se os presentes à festa se rebelassem contra o bom velhinho, internando-o num hospício? E se o passado ficasse solenemente enterrado no passado e parasse de interferir tanto no presente? E se a memória não judiasse mais da gente? E se você tivesse chegado lá segundos antes? E se tivesse chegado segundos depois? E se a morte fosse comemorada como um gol de placa?

E se os lactentes exigissem leite desnatado tipo A, enriquecido com ômega 3, diretamente das tetas maternas? E se os filhos da mãe parassem de roubar o erário, sobraria mais recurso para o leitinho das crianças? E se houvesse vagas suficientes nos presídios para tantos delinquentes? E se alguém criasse uma CPI numa pizzaria, as investigações acabariam em quê: num prato de salada ou numa pilha de processos?


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POR EM 19/12/2012 ÀS 09:10 PM

Nabokov rejeitou parte da adaptação de Kubrick para Lolita

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O diretor de cinema Stanley Kubrick (1928-1999) adorava literatura. Ou, pelo menos, adaptar obras literárias para o cinema. Um de seus filmes mais conhecidos, “Laranja Mecânica”, de 1971, foi baseado no livro do escritor inglês Anthony Burgess. Este não gostou muito do filme, mas admitiu que não é dos piores. “Laranja Mecânica” permanece cult. A esquerda brasileira o adora, menos pela linguagem, e sim pela denúncia do totalitarismo estatal. É incrível: um joyciano de esquerda!

Outra grande adaptação de Kubrick — um diretor de qualidade, mas superestimado, como quase todo “cult” — é “Lolita”, de 1962. A adaptação foi feita pelo próprio autor do romance, o russo-americano (talvez um sem-lugar) Vladimir Nabokov, um grande escritor às vezes desvalorizado pelas modas. Depois de edições desleixadas da Record, com as versões de Pinheiro de Lemos, editoras de qualidade, como a Companhia das Letras e a Alfaguara, redescobriram sua prosa — na qual há uma mescla, intencional, de traços antiquados e inventivos (talvez a intenção de Nabokov tenha sido “inovar” o romance russo do século 19). O complexo romance “Fogo Pálido”, uma das histórias mais inventivas da literatura universal, ganhou tradução precisa de Jorio Dauster e Sérgio Duarte. Mas o autor das orelhas é no mínimo descuidado. Em vez de Kinbote, com “n”, como está no livro, escreve Kimbote, com “m”.


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POR EM 17/12/2012 ÀS 03:00 PM

21 coisas para fazer antes do fim do mundo

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Segundo os intérpretes do Calendário Maia, o próximo 21 de dezembro será o dia fatal. A Terra e o nosso sistema estelar vão sofrer uma convulsão medonha e a chama da vida será apagada da face do planeta. Diante da perspectiva de que estamos vivendo os últimos instantes da saga humana, aí vão 21 sugestões do que fazer nestes instantes que nos separam do morticínio geral:


1 — Rezar ladainhas até desidratar a alma, para que ela flutue livremente para o céu;

2 — Fugir para a Chapada dos Viadeiros e morrer uns segundos depois dos outros;

3 — Jogar na cara do chefe tudo o que você sempre teve vontade, mas lhe faltou coragem;

4 — Dar um murro na cara do chefe;

5 — Dar um chaveco definitivo naquele amor platônico, fugir para um lugar discreto e viver os últimos instantes no maior rala-e-rola;

6 — Ler um livro de auto-ajuda e morrer com dignidade...


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POR EM 14/12/2012 ÀS 08:50 PM

Desapontamentos previstos para 2013

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Ravi Shankar foi apresentado ao Ocidente, de maneira definitiva, pelo cantor e compositor britânico George Harrison nos anos 60, época em que os Beatles eram mais conhecidos no mundo que Jesus Cristo (Quem de vocês se sentir incomodado com a comparação que reclame com Yoko Ono, viúva de John Lennon, o responsável pela analogia que provocou uma das maiores quebradeiras de discos de vinil em praça pública que se tem notícia. Se alguém quiser me esconjurar, prossiga. Não persigo céus mesmo...).

Renomado músico indiano, foi Ravi quem ensinou (e influenciou) George a tocar a cítara, instrumento de cordas com som exótico que foi introduzido nos arranjos de algumas canções do quarteto fabuloso naqueles loucos e benditos anos 60. A recente morte de Ravi Shankar, aos 92 anos, pouquíssimo tem a ver com a temática desta crônica, a não ser para ilustrar o quanto a vida nos premia com desapontamentos tão ininteligíveis e pouco aceitáveis quanto a morte.

Muitos haverão de dizer que a morte é primordial para o expurgo da humanidade, que o povo tem que morrer mesmo, a fim de que mais e mais gente nasça para continuarmos a nossa ignóbil missão neste planeta rumo ao desconhecido. 


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POR EM 08/12/2012 ÀS 09:16 PM

Contos russos, nossos contemporâneos

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O que há em comum entre o país narrado pelos grandes autores russos do século 19 e início do 20 e o Brasil? Muita coisa, como a tirania, a servidão, a miséria, o povo ao relento. Falta apenas o talento, fonte de gênios da literatura, que souberam transformar a nação reportada num cenário inesquecível do drama humano. Neste ensaio, abordamos contos de Tolstói, Górki e Turguêniev, entre os mais conhecidos, e outros nomes mais ocultos, como Kuprin, Sologue, Búnin, Andreiév, Garshin, Ko­rolenko e Tchirikon. Eles expressam com lucidez e impiedade o que há de mais valioso num país diante do seu destino: a população que luta pela sobrevivência e sonha para se manter à tona.


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POR EM 07/12/2012 ÀS 09:08 PM

Pedidos indecorosos ao Papai Noel antes que o mundo se acabe

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Agora é definitivo: de acordo com especialistas em finais de mundo (olhem que a minha paciência também se aproxima de um fim), a vida no planeta azul vai mesmo expirar no próximo dia 21 de dezembro, às vésperas do natal. Entre os homens e o meteoro, eu prefiro o segundo, a pedra fumegante que, em menos de um segundo, haverá de nos redimir de nós mesmos, incinerando mazelas como se fossem mendigos do Planalto Central.

Entendam: o intento maior da flama é o trucidamento impiedoso de toda humanidade, a despeito de mensalões, de cachoeiras e de todo cinismo que compõe a lama na qual patinamos desde que paramos de andar sobre as quatro patas, para deambularmos a esmo, em busca de comida, de procriar, de perpetuar a espécie e toda a ignorância que insiste em habitar nos cromossomos. Somos, em suma, uma causa perdida.

Tendo em vista que agora é pra valer, listei neste prolixo texto (pro lixo com ele, puritanos!) os meus últimos pedidos ao Papai Noel, que irão, posso lhes assegurar, além das modernosas televisões de tela plana e dos smart-phones. Papai Noel, seja esperto! Ao apagar das luzes, rogo ao caquético velhinho que se apresse, pois o tempo urge, a vaca muge e as vedetes do Moulin Rouge, depois do provável cataclismo, perderão todo o charme ao ponto de não aplacarem a libido da plateia.


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