revista bula
POR EM 08/12/2008 ÀS 05:11 PM

Tony Judt

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O polêmico historiador inglês Tony Judt e as idiossincrasias dos intelectuais brasileiros  

O Brasil é um país tremendamente idiossincrático, ou, se quiserem, ideologicamente idiossincrático. A Editora Nova Fronteira lançou, no fim do ano passado, Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra (475 páginas), do historiador e intelectual inglês Tony Judt, mas o livro, excelente, não provocou debates nem frágeis nem acirrados. O trabalho de Judt é um cacete violento e muito bem documentado na intelectualidade francês, muito superior às críticas radicais e nem sempre com comprovação empírica do também historiador inglês Paul Johnson (Intelectuais, Editora Imago). Por que passou em brancas nuvens?
 
Não sei a resposta precisa. Mas desconfio que o motivo é que a intelectualidade que domina as faculdades paulistas, sobretudo, e que influencia os cadernos culturais de São Paulo e Rio de Janeiro, formada, em grande medida, pela intelectualidade francesa, optou por ignorar as teses de Judt. No mundo intelectual é assim: o que não é debatido não existe. Por que exatamente a obra de Judt foi praticamente ignorada, obtendo escassas resenhas e comentários críticos? A razão é prosaica: Judt diz que a intelectualidade francesa, mais do que qualquer outra, justificou, filosófica e politicamente, o stalinismo. Explicita que, dependendo da filosofia alemã, aderiu ao autoritarismo-totalitarismo russo e se recusou a entender o liberalismo e a teia da democracia.
 
Agora, com Pós-Guerra — Uma História da Europa Desde 1945 (Editora Objetiva, 847 páginas, tradução de José Roberto O`Shea), Tony Judt ganhou destaque nas páginas dos jornais brasileiros. As duas obras citadas são ambiciosas, mas Pós-Guerra é menos constrangedor, para os intelectuais, do que Passado Imperfeito. Pós-Guerra resulta de uma grande pesquisa histórica e uma poderosa interpretação do que aconteceu na Europa "desde 1945". Passado Imperfeito deixa a intelectualidade francesa de calça curta e, também, aqueles que foram influenciados por ela, como, certamente, dezenas de intelectuais brasileiros.
 
No prefácio de Pós-Guerra, Judt, de 60 anos, diz que algo pertinente: "Definido por uma expressão que, imerecidamente, adquiriu conotações pejorativas, o livro é `cheio de opiniões`. Alguns julgamentos talvez sejam controversos; outros, equivocados. Todos são falíveis. Para o bem ou para o mal, são meus — assim como quaisquer equívocos inevitáveis numa obra de tal extensão e escopo".
 
A velha canalhice editorial brasileira permite que a Objetiva não informe, na orelha de Pós-Guerra, que Judt não é inédito no Brasil e ignore o lançamento da Nova Fronteira. A Companhia das Letras e a Cosacnaify não têm esse péssimo hábito.
 
 
A mestria do tradutor Décio Pignatari
 
A Editora Unicamp lançou um livro muito bom, 31 Poetas 214 poemas — Do Rigveda e Safo a Apollinaire  (270 páginas). Traduções, notas e comentários são do poeta e crítico Décio Pignatari.
 
Pignatari traduz, entre outros, Catulo, Horácio, Juvenal, Li Po, Issa, Burns, Byron, Leopardi, Heine, Browning, Rimbaud.
 
Transcrevo, de Burns, o poema "Canção": Tenho mulher só pra mim/Não divido com ninguém/Ninguém vai me pôr chinfrim/Não ponho chifre em ninguém//Tenho um real pra gastar/Graças a quem? A ninguém/Não tenho nada a emprestar/Não empresto de ninguém//Eu não sou senhor de escravo/Nem escravo de ninguém/Com minha espada sou bravo/Mas sem ofensa a ninguém//Quero ser o alegre amigo/Sem tristeza por ninguém/Ninguém se importa comigo/Não me importo com ninguém".
 
Do italiano Leopardi, Pignatari traduz o belíssimo "A Noite do Dia de Festa", com mestria insuperável, com senso de ritmo esplêndido: "Noite sem vento, doce, clara. A lua/Flutua sobre tetos e pomares,/Serena, revelando, ao longe, os montes./As ruas e os caminhos silenciam,/Minha amada. Pelos balcões, são raros/Os lampiões, um sono suave invade/Os aposentos, você dorme,nada/Perturba o seu repouso, muito menos/A chaga que me abriu dentro do peito!/Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno/ — E à antiga natureza onipotente/Que me vota à aflição — dirijo os olhos./"Para você, nem mesmo uma esperança;/Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas",/Ela me disse. Mas que dia magnífico!/Dormem danças e jogos, mas, em sonho,/Talvez para você desfilem todos/De quem gostou ou aos quais agradou/(Menos eu, que nesse rol não compareço)./Mas se calculo os dias que me restam,/Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:/Que vida horrível numa vida jovem!/Vai pela rua o canto solitário/De quem já trabalhou, passou na tasca,/E volta tarde para a casa pobre./Vai-me apertando, amargo, o coração,/Se penso em como tudo passa e passa,/Quase sem deixar rastro. Já se foi/O dia de festa, e agora chega o dia/Normal, e tudo se escoa no tempo,/Todos os atos humanos. E o estrondo/Dos antigos, as vozes dos heróis/De ontem, onde estão? e o grande império,/E as armas e o fragor que faz tremer/Os caminhos da terra e do oceano?/Tudo é paz e silêncio. O mundo/Tudo aquieta. Já não se pensa em nada./Quando criança, vinha a espera ansiosa/Do dia de festa, que findava logo./Sofrendo, comprimia o travesseiro,/Ao ouvir pela noite aquele canto/Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,/Morrendo e me apertando o coração."
 
É provável que eu esteja enganado, mas sinto que Décio Pignatari não é um tradutor tão considerado quanto os irmãos Campos — Haroldo e Augusto. Mas é tão bom quanto. Acredito mesmo que os três vão ficar na história da literatura brasileira não como poetas, e sim como tradutores brilhantes, o que, convenhamos, já é um grande feito. Pignatari é um tradutor notável, que nada fica a dever à competência técnica e sensibilidade artística dos Campos e de outros, como José Paulo Paes e Ivo Barroso (este, o melhor tradutor de Rimbaud no Brasil).

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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:08 PM

Raúl Castro aposta que capitalismo pode salvar comunismo

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Raúl Castro aposta que capitalismo pode salvar comunismo  

O livro “Cuba Sem Fidel — O Regime Cubano e Seu Próximo Líder” (Editora Novo Conceito, 349 páginas), do analista da CIA Brian Latell, tem passagens muito interessantes. Latell cerca-se de certos cuidados — seu equilíbrio eventualmente pode ser confundido com fascínio pelos líderes cubanos — para evitar que seu livro pareça relatório da CIA.
 
Um dos pontos fortes é a demonstração de que, durante boa parte da revolução, sobretudo no início, Raúl Castro era mais rígido, ideológica e politicamente, do que Fidel Castro. Agora, com Fidel supostamente fora do poder e, em tese, mais radical (à esquerda), Raúl mostra-se mais aberto e pretende fazer de Cuba uma pequena China. Ou seja, governo comunista e economia relativamente capitalista. A única coisa que pode salvar o comunismo cubano é um choque de capitalismo. O historiador José Jobson Arruda, na revista “Carta na Escola”, diz que é pura balela: Cuba não tem estrutura para se tornar uma China. De qualquer modo, é o projeto de Raúl. Talvez, em termos estruturais, o único.
 
Latell mostra que Fidel e Raúl são muito unidos politicamente —um é o oxigênio do outro —, mas, em termos familiares, não se dão muito bem. Fidel seria insensível, distante da família. Raúl seria mais ligado à família.
 
Uma das principais fontes de Latell é uma entrevista de Fidel a Frei Betto publicada em livro. O dominicano, no entendimento de Latell, conseguiu que Fidel se abrisse, ou, digamos assim, se confessasse. O líder cubano foi educado por jesuítas.
 
O trecho mais delicioso do livro está no capítulo 12. Latell conta a história de Santiago, o pescador de “O Velho e O Mar”. Santiago fisgou um peixe enorme e tentou levá-lo pra casa, mas os tubarões o devoraram. Na volta para casa, decepcionado, Santiago disse para si mesmo e para a carcaça do peixe: "Desculpe-me. Afastei-me demais da costa. Arruinei nós dois". Um jornalista italiano, citado por Latell, perguntou para Fidel: "O senhor não tem medo de terminar como o pescador de Ernest Hemingway?" Fidel, como de hábito, desconversou. O relato da fome em Cuba depois do fim da União Soviética é impressionante. 
 

O romance inédito de Nabokov
 
"Laura", romance inacabado de Vladimir Nabokov, deve ser publicado este ano. Pouco antes de morrer, o prosador russo pediu para sua mulher, Vera, destruir o manuscrito. Talvez para a felicidade dos leitores, não se sabe ainda, Vera preferiu preservá-lo. Dmitri Nabokov, filho do autor, decidiu publicá-lo porque avalia a obra como plenamente nabokoviana em termos de qualidade estética. (Nabokov dizia: "Estilo e estrutura são a essência de um livro; grandes idéias não passam de lixo".)
 
Leio no "Clarin" que o romance, com pouco mais de 100 páginas, conta a história do neurologista Philip Wild, um sujeito brilhante, "comicamente gordo e feio, atormentado por seu casamento com uma mulher muito mais jovem e terrivelmente infiel". Segundo o jornal argentino, o médico pensa numa espécie de "suicídio reversível".
 
Trata-se de uma jogada oportunista de Dmitri e de editores espertos? Dmitri e Brian Boyd, biógrafo de Nabokov, avaliam que o livro, mesmo inconcluso, tem qualidades. "Laura", garante Dmitri, tem "algumas das imagens mais impactantes, com frases surpreendentes, que não se encontram em nenhum dos livros" de Nabokov. Espero que não seja blefe. Não é possível que, aos 74 anos, Dmitri esteja envolvido em alguma empulhação.
 
A Companhia das Letras está publicando a obra de Nabokov, com traduções escorreitas do diplomata Jorio Dauster. "Fogo Pálido", um de seus romances mais criativos e complexos, ganhou ótima versão em português (trabalho de Dauster e Sérgio Duarte), assim como o belíssimo "Ada". 
 
 
Crime da editora Objetiva
 
É criminoso o tamanho (o corpo) da letra do livro "Pós-Guerra — Uma História da Europa Desde 1945", do historiador inglês Tony Judt.
 
O livro é mesmo excelente, mas leio-o com dificuldade, em virtude das letras muito pequenas. A Editora Objetiva, para tornar o livro menor e, assim, mais barato, comprimiu o texto em 847 páginas. Em Portugal, o mesmo livro foi publicado, pela Edições 70, com 996 páginas. São 149 páginas a mais do que a edição brasileira. A edição portuguesa, embora excelente, é quase proibitiva para brasileiros, pois custa 171 reais (o euro está mais valorizado do que o dólar).
 
Considerando que os leitores da obra de Judt devem ter, em média, mais de 30 anos, a Editora Objetiva prestou-lhes um mau serviço.

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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:04 PM

Quem fala na literatura brasileira de hoje

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Diz a lenda que a literatura brasileira contemporânea negligencia a classe média e só trata de pobres ao representar a sociedade. Para verificar esta e outras avaliações, um grupo de pesquisadores e estudantes da Universidade de Brasília (UnB) iniciou em 2003 uma ampla pesquisa das narrativas atuais. A coordenação do trabalho ficou a cargo da professora Regina Dalcastagnè...

Foram mapeados 258 romances publicados por três editoras (Companhia das Letras, Record e Rocco) publicados de 1990 a 2004. A segunda etapa do levantamento abrangerá as décadas anteriores e reunirá dados do cinema. Os primeiros resultados saíram no artigo “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”, na revista “Estudos de Literatura Brasileira” Contemporânea. A íntegra do material pode ser consultada: Estudos de Literatura Brasileira” Contemporânea


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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:56 PM

Operação Solta & agarra

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Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin
 
 

Não é de hoje que a fauna ictiológica nacional vem experimentando os privilégios do período de defeso, ou da piracema. Nessa fase, como o próprio nome já diz, a pesca é vedada. A não ser a pesca esportiva, do tipo agarra&solta. A Polícia Federal agarra e o Supremo Tribunal solta.

Nos últimos dias o noticiário nacional deu conta de uma tarrafada espetacular promovida pelo barco pesqueiro da Polícia Federal. Numa só operação trouxe enredados em suas malhas peixes tão importantes quanto aquela proporcionada pelo milagre de Jesus Cristo aos apóstolos no mar da Galiléia.

Dentre os peixes fisgados, três chamaram especialmente a atenção, por se constituírem verdadeiros representantes das espécies mais preciosas encontráveis nas águas do mercado sócio-financeiro nacional.

Numa escala crescente de importância e sofisticação, temos Celso Pitta, uma espécie de cascudo tosco que chafurda o lodaçal dos pântanos, por onde são usurpadas quantias vultosas dos recursos públicos, por meio de ocupação de cargos eletivos, com votos da massa ignara. É uma evolução (ou seria degenerescência?) de um outro cascudo emérito chamado Paulo Salim Maluf.  

Acima dele, vem Naji Nahas, uma espécie de piranha do Nilo, com agilidade e faro especial para negócios excepcionais, além de dentes afiados para grandes bocadas. Eventualmente nada pelo lodo das verbas públicas, mas seu habitat preferencial são as águas turvas das informações privilegiadas. Com essa habilidade leva de roldão verbas públicas e privadas, quebrando bolsas, engrossando fundos, transferido de mãos, de uma hora pra outra, riquezas monumentais.

Já o terceiro, e ocupante do topo da linha evolucionária, está o tubarão iluminado Daniel Dantas, um monetarívoro voraz com aptidão para descolar sua presa em qualquer habitat existente. De lamas sulfurosas a águas translúcidas. Como aquelas bactérias hipertermófilas que toleram ambientes que vão da panela de pressão ao botijão de nitrogênio. Ou seja, em busca de uma oppotunity, trafega com desenvoltura tanto pelas panelas de pressão da patuléia, quanto pelos gélidos botijões do governo.

Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin.

Os demais peixes apanhados são bagres, lambaris, rêmoras, raias-miúdas e outras espécies parasitárias que sobrevivem exclusivamente dos detritos dessas espécies dominantes das águas monetárias brasileiras.

O mais curioso é o método pesqueiro inaugurado nesta mais recente operação, que evoluiu do agarra&solta do defeso clássico para o solta&agarra (do Sânscrito Satiagraha). Obviamente para outra vez soltar. Inauguramos uma espécie de defeso heterodoxo. Talvez o método se justifique porque uma das características marcantes dos peixes é ter o apetite maior que a memória. Minutos depois de morderem uma isca e serem apanhados e soltos, são capazes de morder a mesma isca outra vez.

O método não é do IBAMA, mas tem se mostrado extremamente eficaz enquanto instrumento de preservação de nossa fauna peixeira.

A persistir este jeito de pescar, ou seja, esta prática na administração da justiça, podemos ter confiança de que nossas espécies mais representativas estarão a salvo da extinção. Nem mesmo o aquecimento global terá poder de colocá-las em risco.   

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POR EM 08/12/2008 ÀS 02:46 PM

A guer­ra é o dos ho­mens

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Lei­to­res que­rem sa­ber on­de en­con­trar o ro­man­ce “Du­as Mu­lhe­res, Qua­tro Amo­res e uma Guer­ra Ci­vil” (Câ­no­ne Edi­to­ri­al, 273 pá­gi­nas), de Jail­ton Ba­tis­ta. Em Go­i­â­nia, vi na Li­vra­ria Sa­rai­va, no shop­ping Flam­boyant.
O ro­man­ce con­ta his­tó­ri­as da guer­ra ci­vil em An­go­la, pa­ís afri­ca­no que fa­la por­tu­guês, e so­bre­tu­do his­tó­ri­as de in­di­ví­duos, co­mo as bo­ni­tas Es­pe­ran­ça e Fa­tu, que ti­ve­ram su­as vi­das de­vas­ta­das pe­lo con­fli­to que pôs ir­mãos con­tra ir­mãos.

Co­mo em Henry Ja­mes, as per­so­na­gens fe­mi­ni­nas são mais bem-cons­tru­í­das do que as mas­cu­li­nas. Pa­re­ce que é in­ten­ci­o­nal, pois o au­tor faz ques­tão de cri­ar mo­de­los ca­ri­ca­tos co­mo o ge­ne­ral que po­de e vê tu­do, mas não tem no­me. A guer­ra é um “ins­tru­men­to” mui­to mais do mun­do mas­cu­li­no do que do mun­do fe­mi­ni­no. A guer­ra é fá­li­ca, por as­sim di­zer. Representa poder, potência. A impotência fica por conta dos seres frágeis, como mulheres, crianças e mesmo alguns homens.

No ro­man­ce, nem to­dos os ho­mens são cru­éis, nem mes­mo o ca­pi­tão Kas­sin­da, que ati­rou em An­tó­nio Sa­po­lo, o Sa­pó, e de­pois cas­ou-se com sua mu­lher, Fa­tu (a his­tó­ria é sur­pre­en­den­te e não con­vém re­ve­lá-la). As mu­lhe­res são mais ge­ne­ro­sas, mas há aque­las que fa­zem in­tri­gas.

Sobre as razões da guerra, o narrador faz uma síntese política o mais imparcial possível (página 142): “São irmãos que lutam em posições tão opostas por causas ideologicamente tão distintas, como a implantação do marxismo materialista numa sociedade marcada por profundas raízes tribais e fortes diferenças étnicas, ou a instalação do capitalismo refinado numa nação que ainda pratica o escambo. Reis, sobas e feiticeiros conduzem o destino de muita gente, e a posse da terra se faz de acordo com a necessidade dos pastores”.

A im­pres­são que te­nho é que o li­vro vai fa­zer mais su­ces­so em Por­tu­gal e Áfri­ca de Lín­gua Por­tu­gue­sa do que no Bra­sil. Ra­zão: An­go­la de­ve­ria di­zer mui­to aos bra­si­lei­ros, mas, em ter­mos de in­for­ma­ção, diz pou­co, qua­se na­da.

Detalhe: o livro de Jailton Batista é um romance, mas contém informações sobre a guerra entre o grupo marxista de Agostinho Neto e a, por exemplo, Unita de Jonas Savimbi. Não substitui uma obra histórica, e não é sua pretensão, especialmente porque atribui uma força vital ao indivíduo, mas é esclarecedor, mesmo quando sutil e irônico (diria que é mais compreensivo do que irônico, apesar do humor), a respeito das motivações da guerra.
 

 


Mor­te co­mo pre­sen­te de ani­ver­sá­rio


Há um li­vro es­tu­pen­do nas li­vra­ri­as, mas que não me­re­ceu o re­gis­tro de­vi­do na im­pren­sa — “A Era dos As­sas­si­nos — A No­va KGB e o Fe­nô­me­no Vla­dí­mir Pu­tin” (Edi­to­ra Re­cord, 391 pá­gi­nas, tra­du­ção de Mar­ce­lo Schild).

No dia 7 de ou­tu­bro de 2006, a jor­na­lis­ta An­na Po­litkovskaia foi as­sas­si­na­da, na Rús­sia. No mes­mo dia do ani­ver­sá­rio do en­tão pre­si­den­te Vla­dí­mir Pu­tin. A mor­te da po­lê­mi­ca e cor­re­ta re­pór­ter, ava­li­am os au­to­res do li­vro, foi seu pre­sen­te de ani­ver­sá­rio. Do tú­mu­lo, Stá­lin de­ve ter “pen­sa­do”: “Co­mo não pen­sei nis­so?”

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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:33 PM

Minimum res (coisa mínima)

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AFORISMO SEM NENHUM PRÉ-JUÍZO (para Valdivino Braz)
Em terra de cego quem tem um olho é semi-ótico. 

ARTE É INTERPRETAÇÃO
 
Uma obra de arte é um signo. Como tal já é interpretação, antes mesmo de ser interpretada. Ela representa algo para um intérprete futuro. Esse intérprete futuro é virtual.
 
Signo de quê? Do objeto que “aparece” por meio da mediação que a obra de arte faz entre o objeto -que não é individual, mas múltiplo, o universo “criado” pelo artista, algo que é “dado”, ou seja, “aparece” por meio dela - e um intérprete futuro. O primeiro intérprete desse signo assim “criado” sendo o próprio artista.
 
É interpretação, de algo anterior a ela, desde a origem, seja na forma de pintura, partitura, livro, filme, já é uma interpretação. Como se dá essa interpretação é que vai definir se ela é arte. É olhando para o produto “criado” que podemos emitir algum tipo de julgamento. Claro, há muita subjetividade envolvida nesse julgamento, mas ele não pode ser somente subjetivo.
 
OBJETIVIDADE DA ARTE
 
Há uma objetividade na obra de arte que está na origem desta como um signo (algo que não vive numa esfera à parte, mas está sempre “grávido” de mundo, de um objeto). Uma pintura não deixa de ser arte quando se apagam as luzes do museu e não há ninguém mais para admirá-la. Ela “contém” algo.
 
Assim como uma pintura, uma partitura é um sistema de signos, que vai ser lido, “interpretado” por alguém. Obviamente ninguém “tira” Mozart de qualquer partitura Então há um ponto de partida para a música - uma “ontologia da arte” - que vai ser executada depois, e isso é fixado por quem escreveu a partitura, uma pessoa, mil, não importa. O que importa é o produto.
 
ARTE É PROCESSO
 
A vida dos signos é “comunicar idéias”. Como um signo, uma obra de arte está sempre apta a uma interpretação. Essa interpretação é um signo mais desenvolvido, não no sentido de algo melhor, mas de que foi gerado pelo primeiro. A execução da música é um signo mais desenvolvido de uma partitura. Há arte em ambos, arte é processo. Está sempre em processo. Como tal não é “acabada” nunca.
 
DIGRESSÃO: NEM TUDO É ARTE, MAS TUDO PODE SER INTERPRETADO
 
Mesmo a arte conceitual precisa de objetos. Duchamp é o caso paradigmático. Affonso Romano de Sant'anna disse que não havia o que ver na exposição de Duchamp que está acontecendo aqui em São Paulo. Segundo alguns críticos, os “objetos” de Duchamp não são obras de arte, mas reflexões sobre o fazer artístico.
 
No entanto, essas reflexões não existem apenas na cabeça de Duchamp. Elas ganharam uma forma, que não é - nunca é - destituída de conteúdo. Algumas pessoas confundem as coisas e passam admirar somente as formas do urinol, sua “beleza estética”. Um artista que visitou a exposição confessou ao jornal que ficou emocionado porque fez girar com a mão a roda da bicicleta -uma “cópia” da “original”, que foi jogada no lixo pela irmã de Duchamp, que, obviamente, “não entendia” nada de arte.
 
Dissemos que arte é interpretação. Mas qualquer coisa pode ser interpretada. Um banco de madeira não é simplesmente um banco de madeira. Ele inclui, no próprio processo de fabricação, a forma humana. Tem uma determinada altura, que é a altura que uma pessoa normal poderia se utilizar para sentar. Em alguns casos, pode ter um encosto para os pés. A forma é determinada pela função.
 
Do mesmo modo, uma roda de bicicleta. Nenhuma forma é destituída de conteúdo. As rodas da bicicleta têm uma função, são feitas para cumprir essa função, que é fazer com que a bicicleta se mantenha em pé e se movimente.
 
Duchamp pega esses dois elementos que não coexistem (na verdade são antípodas) e cria, reinterpreta, a partir de um conceito, que é o surrealismo, um novo objeto, que é um “mix” de ambos: um banco de madeira, feito para sentar, que se move! (Ao fazer isso, ele “recria” a bicicleta, devolvendo uma característica de estranhamento ao que é considerado “normal”).
 
O “produto final” é também uma idéia - mais do que nunca um signo, imaterial. Paradoxalmente, essa idéia precisa, como dissemos, de uma forma para se expressar. Não por acaso, os curadores das exposições ganharam destaque. São eles os responsáveis pela organização dessa forma, o que já fazem os museus. Os museus, as exposições, “reinterpretam” as obras, que já são interpretações. A arte morre - é a tese de Hegel - para se tornar “filosofia da arte”. A História, no entanto, continua.

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:47 PM

Em defesa das biografias

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Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o Judiciário 
 

CLAUDIO WILLER

Décadas atrás, por volta de 1980, interessava-me por Dashiell Hammett, o pioneiro autor norte-americano de “O Falcão Maltês” e outras histórias de detetive. Escrevi um poema homenageando-o. Publiquei algumas páginas de ensaio (no então “Folhetim”, depois em mais alguns lugares). Interessava-me a inovação no gênero que Hammett promovera, enriquecendo-o: histórias de crime e detetive tornaram-se ambivalentes, menos lineares, e expressavam uma crítica e uma posição política (mais tarde, Hammett seria perseguido pelo macarthismo). Fascinava-me o mistério: como era possível, um detetive particular desempregado, sem formação literária, escrever tão bem? E como podia, saindo do nada, escrever uma obra em 12 anos, e depois silenciar, nunca mais produzir nada?

Li toda a obra de Hammett. Examinei biografias. Na época, duas. Uma, a biografia autorizada, de autoria de Diane Johnson: contou com a colaboração da companheira e sucessora de Hammett, a dramaturga Lilian Hellman. Não gostei. Achei piegas, prolixa, e resenhei sua edição brasileira de modo bem crítico (no “Leia”). A outra, a biografia não-autorizada, “The Shadow Man”, de Richard Lyman. Gostei. Mais concisa e precisa que a de Johnson (hoje, Lyman está na praça, reeditado — Diane Johnson sumiu de vista). No prefácio, Lyman reclama de Lilian Hellman; na biografia, deixa-a em má situação (nenhum demérito para sua importante dramaturgia, nem para o modo corajoso como, por sua vez, enfrentou o macarthismo).

Imaginemos que tudo isso tivesse acontecido no Brasil. Que Hammett, Hellman e Lyman fossem brasileiros. Que as editoras fossem brasileiras. Qual a chance de Hellman mover uma ação, pedindo a retirada de circulação da biografia por Lyman? E, nesse caso, qual a chance de uma ação dessas prosperar, dar certo? Enorme, a julgar pelas vicissitudes enfrentadas por Ruy Castro com sua biografia de Garrincha, e pelo biógrafo de Roberto Carlos, Paulo César de Araújo. E, agora, por Alaor Barbosa com “Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa” (LGE Editora, 2008).

Para quem ainda não soube: a biografia de Rosa por Alaor foi retirada de circulação pelo juiz da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro, atendendo a uma ação movida por Vilma Guimarães Rosa, sua filha e sucessora, alegando incorreções, erros do biógrafo, e pela editora de Rosa, a Nova Fronteira.

Parece estar-se firmando uma jurisprudência: aqui, no Brasil, biografia só pode circular se for autorizada pelo biografado ou por seus sucessores. Textualmente, na ação movida por Vilma Guimarães Rosa e pela Nova Fronteira (conforme o “Consultor Jurídico”): “A família, na qualidade de única responsável por zelar pela sua memória, deve ser consultada sobre qualquer utilização de sua imagem, nome e dados biográficos, com o objetivo de evitar abusos”.

É censura judicial. Apesar da censura ser expressamente proibida pela Constituição.

A censura no Brasil, hoje, não se restringe às biografias. Houve mostras de artes visuais interditadas. Tentativas de impedir que jornais publicassem notícias. Interpretações arbitrárias da legislação eleitoral, tentando cercear meios de comunicação. Há um projeto de regulamentação da internet que, aprovado, criaria o provedor informante policial e tornaria todo usuário da net culpado até prova em contrário. Recentemente, a 5 de outubro, foi noticiado e comentado (no suplemento “Mais!” da “Folha de S. Paulo”) o caso do professor demitido de um colégio por incluir poemas eróticos em seu blogue de poesia na internet. Tudo isso é censura tentando voltar pela porta dos fundos. Censores podem estar à sombra; mas não dormem.

Voltemos à hipótese dos Hammett, Hellman e Lyman brasileiros. Quais seriam as conseqüências de uma proibição de “The Shadow Man”? Uma delas, que eu ficaria sabendo menos sobre Hammett. Teria menos subsídios para pesquisá-lo. Eu e muito mais gente, é claro. Qualquer interessado no assunto. Haveria prejuízos à circulação de informação, à produção e transmissão do conhecimento.

Alguém poderia observar que minha argumentação não vale para as retiradas de circulação das biografias de Garrincha e Roberto Carlos, fora do campo dos estudos literários. Vale, sim. Obras sobre brasileiros de projeção informam sobre o Brasil. Interessam aos historiadores e sociólogos. E à crítica literária, na razão direta de seu valor literário, é claro.

Examinemos mais alguns casos de biografias. Daquelas relevantes, que efetivamente contribuíram para o conhecimento de algum autor.

No topo da minha lista, colocaria “Federico García Lorca — Uma Biografia”, de Ian Wilson. Obra monumental, modelo de biografia literária, referência obrigatória em estudos lorqueanos. Wilson enfrentou dificuldades e correu riscos para levar sua pesquisa a cabo. Franquistas não gostaram nem um pouco de alguém remexer em esqueletos da Guerra Civil Espanhola, desvendando como foi o assassinato de Lorca (a pesquisa de Gibson foi na década de 1960, com Franco ainda no poder).

Ian Wilson tampouco recuou diante da vida íntima de Lorca. Da sua pederastia. Conta como foi sua paixão e seu relacionamento com Salvador Dalí. E os casos, com Emílio Aladrén e outros rapazes.

Interessa, isso? Claro que sim. Lorca, homossexual em uma Espanha machista, integrista, conservadora: isso não tem a ver com seu desespero, a sensação de ser um estranho no mundo? Não está na gênese de seu auto-exílio, do qual resultou “O Poeta em Nova York”? De sua euforia ao visitar Cuba, onde era tolerado o amor entre homens, resultando em um poema em homenagem à ilha?

Voltemos àquele exercício de imaginação. Se tudo isso fosse no Brasil. Com algum sobrinho ou sobrinho-neto querendo preservar a intimidade de Lorca, sua reputação.

Querem mais cases de biografias? Então prossigamos. Richard Ellmann, o grande biógrafo de James Joyce e W. B. Yeats. Em “Joyce — a Biography”, um guia para a leitura de “Ulisses”, ao confrontá-lo com a “Odisséia”. E, também, o autor de “Ulisses” caindo de porre, dormindo nas ruas, autodestruindo-se. Omisso diante do nazismo e dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Desprezando Nora Barnacle, sua companheira. Joyce foi grande, literariamente. E foi mau caráter. Gênios podem ser complicados (pessoas comuns, também). E a filha de Joyce, irremediavelmente louca, que ele abandonou? Isso interessa? Em “Love’s Body” de Norman O. Brown (e certamente em outros autores: não sou especialista em Joyce), a hipótese: “Finnegan’s Wake” mimetiza a fala e o mundo esquizofrênico da filha de Joyce; é um acerto de contas com a loucura.

“Yeats — The Man and the Masks”, também de Ellmann. William Butler Yeats. Mago aos 30 anos de idade. Até casar-se, casto, ou quase isso. Aos 70 anos, celebridade, senador da Irlanda, Prêmio Nobel, após descobrir um precursor sucedâneo do Viagra, tornou-se um sátiro. Transava com todas as tietes. Belo final de vida. Que prato cheio para sucessores ciosos, empenhados na preservação da reputação ilibada de seus representados. Que prejuízo aos estudos literários, especialmente ao exame das relações entre esoterismo e criação poética, se fosse no Brasil.

Um pouco de teoria literária não fará mal a ninguém. Tenho defendido biografias de escritores, contrapondo-me ao vezo formalista do ‘recorte’ da obra, dissociando-a da vida; e, conseqüentemente, excluindo biografias dos estudos literários. Justifico a utilização da informação biográfica pela crítica, tomando como ponto de partida o que diz Antonio Candido sobre a relação entre texto e contexto em “Literatura e Sociedade”, criticando tanto o formalismo quanto o sociologismo redutor, mecanicista, ao mostrar que o contexto está “dentro” da obra. E afirmando que: “A obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam a sua posição”. O que significa “do artista ‘e’ das condições sociais”? Este “e”, será conjuntivo ou disjuntivo? Autoria e biografia são históricas; portanto, um dado contextual. O artista está “dentro” da obra, nessa visão consistentemente dialética. Biografia, ponto de encontro do texto e do contexto.

Importa saber que Rimbaud efetivamente estudou alquimia na biblioteca de Charleville? Claro que sim. Justifica interpretações simbólicas de “Vogais” e outros de seus poemas. O que Baudelaire e seus amigos faziam no ateliê da Rue Pimondan? Mais ainda — vejam na mega-biografia de Baudelaire por Pichois e Ziegler, ou em “La Mystique” de Baudelaire de Jean Pommier, como viajar por paraísos artificiais está na gênese de “Correspondências” e de sua inovadora crítica de arte.

Imaginem, algum sucessor cioso proibindo que se dissesse que Baudelaire se drogava, era irresponsável com dinheiro e sifilítico... Alguém proibir de dizerem que Machado era epilético, que Raul Pompéia era doido e se matou, que Lima Barreto era alcoólatra, que....

Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o judiciário. Agora, temos o juiz dublê de crítico literário: dupla usurpação, do nosso direito á leitura, do nosso direito ao julgamento. O certo, na hipótese de haver mesmo tais erros e imprecisões, teria sido convocar algum dentre os nossos bons especialistas em Guimarães Rosa, pedir-lhe um parecer, e divulgá-lo.

No caudal de obras sobre Guimarães Rosa — merecidamente, o mais estudado autor brasileiro da segunda metade do século XX — o trabalho Alaor Barbosa acaba por sobressair-se, ao tornar-se tema de debate jurídico. É bom lembrar: em 1956, ao ser liberado após uma tentativa de interdição, “Howl and other poems” (Uivo e Outros Poemas) de Allen Ginsberg imediatamente teve 250.000 exemplares vendidos. A censura, inadvertidamente, contribuiu para produzir a geração beat.

“Tutela antecipada”, o nome da medida que retirou esta obra de Alaor Barbosa de circulação: que termo antipático. Recuso-me a ser tutelado. Não precisa: sou adulto, minhas faculdades mentais estão em perfeito estado.

É isso o que a censura faz: equipara leitores e espectadores a um bando de retardados, incapazes de discernir, negando-lhes a capacidade de julgar ao subtrair-lhes o acesso á informação. Censura, em qualquer uma de suas modalidades, é um múltiplo desrespeito: à obra, a seu autor, ao leitor, à sociedade toda.
 

CLAUDIO WILLER é poeta, ensaísta, tradutor, doutor em Letras, ex-presidente e atual conselheiro da UBE — União Brasileira de Escritores.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:43 PM

A última babação de Cristo

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Anos atrás, em visita ao Rio de Janeiro, o papa João Paulo II disse que “se Deus é brasileiro, o papa é carioca”. O que, talvez, o pontífice não sabe é que seu chefe, o Cristo em pessoa, é paranaense. Sim, trata-se do famoso (e infame) Inri Cristo. O pregador de cabelos e barbas longas, sandálias, túnica branca e coroa de espinhos fofos na cabeça, que se apresenta como a reencarnação de Jesus de Nazaré. Figurinha carimbada na mídia brasileira, já foi desde capa da revista Isto È até atração no Programa do Ratinho, em duelo clássico com o Padre Quevedo. O sotaque estranho e gestual afeminado transformou Inri Cristo em um clássico da imitação, ao lado de Lula, Pelé e Silvio Santos. Longe de lembrar uma divindade renascida, mais parece um personagem perdido de Chico Anysio ou um freqüentador do banco da Praça É Nossa.  
           
Mas, Inri Cristo, em si, não significa nada. É apenas um esquizofrênico que se tornou uma piada nacional. O que causa estranheza é o fato de que pessoas consideradas sérias o levam a sério. Foi esse o pensamento que tive quanto folheei pela primeira vez o livro Inri Cristo – O Furacão Sobre o Vaticano S. A., do goiano Pedro Lusz. Grosso modo, a obra pode ser resumida como uma mescla de evangelho, apologia e biografia de Inri Cristo. Ao mesmo tempo, propõe ser um tratado de teologia, reportagem denúncia sobre a corrupção da Igreja Católica e peça de propaganda da SOUST, a Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade, seita fundada em Curitiba em 1982, “tendo por finalidade principal a salvação da humanidade”.
           
É um dos livros mais engraçados que já li. Recomendo. Porém, o humor é involuntário. Pedro Lusz é tudo, menos comediante. Na verdade, é, praticamente, um homem renascentista; tantas são suas áreas de interesse e habilidades. Nos panfletos em que divulga os cursos que ministra, Pedro Lusz se apresenta como “ator, bailarino, diretor, dramaturgo, coreógrafo, cantador, escritor, arte-educador, professor de leitura e musicalização da voz da fala (!!??), pesquisador e profissional em medicina natural, artes, sociologia e ciências políticas. Compositor da Série Mitologia Filosófica Brasileira, com mais de 150 títulos, sendo: fábula, lendas, histórias, causos e cantigas. Contador de causos. É goiano de Catalão”. Impressionante! Do alto de sua autoridade intelectual, o evangelista vaticina que Inri Cristo, “esse lutador incansável, este guerreiro de atos e palavras que é sem dúvida à resposta para todas as perguntas coerentes que não foram respondidas”, leva pânico ao Vaticano. Segundo Pedro Lusz, os cardeais vestidos de púrpura em Roma tentaram sabotar o lançamento de seu livro “revolucionário”. Não se sabe como, não conseguiram.
           
É fácil ironizar, porém, a situação é preocupante. Meu objetivo não é ridicularizar Pedro Lusz, embora a tentação seja grande, considerando que se trata de um homem que se recusa a possuir geladeira e televisão em casa. Desejo, sim, entender seus motivos. Mas eles me escapam. Porque um “intelectual” dotado de múltiplos talentos e viajado adotaria um megalomaníaco semi-analfabeto como messias de plantão? O mais grave é que sabemos que este é apenas um exemplo isolado e especialmente estapafúrdio. Um dentre muitos. Sérgio Paulo Rouanet, em As Razões do Iluminismo, defende que o Brasil vive uma crise de irracionalismo. Como reverter o quadro? Não sei, parece ser um mal crônico. Para Pedro Lusz, ao menos, existe uma saída. Imitar Simão Pedro, seu xará, e negar seu messias três vezes, enquanto é tempo. 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:39 PM

O neoliberalismo agachado ou algumas idéias de quatro

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Na França do século XVIII, um comerciante de nome Gournay levantou a bandeira do laissez-faire, que os fisiocratas empunharam imediatamente. Estava inaugurado o liberalismo.

Raras vezes ouvi falar, em minha juventude, neste nome: neoliberalismo. Os economistas, a mídia, as pessoas ligadas ao assunto, se não me engano (e costumo me enganar) começaram a usar a palavra e os conceitos com certa insistência há coisa de uns vinte, vinte e poucos anos para cá. Isso no Brasil.

A defesa do neoliberalismo resultou algumas atitudes até meio furiosas. Às vezes ridículas. O Estado, diziam e dizem os neoliberais, não têm nada que se meter na economia do país. Banqueiros, industriais, fazendeiros e seus asseclas sem poder, mas com vocação para puxar o saco de quem o tenha, organizaram um coro bem afinado para cantar um hino à liberdade total do mercado para resolver seus próprios problemas. As leis do mercado passaram a ser exaltadas, glorificadas. E o hino era de tal maneira belo que acabou encantando a todos. Ou quase todos.

Nos Estados Unidos da América, a segunda pátria do liberalismo (agora renovado), a coisa pegou de maneira brutal. E isso que por lá se apregoa o fim das ideologias. Qualquer interferência do Estado nas atividades econômicas sempre foi, no Tio Sam, taxada de atitude comunista. Os mecanismos do mercado sabem melhor do que nós como resolver os problemas. No verdadeiro capitalismo, o Estado deve ser diminuto, barato, e deve ficar fora das questões de produção, distribuição e consumo.

Bem, parece que as coisas andaram mudando por lá. A crise dos bancos hipotecários, a série de falências sucessivas mandou que os economistas por lá começassem a teorizar de maneira diferente. Os economistas daqui, depois de lerem o que disseram os economistas de lá, acho que também vão assimilar novas teorias.

Houve uma época em que os bancos especularam, esbanjaram, ganharam muito dinheiro. Bem como a agricultura brasileira. Nessas circunstâncias o Estado era um demônio que melhor mesmo seria nem existir. Lá como aqui. Novela vista vezes sem conta. Agora entraram em crise. Ficaram nervosos.

Sim, porque o mercado de vez em quando apresenta-se com uns chiliques de neurastenia que dá vontade de interná-lo na Casa Verde, do Machado.

E de demônio, que era, o Estado passa a anjo salvador. Ora, pra que tanto cinismo? Então isso não é pura e simplesmente a ação da ideologia? O que é bom pra mim, é bom pra sociedade. Em 1700 e nada a Inglaterra, a França e outros países mais já conheciam esse tipo de pensamento.

Lembro-me de um livro que li, do Celso Furtado, de que pouco entendi, mas de onde aprendi algumas lições. Falando dos cafeicultores brasileiros, Celso Furtado diz que eles sempre privatizaram os lucros. Isto é, no tempo das vacas gordas, ninguém mexesse no lucro deles. Era o sagrado direito à propriedade privada e seu uso livre de qualquer ingerência. Mas vinha o tempo das vacas magras, então a gritaria era grande, clamando pelo socorro do Estado. Ou seja, socializavam-se os prejuízos.

Ah, sim, porque uma empresa não pode falir. Se ela tem uma função social, como deixá-la ir à bancarrota?

Se os bancos, as lavouras, as indústrias só se lembram de sua função social quando estão no vermelho, exigindo que todos nós os socorramos, proponho que se estenda essa função social também para os períodos em que estão no azul, socializando igualmente seus lucros.

Não seria mais justo?  
 


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POR EM 28/10/2008 ÀS 09:49 AM

A falta que Autran nos faz

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”Ele era um herói”. Assim se manifestou Bibi Ferreira, a diva do teatro brasileiro, diante do corpo inerte de Paulo Autran. Parecia inacreditável, mas o enfisema e o câncer de pulmão rancaram de todos nós o cadinho em que se forjaram nossos melhores atores. Neste instante, descasa ao lado de outros ícones do teatro brasileiro como Gianfrancesco Guarnieri, Vianinha e Nelson Rodrigues.

A data 12 de outubro ficará guardada na memória dos que apreciam teatro como o dia em que as cortinas se fecharam definitivamente para o “Senhor dos Palcos”, encerrando uma vida repleta, intensa, produtiva, que demandou 58 anos de carreira e mais de 90 peças teatrais montadas.

Paulo Autran era carioca e muito cedo se mudou para São Paulo. Aspirando a carreira de diplomata e estimulado pelo pai, cursou Direito, formando-se em 1945. Tanto a profissão de advogado como a intenção de seguir carreira diplomática jogou para o espaço. Quatro anos depois de formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, já estava apresentando seu primeiro trabalho como ator profissional – Um Deus dormiu lá em casa, de Guilherme Figueiredo - que rendeu o cobiçado prêmio da Associação Brasileira de Críticos Teatrais.

Encontrou um estilo de exercitar teatro que demandava longa concentração, meticulosos estudos, exaustivos e prolongados ensaios que o afastaram da televisão. Esta é a razão de tão poucas aparições na tv. Com ironia, não cansava de desdenhar o mais poderoso meio de comunicação de massas: “Cansei de fazer débil mental (...) Meu próximo projeto para televisão é não fazer televisão (...) Fazer TV é muito chato”. Sequer o cinema demoveu o gênio da interpretação de priorizar o teatro.

Porque foi um daqueles artistas especiais que encenadores de todos os tempos classificam como “nascido para a ribalta”. Como poucos compreendeu a dimensão e as infinitas possibilidades da voz e do gesto teatral. Utilizava com maestria as diversas entonações, explorando a carga dramática decorrente das pausas cuidadosamente construídas, meticulosamente inseridas entre uma fala e outra. Com o cadenciamento da respiração, imprimia diferentes ritmos aos diálogos, emprestava aos movimentos da face e do corpo expressividade intensa, em tudo singular, conduzindo a platéia à plenitude do ato teatral.

Muitos não entendem como um bacharel em direito foi capaz de alcançar a perfeição nos tablados sem jamais ter freqüentado uma escola de teatro. Ainda que não tenha freqüentado a escola convencional, desvendou os mistérios da milenar arte adotando um processo individual de preparação que envolveu a seleção dos maiores escritores e dos melhores textos já produzidos pela humanidade. Percebeu as vantagens da água cristalina e foi beber na fonte límpida, originária, nomeando Sófocles, Shakespeare, Moliére e Arthur Miller... seus professores preferidos.

A bagagem teórica adquirida de forma empírica com os clássicos da dramaturgia ocidental, o salvou do hermetismo improdutivo e da mediocridade acadêmica, e rendeu ao ator um temperamento forte, que o tornou verdadeiro, autêntico, mesmo nas tarefas mais rotineiras. Na defesa de valores não hesitava em – quando julgasse necessário – ultrapassar os marcos da razão. Certa vez, defendendo Tônia Carrero do que considerava injustiças escritas por Paulo Francis, rompeu os limites da boa convivência e cuspiu na cara do então crítico teatral. Era um dos momentos que recordava com um misto de orgulho e sarcasmo: “Juntei bastante cuspe e cuspi com prazer”, recordava em meio às gargalhadas. Seus entreveros com um dos papas do jornalismo brasileiro (Francis chegou a fazer teatro com Pascoal Carlos Magno e estudar com Bertolt Brecht e Eric Bentley) não pararam por aí. Em outra oportunidade tentou ir às vias de fato. Abrindo mão das artes teatrais, recorreu às marciais para aplicar um golpe certeiro no crítico teatral: “Nunca havia dado um soco em ninguém. É difícil, sabe? O corpo se contrai, o braço fica sem força” contava sempre bem-humorado.

Agarrou-se ao humor e prazer para dar contornos às suas escolhas. “Teatro para mim é paixão, sempre foi”, repetia incansavelmente.

A tolerância era outra de suas obsessões. Enquanto atuava em Visitando o Sr. Green deu um depoimento reiterando sua preocupação com o tema: “A peça discorre sobre a relação entre as pessoas, o respeito pelas idéias dos outros. Embora não concordemos sempre, temos que aceitá-las. Não podemos brigar com as pessoas porque são de um jeito ou de outro, porque têm uma ou outra religião. Temos que ser tolerantes. Depois que você assiste à peça, sai com vontade de perdoar, de compreender, de se dar bem com os outros. É uma das razões do sucesso dela.”.

Todo o processo de criação e aprendizagem de Paulo Autran decorre dos bons textos, da ótima literatura que sempre fez questão de cultivar e sorver. Em 1952 já estava às voltas com os clássicos gregos montando Antígona de Sófocles. Quatro anos mais tarde, foi-se encontrar com uma das mais expressivas obras dramáticas de todos os tempos, Otelo, o Mouro de Veneza, uma peça que retrata, com riqueza inesgotável, o brilhante universo de William Shakespeare.

Autran ia amadurecendo à medida que acessava os textos, que navegava na complexidade das personagens neles contidos.

Em 1965, por intermédio de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, mergulhou na história universal montando o musical Liberdade, Liberdade, espetáculo que discorre sobre o pensamento de importantes personalidades sobre o assunto: Sócrates, Marco Antônio, Platão, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Castro Alves, Anne Frank, Danton, Winston Churchill, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Geraldo Vandré, Jesus Cristo, Shakespeare, Moreira da Silva, Carlos Drummond de Andrade. Naturalmente um brado, sua forma particular de resistir à ditadura militar.

Retorna, em 1967, às tragédias gregas de Sófocles e monta Édipo Rei, peça que Aristóteles cultuava como “o mais perfeito exemplo de tragédia grega”, ainda hoje esmiuçada dada a influência que exerce na cultura ocidental.

A Morte do Caixeiro Viajante — peça teatral de Arthur Miller —, escrita em 1949, e Rei Lear, de William Shakespeare, escrita nos idos de 1605, foram peças que ajudaram a estruturar a veia performática de Paulo Autran. Todavia, foi O Avarento — que Moliére escreveu inspirando-se em Aulularia, de Plauto — a obra escolhida para encerrar em alto estilo a carreira e a vida, mantendo-as, doravante, sob a luminescência de um spotlight que jamais se apagará. Com sua última apresentação, o ator conseguiu expressar tudo o que humanamente é possível aprender sobre a arte da interpretação.

No cinema a participação se circunscreveu a não mais que dez filmes, com destaque para Terra em Transe, de Glauber Rocha, filmado em 1967. Sua última aparição na tela grande se dá em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.

Com o falecimento de Paulo Autran fecha-se, no Brasil, um ciclo caracterizado por atores completos, brilhantes, que priorizaram o palco, o contato direto com a platéia, a criação meticulosa das personagens, deslocando para um enésimo plano as oportunidades oferecidas pelo cinema e, sobretudo, pela televisão. Sucessores? É o próprio ícone do teatro brasileiro quem aponta uma juventude ávida pela mais fina dramaturgia e menciona Lázaro Ramos e Wagner Moura. Atores que têm o teatro como referência, mas que aprenderam a conviver com a televisão, explorando toda a potencialidade que dela emana.

Antes de encantar quis deixar uma derradeira lição. E, num ultimo suspiro, solicitou que a mulher Karin Rodrigues retransmitisse suas últimas palavras: “Morri porque fumava e nunca consegui largar o vício”.


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