revista bula
POR EM 01/03/2013 ÀS 12:24 PM

Tese, antítese e metástases

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A dialética de Hegel, tão cara a Marx e Engels, definitivamente não prospera em Terra Brasilis. O silogismo garantidor de que uma tese em face de uma antítese gera uma síntese, cá pra nós é risco n’água. Nossa aritmética não é nem de dois mais dois são cinco. Nossa estrutura lógica é alternativa, errática, imprevisível. Ou seria previsivelmente imponderável?

Foi acreditando no princípio dialético que fileiras de insurrectos, sob o comando de líderes revolucionários (pelo menos supostamente) deflagraram revoluções mundo afora. Mas como já disse, a lógica por aqui é bem outra. Uma tese em face de uma antítese gera, não síntese, mas metástases. Uma burocracia doentia, dominada por uma política cancerosa que permeia e enlaça a política nacional, em todos os níveis, não permite que o resultado dos embates de uma situação nova contra uma situação caduca acarrete num novo estágio de civilização, de modo de vida mais producente para o povo, de hábitos mais salutares, de governo com lisura e probidade.

Exemplos recentes de quando a dialética de Hegel tomou bomba em nossa política: Nos anos 80, do século passado, era altíssimo o nível de insatisfação popular com o regime. Vivíamos o auge da ditadura militar, implantada pelo golpe de 31 de março, que segundo os historiadores, aconteceu na verdade em primeiro de abril, mas como era Dia da Mentira, recuou-se nas atas de registro, para evitar as gozações de costume. 


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POR EM 22/02/2013 ÀS 08:13 PM

Eu quero ser o próximo Papa

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Pasárgada, 22 de fevereiro de 2013. 
Carta dirigida aos cardeais da junta médica.

Rogo as Vossas Eminências que coloquem especial tenência nesta mensagem em que manifesto o meu real e inarredável desejo de pleitear o trono de maior mandatário da igreja, a ser desocupado nos próximos dias conforme amplamente noticiado aos quatro cantos do mundo.

Não me cabe julgar, analisar, lucubrar, intuir, criticar, zombetear, comemorar ou desconfiar dos reais motivos que fizeram com que o Papa-Almas Joseph Blater Mengele jogasse a batina e renunciasse ao cargo — um dos mais cobiçados que se tem notícia desde o Reinado de Elvis “The Pelvis” — embora todo cardeal negue, peremptoriamente, que o deseje ocupar.

Eu não. Abdicações franciscanas não me atingem. Eu não posso negar. Não sei mentir sem levar alguma vantagem. De tal forma que, sem falsa modéstia, eu digo e repito que estou no páreo desta sacrossanta peleja para o que der e vier; e é dando que se recebe (parodiando os políticos e as prostitutas desta pátria). E quando a fumacinha da cuia de santo-daime vazar pela chaminé doidona dos subterrâneos do Pelicano, é o meu nome que espero ouvir alardeado pelas trombetas de mil decibéis.


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POR EM 18/02/2013 ÀS 12:12 PM

Cadeia, o grande sertão de Graciliano

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Cigarros ordinários acesos um no outro para economizar fós­foro, um restinho de iodo para desinfetar um ferimento no dedo, papel e caneta embrulhados em pijamas e outros trapos numa valise que carrega por todo lado, por mais de cinco prisões para onde foi jogado junto com milhares de outros presos políticos, misturados a vigaristas, ladrões e malandros, acompanham o escritor na sua faina: o de escrever notas que mais tarde vão continuar a literatura iniciada nos confins do Brasil seco e violento. Os livros que esmerilha na sua rotina brutal são narrados como personagens ocultos, um amontoado de letra miúda, mal alinhavadas e passíveis de todas as correções. O protagonista é o livro — pode ser “Angústia”, publicado em 1938, ou as anotações que geraram mais tarde “Memórias do Cárcere”. Ele está sendo esmiuçado nos apertos sem conta, em meio ao pavor, o horror, a miséria, a sujeita e o escândalo. O que lemos em “Me­mórias do Cárcere” é uma obra sobre literatura, que começa a ser esboçada na cadeia. A s notas se transmutam mais tarde, reescritas e editadas (dez anos depois de sua soltura, em 1938) para a posteridade — foi publicado em 1953 pelo seu filho Ricardo, que mudou o título original, “Cadeia”.


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POR EM 15/02/2013 ÀS 01:06 PM

Sosseguem. Meus dois canos fumegantes só atiram palavras

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É importante deixar claro que o medo do escuro faz parte do rol de fraquezas de qualquer ser humano dito “normal”. Por isso mesmo, a minha repulsa pelas sombras. Não sou emo, não sou dark, nem sou punk: eu simplesmente despertenço a qualquer modalidade de tribo.

É importante frisar que, apesar de ser uma mulher — criatura elencada com defeitos insolúveis, como menstruar, parir e chorar aos menores esforços — eu posso também odiar, trucidar como o mesmo élan do homem que matou o facínora, ou de um homem-bomba, ou do melhor homem de todos os homens do presidente. Sabia que alguns exércitos já permitem (toleram) que mulheres engrossem as suas fileiras? Hoje em dia, engrossar o caldo em casa é coisa só para as amélias.

É importante que você saiba: eu não sei quem mexeu no seu queijo. Não me leia com esta cara de espanto: os ratos também festejam os entulhos em mim.

É importante que surja no próximo conclave do Vaticano o nome de um Papa minimamente assemelhado ao cidadão comum — o brasileiro comum, por exemplo — cuja fé incomum jamais se abala, mesmo nos momentos mais caóticos do viver, quando então a crença num Ser Superior parece, na verdade, um surto dos mais inferiores. Eu também não sei por que Bento XVI renunciou ao papado. Não se deve esperar toda a verdade, muito menos da parte do alto clero. O último a sair, por favor, apague a luz da sacristia.


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POR EM 15/02/2013 ÀS 12:38 PM

Se você confunde Burocracia com Buraco e Cia, conforme-se, não é confusão, mas entendimento

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Sim. O grande buraco deste País é a burocracia. A grande parceira da corrupção, que permeia todos os setores da sociedade, é sem dúvida a burocracia. Nossa burocracia é principialista. Está na base e anterior a tudo. Se todos os trâmites burocráticos forem cumpridos, não importam as consequências. 

Pouco importa se determinada ação trará resultados positivos ou negativos para as partes (fornecedores, clientes, sociedade). O que importa é que os trâmites burocráticos foram cumpridos. Mesmo que para isso tenha ficado pelo caminho uma esteira de derrotados, prejudicados, defuntos, lesados, enriquecidos imoralmente e tantos outros entulhos do atraso que nos acomete.

Nossa burocracia é sofisticada: é o controle, do controle, do controle. É como se fosse uma pilha de buracos, um dentro do outro, como uma coleção de potinhos de plástico da Tapware. Na verdade, uma coleção de arapucas, com seus gatilhos prontos para serem disparados a qualquer momento. O gatilho mais recorrente dessa maldição  é oferecimento de dificuldades para vender facilidades.

Falo de algo nada filosófico. Mas de uma experiência pessoal. Há alguns anos iniciei um empreendimento que requeria licenciamento ambiental. O laudo final requeria aprovações intermediárias do IBGE, das Forças Armadas, da Prefeitura Municipal, do Ibama, da Agência Ambiental do Estado, de uma secretaria  de estado que já nem me lembro o nome. Só não me pediram exame de fezes, tipo sanguíneo e uma declaração de religiosidade convicta fornecida pelo bispo, em papel timbrado da Santa Sé.


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POR EM 08/02/2013 ÀS 11:54 AM

Guia rápido pra se fugir do carnaval

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Note que o trânsito na cidade já melhorou sobremaneira. O povo arrumou as malas, pegou a estrada, vai cair na folia. Prepare-se para desaproveitar o carnaval sem sentir culpa: sacie-se com as migalhas; anote no verso da duplicata bancária que vence em março o que não fazer (e desfazer) no feriadão que se avizinha.

Ponha tento: admire o corpo da vizinha. Deixe o carro na garagem. Ande de ônibus e pague os pecados. Experimente ler uns versos enquanto chacoalha. Se sentir enjoos, vomite a coalhada matinal com rimas ricas sobre os romances comerciais de conteúdo pobre. Visite um sebo, adote um livro. Visite um asilo, leia um velho nas entrelinhas. Aprenda com os mais novos o que não se deve fazer jamais.

Plante uma muda de árvore na rua da sua casa. Case, mude de endereço ou compre uma bicicleta. Não dispense a feia Anacleta: em feriados prolongados fica difícil arrumar um par.

O por do sol entre as torres da cidade é ímpar: aproveite sem moderação mas, cuidado com as balas perdidas e com o excesso de monóxido de carbono na atmosfera. Nota do editor: há tanto cianeto nas ruas quanto nas boates em chamas. Vá ao cinema, beije de língua. Permita que as decepções amorosas morram à míngua.


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POR EM 06/02/2013 ÀS 12:44 PM

Hermann Hesse: o guru dos hippies

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A Floresta Negra, no Sudoeste da Alemanha, é uma das mais belas regiões do país. A área abrange quase a metade do Estado de Baden-Württemberg — que, ao Sul, faz limite com a Suíça e, a Oeste, com a França. A topografia é acidentada com vales, colinas e montanhas cobertas de densa mata de pinheiros que, ao sol do verão, assumem uma cor verde-escuro quase beirando ao preto, daí o nome de Floresta Negra. A Oeste, formando a divisa com a França, serpenteia languidamente o Reno, a mais importante veia aquática europeia, cujas nascentes têm suas origens nos Alpes suíços; em seu percurso penetra o território alemão do Sul ao Norte, onde faz um desvio em direção à Holanda e lá desemboca no rio Maas — formando um intrincado delta cujos braços espraiam-se no Mar do Norte. A Floresta Negra estende-se além do Reno, em território francês, onde as árvores são da mesma família e a cor verde-escuro viceja. O que muda é apenas o nome: os franceses chamam-na de Floresta dos Vosgues.


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POR EM 01/02/2013 ÀS 01:58 PM

Só falta o ministro negro do Supremo achar que é Django Livre e sair por aí fazendo justiça com as próprias mãos

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Puxadinho. Maracutaia. Gambiarra. Acochambramento. Gato. Tramoia. Migué. Malandragem. Cafezinho. Comissão. Vista grossa. Esse jeitinho brasileiro de fazer as coisas erradas darem certo ainda vai acabar nos matando. Legado de ignorância ou má fé, o brasileiro encontra jeito para tudo, valendo-se de muita criatividade, improviso e certa dose de desonestidade.

Eu lucubrava a respeito disso enquanto uma mulher furava a fila do cinema, a minha frente, com mais três amigas e um gordinho efeminado com um pavão tatuado no deltóide (Deus me livre de qualquer preconceito!). A justificativa da deseducação foi que uma outra fulana “guardava os seus lugares na fila” enquanto o grupo terminava de fazer um lanche rápido na praça de alimentação do shopping. Naquele instante, eu, sim, alimentava o desejo contido de esbofetear os safardanas (eu sabia que eles mentiam deslavadamente), mas reservei meu sentimento rasteiro para a esfera ficcional, quando adentrasse naquele recinto para assistir ao “Django Livre”, de Quentin Tarantino (Django Unchained, 2012).

Enquanto nutria uma raiva controlada daqueles estranhos mal educados (será mesmo pecado odiar, ainda que em segredo, irmã?!), fiquei matutando, digerindo a tragédia ocorrida em Santa Maria, na qual dezenas de jovens morreram queimados, pisoteados, sufocados por fumaça tóxica dentro de uma boate, na madrugada de domingo.


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POR EM 28/01/2013 ÀS 03:27 PM

Farpa

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Ela pousou a testa no meu ombro e eu senti seus cílios encostando na minha pele e a abracei bem forte para ter certeza de que ela não iria embora outra vez como nas outras vezes em que acordei e o lençol macio roçava meu corpo como uma farpa e eu tentava lembrar o sonho que eu tive com ela pelo menos um sonho mesmo um pedaço de sonho mas nada e só havia a foto onde ela parecia séria demais os óculos de grau e tartaruga os cabelos desalinhados a mesma boca que conheci tantos anos depois a mesma boca o retrato era tudo que eu tinha e eu tentava não chorar quando olhava pra parede o durex amarelado o rosto sério demais o casaco enorme para um corpo tão pequeno mas quando foi mesmo que ela foi embora se ao menos pudesse saber porque talvez sentisse um alívio um pequeno alívio esbarrando naquela dor claro que a culpa foi minha eu não tinha sensibilidade suficiente é isso eu não tinha sensibilidade suficiente para ler os pensamentos que faziam dela o meu amor ela era o meu amor e talvez o que eu sinto por ela tenha nascido dessa incompreensão — quem é essa mulher que me olha tão fixo a espera de respostas foi isso que eu pensei no bar enquanto ela bebia água sem gás as franjas irregulares minha boca à espera de um beijo e ela chegou tantas vezes sem malas sem roupas de frio naquele inverno úmido demais aquele gelo e nunca mais e eu acordo e durmo e tomo pílulas que me ferram por dentro olho a porta na certeza do meu amor chegar carregando seus livros suas canetas os óculos de grau e tartaruga e nem um bilhete alguma coisa que eu possa ter além da foto onde ela aparece séria demais e essa chuva na janela o último beijo que eu nunca lhe dei e os dias passam e eu durmo e acordo durmo e acordo durmo.


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POR EM 28/01/2013 ÀS 03:12 PM

Nossa mudança é para igual

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Mudanças estonteantes acontecerem nas últimas décadas. No mundo e em nosso país. Fora daqui, o império soviético esboroou-se, o muro de Berlim veio abaixo e o encantamento com o marxismo desidratou-se. A aplicação prática do socialismo científico parece ter ficado restrita a algumas bibocas do mundo. Às vezes com nomes surreais como república popular ou revolução bolivariana. A Europa aglomerou-se num bloco e assim, um país agarrado ao outro, ficou muito pesado para alçar voo. Perdeu desempenho, numa sinergia invertida, onde a soma das partes se tornou menor que o todo.  


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